09/04/2008

DEIXEM VIVER ESMERALDA

Um homem em uma relação fortuita com uma mulher. Da relação nasce uma menina. A mãe diz-lhe que ele é o pai. Ele duvida e não assume a paternidade. A menina nasce e a mãe, considerando que não tem condições para a criar, entrega-a, à revelia do direito, para adopção.
A menina tem cinco anos hoje. O pai biológico que entretanto fez testes de paternidades viu confirmada a génese e quer a menina de volta, contra a opinião de psicólogos, sociólogos , pedopediatras e os pais adoptivos.
O caso é levado aos tribunais. Os juízes não se entendem. Ora ordenam a entrega, ora favorecem compassos de espera. A última página, à porta do tribunal, com a criança a recusar sair do carro e alguém abalizado a instigar o pai adoptivo para que tomasse uma atitude de força contra a criança.
Juízes, advogados, gente a que nos habituámos o devido respeito.
Não há quem pare esta tragédia que se abateu sobre uma criança que não pediu a ninguém para vir?
A declaração universal dos direitos da criança não é suficiente para acabar com este suplicio?
Não será tempo de fazermos ouvir o nosso : Nãããããããããoooooooooo !!!!!!!!!!!!, em uníssono , de Norte a Sul, para que os hipócritas do direito deixem esta criança em paz?
Não basta perguntar à criança. Onde , com quem queres ficar?
Vamos, nós gente que habitamos este país, que pagamos impostos directos e indirectos, permitir que uma criança de cinco anos seja disputada na praça pública, nas salas frias dos tribunais, despojada da sua personalidade, interditada de amar a quem ama e de querer a quem quer?
Estendo-te a minha mão, Esmeralda, temendo que não vá a tempo de a poderes agarrar. E apelo às pessoas, chamadas povo, do meu país, e aos que têm a responsabilidade pelo nosso bem estar, para que termine esta chacina da tua identidade.

06/04/2008

VIOLENCIA INFANTIL!!!!!

Há dias, num infantário, jardim de infância, na vila onde eu moro, assisti à luta de um menino de 4 anos com a sua educadora.
O menino debatia-se, perante a sua própria impotência, e gritava o mais alto que lho permitiam os seu pulmões ainda viçosos.
-Larga a minha mão! Larga a mão! e chorava.
Indiferente, insensível ao choro, quase o arrastando, a educadora lá ia dizendo.
-Tens que vir! Tens que vir!.
-E o menino, debatendo-se ( não, não vi pontapés), fincando os pés, resistindo.
-Larga a minha mão!
Juro que é verdade. Eu vi!
Não uso telemóvel com câmara. Mas, por um momento pensei chamar a policia e ser testemunha do ataque violenta dum menino à sua educadora. Que pais? Que País. Aonde vamos parar.
Mas não. Pus-me a pensar. É pura coincidência!

04/04/2008

À Dra PAULA TEIXEIRA DA CRUZ

A dra. Paula Teixeira da Cruz, na coluna pessoal do Correio da manhã de ontem, sobre o caso da aluna, a professora e o telemovel, consensual, plena de humanidade e racionalidade.

As minhas felicitações pela coragem de desmistificar e educar consciências.

31/03/2008

EU, homem,macho latino-ELA mulher, fêmea latina

Eu, homem, macho latino, hoje, aprontei a mesa para o almoço e o jantar. Já tinha preparado o pequeno almoço.
Arrumei a louça na máquina.
Levei o lixo para o caixote. Dei comer, restos, aos gatos a cães vadios, da rua.
Ela, fêmea Latina, hoje, pôs e tirou roupa por duas vezes, na máquina. Estendeu a roupa nas cordas e apanhou-a mais tarde, quando secas e antes de começar a chover. Desinfectou a casa de banho, o sitio do fogão, a cozinha, a sala, o quarto, fez o almoço, o jantar, engomou roupa e cozeu algumas peças, minhas e dela, desconcertadas e ainda lavou as escadas, que hoje era o nosso dia, isto é, dela.
Á noite, no balanço do dia, prometi que no futuro, se lá chegar com saúde, tomarei conta de mais algumas tarefas para a ajudar.
Quanto ao resto.!... Claro que levei nega.

27/03/2008

EU ( TU ) LOTUS

Ali, onde estavas, esplendorosa, onde bebia do néctar fértil das tuas palavras, na paz serena que procuravas, inquieta e bela, lançando pedaços de ti que eram comuns a tantos de nós.
Ali ,onde criei o hábito de acordar a meio da noite e postar-me, abstracto e sonhador, talvez sonâmbulo, sorvendo os teus doces tormentos, encontrar-te igualmente alerta, naquele teu espaço que eu reservara em absoluto para mim, que tornara meu, para te ter sempre presente,. na luta pela tua afirmação pessoal que me nos contagiava .
Ali, onde o mundo ganhava formas de ser no complemento abissal e cósmico de duas gerações comprometidas com passados distintos mas afins no desejo sublime de ser feliz.
Ali onde te coloquei, em pedestal de pétalas viçosas, como ídolo de adoração, e te dei todo o fogo do amor puro da amizade, me inquietei , me inquieto,por ti, na ânsia de saber se ainda és o Eu que idolatrei, se desististe de cumprir o teu destino.
Ali, minha amiga, reina agora o silêncio, o deserto, a desolação da dúvida, da culpa, de não ter sido suficiente, de não saber o que fazer, procurar-te, procurar-te, num espaço tão ilimitado e temer que não tenha tempo de ter a felicidade de voltar a deslumbrar-me com o teu sorriso lindo. adivinhado por entre brumas de esperança.

25/03/2008

NA VILA ONDE EU MORO NUNCA ACONTECE NADA

Na pequena vila onde eu moro, frente ao rio quase mar, eu diria que é metade do espaço visível desde a minha janela, esverdeado, a forte corrente, as gaivotas e os velhos que olham de frente, para a cidade grande da outra margem. E fazem gestos como se vissem tágides emersas, saltando atrevidas de onda em onda e lançando bolhas de espuma branca e dócil.

É uma Vila pacata, onde não acontece absolutamente nada e a partir da nove da noite já são raros os passantes ou erradios. Os cafés fecham cerca das dez Depois, é o silêncio. Deitar cedo para cedo erguer E voltar ao mesmo, observar, fazer conjecturas sobre o tempo.

Ao fim de semana, o passeio público de candeeiros SEC. XIX e palmeiras de difícil crescimento, enche-se do alarido das crianças, correndo, de bicicleta, em inconstantes desvarios, por vezes choros, enquanto outros, sossegados em casa, à espera que seja noite.

O relógio toca na igreja, as horas com avé Marias, as meias, as quartas, com badaladas gritantes. E ao meio dia, a sirene apita a anunciar a hora do almoço, como desde sempre, quando havia as fábricas do peixe, hoje em ruínas à espera do comprador ideal, do anúncio de uma ligação mais directa à outra margem, ou que o vento as vá reduzindo a pó e as solidifique para a posteridade.

A tapar a visão sobre a foz, sobre o mar imenso, sobre a outra margem mais à esquerda, Estoril, Cascais, A construção cinzenta, enorme, agigantada pela ganância de lucros elevados, os altaneiro silos de cereais que produzem eco nos ouvidos das pessoas e transpiram poeiras asfixiantes em tempo de ventos de feição direito à vila.

Na Vila onde eu moro, para saber noticias do que se passa, só a televisão, a rádio ou o computador quando ligado à Internet. E ás vezes as noticias falam de acontecimentos que aconteceram na Vila onde eu moro. E ninguém deu por nada.

autor: joão raimundo

21/03/2008

MEMÓRIAS DA GUERRA (K)

O Sol torra torra de sempre a incidir sobre o telhado de zinco, e ou ,luzalite, do edifício extenso e alto do refeitório das praças, à hora precisa em que o capitão procedia à prova do almoço e assinava o termo de responsabilidade para que fosse servido.
A algazarra do costume. Dezenas de vozes carentes de se fazerem ouvir. O silêncio à ordem de sentido, dada pelo furriel de serviço. Perfilados ao redor das mesas. Rostos magros de flores da pátria escolhidas ao pormenor e acreditando que a pátria é um valor acrescentado.
Ordenado que foi o : à vontade! Voltam as conversas, em rumores que se confundem com o tinir das marmitas de alumínio, a colher que retira o caldo de massa do interior da terrina, sem um verde esperança de legumes, só massa e batatas e talvez um fio de azeite.
O segundo prato, ou conduto, é repetitivo. Hoje massa, ontem arroz, amanhã batatas e sebo.
Digo sebo porque a parte da rês que tocava à soldadesca, à tropa macaca, compunha-se das partes mais gordas da carcaça. As febras eram destinadas a sargentos e oficiais.
Manuel António observava em silêncio a sofreguidão com que a maioria devorava a mixórdia aprovada pelo capitão. Só há uma forma de reclamar, prevista no código militar, e tem de ser em uníssono, o levantamento de rancho. Com aqueles alarves não era possível. O vinho ácido e quente. O pão, o verdadeiro maná.
Manuel António repetiu a sopa deslavada e trouxe o pão para o comer com leite achocolatado ou laranjada, em jeito de sopa feita e comida na hora (pedaço de pão na boca, golo do liquido doce e os dentes a torturar o pão assim embebido). Um maná.
À saída do refeitório apinhavam-se em fila ordenada, disciplinada, crianças e adolescentes, com latas vazias pedindo os restos de comida a troco da lavagem da marmita. Meninos e meninas sem escola nem profissão.
Passam mulheres de tronco nu, os seios flácidos, tripas caídas sobre o umbigo, os corpos magros de fomes antigas, velhas; as moças de seios rígidos, virgens de caricias , bajudas na linguagem crioula, intocáveis porque já prometidas, vendidas, agendadas; mulheres chamadas de grande, porque casadas, de seios redondos e fortes carregados de leite levando bebés atrelados às costas e crianças, púberes, uma leve tanga sobre a anca, os seios pequeninos a despontar.
Desfilam no seu andar cadenciado, sem pressas e trocam saudações e cospem no chão de terra amarelada e seca, perante os olhos gulosos da soldadesca em ressaca de afectos.
-Bunda di bó
É pessoal. Eu não é bajuda. Eu mulher grande. E cospem no chão sedento da parada.
Soldados tiram fotografias com alguma jovem de seios rígidos e colocam as mãos descaídas numa caricia marota que não encontra sensibilidade. Aqueles mamilos estão mortos. Aquelas mulheres não tem orgasmos. São meras peças da engrenagem da procriação e trabalham nas bolanhas, na moagem do arroz no pilão, na lavagem dos panos e túnicas.
À noite, volta o silêncio, apenas consentido o ruído do motor da geradora, que, de habitual, já não ressoa nos ouvidos dos homens que querem dormir.
Manuel António e o Vago mestre discutem as opções dos povos face à opressão do imperialismo das grandes potências. E concordam que é na luta pela emancipação, no sangue vertido em combates absurdos, na tragédia da fome e das violações sistemáticas, que os povos edificam a sua nação.

autor: joão raimundo

16/03/2008

SER PORTUGUÊS E ACREDITAR

Técnicos de acção social preconizam que só acima de 1.000 euros é possível viver com dignidade em Portugal, hoje, pode ler-se no correio da Manhã deste Domingo esplendoroso. E este constatar, que já tínhamos questionado no post"SE", abre um renovar de esperança para os milhares de Portugueses que ainda sobrevivem com 266.

O 13ª pecado, agora divulgado e agregado aos 7 originais, vem na mesma linha de esperança. Vamos, enfim, assistir à repartição dos excessos. O estado do Vaticano vai abrir os cofres, vender o ouro, os edifícios, as obras de arte, as participações em empresas milionárias e vai investir em pobreza. Os homens e mulheres mais ricos do mundo e que já doaram tudo a filantrópicas fundações personalizadas, vão canalizar os seus investimentos em pobreza.

Despertem os acossados pela fome, os insolventes, as vitimas da sedução do marketing, os malabaristas de orçamentos mitigados, porque estamos no limiar de uma nova ordem.

15/03/2008

AS MANIFESTAÇÕES E O LUCRO

Nas manifestações, tipo a realizada no último sábado, quem ganha são sempre os mesmos, os mandadores sem lei, os vampiros da economia global.

Autocarros alugados. Gasóleo e gasolina dos carros pessoais. Os restaurantes apinhados. O pano e a tinta dos cartazes. As energias, próprias, consumidas até à exaustão. O papel dos comunicados e dos folhetos distribuídos aos milhares.

E a luta continua. Nas escolas, professores de luto, deixando escapar impropérios contra a Ministra, o governo, usando até, quem sabe?, palavrões do fino vernáculo Nacional , perante alunos problemáticos, atentos a tudo o que seja revolta, porque eles são filhos da revolta, eles são a revolta.

No rescaldo, todos cantam vitória e, como os putos que éramos, fazem negaças: "- dei-te na cara!. Han! Han!, ganhei!"

13/03/2008

MEMÓRIAS DA GUERRA ( J )

- "Nós por cá todos bem. Envio beijos e abraços à minha mãe, pai, à Ermelinda ( O nosso filho já nasceu ?), aos meus avó e amigos ao ti Zé da taberna, com votos de um feliz Natal. Espero, em breve, estar na vossa companhia"
A fila era enorme sob o sol escaldante e obrigara à vinda dos T6 para prevenir o deflagrar de qualquer acção inimiga e proteger as vidas das senhoras do M.N.F e repórteres de imagem.
Os homens esforçavam-se por manter um ar natural e saudável, não obstante o sol implacável a provocar suores e a atracção da mosquitagem pelo liquido pegajoso. Todo o procedimento em perfeita obediência à disciplina militar, sem atropelos, sem pressas. Amanhã haveria nova sessão e quem não falasse, as palavras de uns serviriam para as famílias de todos. O tempo era curto e havia que estar em todos os locais.
Chegavam de helicóptero, as senhoras brancas de pele, maquilhagem a disfarçar a idade, saia abaixo do joelho, mais parecendo jagudis olhando a macacada na esperança de ver algum tombar para gáudio dos seus apetites lúdicos.
Traziam cigarros e bate estradas que distribuíam, trocando palavras avulsas de patriotismo e piadas descabidas do contexto. Antes trouxessem legumes.
Manuel António não foi contemplado na selecção das saudações Nataliceas. Estava conotado como elemento subversivo, embora pacífico, mas não fosse extravasar, . Não que qualquer mensagem abusiva pudesse chegar a casa das pessoas, a censura não o permitiria, mas o comandante gostava deste jovem, admirava a sua postura face ao conflito, a coerência de princípios, a humanidade na entreajuda aos companheiros.
Manuel António encaminhou-se para o edifício onde funcionava o armazém de géneros. O vago mestre fazia contas, ou rabiscava as faltas num caderno de folhas amareladas.
-Ainda bem que vieste, podes dar-me uma ajuda na contagem de produtos que estão lá em cima.
- Vamos a isso. Prefiro a continuar inserido na palhaçada das saudações.
Os produtos, cobertos de pó, pelo desuso, amordaçados em caixas de cartão ao alto, na última prateleira, revelaram-se, para Manuel António, como a descoberta de água num deserto e foi escrevendo no caderno amarelado, os títulos e a quantidade, meneando a cabeça, impaciente por acabar, descer e confrontar o amigo.
No armazém, junto ao tecto, o efeito de estufa que as frestas das telhas de luzalite só à noite amenizavam. A água escorrendo pelo corpo, a pegar-se como óleo de cheiro pestilento,Catinga.
Desceu a escada improvisada, repôs os níveis de água destilados, água fresca do frigorífico, privilégios, água salobra a lembrar o anúncio " a saúde está primeiro, beba água do vimeiro " e atacou.
- Então, meu amigo das conversas nocturnas, humanista dos quatro costados, a sopa é de massa com água, há meses e guardas os legumes sagrados para quê? Para encher os bolsos de quem?
- Legumes?! Estás louco? Quais legumes?
Manuel António pegou no caderno e cantou:
- Cenoura leofilizada, mil embalagens. Feijão verde, leofilizado, mil embalagens. cebola leofilizada, mil embalagens, batata leofilizada, mil embalagens. Ervilhas leofilizadas, mil embalagens.
O vago mestre mostrou surpresa sentida, afastando qualquer intuito de subtracção de riqueza. Simplesmente não sabia.
- A partir de amanhã podes contar com sopa de legumes todos os dias até ao fim dos produtos armazenados e não fales disto a ninguém.
E seguiram os dois, abraçados na cumplicidade, a imaginar o efeito do rancho ao almoço do dia seguinte.
Na parada, o sol a fazer-se ao ocaso, mais amarelo, como que atacado pela malária, as senhoras do M.N.F , perdido o viço inicial com a frescura da manhã, mas ainda assim cobiçadas por mentes desfalecidas de prazer.

Autor: João Raimundo

12/03/2008

AO MINISTÉRIO DO TRABALHO E DA SOLIDARIEDADE

Protesto pela violência e a humilhação de imporem aos trabalhadores Portugueses no desemprego, a medida de apresentações quinzenais para ter direito à prestação social.
E se esta medida é Universal, e não um espasmo de legislador local, apelo a Deus e ao Diabo, ou ou a um qualquer outro poder cósmico para que tal medida, vexatória dos direitos fundamentais do homem, seja mandada retirar da legislação laboral Portuguesa, e onde quer que ela subsista.

10/03/2008

EDITAL DA REPÚBLICA - OS PROFESSORES

Os professores devem ser avaliados. Não tem o Dever de se manifestar de forma afrontosa contra os seus superiores hierárquicos. Os alunos vão ficar menos respeitadores depois desta ofensiva.

Os professores devem ser avaliados pela sua componente pedagógica, não premiando os que se agarram ao ensino como amanuenses desmotivados.

É verdade que muitos professores não respeitam os alunos, nem os pais, nem o país que neles confiou a missão de formar pessoas mais capazes para enfrentar os desafios.

Estão habituados a faltar por motivos pessoais, sempre indeterminados. Alguns, quando começa o ano lectivo, já levam nas agendas as férias intercalares e a sua conjugação com as pontes entre feriados.

Habituados à escola dirigida centralmente pelo ministério, que sempre era um motivo de combate sindical, recusam a autonomia da administração da escola agora reformulada?

Os melhores mestres não saem à rua para para desqualificar uma colega, que chegou a ministra, sem trazerem na bagagem um projecto de opção.

Que fazer, senhores professores?

O s Portugueses que os senhores ensinam não são os menos qualificados da Europa?

Os trabalhadores Portugueses não são os menos produtivos da Europa?

Os hábitos de leitura dos Portugueses não são preocupantes face à dimensão da ignorância?

É urgente inverter a situação actual.

O governo e a ministra devem prosseguir com firmeza esta batalha pela educação, cedendo onde o bom senso mandar que ceda, porque nada é perfeito , e não se deixarem amedrontar pelo volume apregoado das manifestações, pois já os mandatários de Salazar convocavam a massa do povo ignaro e nós, os que anónimamente resistimos à opressão, não acreditamos que aquele era a maioria do nosso povo.

Por uma educação que nos atire definitivamente para a ribalta, pedimos os esforços de todos, governo, professores, pais e alunos. E continuamos a acreditar que os professores são o cerne da questão. Sem verdadeiros mestres motivados para ensinar, vamos continuar na cauda do mundo.

MEMÓRIAS DA GUERRA (H)

O manto de capim seco e amarelo à volta do acantonamento era passível de ocultar um qualquer avanço do inimigo, fugindo ao alerta da sentinela atenta e bem que podia ser cortado manhã cedo, quando o sol ainda desperta. Mas não. O comandante ordenava que a tarefa seria executada após o almoço, para quebrar a indolência e exacerbar a agressividade.

Manuel António cortava o capim e mais uns quantos, enquanto outros o amontoavam na clareira e procediam à queima. O cabelo curto, as faces magras, o suor deslizando pelo corpo nu, sussurrando entre dentes: filhos da puta!...

Ao longe, o som ritmado do pilão, o bater das palmas, a cantoria imperceptível de vozes juvenis, a sobressair do silêncio, Alexandra um amor enorme, do tamanho do mundo, o grito dos macacos em pequenas guerras absurdas na defesa dos direitos ancestrais, desde quando?

Acabada a tarefa, passos trémulos de cansaço, encontra o vago mestre, companheiro dos diálogos da noite,quando o barulho dos motores da geradora abafam a clareza das palavras subversivas, que o convida à orgia.

Na sala pequena da dispensa, uma terrina de sopa, dois, três litros, talvez mais, de uma mistura amarela, cerveja/vinho branco/gelo/açúcar, sobre a mesa tosca de madeira, e uma caneca, duas, de alumínio.

-Bebe, deves ter sede.

Bebeu. Era agradável. Bebeu mais. Perdeu a noção do tempo, a memória em amnésia compulsiva. Um e outro abraçados, dançando a um som que só eles ouviam, proferindo palavras de descrédito contra a instituição, contra os poderes que lhes retiraram a condição humana e os reduzira a uma subespécie, ordeira e contemplativa.

Vazaram a terrina, saíram, procurando dar um ar de compostura ao andar, equilíbrio impossível, zigue zague em direcção à caserna, o cérebro às voltas com a direcção certa. Deserto. Alguém que dá uma ajuda, soltando gargalhadas do ridículo. Cair na cama, o tecto às voltas. Parar. Parar. Vomitar até à bílis, o chão de cimento imundo, o cansaço. Adormeceu.

Autor: João Raimundo

DIALOGOS DA VIDA E DA MORTE

Soprava um vento forte, violento, que tudo arrastava pelo areal ensopado da baixa mar, soltando grãos pesados de areia tornada gume de corte fácil na pele macia do rosto do pescador de robalos.
Tempestade medonha. Faíscas de cruzar todo o céu visível e o som estridente, dos trovões, varrendo o silêncio da noite sem astros, estremecendo o homem que se atrevia, fortuitamente só, a desafiar os elementos imprevisíveis que se abatiam de um fôlego, sobre a figura vacilante em movimentos de ir e vir, puxando a linha, sentindo o puxa puxa do peixe fisgado, na tentativa de se libertar.
Tentava perceber a comunicação iniciada. Quantos estariam, naquele momento, prisioneiros desgarrados do homem bom que ele entendia ser.
Decidiu-se e iniciou a recolha da linha, saída do mar tormentoso, inclinada no sentido do vento, pesada, talvez presa em algum escolho vagueando no turbilhão da corrente.
Colhida a linha, o fio de nylon onde os anzóis escondidos em iscos artificiais procuravam seduzir os peixes mais ousados, surgiu na rebentação.
Com a aproximação de terra, os peixes soltavam as últimas energias na tentativa de, num golpe de sorte, evitarem a morte prematura. E foram chegando, depositados em terra firme, ainda presos, o afã do pescador acima e abaixo, para que não se perdesse algum. Os que ficavam na terra firme cobertos da areia levantada pela tempestade, batendo o rabo, ainda, em movimentos cada vez mais rápidos de agonia.
Os peixes tirados um a um dos anzóis, a recolha do aparelho para a cesta fabricada de canas verdes, o rosto molhado do pescador de olhos se mi-cerrados a evitar os bagos de areia.
A tempestade no auge. O regresso a casa, estupidamente só, carregado de peixe na noite escura sem astros no céu.
O pescador de robalos.

Autor: João Raimundo

02/03/2008

VAGABUNDO -

Lá vem o Zé da Arrábida descendo a rua levemente inclinada, ziguezagueando pelo passeio estreito, quase caindo, a roupa encardida pegada ao corpo, boné ao lado e a barba, a barba branqueada de muitos anos.

Vem bêbado, como sempre acontece desde que recebe a magra pensão mensal. Vinho e tabaco. Não dá para mais, Algum comer recolhe aqui e ali, só compra o vinho.

O Zé da Arrábida é uma espécie de vagabundo. Um profeta da desgraça.

Na casa onde vive, amontoa-se a imundice de anos desleixados, e objectos que vai encontrando na rua leva.os, à espera que sejam úteis.

Hoje te saúdo, Zé, com o advento da Primavera que aí vem.

27/02/2008

OS SINDICATOS E O PODER POLITICO

Hoje foi dia de apresentação.
Aos 62 anos, 44 de vida contributiva mais 2 de guerra, dirijo-me, qual condenado, que ninguém quer, se não a custo zero, ao posto do IEFP, para cumprir a apresentação periódica, pelo crime de desemprego.
Daqui pergunto aos sindicatos, a troco de quê, aceitaram esta medida ultrajante?

26/02/2008

MEMÓRIAS DA GUERRA (G)

O toque de alvorada, ao contrário do cenário em tempo de paz,é feito cama a cama, rompendo o silêncio na madrugada.
- Levantar! está no ir!.
Ensonados, os corpos húmidos, sonhos interrompidos, pesadelos, corações acelerados, os homens da companhia vão-se arrumando para a partida. E vão saindo para a parada, formando em fila, ordenados, para receberem o pequeno almoço e a ração de combate.
São jovens,Trigueiros, vindos de todas as regiões da grande metrópole. Fazem parte dum rebanho ordeiro e mantido cordato pelo medo e iletracia. Estão convictos que a sua presença em África é em defesa da Pátria. Os outros, os da Pátria alheia, são simplesmente turras.
Manuel António vai tentando minar-lhes a inteligência.
- Repara nesta situação: estás em tua casa, com a família e os teus pertences e de repente, aparecem uns tipos e dizem que é tudo deles. Se queres viver, tens de trabalhar para eles. E pagar imposto por seres natural da tua terra.
No pequeno circulo, já aviado, onde se desenrolava esta conversa, Manel o Básico.
_ Pois é, pois é. Eu cá não deixava.
E ria-se.
- É básico!
- Eu básico, pá? Eu sou padeiro. Não é Manuel António?
- Claro. E a propósito, desenrasca-me mais um casqueiro que a viagem vai ser longa.
A fila iniciou a marcha. Na frente os guias Africanos. De mistura com os soldados,outros Africanos, as milícias. O oitenta era um deles. Ganhava oitenta pesos e porque nunca tinha visto tanto dinheiro, pulou de contente por toda a ta banca. Ficou o oitenta.
O nascer do sol trazia, desde logo, a força do calor que nem a mata densa refrescava.
Os homens seguem os trilhos oficiais e não sabem, verdadeiramente, ao que vão. Obedecem cegamente, como manda a disciplina militar. Atentos a ruídos estranhos.
Pássaros coloridos cortam o ar rarefeito e trazem uma aura de frescura. Os jagudis, macabros, espreitam no cimo das árvores uma oportunidade de festim. É proibido matar jagudis. Os abutres são protegidos, constituindo uma espécie de preservadores da higiene ambiental. Os macacos saltam, espavoridos, gritando slogan e impropérios à passagem da tropa. Pressentem tormenta.
As horas passam lentamente. Tudo é lento em África, menos a as balas. O cansaço vai-se apoderando dos homens liquefeitos pela intensidade do sol, a água a esgotar-se nos cantis. Os mosquitos sugando o suor. Sôfregos, não satisfeitos, trespassam a pele e chegam ao sangue.
Manuel António pensa em Alexandra, com a certeza que ela o espera sem temor, ansiosa. E busca, nessa certeza, forças para continuar. Os pés, com joanete, são uma tortura.A água como que se evapora. Juraria que não abusou do consumo. É certo que repartiu com um companheiro desprevenido. Não quis abastecer com água da bolanha e usar os comprimidos para purificação. Não queria facilitar, para poder vencer esta provação. De quê? de quem? De si próprio, á espera de ser homem?
Houve ordem para parar e, tomadas as devidas precauções, o piquenique podia começar.
Há sete horas que caminhavam, lentamente, sem paragens. Os camuflados húmidos que os raios intensos do sol não secavam. Sentados, um pouco. Olhos pesados. Sol, suor, pó. Os mosquitos. Dores de cabeça. Pensamentos em turbilhão querendo romper, acertar o passo com a razão.
A paragem foi de pouco estimulo, já porque a ração é intragável e o recomeço, sem destino conhecido, sem saber quando acaba, se vai ou não haver combate, não ajuda os membros tolhidos pela jornada.
Num instante, tudo começou, o estrondo seco das saídas de morteiro, os rebentamentos das granadas, perto. Tinha inicio o assalto a uma importante base inimiga, mas parecia haver surpresas. E as nossas tropas estavam sob fogo intenso e de grande amplitude.
Há feridos. Passam a palavra para o enfermeiro que corre ao local. Já não há medo nem fadiga. Os tiros e explosões, fizeram desaparecer, como por magia, o quase desfalecimento dos homens de longe. O combate está encarniçado.Na linha da frente ouvem-se gritos ofensivos, de um lado e do outro. Tiros a sério. Não é filme. Matam. Ferem. Estropiam.
- Filhos da puta!
Manuel António resiste. Não quer matar, mas também não quer ser morto. Deitado no chão. A arma em posição. Dedo no gatilho. Fez , até, alguns disparos para o ar. Céu aberto O coração apertado. Frontes latejantes. O cérebro a estalar. Ouve os gritos na frente. Os mosquitos aproveitam-se e sugam mais.
Quando a derrota parecia eminente, a aviação, entretanto chamada, vez a sua entrada. O roncar conhecido dos motores fez soltar gritos de alegria e renovar o estimulo para voltar.
Os aviões soltaram bombas. As armas adversárias. foram-se calando para não denunciar posições, dada a desproporção de forças.
Um helicóptero, por sobre as nossas cabeças. Os comandantes, frescos, sedentos de medalhas e glórias vãs avaliavam a situação. Havia muitos feridos e alguns mortos. Os homens estavam exaustos. Mandaram recuar.
A viagem de regresso fez-se com outra força. A presença dos aviões dava confiança e reconstituía energias julgadas impossíveis. A noite aproximava-se de mansinho.

Autor: João Raimundo

25/02/2008

O VAGABUNDO

O velho conceito de liberdade, o estipular que a liberdade de cada qual acaba onde começa a do outro, é uma falácia para ordenar as camadas de gente segundo um critério de conveniência.
O vagabundo é , em si próprio, um símbolo da liberdade absoluta.
O vagabundo não dá nem recebe do estado. Não precisa do estado.
O vagabundo não tem dinheiro, nem precisa. Alimenta-se de sobras e da repugnância dos que o querem ver longe. Colhe o Sol e a chuva, o frio, o calor, e dorme ao relento ou no abrigo de qualquer recanto, sem medos.
O vagabundo não aceita favores nem o abrigo de lares inventados à sua medida, cama, mesa e roupa lavada. A refeição quente do dia. Leis, deveres/obrigações.
Os senhores muito ricos vivem em constante sobressalto. Rodeiam-se de guarda costas. Vivem rodeados por fortes muralhas e protegem os filhos pequenos da promiscuidade pública.
As pessoas ricas vivem atulhadas de medo quando saem à rua, ou se anuncia algum cataclismo económico que não previram ou não puderam controlar.
O vagabundo passeia-se pelas ruas do império que as pessoas ricas criaram, caga, mija e dorme no asfalto.
O vagabundo lava-se nas bicas e lagos da cidade. Não paga água, gás electricidade. Não usa telefone ou celular. Não paga rendas. Não paga impostos. Não utiliza a justiça. Não polui o ambiente. Não faz economias nem gera riqueza. Não joga na bolsa . O vagabundo vê televisão sem pagar taxa e lê de todos os jornais e revistas para não perder o sentido das palavras, sem os comprar. Não teme o trabalho nem o desemprego. Fuma dos restos deitados à rua ou crava os passantes desprevenidos. Pede dinheiro para beber. O vagabundo não perde tempo com o tempo. Não há passado nem futuro. Não promove a guerra, nem precisa de armas de destruição maciça É completamente livre.

23/02/2008

ANDAMOS TODOS A FINGIR

Andamos todos a fingir.
Fingimos que não se passa nada. Que não amamos o que de facto amamos.
Fingimos que somos grandes e capazes. E somos, mas como fingimos, não sabemos.
Fingimos orgasmos alucinantes e passamos a maníaco-depressivos.
Fingimos que temos saúde e escondemos as maleitas dos olhares indiscretos.
Fingimos que ganhamos, quando as derrotas são uma constante na nossa vida. E continuamos a apostar nas mesmas intenções.
Fingimos seriedade no emprego, na vida social, nos negócios, na religião. Estamos sempre prontos a renegar os princípios.
Fingimos para com Deus e o Diabo, procurando corromper um ou outro, manipulando as nossas próprias intenções.
Fingimos quando dizemos ter jogado tudo, porque há sempre uma nova cartada, só a morte.
Fingimos a inocência, quando a culpa irradia do nosso comportamento compulsivo.
Fingimos a alegria em copos de vinho e doses de alucinógenos, abafando a tristeza da vida sem sentido.
Fingimos acreditar que o povo é inteligente e sabe o que quer e não esquece.
Andamos todos a fingir!...

12/02/2008

SE...

se:

-grande parte dos empresários portugueses não sofresse do síndroma do neocolonialismo.

-repartissem com mais equidade o resultado das mais valias obtidas com trabalho.

-não despedissem os mais aptos, em prol da mediocridade, mais submissa.

-os desempregados tivessem direito a 13º mês.

-os desempregados recebessem 70% e não 65% da última remuneração.

-os políticos fossem todos ricos e não auferissem rendimentos quando eleitos.

-os produtos a comercializar tivessem as mesmas regras do registo de nomes para empresas.

-a mentira, a traição a trafulhice, a mediocridade, não fossem premiadas.

-o ordenado mínimo fosse já de 1ooo euros/mês.

-os professores fossem avaliados, através de formação pedagógica exigente.

-a elaboração das disciplinas e matérias fosse entregue a cientistas da educação.

-a tarefa de educar os mais incipientes, os alcoólicos, toxicodependentes, fosse um desígnio
Nacional.
-todas as drogas fossem liberalizadas.
-a riqueza não se medisse pelo dinheiro acumulado ou a grandeza das propriedades.
-o futebol não fosse uma instituição intocável.
-50%da população lesse os livros que se publicam.
-as leis fossem mais precisas e não deixassem espaço para juízes e advogados a manipularem.
-houvesse um livrinho vermelho para corrigir as pessoas.
-acabassem as forças armadas.
-se os responsáveis pela politica de ambiente tivessem netos.
-os casinos e bingo fossem abolidos.
-as mulheres Portuguesas fossem mais feias.
-o ser homem não fosse uma condição de mérito.
-nos orgulhássemos que Thomas Morus escolheu um Português para indutor da sua Utopia.
Estaríamos,por ventura, mais bem posicionados no ranking dos países desenvolvidos do mundo.