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17/07/2011

DECÁSTICOS DA ALMA ...I (verso livre)

 DECÁSTICOS DA ALMA (verso livre)
«««//»»»
I
EU

o homem a nu
o corpo a alma
sem deus 
sem pátria
sem amo
faminto de amor
a  despertar
dum sonho longo
há tantos milénios
acorrentado é o que sou

autor: jrg

II
MEDO

quanto de mim de ti
é segredo oculto
por mais que 
me e te aprofundes
me e te arrojes
me e te exponhas ao risco
que grite  me grites
somos o resultado agreste
de mutações paranormais
paz e guerra palavras é o que sou...és

autor: jrg

III
AGUARELA!...

pinto o teu retrato
a tinta desmaiada d'aguarela
fixo os olhos
a sensualidade dos lábios
o sorriso de mil cores
e pinto a sombra da alma
que adeja algo perdida
sobre um feixe de luz
a tua sombra
emboscada no eclipse lunar

autor jrg 

 IV
A DANÇA...

ao toque de Ravel
imponente e mágico
o teu corpo se cola no meu
e juntos num rodopio 
fantástico dentro do bolero
lançados ao desafio
fazemos amor...
na subida retumbante
dos sons afrodisíacos
que nos ateiam o desejo

autor:jrg

V
JOGADOR

vou a jogo 
porque te amo
e o amor se joga
em cada vasa
quando te percorro
 o corpo e subo ao pico 
no cimo dos mamilos
ardilosos
e nos lábios acendo o fogo
da tua acha

autor:jrg

VI
SURPRESA

hoje trago-te flores
e a lembrança do mar
visto do alto 
de onde tantas vezes
nascemos 
no ocaso do sol
de lábios colados
à esperança...
e subimos às estrelas
por onde a lua se esgueira

auto:jrg

VII
CANGACEIRO

vivo na mata
vagabundo desnaturado
trago na veia o fardo
de criança sem amor
amo o fusil a faca
presto serviço fatal
não me peçam consciência
nem o cangaço é meu mal
tenho amor à natureza
sou nela um homem normal

autor: jrg

VIII
ASSALTO

a bolsa ou a vida
se dou a bolsa
me matam
se não dou
matam também
mais vale que a morte
se vingue
lutando p'ela vida de alguém
se tiver sorte
não morrerei por nada

autor: jrg

IX
METAMORFOSE

borboleta de cores garridas
pousada em pétala sagrada
trazes sonhos coloridos
levas nossos pesadelos
dúctil tão leve escondes segredos
leva a minha alma alada
no silêncio de alaridos
em que escondo os meus medos
ao ver-te assim destemida
nas arestas dos penedos

autor: jrg

X
AMAR

amo o doce dos teus olhos
todo eu me estremeço
quando os teus lábios beijo
e sinto que te aconteço
no amarinhar do desejo
não sei de nada enlouqueço
no fogo ardente que vejo
e me volta do avesso
quando já sinto o cortejo
das fantasias que teço

autor: jrg

XI
LIBERTINO

sulco a noite
na madrugada orvalhada
de bar em bar sem palavras
vapores de alucinação
corpos suados de fêmeas
na invenção de prazeres
bebo copos fumo cigarros
na boémia faço sexo 
nos recantos sombreados
sob gemidos possessos


autor: jrg


XII
SEXO

há um coração
dentro do teu sexo
de lábios húmidos excitados
em excitantes apelos
que partem do corpo para a alma
e se agitam nos toques
fermentados na libido
por fantasias desejos almejos
de explosivos prazeres
breves absolutos

autor: jrg

XIII
TRABALHO

não sendo um fardo
que oprima a dignidade
nem a alegria mórbida tapa luzes
trabalho é o lazer da consciência
o orgulho de vencer
socalcos de desenvolvimento
sem aturar a diferenças
espartilhos de enlouquecer
que cultivam o medo
e cortam no crescimento

autor: jrg

XIV
NOVA HUMANIDADE

podia ser
a extorsão do medo
a decadência do ódio
o fim do preconceito
entre flores
negras de fuligem
que anunciam
o fim do machismo
a idade cósmica
a explosão feminina do amor
jrg

XV
A SABEDORIA

a intensidade luz
sobre a evidência feroz da treva
o olho vivo 
a prostração meditativa
a serenidade do consciente
o olhar cósmico
o todo em tons de sonhos ávidos
que assaltam a inquietude
da alma humana
mulher ciência idade nova

jrg

XVI
PÁTRIA OU MÁTRIA

a alma humana de mulher
é mãe de toda a criatura
porque havia de ser ao homem concedido
por quem com que propósito
o direito de humilhar
traçando a rota o rumo sem destino
trazendo agrilhoada na mentira
aquela que é maior
que está para além da vida eterna
Mátria mãe da humanidade

jrg

XVII
O CAPITAL

foi sempre fruto da pilhagem
da dádiva por conquista
da força que vence o medo quando ataca
nasceu do nada ter e por cobiça
quando o ser não era tido em conta
usurpou terras as mais ricas
amealhou ouro tornado metal raro precioso
confiscou por livre arbítrio
o homem e a natureza
inventou um novo deus para sua protecção

jrg

XVIII
A RELIGIÃO

o homem é o ser mais fraco
em toda a natureza
se o abandonarem quando nasce
morre de frio de fome ou medo
desde cedo que elege mitos protectores
com ligações ao vento e às estrelas
inventou deuses por ramo de actividade
até que alguém mais erudito
lhe ofereceu a protecção real e a divina
a troco de os servir sem resistência

jrg



XIX
POLITICA


hoje que o homem se libertou do medo
que em amplas partes do mundo
se travam combates 
contra oligarquias obsoletas
hoje que a ideia de deus 
já não protege as politicas arbitrárias
e se desmistificam heranças messiânicas
está aberto o caminho da luz
hoje em cada canto do mundo
mulheres despertam para a sua consciência


jrg

XX
DA FILOSOFIA

se o homem em si mesmo
é um produto orgânico da natureza
que gira como um pião
e rodopia à volta de estrela maior
suspensa entre gazes em fusão
memórias cósmicas que não usa
e vilipendia a sua origem
usando estratagemas de linhagem
então o homem não existe

autor: jrg

16/06/2011

ESCRITOS À MARGEM DA GUERRA!...ARMADILHAS !!!

«««///»»»
*
porque me escolhias
sempre eu e não um outro
eu que te dissera
sou pacifista
que me esforçava por sobreviver
à violência
nas entranhas da guerra
posto do lado de fora
pela consciência?...
*
no silêncio
apenas os mosquitos
a respiração suspensa
os fios de ligação
à espoleta de falsa segurança
as árvores milenares
e olhos de animais absurdos
espiando os movimentos
dos dedos em volta da granada
*
hoje penso
na similitude fantástica
dos que tecem a armadilha da noticia
o mesmo carácter desviante
o inimigo é o homem
os fios invisíveis que se ligam
que ferem e matam
quando despoletam a figura da bomba
feita de palavras
*
uma granada suspensa
dum lado e do outro do caminho
dissimuladas entre a folhagem
e um fio de morte por entre o restolho
de pétalas vencidas
o gesto preciso o coração em pausa
pé atrás retirar não tocar nada
ele agarra o fio... vai... diz
e segue-me de olhos fixos
*
ali fica a linha fatídica
à espera que nela tropecem
um homem uma mulher uma criança
saídos da sombra da floresta
confiantes da terra a sua que pisam
uma gazela um macaco
ouvia-se o estrondo no recato do quartel
iam ver
se era gazela traziam para comer
*
hoje penso
as palavras orquestradas
urdidas no enlace dos enredos
de caso forjados
no seio de interesses contraditórios
que visam eliminar os mais audazes
que lhes cruzam os caminhos
onde se aninham
medíocres sem chama nem brilho
*
porquê então eu
companheiro de tanta desventura
a pesar-me a consciência
a marcar-me como um ferrete indelével
a morte de alguém por indigência
minha tua
e tu dizias como se nada fosse
porque és calmo... só confio em ti
na ignóbil dimensão humana em que nos acho
*
autor: jrg

21/10/2010

O QUE EU SOU...

imagem net
***
sou um corpo em vias de extinção
já fui mar e vento tempestade
criei mais valias onde eu era a ilusão
sou um corpo vencido fora de validade
***
assim aberto ao que me resta
entre dislates de uns e a sensaboria
de gente estulta que não presta
a revelar meu mundo em verso poesia
***
cresci num ambiente rude semi selvagem
tive sonhos e pesadelos de grandeza
de terra em terra nem sempre fui de coragem
para escolher os caminhos da vileza
***
segui meus passos desde a adolescência
calcorreei a praia areias escaldantes
uma alcofa de sonhos gelados em permanência
a acalmar a sede fogosa dos amantes
***
fiz blocos de raiz areia e água com cimento
bate-chapas mecânico e amanuense
amei meninas ricas e pobres sem cabimento
na guerra aprendi que ninguém vence
***
fui pescador puxei as redes como um boi
remei nas ondas contra a maré
nos desafios da vida o que mais dói
foi não ter sempre seguido pelo meu pé
***
dei aos outros maior lucro e primazia
o trabalho dignifica o povo humilde
quando por magia me cresce a demasia
ocorre um facto novo que regride
***
hoje ainda aprendiz de sobreviver
cultivo amor de amigos na intemporalidade
se houver quem me queira descrever
não encontrará nada que seja de verdade
***
só a alma sobrevive na palavra escrita
criador de ilusões alimento da esperança
nem deus nem pátria sou um eremita
um vagabundo sem leis menino criança
***
autor:jrg

02/05/2010

I R E N E

I R E N E

Quando nasci gritei
Quero ser mãe…disseste
lembro o teu corpo
de menina feliz tão airosa
a alma a alegria
o sorriso que era de todos o encanto
o sonho de ser mãe a tempo inteiro
a ânsia de justiça
a voz doce e quente
enquanto subias íngreme a falésia
por entre silvas as amoras
que nos manchavam as mãos
os lábios de ternura
as gargalhadas de menina
grande e bela
os teus olhos luzentes
a esperança de sentir crescer
no teu ventre o fruto absoluto
chegados ao cimo
os tons matizados de vermelho
o sol a afundar-se no horizonte
dentro do mar…
porque foi que morreste
e me deixaste órfão
de amor…

autor:JRG

28/04/2010

Á F R I C A

sigo a picada terra amarela
ladeada de vegetação luxuriante
ouço o trinar das aves nas cores da tela
que o pintor retoca em toques de amante


de verso em verso África no poema
ouço o batuque em volta do pilão
meninas cantam dançam no frenesim do tema
batendo ambas a palma de cada mão


inclinam os corpos olhos ao céu
a sintonia do coro das vozes sem maestro
África bela porque foi que tudo aconteceu
todo um povo ser vitima de sequestro...


sinto ainda os odores da floresta
e ouço os gritos alarmistas dos macacos
vejo as crianças de ventre inchado são o que resta
delapidados os recursos em honra dos patacos


seguindo o trilho de gente vitima da tragédia
a fome a sede a sida a malária a violência
a circuncisão barbárie digna da idade média
onde a civilização enforma e realça a evidência 


de súbito terra alagada uma clareira de bonança
o brilho fulgurante nos olhos de meninos e meninas
entre o capim um cheiro intenso a esperança
ouvem-se rumores no som de batucadas sibilinas 

autor:JRG

21/04/2010

DISSERAM-ME...



foto net


***


disseram-me que era filho de Deus
como todos os Homens a Natureza os Animais
que Ele fizera o Céu a Terra os Mares
antes fora filho de Marte Júpiter Neptuno Zeus
nascido de mitos ou de acasos virtuais
e não esta fragrância entre rochedos ímpares 

disseram-me que era filho da nação
obediente a Deus ao amo aos pais e ao imperador
que na minha essência estava protegido
antes fora filho dum improviso absurdo da razão
criança adulta sem perder da vida o amor
e não este ser adúltero da lei e do viver fingido

disseram-me que era filho do homem pai e mãe
herdeiro dos bons costumes e virtudes
que procriasse trilhando caminhos já iluminados
antes fora filho dum mito ou de ninguém
sobrevivente no meio do caos das leis e das ilicitudes
de onde avultam os sábios mais cotados

disseram-me mentiras doutas e eu acreditei
até que o cérebro confuso explodiu de clarividência
peguei na memória do homem e no pensamento
antes fora tão só filho duma mulher comum sem lei
que é da criação humana a única evidência
e não esta metáfora que me obriga fiel a  juramento

disseram-me então de dentro da milenar memória
que somos seres erráticos meras cobaias
lançados em célula neste espaço por poeiras siderais
a ver se dava vida  ou se vencia a escória
e deu esta mistura de gente que exulta em fúteis vaias
de ter o que não é e ser o que não tem mais

autor: JRG

05/04/2010

APOTEOSE DO SER


imagem Wikipedia




APOTEOSE DO SER





hoje

não quero falar de sexo nem de orgias

que fazem o deleite de corpos sem beleza

nem do tráfico de mulheres crianças de sexo homonímias

para decalque do prazer em vil tristeza

nem de armas estratégicas de defesa que atacam minorias

para gáudio dos que têm o poder e a riqueza


hoje


não quero falar do amor que não perdoa

nem de amigos sempre ausentes quando preciso

nem de fome que escondida medre e doa

aos que por erro ou rebeldia perderam o juízo

nem de Paris Bona Londres Roma Lisboa

porque estou num tempo sem ganho ou prejuízo


hoje


não quero falar de ciência arte tecnologia

que colocam os povos num absurdo de redoma surpresa

nem das origens do homem e da sua bonomia

que o torna predador o mais temido em toda a natureza

nem do surtir da linguagem e da sua mais valia

que demarcou as nações em conceitos de subtil pureza


não


hoje quero cantar a alegria do homem e do poeta

saído do embuste da torpe subserviência

quero cantar que fiz dentro de mim de ti a descoberta

não há amor ou ódio no homem em sua essência

quero cantar nesta euforia de ser nada e ser alerta

que vivemos desterrados para expiar a consciência


não


hoje quero cantar que estamos no limite do castigo

há uma galáxia que rege a vida cósmica

tudo o que somos não é teu ou meu é muito mais antigo

apenas regurgita da memória atómica

quero cantar a alegria de amar e de sonhar contigo

entre flores e mar uma cantiga melódica





autor: JRG

26/06/2009

TODA A TEMPESTADE TRAZ BONANÇA

DIA INTERNACIONAL DO COMBATE ÀS DROGAS-Blogagem Colectiva ( I )
a minha participação: neo- jrg ( I )
in
CD - Lado B blogagem colectiva

Que bom ver-te, meu menino! E como estás bonito!
Há quanto tempo não te via, os olhos brilhantes e o rosto cheio de carne sadia. O falar fluente, a alegria, o abraço forte, o beijo.
Fico a olhar os teus gestos decididos a desfazer a mala. A arrumar tudo meticulosamente.
Há vinte anos que te não via e só guardava a tua imagem de menino. Lindo, de olhos grandes, castanho-escuro, os caracóis em revolta na cabeça de sonhos. E o sorriso. O brilho do teu olhar sobre o sonho.
Voltaste a sorrir, como quando jogávamos à bola na mata em frente, tão perto do mar, e te fazia perder para ouvir os teus protestos, porque só querias ganhar. Ganhar sempre, ser o primeiro e pergunto-me porquê? porque de deixei ir?, porque te deixaste ir?, que forças te arrastaram na enxurrada da indignidade.
Que bom ver-te meu amor. Sentir que não te levaram de todo. Que ainda resistes e estás mais determinado do que nunca em vencer.
Bem podias ter vindo mais cedo. A minha mão esteve sempre estendida do lado de fora do mundo em que caíste. Em frente de ti. E sempre que te via, acenava-te. Gritava o teu nome. Filhoooo !!!...no silêncio que me doía, na angústia da tua ausência, tu, ali tão perto e longe, longe...
As novidades? Estamos bem, como vês. Chegou uma menina encantadora que cresce plena de felicidade. A neta, tua sobrinha. O pai está desempregado A mãe, continua batalhadora. Estamos bem, como vês. Endividados, nas mãos de agiotas legalizados, mas havemos de chegar a porto seguro, estamos bem, como vês, porque tu és vivo e estás de novo do lado em que estamos.
Que bom ver-te com a esperança embandeirada. O hino de confiança. A paz que regressou ao teu coração desfeito em rotura com o mundo. O fulgor rutilante dos teus olhos, de novo.
Que bom ver-te, fruto de um grande amor , quando já desesperava de te ver.
Bem-vindo a casa e fica, se vieste para ficar.

( palavras de pai para filho acabado de chegar da comunidade terapêutica, para se fazer à vida) neo-jrg

A matemática, esse quebra-cabeças dos Portugueses em geral, não é uma ciência mítica só ao alcance de alguns iluminados, mas porque é manipulada ao sabor de interesses que ainda persistem e consideram que "em terra de cegos quem tem olho é rei", continuamos a navegar em teorias de combate ao insucesso , condenadas a manter os níveis aceitáveis de cegueira colectiva.
Actualmente a proliferação do consumo de drogas por amplas camadas de juventude de todo o mundo, tornou-se num flagelo que nenhum governo tem conseguido estancar.
Desde sempre houve consumo de drogas, que não eram proibidas, nem atingiam os preços a que são vendidas nas ruas, nem geravam fabulosos lucros. Em consequência, quem sofria de stress por drogas comprava-as onde era possível ou optava pelo vinho. Era uma minoria, contestatária, talvez, das regras de convivência que se iam alterando. Sinais de rebeldia que prenunciavam mudanças radicais.
Eu penso que a partir da eclosão do Maio de 68, se espalha a ideia reivindicativa de que vale tudo. É proibido proibir tudo. Amor livre. Abaixo os poderes instituídos . A inalação de drogas pelo fumo avança em todas as direcções. As democracias tentam resistir, mas rapidamente os senhores da finança vêm ali um filão inesgotável, e são eles que financiam o estado e que o controlam. É para eles que as leis são manipuláveis, no esgrimir de interpretações por magistrados e advogados que as leis permitem. O legislador pondera os riscos da descapitalização e no meio dos artigos que condenam, há sempre uma alínea que descriminaliza. Não há crimes de colarinho branco nem lavagens criminosas de dinheiro derivado de produtos considerados ilícitos, porque o dinheiro é muito e compra tudo o que se apresente como obstáculo, é uma teia sem aranhas. O povo diz:"quem cabritos tem e cabras não cria de algum lado lhe vem..."
Aqui, em Portugal ,o consumo de drogas disparou com o advento da Democracia, não por culpa da Democracia, antes por uma coincidência de tempo, porque estamos sempre atrasados na ventura e na desgraça.
O consumo e o tráfico são proibidos e condenados com pena de prisão.
Milhares de famílias são assoladas por esta praga, Adolescentes instigados ao consumo sobre os mais variados pretextos de afirmação pessoal, de desinibição. de ser mais forte. Jovens, meninas, lindas que foram, agora enrugadas, prostituídas, devassadas.
Os pequenos cartéis de tráfico organizam-se. No interior das prisões superlotadas continuam a traficar e a consumir. Nas ruas os chamados pequenos delitos. A saga da moedinha para o arrumador que surge, do nada quando já tínhamos quase arrumado o carro.
Roubam os pais, a família, os amigos. Vendem tudo o que tem comprador e há quem compre É um negócio de lucros fabulosos, onde se vende tudo até a dignidade.
O estado, nós todos, financiamos as medidas ditas profiláticas que o governo implementa, de apoio financeiro às comunidades terapêuticas de reinserção, aos tratamentos em ambulatório, com resultados deficitários de recuperação efectiva e duradoira, nascem novas clínicas especializadas , criadas por psiquiatras e outros técnicos terapeutas, algumas possivelmente financiadas por dinheiro proveniente da venda de drogas e destinadas a uma camada da população financeiramente desafogada.
As polícias investem na formação especializada no combate ao tráfico. Os criminosos detidos em resultado das investigações são postos em liberdade. Presos são os consumidores, por consumirem e por roubarem. A droga e dinheiro apreendido nas operações, desaparece em circunstâncias misteriosas.
Os verdadeiros agiotas do tráfico continuam impunes. Participam, até, na discussão. Influenciam politicas. Corrompem influências. E seguem na matança intelectual e física do que melhor tem um povo, uma nação.
Surgiu o HIV, as hepatites B e C proliferam.
As famílias a lutar contra a insolvência absoluta. Sem ajudas oficiais, dependentes da força que os catapulta para a frente, da ajuda de uns poucos amigos e familiares que a dinâmica vai gastando, a ganharem tempo.
Condenadas, até, por não terem sido capazes de evitar a desgraça.
Alguns países adoptam medidas para liberalizar o consumo de drogas, que passa a ser disponível em farmácias e locais apropriados criados para o efeito. As noticias sobre a eficácia: se aumentou-reduziu-estagnou, não são distribuídas na mesma dimensão.
Por cá, e não só, os arautos tentam explicar-nos em equações algébricas e outras engenharias matemáticas, que a liberalização não é possível. Iria criar mais dependências, facilitar a transacção entre estados!?...aumentar o consumo, etc.
E nós a percebermos que dois e dois são quatro em qualquer circunstância e que somados sucessivamente, chegamos aos milhões da ganância, que matam e morrem pela ganância de viverem na abastança erguida sobre o sofrimento, a dor e a desdita de quem vê um adolescente primoroso ser arrastado impunemente nas águas sórdidas da mentira.
Toda a gente com bom senso sabe que a solução é só uma: liberalização. Tratamento eficaz com disponibilização de todos os meios, clínicos, ambulatórios, psiquiátricos, de entreajuda e acompanhamento de proximidade. Informação desde os primeiros anos de escola, a consciencialização de professores e auxiliares de educação. Todos, de uma forma organizada, que UTOPIA, nem o facto de alguns dos filhos dos poderosos da droga serem atingidos pelo problema os desarma, em todas as frentes.Tanto os que são contra como os que são a favor, os que só tem a perder com os negócios das drogas, sabem que a liberalização, a venda livre dos produtos em farmácia, acabaria com o tráfico. A determinação dos estados, onde a droga é produzida, para reconverter as culturas, é outra Utopia, sabendo como há estados totalmente dependentes do comércio de drogas.O problema está no que está em jogo: dinheiro, poder, ganância. A vida e a morte. O filão é imenso e corre a favor das máfias que controlam e dinamizam o comérico de todas as drogas. Há uma crise mundial de valores. O Planeta debilitado pela poluição e pelas atrocidades cometidas ao longo dos dois últimos séculos. A falência dos sistemas financeiros. O desemprego generalizado e a falta de alternativas.É só imaginarem a quantidade de gente que beneficia com a proibição e crime sobre o consumo. A corrupção das consciências, a coacção sobre as vitimas e as famílias. O tráfico de influências.Os argumentos dos que são contra a liberalização do comércio das drogas: Paraíso para os traficantes. Mentira, tudo palavras de conveniênciaE quanto aos traficados? Crianças, jovens, famílias!.. engajadas neste esgrimir de posições, tratados em subserviência, com listas de espera nos espaços de reinserção, sem um programa consequente que os insira no mercado de trabalho, deixados à sua sorte num mercado à míngua. Estigmatizados. Frágil é a esperança que alimenta a auto-estima em reconstrução.
Consciencializar, difundir pelo mundo a palavra de ordem de não às drogas, ser cada um um transmissor de esperança, não aproveitando-se, por exemplo, duma menina que se oferece para a prática de fantasias sexuais para satisfazer à ressaca, mas estender a mão à esperança com esperança.

18/10/2008

MEMÓRIAS DA GUERRA - MATAR OU MORRER!...

Vaga lumes luziam em silêncio por entre o capim de hastes delgadas e cheiros impertinentes que se alojavam nos corpos e no interior de cada um, como um estigma de amor.
As botas enterravam-se na água lamacenta das bolanhas vazias de arroz, talvez densamente povoadas de repteis e outros anfíbios ou semi anfíbios, ou peixes sem nome e de outras pequeníssimas espécies de habitantes aquáticos, que fugiam espavoridos a cada passo e ao ruído surdo do chap chap cuidadoso de cada passada.
Eram duas longas filas de homens que se entregavam aos mais variados pensamentos, entre a atenção sobre a floresta escura, e algum ruído indissociável do perigo que pressentiam avindo da sua densidade impenetrável.
Manuel António seguia na fila da esquerda, a mais distante da orla da mata. decidira não fazer a barba. Tomara o banho antes de se deitar e escrevera uma carta longa para Alexandra. Não uma despedida, mas uma carta densa de amor de projectos ao porvir. O filho que queriam ter. O filho deles, varão. Queria um menino, não porque desgostasse de uma menina, mas tinha receio de não ser capaz de a educar.
Atrás dele, o Fátima, sussurrava Pais nossos e Avé Marias, um rosário entre o gatilho da espingarda e a mão que segurava o cano, junto ao carregador de munições. A voz pastosa quase inaudível, uma ladainha.
Na sua frente, passos trôpegos, gingando ora para um ora para outro lado ao peso das granadas de Bazooka, e do bagaço que ingeria sempre que havia uma operação de combate, o Cortegaça, espalhafatoso na parada do quartel ,barafustando contra tudo e todos, agora mudo, congeminando sabe-se lá o quê ou contra quem.
Estropiados. Nenhum deles queria sair dali estropiado. Antes morrer. E iam ficando, sem o saberem, sem darem por isso a cada estremecer do coração, ao estalido vindo da mata, ao riso súbito, aviltante, dos macacos despertos pelo cheiro humano irrompendo pelo seu habitat. Seguiam o trilho que alguém erudito traçara com nuances hipócritas de ser o melhor para os homens, o mais seguro e capaz de surpreender o inimigo. Um risco sobre o papel rijo e amarelado do mapa e de onde sobressaía a mancha verde da floresta e o local exacto do acampamento ou aldeia a destruir.
Manuel António é um pacifista. Não quer matar. Não quer destruir o lar de ninguém. Aceitou de si, vir por amor. Acreditando que era possível vir e voltar sem que tivesse ocorrido nada do que temia, matar, por exemplo. Não pensava na sua própria morte, mas o acto de matar um outro ser que ele admirava, que ele amava e a quem não podia dizer uma palavra se se encontrassem frente a frente. Era matar ou morrer, sem uma palavra. O mais rápido, o menos surpreso, o sangue mais frio, ou o dedo mais hábil. Matar ou morrer.
Sentia as lágrimas ofuscar-lhe a visão.
As pernas começavam a pesar, de molhados, os uniformes ganhavam uma pressão intransigente sobre as pernas. A noite ainda densa e eis que se chegam ao local do assalto. Os homens são dispostos ao redor da aldeia para que não escape nada nem ninguém. Casas de lama e capim. Uma clareira castanha no verde da mata. África.
É dada a ordem e como uma mola, os que estavam instruídos para a tomada do objectivo, lançam-se confiantes que não terão oposição, sobre as casas de onde começam a sair animais de criação, galos galinhas e porcos. Das casas, aos gritos indecifráveis porque de dialectos tribais ou étnicos, saem mulheres de idade, crianças, velhos que vociferam contra os invasores. Ouvem-se disparos de metralhadoras de armas ligeiras, gritos de filhos da puta, cabrões e outros selváticos de dentro, da raiva de estar ali e não querer ou de gostar desta farsa de ser homem. Há fumo, labaredas que se propagam ao capim envolvente das palhotas, o choro das crianças cansadas de correr em volta. O ranho, as lágrimas ,o suor de mistura com o pó e o cisco das palhas ardidas.Imagem Dantesca no dealbar da madrugada.
Manuel António está na retaguarda , dos que fazem segurança à chacina dos bens e da dignidade de uns tantos que resolveram tomar o partido dos bandidos e observa aterrado o vai e vem dos homens possessos. Homens, como ele. Dum povo que vive amordaçado e convencido que é dono de outros povos tão longe. E pensa que é tão responsável como os que executam.
Feita a operação, trazidos alguns prisioneiros, mulheres e crianças, para servir de aviso à restante população rebelde, iniciam o regresso, constatando que não havia armas, nem gente armada, nem Turras, naquelas miseras palhotas no interior da mata.
O mesmo caminho de regresso. "Olha o papão. Deus nosso Senhor castiga-te." Lembrava-se, de quando era criança e fazia um estrago, os ralhos adultos, o olhar severo, do lado de fora e de cima de si, poderosos e ele franzino, dois palmos de gente, tremendo de medo pelos castigos...
O sol apareceu e trouxe a habitual nuvem de mosquitos sugadores dos suores entretanto expelidos pelos poros dos corpos cansados. A mesma tensão, agora acrescida pelo medo de qualquer retaliação. Os rostos têm uma cor macilenta. Os olhos salientes, as pálpebras inchadas. Manuel António é o penúltimo porque o Fátima fazia questão de ser o último. Era Fátima. Sentia-se imbuído dum espírito de protecção.
Soam tiros de costureirinha, assim chamada porque o som parecia o de uma máquina de coser roupas. Explosões de morteiro 62. Os homens espalham-se pelo chão e disparam as suas armas na direcção da mata.
Manuel António repara que o Fátima está inerte, que geme baixo e nota-lhe uma mancha negra junto ao ombro. O tiroteio é intenso. Ouvem-se gritos de perto, em Crioulo que os mandam para a sua terra, que lhes chamam bandidos. Julga ver vultos que correm tão perto e pensa que é desta que não vai escapar. Levanta-se um pouco para amparar o Fátima, arrastá-lo para junto do enfermeiro que, transido de medo espumava da boca seca e pastosa dum suco horrendo entre branco e castanho, sangue. Por momentos pensa que o Fátima cumprira a sua missão, o quer que fosse, bala ou estilhaço de granada, se ele fosse o último, seria ele o atingido.
Manuel António voltou para a sua posição, rastejando e de cócoras, olhos na mata e dá com ele,os olhos dele luminosos, os dentes brancos, um lenço vermelho sujo enrolado na cabeça. É um homem como ele, mas está do outro lado da vida. Grunhe palavras inteligíveis e dispara na sua direcção. Rápido estende-se e rebola no chão de capim. Ouve os silvos das balas sobre si. Angústia. os passos que se movem rápidos e dispara gritando: Alexandraaaaaaa!!!! dispara um carregador e outro que conseguiu enfiar entre tremores.
_Já o mataste!.
Era uma voz conhecida. Palmadas nos seus ombros, nas costas, os tiros ainda que se afastavam. Névoa no interior do cérebro. Saliva acre que teimava em escorrer-lhe de dentro de si
_Mataste-o pá. Porra! O Cortegaça, já sóbrio, sem o peso das granadas de bazooka entretanto despejadas.
_Eu?! Incrédulo, ele, Manuel António, a levantar-se atordoado, a apalpar.se e a cuspir a ver se era sangue o que teimava em escorrer de si, por entre os seu lábios. Não, não era sangue, ou era, de uma cápsula de bala que saltara da culatra e foi ver, aproximou-se de onde o comandante e outros pegavam na arma do homem que ele supostamente matara. E lá estava, as vísceras de fora, enrodilhadas entre si, o intestino grosso e o delgado e todos os órgãos à volta, macabros, numa evidência de corpo tracejado a bala. E o cheiro a carne, não de fora, mas de dentro da carne, pestilento, onde já nuvens de mosquitos se banqueteavam e em cima, por cima das cabeças deles, os abutres atentos, farejantes da morte em busca do festim. Olhou o homem de pele escura, os dentes brancos agora escondidos sobre os lábios cerrados, os olhos abertos, negros, ainda com um resto de brilho, como vidro, e em volta a córnea amarelada. As mãos abandonadas de palmas voltadas para cima, como se pedisse desculpa ou se oferecesse em sacrifício de uma causa a que Deus?... meu Deus!...
Voltou-se e seguiu em passos lentos na direcção de amigos que o sentiam desfeito. Um esgar de dor em todo o rosto, os membros entorpecidos, névoa no cérebro e uma palavra que repetia em sucessivos estertores da voz:
E agora Manuel António?...E agora....?

15/08/2008

MEMÓRIAS DA GUERRA - RAFA

Tinha um andar indolente e não era do clima quente e húmido. Era um andar provocatório, desleixado, da sua própria índole e tinha o hábito de puxar as orelhas daqueles que tinha mais confiança, não intimidade, confiança de falar, pouco, mas de falar.
A especialidade dele era Cripto, o que fazia da sua figura, um anátema de perdição, por tudo o que nele era enigma, os olhos sempre sorridentes, sagazes a perscrutarem semblantes, movimentos de lábios, gestos, e o indiciavam como um bufo ao serviço dos interesses.
As conversas mais politizadas cessavam , passavam a banalidades, à sua aparição, sarcasticamente sorridente. Rafa, o cripto. O que fazia as ligações do comando do aquartelamento, com o comando territorial. Só ele sabia as horas de saída em patrulha simples ou em missão de combate. As operações com grande movimento de tropas.
Rafa era mais importante que o capitão e não granjeava amigos.
Mas Rafa subsistia apenas. Como a grande parte deles, Rafa fora recrutado, arrancado a uma carreira promissora, à continuidade dos estudos que o levariam à formação em Psicologia, a sua paixão desde a adolescência.
É verdade que os observava, atento ao pormenor de um esgar, os gestos distraídos, que são os mais verdadeiros de uma pessoa. Uma palavra vaga, pitoresca, ou picaresca, ou séria e profunda mas aleatória, saída do vácuo da memória .
Amava cada um deles, uns mais que outros, questão de empatia, se superficialidade ou de profundidade, mas amava-os como pessoas genuínas, cobaias únicas reunidas num laboratório imenso e soltas.
Quando saíam para uma operação que só ele sabia podia ser fatal para alguns. Levantava-se à hora. E fica a vê-los, a galhofarem uns com os outros para afastarem o medo, de cada um de si. Os rostos apagados de outros, em período de concentração, de oração ou encomenda da alma. Ficava escondido, na penumbra da aurora que lá vinha. Os olhos toldados por lágrimas atrevidas que não podiam ser vistas. Um homem não chora. Um cripto é um homem que se quer frio, independente de emoções. Como se fosse possível...
Admirava Manuel António em especial. O seu ar aparentemente sereno, sorumbático por vezes, ou quando o via expectante, olhando a Lua num recanto da noite, poético, pensante de vá lá saber-se o quê...E como gostaria de o interpelar, discutir com ele nuances da politica, ensejos da alma, perspectivas do homem, os insondáveis segredos da mente que se deixam escapar em momentos de êxtase do ser, desapercebidos do consciente.
Manuel António parecia-lhe uma figura ímpar de humanidade. Acompanhava os indígenas em tarefas pesadas, dançava com as crianças na alegria das cantigas ao som do batuque do pilão, falava-lhes da metafísica de ser povo, o ar incrédulo e estranho dos jovens...
A importância de se assumirem como pessoas em evolução. Não que a evolução fosse uma meta, uma imposição de ser homem pleno, mas porque no estádio em que se encontravam eram uma presa fácil dos oportunismos encapotados de civilizacionais.
Rafa observava estas prédicas, de longe, mas suficientemente perto para perceber que os indígenas o ouviam por respeito, que achavam piada ao ênfase que punha nas palavras. Os olhos brilhantes de emoção.
Rafa admirava Manuel António pela sua camaradagem com os outros, da Companhia, o seu sentido do dever de instruir, de clarear ideias preconcebidas , de desfazer equívocos sobre o direito de soberania, o dever de lealdade. E nós, onde ficamos nós nas obrigações e nos deveres? Era um grito frequente de Manuel António, no meio da parada, sem medo.
Ter o homem como fim. A entreajuda o repartir do pão e da palavra. O entendimento do todo, do papel de cada um para o todo, da partícula ínfima de cada um, do seu corpo, do seu espírito, para o seu todo de si que iria reforçar o todo total, o todo absoluto.
Rafa sabia que não o devia interpelar nestes momentos de ousadia espiritual. O mais certo seria que debandasse, que se furtasse ao diálogo com ele, Rafa, o Cripto, conotado de bufo.
Ganhava mais observando-o de longe, medindo-lhe os gestos, os suspiros de ânsia ou enfado. As mãos inquietas que procuram posição sobre o tronco velho de uma árvore.
E era tudo o que lhe afluía à memória, neste instante único que há muito desejava, o convívio anual, ao vê-lo a rir-se despreocupado com outros companheiros, tantos anos passados, vividos em ausências.
_Rafa!...
_Manuel António!...
Um abraço emotivo , um beijo em cada uma das faces, o selo antigo da amizade profunda.
Falar dos percursos, andanças, vivências, tragédias e amores felizes.
_Sempre pensei que me consideravas um bufo.
Os olhos nos olhos, límpidos, por entre o nublado das emoções.
_Mas não, Rafa, os teus olhos eram leais. Se nos tornássemos íntimos, daria nas vistas, seríamos conotados como traidores.
Riram-se ambos num reforçado abraço, com palmadas amplas e fortes de Rafa nas costas de Manuel António.
_Sabes, Manuel António, ainda tenho um sonho que quero realizar.
_Sonhar até ao infinito do ser que vamos sendo. E que é?...
Rafa inquieta-se, agita o corpo, as mãos saracoteiam no ar leve da meia manhã, os olhos chispam raios de luz, uma luz de tipo novo.
_Reunir fundos, já tenho algum, saber a morada de todos e visitá-los, um a um, para saber se têm fome, qualquer tipo de fome...
_Rafa!!!...

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Podia ser o inicio de uma história de vida romanceada, a envolver negócios, empresas de estilo familiar que ainda são o sustentáculo do país. E a tragédia que os apanha desprevenidos e vai condicionar toda a estrutura familiar futura. Ou o êxito de empreendimentos pessoais, conquistados e construídos a pulso.
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.

J.R.G.

06/08/2008

POESIA ERRÁTICA III

o limite diáfano

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.
Sebastiâo Alba

17/07/2008

O DELFIM NÃO ERA UM ASSASSINO

O Delfim era um jovem. como todos os que compunham a Companhia, arrancado compulsivamente à terra, à família, aos amores. Um jovem alegre, mas intranquilo, emocionalmente frágil, questionante do porquê ele, ali, algures África.
Cumpria o seu dever ao integrar as tropas regulares de um país, o seu país. Integrava as colunas, sofria emboscadas e estava sujeito ás armadilhas, ás minas traiçoeiras que já vira rebentar, pisadas por jovens como ele e sem que houvesse em quem atirar, fazer a desforra. Nada. minas solitárias, intransigentes com uma pequena distracção, com a insuficiência de material de detecção. A importância da desforra. A vingança...
O delfim bebia para afogar o desespero de estar ali, algures África sem ver a família, sem poder ajudar a família, sem poder estar com a namorada, os amigos.
O ar era quente e húmido. As mulheres andavam de peito descoberto. De resto eram só jovens como ele, sem grandes diálogos, que jogavam as cartas, a lerpa, nos momentos de ócio e bebiam na cantina cerveja que matasse a sede e a saudade, que afugentasse a morte. A morte, morrer dum tiro vindo do silêncio da mata verde e bela.
Manuel António observava aquela personalidade caótica, dia após dia. Delfim viera falar-lhe do efeito das granadas ofensivas, granadas de mão. Cada um tinha umas quantas à sua guarda. Levavam-nas e traziam-nas. Calculavam que rebentariam se as tivessem de usar. Não traziam prazo de garantia. Estavam ali, a um canto dos armários, verdes , elas, as granadas, com uns relevos a toda a volta para evitar que resvalassem das mãos que as atirariam, um dia.
-Sabes, Manuel António, ainda um dia gostava de ver o efeito disto a rebentar.
A granada na mão. A cavilha de segurança, um pedaço de arame revirado na ponta, a argola de onde um dedo a puxaria, com determinação.
Manuel António olhou para delfim. Procurou os olhos e só viu uma espécie de baba que lhe saía dos cantos dos lábios. Lábios finos, cortantes. Abominava granadas, balas, tudo o que cheirasse a pólvora..
- Cuidado com isso, pá. Que fazes com a granada? Vão sair?
-Não, mas que gostava de ver isto rebentar, gostava. Para que temos isto?
Cambaleava de um lado para o outro. Olhou-o, agora sim, nos olhos pequeninos se mi cerrados, um brilho estranho, metálico a sobressair da pele escurecida pelo Sol .
-É melhor nunca saberes o efeito dessa merda. Vai guardar. Não podes andar aí com uma granada ofensiva. Cais e matas-.te e matas alguém.
Delfim recuou uns passos, temendo que o outro lhe tirasse a granada. Fez um esgar, um riso indecifrável se de alegria se de louco ou cobardia. Manuel António insistiu, tentando segurá-lo ali até que viesse alguém. Um outro. E disse.
-És de Vila Verde?. Fala-me da tua vida lá, Família, namorada. Que fazias.
Os olhos de Delfim encheram-se de lágrimas e a voz soou rouca, trémula, desequilibrada.
-Sou. Porra, não me fales da família. Eu era uma parte que fazia falta. A namorada já me pôs os cornos. Que sa foda. Vai cu caralho. Ninguém me escreve. Ás tantas já não tenho ninguém.
Numa das mãos a garrafa de cerveja quase vazia, na outra a granada. E nada. Pessoa alguma aparecia naquele fim de tarde, quase noite. O motor da geradora roncava a sua toada constante e monótona. O grito agonizante dos macacos que se recolhiam.
-Tem calma, disse Manuel António, os olhos húmidos, moreno quase negro, olhos castanhos de um escuro quase negro, vais arranjar outra quando chegares. Aguenta. São mais uns meses, poucos.
Delfim chorava convulsivamente. bebeu o resto da cerveja dum trago, sem uma palavra e desandou para a cantina dos soldados.
Manuel António ficou a vê-lo, cambaleando em vai e vens e troca de passos, viu que entrou primeiro na caserna e voltou a sair. Descansou porque não lhe viu a granada na mão.
Lá ia ele, o Delfim, para mais umas cervejas, até o fim de si. e pensou que era uma geração fodida. O álcool, o calor, a pressão, os tiros e rebentamentos, as armadilhas, as minas.
Uma geração estropiada. Aguentar, prever-se de si, a si, mas como ? Se o quadro estava pintado de uma forma indelével. Sem saída que provesse o futuro que queria.
Como sair ileso? os neurónios desafectados, os genes compactados na revolta contra os elementos. Como sair ileso deste inferno?
Ouviu-se um estrondo medonho, Manuel António encolheu-se. deitou-se no chão. todo ele tremia sem saber que atitude tomar. A espingarda estava longe, mas estranhou não ver a correria do costume . Silêncio. Apenas o motor da geradora, monótono, incessante. Já não era um ruído. É como se fizesse parte do silêncio.
O básico a correr.
-É básico, o que foi?
-Olha, rebentou uma granada na cantina, os dois cantineiros foram cu caralho.
O Delfim, foda-se. O choro de raiva. O choro em raiva e a palavra FODA-SE. Agonizante de si. A justificar o poema:

Esta noite
quando todos dormirem
pego no vento
e fujo...