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07/11/2008

UMA HISTÓRIA DE NATAL!...

O AMOR DOS SIMPLES...
I
Nasceu ao quinto dia num mês frio, Janeiro, daquele ano de sessenta e era o terceiro filho da família que já tinha um casal e que se projectava em quantos a vida lhes proporcionar, como dádivas de Deus e frutos de se amarem nos corpos e nas almas.
Cresceu feliz, até ao dia em que o pai sucumbiu a uma cirrose galopante o que fez com que se alterassem os destinos de todos eles, interrompendo estudos e projectos sonhados. Porque a vida é sonho e o sonho acrescenta vida .
Carlos Alberto era um rapaz elegante, altura média, cabelos e olhos castanhos, olhos leais, sorriso nos lábios e sempre amável para os amigos e os colegas do trabalho que precocemente tivera que abarcar. Tinha uma paixão e um sonho que o acompanhava de menino, a descoberta de como os brinquedos electrónicos se moviam ao simples toque de um botão, daí a todos os aparelhos que faziam parte do seu quotidiano, uma curiosidade para descobrir o principio e o meio da ciência electrónica. Desmanchava aparelhos, reconstruía e foi ganhando amor a essa forma de recuperar aqueles que o tempo e o uso colocara fora de serviço. Fez até um curso de electrónica por correspondência, que lhe trouxe bases importantes para as suas aventuras de descoberta ao funcionamento dos mecanismos.
O trabalho de estafeta que fazia na empresa, não era de todo monótono. É certo que via quase sempre as mesmas pessoas, mas foi-se habituando a descobrir que cada momento era diferente, como se as pessoas mudassem de dia para dia, de instante para o seguinte.
Conheceu uma jovem por quem se enamorou, uma jovem atrevida, bonitinha, mas fácil na forma como se dispunha à partilha das intimidades, ter sexo com ela, não foi um deslumbramento. Ficou-lhe um vazio para o qual não encontrava resposta, como quando um aparelho tinha tudo para funcionar e ao carregar o botão, não acontecia nada...
Naquele dia ao entrar no escritório, distribuindo bons dias pelos que ia encontrando, parou de repente, sentindo um calafrio estranho por todo o corpo, sentindo-se preso de uns olhos castanhos, uma pele clara e aqueles cabelos compridos, castanhos como os dele. Linda, linda, linda, mas que mulher!!!...pensou e dirigiu-se a ela para a saudar.
_Olá princesa! És a nova telefonista, ou os meus olhos estão noutra galáxia?
Ela, tímida e lisonjeada por tão principesca saudação a que nunca fora habituada, presa, num primeiro instante, naquela figura galante de olhos tão brilhantes como nunca vira em outro homem. Embora, filha única, tivesse recebido todos os mimos que se podem imaginar
_Sim, sou a nova telefonista, muito prazer. Chamo-me Clara Branca das Neves. E o senhor, quem é?
_Qual senhor, sou apenas um colega e estou encantado por te conhecer, por te sentir tão menina num corpo formoso de mulher, vais ver que nos iremos dar bem. Sou o Carlos Alberto, mas os amigos tratam-me por Carlos.
Ficaram a olhar-se, por momentos e foi ela quem primeiro desviou o olhar, numa timidez inocente, para se dedicar ao atendimento telefónico.
Carlos passou todo o dia com a imagem de Clara no pensamento. Uma figura de menina dócil, mas convicta do que pretendia, bonita, a voz sedutora, as maminhas harmoniosas sob a camisola de lã de cor rosa debruada a azul na gola junto ao pescoço, deixando este a descoberto, alto, a pedir beijos e devaneios que povoavam a sua mente. Vestia calças ele preferia ver-lhe as pernas, talvez até sentisse o cheiro emanado do seu corpo.
Carlos e Clara, brincaram com as palavras, ele galante, ela difícil, teimosa em reconhecer que era amor o que se vislumbrava das conversas amigas em crescendo de ansiedade e de fervor das almas enamoradas. Até que ele se decidiu a tomar a iniciativa.
Naquele dia acordou com a ideia de avançar para a consolidação desse sentimento que o absorvia na quase totalidade do seu ser e que sentia nela, como que a convidá-lo a entrar na sua vida, pela porta grande da frente, com decoro e cumprindo toda a tradição em que foram educados.
Carlos comprou um lindo anel de noivado. A caixinha era grená, de veludo, e quando a abria, o brilho das pedras preciosas ofuscavam-lhe os olhos e era também a comoção. Sim,um homem também chora, quando o momento é o do grande amor da sua vida.
Clara não sabia o que dizer naquele momento em que ele, de mãos trémulas apertando a caixa, a voz segura e quente:
_Clarinha, eu amo-te. Aceitas casar comigo?
Toda ela corou. As mãos inquietas, os olhos luzidios, os lábios entreabrindo-se num sorriso incandescente, o coração a 100 há hora como ela gostava de dizer, como o sentia há muito sempre que o via a ele, o seu Carlos.
_Sim, Carlos, eu amo-te muito e aceito casar contigo, mas primeiro vamos conhecer-nos melhor, namorar.
Ele disse que sim. Com a cabeça, com todo o corpo que se aproximou dela e numa manifestação súbita, ou esperada, deu-lhe um beijo ao de leve nos lábios carnudos e húmidos e sentiu que os corpos, o dele e o dela tinham estremecido, como se um choque eléctrico tivesse ocorrido e os aproximasse em correntes de afectos sublimes.
Em volta deles, por detrás do momento superior que viviam, os colegas aplaudiram, com palavras de parabéns e desejos de felicidade.
II
Durante cerca de quadro anos namoraram em edilicos momentos de absorção de si próprios, um no outro, com birras e amuos, seguidos de pazes feitas com mimos e outras fantasias, passeios de mão dada junto à foz, tentativas de sedução dele, para que fizessem amor, unissem os sexos numa evidência de amor que sentiam, do interior de si, ás vezes violentos, os desejos, os anseios, o cio de cada um, o cheiro indutor que se exalava dos corpos numa emanação natural que os sentimentos fortaleciam e se testavam à rigidez dos principios.
Clara fazia questão de casar virgem. Era um sonho de menina, podiam beijar-se, envolver-se em afagos, podia até mexer-lhe nas maminhas, beijá-las, mexer-lhe no sexo, beijá-lo se quisesse e ela faria o mesmo com ele, o que lhe desse prazer dela, de estar com ela, mas sexo com sexo, fazer amor, só depois do acto solene do casamento.
E ele aceitava, ardendo de desejo, mas aceitava, porque sentia por aquela mulher um amor profundo, um sentimento de respeito por tudo o que nela era um simbolo de pureza. Aceitava que fosse ela a decidir, era uma manifestação da sua, dela, maturidade, ante os desvarios infantis dele, homem, a pensar apenas na sua satisfação libidinosa.
Chegou o dia do casamento.Um primeiro de Agosto quente que marcaria para sempre as suas vidas em comum. O nervosismo e a alegria de mistura com os sentidos da enorme responsabilidade do acto que iam consumar e de finalmente puderem dar azo a toda a imaginação dos corpos em conluio para a construção da sua felicidade. Entrar nela e ela senti-lo na sua totalidade, no seu corpo.
A festa reuniu as famílias de ambos, e amigos, em alegre convívio onde o comer foi farto e a alegria esfuziante se contagiou de uns para outros, até que a hora do voo se aproximava, para os levar à Madeira, onde projectaram a lua de mel, impondo que partissem.
A lua de mel na Ilha da Madeira foi paradisíaca. A Ilha é um paraíso e rodeada de mar que eles tanto amavam, foi um cenário maravilhoso que os envolveu . Fizeram sexo a noite toda, em explorações dóceis dos corpos e das sensações produzidas. Ele, mais experiente, foi-lhe ensinando do que sabia. Ela ,plenamente confiante do seu amor, deixando-se conduzir, confiante e absorvendo todas as delicias de ser amada até à exaustão. Juraram amor eterno e fidelidade aos principios do projecto comum que agora encetavam. Foram doces delírios das almas apaixonadas.
Compraram casa, na sua cidade, o Porto, para viverem, suficientemente grande para a prole que se perspectivaram ter.
Clara queria ser mãe. Carlos ansiava por ser pai. Ambos faziam projectos para esse evento maravilhoso que os extrapolaria para a eternidade. A vida fluía, simples, por entre as dificuldades que surgiam dia a dia, pequenos nadas que os enervavam, problemas das famílias de origem para cujo entendimento apelavam constantemente ao amor que sentiam um pelo outro e por si próprios enquanto parte do outro, para se entenderem, para se continuarem a amar.
Foi ela quem sugeriu que fossem ao médico, que fizessem exames, para saberem a razão de não engravidar, se havia uma falha genética ou apenas biológica, se era possivel emendar o que estivesse errado. E foram.
Os resultados dela eram animadores, nada obstava a que tivesse filhos, ser mãe. Carlos, que tivera a coragem de se submeter ao teste, ao contrário de tantos outros, que sempre consideraram que o problema de gravidez era sempre da mulher e que quando elas, após um curto tratamento, apareciam grávidas, exaltavam as suas razões, de como estavam certos, sem cuidarem de por em causa se o filho era efectivamente deles ou de um outro a que a mulher cansada de se sentir desprezada, acorrera numa conjugação de afectos para ser mãe.
Sentiu que o mundo lhe caía em cima quando os resultados lhe trouxeram a evidência da sua infertilidade. Chorou, angustiou-se, sozinho na penumbra de uma casa de banho pública, onde se refugiara, como se sentisse todo o peso da multidão da rua, como se todos os olhos o apontassem como a causa e o efeito da sua nulidade procriadora.
À noite, no sossego da casa grande, Carlos e Clara discutiram a nova realidade, partindo do zero, ele colocou tudo à disposição da mulher amada. Podiam divorciar-se e ela encontraria um homem que a estimasse e lhe desse a possibilidade de ser mãe. Clarinha dizia que não, enroscando-se no corpo dele, á procura dele, do todo dele que se esvaía nas palavras. Podiam tentar a fertilização in vitro recorrendo a dador anónimo. Clarinha, que não, ser mãe só através dele, o seu amado Carlinhos. Ele insistia com soluções que ela podia ter um amante, de entre um dos amigos com quem simpatizasse mais, só por uns dias, até engravidar. Clarinha que não, que ele era louco, tolo, que perdera o juízo, ela aceitava não ser mãe, sem traumas. Era a vontade de Deus. Se Deus os juntara e Deus sabia que o sémen dele era infértil, ela submetia-se dócilmente à vontade de Deus. E abraçaram-se com ternura, beijaram-se, agarraram-se das palavras e dos sentimentos que deles saíra em votos de amor e fortaleceram-se na nobreza das suas decisões. Não seriam pais, nem biológicos nem afectivos. E selaram-se em sexo, como nunca até então, num frenesim de amantes na doce loucura do amor.
III
Clara conheceu um homem mais velho de quem se tornou amiga. Apresentou-o ao marido e falaram de generalidades. Era um homem de palavra fácil, palavras sedutoras que atraíam imagens de sonhos inventados. Ele falava de tudo com naturalidade, de sexo, de amores, infidelidades, de prazeres que a libido construía sem que a pudéssemos controlar. Falava de aromas e sabores, de amores absolutos e ela, Clarinha, adorava ouvi-lo, de se confrontar consigo própria e com o seu amor próprio, que reafirmava a cada teste de Anastácio Bandarra, era assim que se chamava este amigo, que viera do sul com a intenção de se fixar no Porto, caso as suas ideias se consolidassem, se materializassem em alguém predisposto a aceitar as suas teorias de vulnerabilidade da alma, quando o corpo insiste para que se completem os ciclos do absoluto, no amor e na vida em amor.
Carlos Alberto tinha plena confiança em Clarinha, nem se importava que ele, Anastácio Bandarra, a tratasse familiarmente por minha querida amiga, ou simplesmente por querida Clarinha.
Acresce dizer que Carlos Alberto tinha concebido um dispositivo electrónico capaz de captar a grande distância imagens e sons, ainda que difusos e que colocara um em cada salto dos sapatos de Clarinha, era um sonho a realizar-se.
Não que a quisesse controlar, mas era a única possibilidade que tinha de testar o seu invento, e não dissera nada para não estragar a surpresa que lhe faria neste Natal, com as gravações de todos os passos que ela dera.
Anastácio Bandarra tinha uma fixação teórica em Clarinha, pela sua personalidade teimosa , mas dócil ao sentido das palavras, como se fosse uma contradição, um absurdo de ser e não ser, pela sedução do seu olhar e do seu sorriso, pela beleza do seu todo de mulher e considerava um desafio importante que ela se recusasse a ser mãe por amor ao seu marido. Era um homem a caminho dos sessenta anos, charmoso, cabelo grisalho e pele morena, galante no trato e quente nas palavras, que direccionava com precisão no rumo certo do que pretendia.
Ele convidou-a para saírem, num dia em que Carlos resolvera ir assistir a um jogo de Futebol que prometia grande excitação e Clarinha recusara acompanhá-lo, por não se sentir motivada para o evento.
Falaram da natureza, do mar, de países distantes, das relações entre homens e mulheres, de amor e de amizade, de amor de amigo, amor da alma que não tinha a necessidade de amar o corpo, de ter do corpo a fruição total ou abstracta.
_Sim, eu sinto uma grande amizade por ti, a que poderia chamar um outro tipo de amor, que não o que sinto pelo meu marido.
_E serias capaz de me beijar?
Clarinha corou e sorriu, olhando-o nos olhos e agarrando nos ombros dele deu-lhe um beijo no lado esquerdo do rosto.
_Já dei!...
Ele riu-se com gosto, gargalhou durante segundos entre sorrisos e palavras inteligíveis.
_Assim não vale, miúda querida. Eu dizia na boca, nos lábios, molhados pela língua, chupar a língua.
_Nunca beijei com a língua, apenas encosto de lábios, o meu Carlos não gosta. É tolo, mas eu respeito tudo do meu Carlos, o meu amor..
Anastácio Bandarra olhou surpreso a naturalidade daquela mulher que estava com ele, que ouvia dele as palavras e não desarmava de amar o seu marido, onde outras, carentes de fantasias eróticas, se deleitariam por envolver-se num romance de desvarios amorosos.
_Aluguei aqui uma casa, queres ver?
_Sim, não me importo.
Clarinha acreditava na sua intuição. Sentia que por vezes era demasiado crédula, alguma ingenuidade fora de moda, mas não se dera mal até então, se bem que neste momento, aquele homem era quase um desconhecido. Tinham-se falado à distância e era praticamente a segunda vez que se encontravam. Sentia sinceridade naqueles olhos, ainda que por vezes malandros, atrevidos, mas pareciam-lhe leais.
Anastácio Bandarra fechou a porta à chave, retirando-a da fechadura. Era um rés do chão alto, com grades nas janelas e com uma vista soberba sobre o Douro.
_Que tomas?
_Apenas água. Tens aqui uma bela casa!...E a vista é linda.
_Sabes, Clarinha, trouxe-te aqui porque quero dar-te todos os prazeres que ainda desconheces, chupar-te a língua em beijos ardentes de sedução, beijar-te o sexo húmido dos fluidos das sensações que te faço sentir, penetrar em ti no auge quase absoluto do prazer de dois corpos que se interiorizam, atingir o absoluto pleno dos corpos exaltados pela libido e fazer-te ter um filho meu, nosso que criaremos longe. Numa Ilha, se gostas de ilhas que pode ser a Madeira, ou nos Açores. Ou numa outra cidade, Nova Iorque, Londres, Paris ou Barcelona. Sou rico, viverás como uma princesa, serás mãe. Ser mãe.
As palavras sussurradas de Anastácio Bandarra, não a fizeram desviar os olhos do seu Douro amado. E foi dizendo, com a maior naturalidade, como se não estivesse refém de uma alma, ou pensamento, de homem alucinado por um objectivo em que ela era a razão.
_Mas sabes que só faria tudo o que dissestes se fosse com o meu marido. Amo muito o meu Carlos, de uma forma que não sei bem como explicar. Estamos casados há dez anos... Quando o vejo, ainda hoje, o meu coração acelera a 100 à hora. Contigo, só se me forçasses, amarrando-me, me violasses, me matasses e devassasses o meu corpo inerte. E eu não acredito que fosses capaz de o fazer. Sou tua amiga, só te quero como amigo...
Anastácio Bandarra olhou de frente aqueles olhos castanhos, límpidos, leais e ternos, onde toda a doçura de um coração bom se espelhava.
Alguém bate à porta com estrondo.
_Clarinha!...Estás aí, meu amor? Estás viva?...
Era uma voz ansiosa, aflita. Angustiada que repetia as pancadas na porta e os gritos que exigiam uma resposta rápida, antes que arrombasse a porta com a força que um homem vai buscar nestes momentos, vá lá saber-se onde .
_Estou aqui, meu amor, meu Carlos querido, não me aconteceu nada, não se passa nada.
Clarinha correu para a porta e apanhou a chave que Anastácio Bandarra lhe estendeu, abrindo-a e recebendo nos seus braços o corpo amado.
Carlos Alberto, o rosto congestionado pela angústia e a raiva, afastou-a da frente e brandindo uma faca de cozinha dirigiu-se para Anastácio Bandarra que se encolheu a um dos cantos da sala. Clarinha gritou-lhe.
_Não!....Carlos, meu amor, não faças mal ao nosso amigo, estávamos apenas em amena cavaqueira amiga. Não se passou nada de estranho. Apenas as palavras. Mas como descobriste a casa?
_Não se passou nada e estão aqui fechados? Ele queria por certo violar-te. Eu acredito em tudo de ti, que não vieste de livre vontade, mas ele...
_Vamos para a nossa casa, explicar-nos-emos melhor.
Clarinha aproximou-se de Anastácio Bandarra e deu-lhe um beijo sobre os lábios.
Saíram ambos, Clarinha e Carlos, de mãos dadas, serena ela e ele ainda inquietado pela ansiedade da busca e pela emotividade do encontro.
O carro parecia voar. Ele olhava-a docemente e ela retribuía com o seu olhar apaixonado de menina.
Já em casa, na casa grande que compraram com as economias de cada um, sentaram-se de frente , os olhos amantes de cada um em particular e do todo que são como um só.
_Foi apenas um teste que Deus me quis fazer. A ver, talvez, se estou pronta para mais dez anos de amor profundo com o único amor da minha vida, tu, meu Carlos adorado. E vai ser Natal...E tu? Como me descobriste, meu amor?
Carlos olhou-a surpreso, os olhos toldados pela comoção do momento, acreditando tudo dela, bebendo tudo dela, ele que acreditava que a mulher é que é o sexo superior, ou deveria ser. Descalçou-lhe um dos sapatos.
_Sabes Clarinha, meu amor, inventei um mecanismo que procurei testar em ti sem o saberes. Aquela maquineta que vês ali é um difusor e receptor de sons e imagens, com gps, ouço as palavras e sei sempre onde estás, se te acontecesse alguma coisa, como um rapto. A transmissão é feita através desta espécie de chip que introduzi no salto dos teus sapatos.
Clara Branca das Neves levantou-se e abraçou-o com paixão e êxtase.
_Meu amor, Deus testou-nos na totalidade da nossa pequena grandeza face a Ele e saímos ambos bem desse teste maravilhoso. Amo-te sempre!...Meu Carlinhos querido!...Feliz Natal!...
_Amo-te sempre, minha doce mulher!..Minha Clarinha amada!...Feliz Natal!...
E amaram-se noite dentro, já Natal, prendando-se de inusitadas emoções, num pleno absoluto de duas almas e dois corpos consubstanciados na plenitude infinita do amor.

Autor: J.R.G.

É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um homem, de uma mulher. Uma oferta de Natal ou aniversário.
Escreverei por encomenda, preços a partir de 60 Euros, de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.

J.R.G.

26/10/2008

LEILA - VIDÊNCIAS DA ALMA

A vida sempre lhe sorrira fértil em sonhos que se iam transformando em realidades que sugeriam novos sonhos, numa sucessão infinita de probabilidades pensadas nos sonhos e que partiam de si alegremente à conquista da luz e da alma que as solidificasse em realidade.
Vivia numa cidade pequena dos estado de Minas, mulata, de corpo altivo e olhos luminosos de uma vivacidade que a tornavam temida, porque as suas palavras eram cortantes, não ofendiam, mas cortavam dos sonhos alheios, a magia .
Casou e projectou viver em harmonia uma vida plena de momentos doces de felicidade. Sabia que dois destinos, duas almas, duas vontades, era algo de diferente, não era pai, não era mãe, era ela e um outro ser, um homem que lhe parecia uma alma capaz de complementar as insuficiências que via inscritas nos seu sonhos.
Tiveram três filhos, na ânsia de se multiplicarem, de se expandirem em amor. Três filhos lindos que eram o seu orgulho de ser mãe.
O marido de Leila, seu Raimundo, que sempre mostrara uma total afeição pela esposa, sofria de um mal psíquico que não estava totalmente descoberto, nem de si, nem em si e se mantinha num secretismo absoluto, no mais profundo leito da sua alma.
Um dia em que Leila saiu para umas compras de Sábado de manhã, ela que era uma mãe muito possessiva, terna, previdente, quando estava nas compras sentiu uma sensação estranha vinda de dentro a tomar-lhe o pensamento todo, a apertar-lhe o peito, a descompassar-lhe as batidas do coração. E deu como que um grito: Não!...e saiu disparada,deixando as compras no carrinho do super mercado.
Correu esbaforida para sua casa que era térrea e tinha um quintal grande onde plantava flores e alguns legumes para suprir necessidades básicas e que tinha um poço de grande profundidade, fundo escuro, fundo mágico onde o seu rosto por vezes ondulava quando atirava pequenas pedras para lá e as águas se agitavam em círculos luminosos que lhe transmitiam sinais.
E eram esses círculos ou sinais que a alertavam agora, para algo de terrível que estaria para acontecer.
O quadro que se lhe deparou era Dantesco: seu Raimundo amarrara os três filhos e os colocara num carrinho de mão de transportar terra e com um deles, que se debatia e gritava, em seus braços, preparava-se para os atirar para o fundo do poço.
Leila, manteve o sangue frio e pegando num ferro que estava por ali abandonado, ou que alguém , ou Deus, colocara ali, correu na direcção de seu Raimundo e zás, derrubou-o com uma única pancada.
Desamarrou os filhotes, chamou o socorro para o marido inerte e partiu para casa de um irmão, Flávio, que a acolheu e queria partir para acabar com seu Raimundo. Leila não o permitiu. Agora havia que partir para outra situação. Não podia continuar naquele lugar e não confiar mais em deixar seus filhos sós.
Entregou-se ao sonho dia e noite. Raimundo escapara ao golpe e estava no hospital se recuperando. Leila contactou seus irmãos que estavam em Portugal que, alertando-a para as dificuldades da integração a entusiasmaram a partir em vez de viver enclausurada no seu imenso Brasil tendo um marido fixado na morte de seus próprios filhos.
Congeminou o sonho, espartilhou-o, reuniu pedaços que colou, projectou sua nova vida num país estranho, mas onde a língua e a cultura se assemelhavam. Haveria de encontrar gente de bem. Consolidou o sonho como uma predição e era já a realidade que a transportava no enorme avião em que se estreava como viajante dos ares, tão próxima de onde lhe vinham os sonhos.
Aceitou a indicação de um irmão para que ficasse numa cidade pequena, junto ao mar, de onde sempre podia imaginar o seu Brasil ao fundo, quando se desce, seguindo a inclinação do por do sol.
Viveu dias de grande dificuldade, de não ter o que comer, mas as crianças era o que mais a incomodava, Ter comer para as crianças. Leila sempre acreditava que havia de criar seus filhos e só depois morrer. Projectou ajudas e encontrou almas que se dispuseram a dar-lhe ferramentas de defesa e de construção dos seus alicerces para sobreviver à enxurrada.
Gente certa no lugar certo e que tinha da ideia de proporcionar ensinamentos para pescar, uma outra realidade e que era a de que, até se aprender, era preciso ter de comer e onde ficar.
E foi assim que de sonho positivo em sonho positivo, extrapolando do sonho a sua realidade a que era e a que queria, que alugou casa, obteve ajuda oficial, sobrealogou a um amigo de infância caído do céu, um quarto vazio, e foi montando um salão de cabeleireiro para cujo sucesso muito contribuiu a sua arte, o seu optimismo e a partilha de tudo o que sentia de positivo com aquelas almas que a ajudavam.
Os filhos cresciam, saudáveis e felizes. Persistiam dificuldades, mas menores, um pouco mais de tempo, sem pressas, e conseguiria . Foi então que lhe sobreveio um diagnóstico médico que a deixou abalada. Seu rim estava desfeito, sem cura, era preciso encontrar um dador compatível urgentemente e a inscreveram desde logo em lista de espera para transplante e que procurasse junto da família, alguém que se dispusesse e fosse compatível.
Escreveu para Minas, a seu irmão Flávio, que era de todos o que sentia mais no interior de si própria e ele a ela, como se fossem ou tivessem sido projectados para gémeos.
Ele respondeu de imediato, que marcasse a consulta para os testes que ele vinha logo. E veio. Era uma tarde quente daquele Verão Estiado, o sol no pino do dia a transmitir força à sua alma sonhadora que acreditava com um sorriso num desfecho positivo que a libertaria do sufoco de se saber condenada a não cuidar mais de seus filhos.
Feitos os testes, o irmão era compatível e estava disposto a doar-lhe um rim para que ela sobrevivesse. Se tudo corresse bem, ambos festejariam o mistério da continuidade de suas almas sobre a vastidão do Planeta.
Leila lembrou-se de dar uma festa enquanto aguardava o dia ,já marcado, para a operação de transplante. Todos os dias eram uma festa do seu espírito positivo, mas esta seria uma festa em que reuniria amigos e amigas que sentia tão próximos de si que eram como se a sua alma poisasse em cada um deles sempre que queria descansar. Além de que a preocupava, não por si, mas pelo irmão. A operação podia correr mal e morriam os dois, mas podia morrer só um deles. Se fosse ela, já estava destinada, mas o irmão que estava são, seria uma dor que a acompanharia toda a vida se sobrevivesse. Mas queria acreditar no sucesso total.
A festa ia animada, noite dentro, Leila, seu irmão Flávio e os amigos, musica Brasileira, samba e canções de sucesso no Brasil e em todo o mundo. O telemóvel toca insistentemente, mas o ruído da música abafava, as vozes em uníssono que se reuniam na orgia das almas. Os copos de mão em mão, mais cerveja, caipirinhas, e é quando algo a aproxima do local de onde pode ouvir o toque nítido, agora evidente, do celular, que a chama.
Atende e ouve, do outro lado, como se de si,ou de um além estranho, a voz afável e quente que lhe diz:
_Leila!...
_Sim, sou eu!...
_Leila, ainda bem que está em casa. Temos um rim disponível, uma pessoa que acabou de morrer, tem de estar pela manhã cedo no hospital,seis horas. Pode?...Quer?:::
_Sim, lá estarei, vou já se quer!...
Respondeu tudo automático, como se fosse uma outra pessoa, uma outra de si, ainda longe da realidade da festa quando se virou e gritou num tom de alegria imensa.
_Gente!...Parou a música!...
Todos se calaram, os olhos apreensivos de entre a névoa do álcool, de entre o eco das cantigas da Pátria longínqua, atentos ás palavras.
_Gente, eu sabia, eu sentia que Deus não queria submeter o meu Flávio a esta prova de amor. Tenho um dador e vai ser já daqui a pouco que vou ser operada.
Um grito de alegria, mais cerveja, mais música e Leila e Flávio abraçados , chorando como uma só alma na orgia da festa.
A operação correu bem e Leila regressou a casa, casa vazia de seus amores, os filhos ficaram com um irmão dela até que tudo em si voltasse à normalidade. Vivia só, Leila, com seus sonhos, havia de ter uma casa dela, um marido que a respeitasse e que com ela quisesse romper as brumas que se envolviam no sonho. Ser feliz, criar os seus filhos.
No hospital disseram que se sentisse alguma perturbação fosse directo lá. Nada de outros hospitais.
Estava ela nas congeminações de tornar realidades novos sonhos, quando começou a sentir um calor imenso que a percorria e se instalava, como se um fogo de chama e labareda sem fumo, sem aviso prévio a quisesse consumir lentamente. Tentou levantar-se e caiu no chão, os pensamentos longe. Ouvia tocar o telefone, mas não via o telefone. O pensamento nos filhos, sentia que ia morrer. E não queria morrer sem ter cumprido o que achava de direito, ter os filhos criados, os filhos que salvara do poço, os filhos que não pediram para nascer, os filhos que eram toda a luz da sua alma. E o telefone que tocava e não o via, não sabia de onde esse barulho estranho que ela própria instalara. Ia morrer, Ia morrer...
Lá está, com esforço, arrastando o corpo cada vez mais pesado, o volume a aumentar, o seu corpo ainda esbelto, agora disforme,
_Leila!...Leila!...
Ouvia a voz de Ana, uma amiga de cá, do coração, da alma e a voz que não lhe saía....
_Ana, vou morrer!...
-Leila, vou já para aí, abra a porta e ponha um sapato, alguma coisa, que mantenha a porta. Vou já para ai...
Abriu a porta de baixo, colocou um sapato a impedir que a porta se fechasse e deixou-se ficar, sentia que a vida se esvaia de todo. Os filhos...
Ana chegou e depara-se com o quadro indescritível, o corpo inchado de Leila, a febre elevada e a voz dela, sussurrante.
_Ana, eu não vou morrer sem ter criado meus filhos. Me leva, Ana...
Ana chama a emergência, os bombeiros chegam rápido mas querem levar Leila cumprindo os preceitos legais, primeiro o hospital de residência. Ana discute com eles a urgência de a levar ao hospital que a operou, eram essas as indicações.
Exaltam-se, discutem e Ana toma uma resolução.
_Ajudem-me a coloca-la no meu carro eu levo-a!...
Os bombeiros Olham-na surpreendidos e executam o pedido. Ana parte a toda a velocidade.
Vai sem controlo emocional, olha o corpo de Leila que arde a seu lado, mal respira, julga que a leva morta, conduz todo o trajecto como se fosse uma outra pessoa e não ela. Vocifera contra o trânsito que lhe obstrui a passagem, buzina.
Não sabe muito bem onde fica o hospital mas guia o carro por estradas e ruas, sons e cheiros de um corpo que lhe parece já não ser. e, de repente, o nome do hospital ante os seus olhos, como se uma visão e não uma realidade, como se algo ou alguém que não ela a tivesse conduzido com a precisão infalível de um mecanismo irreal, absurdo.
Viu o corpo que a urgência levava e aguardou na sala um veredicto que se recusava a acreditar. Leila...
O médico surgiu como uma visão aos olhos de Ana.
_E então Dr.?...
_Salva por um milagre da prontidão com que a trouxe.
Leila, tudo projectado mulher, por entre as brumas do sonho



É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita de Natal ou Aniversário.

J.R.G.

14/10/2008

FEZ UM PACTO COM A ALMA

À Teresa no dia do seu 40º aniversário.

Soprava um vento forte com rajadas consideradas de tempestade, que encapelavam as águas quietas do mar.horas antes e agora alteradas, em cristas branqueadas de espuma que enchiam a alma de esperança.
Teresa tinha pelo mar uma paixão especial, desde criança, quando pela mão do pai e da mãe, passeavam nas tardes mornas do Estio ou nas manhãs ainda frias do começo do Inverno. O para lá do horizonte adensado em mistérios na sua imaginação infantil.
Cresceu feliz e sã e tinha sonhos que a acordavam de madrugada em sobressaltos de ser verdade ou impossíveis de acontecer..
Fez-se mulher no seio de uma família unida por laços indestrutiveis de amor. É uma sensação estranha, ser mimada a vida toda. Saber que ali, naquela casa onde dera os primeiros passos, onde fora concebida num acto de amor pleno de duas almas que se amavam como uma só, encontraria sempre abrigo, fosse qual fosse a tormenta da sua alma que se fazia à vida turbulenta como sempre ouvira dizer.
Era uma mulher bonita, esbelta de corpo, alegre e divertida, inteligente e decidida. Era uma mulher apaixonada pela vida, sem medos e agora, debatia-se com a paixão de ser mãe.
Casar ou não casar, como sempre acontecera na família, ou fazer uma experiência e outra, até achar o seu príncipe, o que ela considerasse o melhor pai para um seu filho. Ser mãe!...
Casou e teve um vida atribulada. A vida a dois, sem a proximidade da protecção a que fora habituada. A profissão de professora que escolheu, para ser ela a fonte que formaria novas energias, inocente de saber que lobies importantes não tinham os seus sonhos em consideração. Em cada ano uma colocação diferente, e longe. sempre tão longe de quem amava.
A vida de casada não foi um sucesso. Fazemos sempre ideia diferente do que vemos acontecer ao lado de nós. Viver o acontecimento é completamente diferente. Exige de nós uma adaptação a um outro e do outro igual, mas se não houver essa vontade do outro, os nossos esforços esfumam-se em violentas desilusões.
A paixão não deu lugar a amor. Uma ténue amizade e dor. Problemas complicados sobreviveram e instalaram-se não permitindo a continuidade da relação. A separação provocou agitação em todas as entidades que a animavam. Ela própria sentiu que algo se alterara em si. Sentia iras súbitas e alegrias incontidas, num turbilhão sem sentido que a fragilizava face ao todo que construíra, ou que almejara construir. ser mãe!...
Teresa queria acreditar que a felicidade era possivel, ser mãe e encontrar um homem, o seu príncipe que ela desencantaria ou que a desencantaria a ela, agora que descobrira o seu corpo, que o procurava destrinçar do aglomerado de conceitos que sempre a consideraram perfeita e exímia de sedução.
Casou de novo, com um amor que pensou consolidado em ampla amizade. Um homem que carregava um desenlace de frustrações amorosas, como ela própria e que sonhava uma família para a eternidade.
Teresa sabia agora que as ilusões se desfazem com o correr dos dias, a aproximação de dificuldades, ou a desconexão de pensamentos sobre determinadas matérias.
O ser é feito de conhecimento, de cedências e de absorções estranhas que visam complementar o ser mais. A aceitação do ser, por nós e ou por um outro que queremos de nós, carece de vontades e respeito, de amizade e amor sinceros, gratificantes, livres.
E teve um filho. Uma criança linda e cheia de carácter que expandia luz e amor. Um momento alto de grande felicidade.
Há seres para quem a felicidade parece ser um íman de atracção continuado de parcelas fatídicas da vida. Com a consumação de um sonho, ser mãe, como se a mente ciosa de ter perdido alguma supremacia sobre o corpo, a quisesse desligar da alma que a engrandecia como mulher, sobreveio-lhe um problema , talvez antigo, talvez adormecido, que lhe provocou descontinuações constantes da sua forma de viver feliz.
Teresa vacilou. Deixou que alastrasse, que se evidenciasse toda a extensão e solidez do problema. Questionou. Questionou-se. Procurou mais informação nas mais diversas instância do saber. Desceu ao fundo do corpo, da mente. Agarrou-se à alma que sempre a alentava, a sustinha na deriva que parecia tomar conta dela, por momentos.
Olhou o filho rabino, traquinas que crescia desenvolvido, como o amava!!!...Olhou-se de novo, como se fosse a primeira vez ,para que não a influenciassem olhares antigos de que se sentia traída. Para que não subsistissem dúvidas de si sobre si e agarrou-se à alma, definitivamente, e fez com ela um pacto secreto, para sempre...para ser...sendo...

21/09/2008

O DIA " D " DA ALMA APAIXONADA

O DIA D DA ALMA APAIXONADA
***
O dia amanheceu cinzento, o que não impedia que uma alegria excitante lhe comprimisse o peito e o pensamento. Cantarolou no banho, em Inglês para não perceber o sentimento das palavras que assim soavam a frio. As mãos deslizando sobre o seu corpo, em movimentos voluptuosos, sobre os seios, o sexo, as pernas bem delineadas, o ânus e tudo a excitava como nunca antes e a inquietava, porque não era de sexo a inquietação, era de paixão.
Estava magnifica e o sorriso aberto, os olhos brilhantes de emoção, o vestido azul escuro orlado a branco nas mangas curtas e no decote acentuado que deixava a evidência sedutora dos seios firmes e harmoniosos como conjunto.
A alma suspensa do lado de fora do seu corpo, acentando que sim, que estava bela e podia confiar que de dentro de si, tudo era perfeito, a decisão de participar na festa, de se encontrar com a alma agora em corpo que a provocara apenas através de palavras e que se fora tornando uma presença forte no interior de todo o seu ser. Era como se a tivesse escolhido, a ela Cristina, sem a saber ou sabendo-a, por absurdo que pareça, a arrastasse.
O esconde esconde acabara, se ele tivesse a coragem de aparecer como dissera.
Incomodava-a que estivesse rodeada de amigos e amigas. Preferia,talvez um encontro mais romântico onde pudesse dar liberdade a toda a compressão por meses e meses de quase asfixia emocional. E entregar-se finalmente, saciar de si e dele toda a a virtualidade do desejo.
É verdade que pelo caminho houve um desencontro, como que uma raiva exacerbada pelo desprezo que sentira na recusa dele em se encontrarem no auge da paixão.
O outro por quem julgara apaixonar-se, ou quisera apaixonar-se em oposição, tinha um estilo parecido na distância, tinha no amor expresso nas palavras, a mesma sensação de absoluto que ela encontrara no amante suspenso, tanto que a confundira e deixara-se enredar e enredara, em palavras sublimes que nunca até então dissera a mais ninguém e ele cantara-a como ela gostava de ser cantada e fizera dela um outro ser, dera-lhe uma outra dimensão que ela possuía amordaçada. Mas quem ela amava, a sua alma a induzia era o que tinha mais afinidades com o seu sonho de mulher.Seria?...
Bateram à porta do quarto do hotel e sentiu um tremor de dentro da alma. Era a Vitória, por certo. Combinaram que a levaria de carro até ao local da festa. Foi ver. E era.
A Vitória era uma amiga de corpo e alma, inteira. Toda ela irradiava alegria, se bem que os olhos, de um castanho diferente, âmbar cristalino, encobria algo que parecia tristeza, mas o sorriso, as gargalhadas esfuziantes que soltava, onde só um sorriso bastava, faziam da sua companhia um elixir de boa disposição.
- E então? Preparada? Cristina olhou-a entre surpresa e agradecida. Só ela sabia desta paixão que a consumia nos dias de silêncio entre si e a alma, diálogos surdos com imagens distorcidas. Olhou-a nos olhos e sorriu.
_Há meses que espero este dia. Tenho tudo resolvido no interior de mim. Sei que o quero fazer...
O local, fora do bulicio da cidade, era aprazível, quase paradisíaco. Pelo caminho foi atendendo chamadas enumeras de amigos e amigas que já tinham chegado ou que iam a caminho, indagando se sempre chegara a tempo, se estava demorada, trocando felicitações mutuas.
Cristina sentia-se a rainha da festa. Seria uma festa dentro da festa. E estava bela, superiormente bela, porque a expectativa de felicidade torna as pessoas ainda mais belas.
Havia gente que falava e ria do lado de fora da sala onde iria decorrer a conferência
Amigos, amigas, desconhecidos e ele. Lá estava, a figura exaltante da paixão, o homem cujo sentido das palavras a prendera, a transbordara da alegria de ser possível encontrar o príncipe vindo das trevas envolto em brumas cativantes. Agarrou com força o braço de Vitória, como se vacilasse e seguiu determinada.
Cumprimentou todos os amigos, os olhos dela húmidos das pulsações aceleradas do coração e fixos na imagem do ser amante, a figura benéfica do seu corpo que se movia em volta da mesa dos bolinhos e canapés. A graciosidade com que pegava no copo do aperitivo. Alto e bem parecido.
_Cristina, estás linda, mulher, espero que questiones o orador com algumas das tuas máximas infalíveis.
_Ana Maria, não me provoques. Vou dizer-te ao ouvido para não melindrar as outras. Tu sim, és a mais linda da festa e já sabes que vim para conviver, aprender, amar de todos vós e ao vivo. Eu sei tão pouco....
Viu-se rodeada de todos eles, como íman que atrai, poderoso e belo. E ria-se. Cristina
Quando por fim lho apresentaram, foi Vitória que já o conhecia, que lhe propusera a ele a apresentação formal e ele acedera, alto, espadaudo, o cabelo grisalho, curto, sorriso enigmático e os olhos perspicazes de falcão real que aquilata do valor da presa. A sua voz soou quente e terna,sem tremor, confiante.
_Há muito que ansiava conhecer-te. Sou o Samu.
As mãos dele nas dela, quentes e húmidas, as dela que tremiam e a voz de Vitória a dizer que apertos de mão já não se usam a incentivá-los ao beijo, ainda que nas faces, a permitir que se cheirassem.
_E eu a ti...Eu sei...
Trocaram beijos lentos nas faces e tocaram-se. Ela sentiu o orgasmo que desde há instantes se perfilava no limite do possivel para se expandir, se soltar de si, das entranhas que estremeciam a cada batidela descompassada do coração. Teve um desejo louco de o apertar de encontro ao seu peito arfante, mas conteve-se ou foi contida por Vitória que a levou pelo ombro, para que entrassem que a sessão estava prestes a começar.
Cristina sentou-se no lugar com o seu nome e a seu lado Vitória e do outro lado de si, Ana Maria, perto, um pouco triste, a aperceber-se da teia que se desenhava, o companheiro de estudos, embevecido da figura dela e talvez perfilado na expectativa de beber um pouco do seu suco amoroso, Pedro Ramires, um homem de um humanismo transbordante em tudo o que tocava.
O orador, cientista da palavra e do comportamento humano, reconhecido mundialmente pelas suas ideias sobre o condicionalismo do individuo face ao e em face do cosmos, extrapolando do cognoscível para o imaginário reflectido em inúmeras experiências com cobaias de pensamento livre, estudos da mente e das almas que se manifestavam em cada vez maior número no sentido do que profetizava.
Cristina fixa no orador e na figura de Samu, o homem da sua vida que se sentava duas filas à frente da sua, erecto na postura que denotava atenção e distanciamento.
Queria ouvir o orador, por vezes alguém a pisava para que despertasse, vendo-a aérea. como não estando no lugar mas em outra instância da razão.
Pelo seu cérebro só dava Samu. A voz dele a seduzi-la. Tudo o que ele representava na sua vida. As cartas em que falaram apaixonadamente do dia em que se encontrassem para se terem. Os projectos a dois onde ela se encaixava perfeitamente como sonhara desde sempre. A aquiescência das almas em sintonia de vontades. O aroma do seu corpo, os seu olhos. Uma dúvida, os olhos ao vivo pareceram-lhe frios, diferentes das fotos sem brilho nem vida. Talvez fosse da surpresa do momento.
A sessão estava agora numa fase de perguntas. Pedro Ramires interrompeu-a, nos diálogos com a alma, para lhe dizer.:_Cristina, que foi que disseste?
_Eu?!...Não disse nada.
_Fizeste uma pergunta, a sala está parada à espera porque não foi muito perceptível.
Fez-se escarlate por sobre a pele morena. Falara, dissera algo?... Só podia ser a tal força de dentro dela que se evadira no silêncio dos pensamentos e conjecturas que fazia. Viu os olhos dele que a fixavam, duas filas à frente. Samu...Julgou que sorriam, os olhos dele.
_A essência. Há um momento em que se subdivide, se reparte em aspectos de alma.
E voltou ao silêncio de ouvinte. O orador explicou, explicitou, sorriu e contou uma metáfora Índia.
_No silêncio das almas, nem "Manitu" ousa entrar...
A sessão, aguardada com tanta expectativa, estava a tornar-se dolorosa. Nem mesmo a pausa para o almoço e em que Samu se juntou ao seu grupo de amigos e falaram apressadamente de assuntos triviais, agora triviais. Os olhos cúmplices a traírem-se dos outros que os viam, surpresos a indagarem ....
continua...


É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.

J.R.G.

18/09/2008

BRASIL - BRASILEIROS - A RECONQUISTA

Brasil. A grande colónia que virou maldição.Era tanta a riqueza e a extensão de território que se julgou que Deus tinha premiado a aventura de um povo pequeno e louco. com um reino Paradísico e infinitamente rico.
Um dia, alguém descobriu que o Brasil perdeu os Portugueses de si próprios. Reduzindo-os a esta incessante procura de uma identidade vencedora que se esvaziou de nós desde que o ouro fácil, os diamantes e o frutuoso comércio de escravos, tudo tão fácil de obter, se estancou lá de onde vinha, para servir uma outra classe de vampiros, gananciosa de poder e que vinha conspirando na sombra contra o envio da riqueza para os madraços de Lisboa.
O Brasil continuou, durante muitos anos, a ser a porta de escape dos que, fracassados nas suas terras, se metiam ao caminho, valendo de tudo para lá chegar: cartas de chamada, clandestinamente a bordo de navios mercantes, como marinheiros ou moços de fretes, e já então através de máfias suficientemente organizadas.
Com o advento da Democracia Portuguesa e o crescimento económico que a adesão Europeia vinha proporcionando, a realidade alterou-se e virou sonho de efeitos controversos.
Os Brasileiros procuraram sair do Brasil em massa, asfixiados por uma inflação galopante, e seduzidos pelos relatos de compatriotas mais ousados que mandavam noticias do novo Eldorado: Portugal. É que se não desse certo aqui, sempre tinham a porta aberta para a E.Europa, onde a riqueza da economia se mostrava consistente e imparável.
Márcia, vivia no estado de Goiás e tinha um pequeno salão de cabeleireira, casada com Flávio, mulher bonita, alegre e plena de vida, não via como mudar o seu Flávio, madraço, vivendo ás sua custas e quando a coisa apertava, virando-se para os pais, pedindo ajuda que sempre vinha.
Um dia, desafiado por amigos e pela irmã a viver em Londres, meteu-se à aventura da nova Europa. Veio só, Márcia e os filhos ficaram a aguardar que ele se instalasse.
Chegado a Paris não o deixaram seguir para Londres. Ficou desorientado sem saber o que fazer. Falou ao telefone com Márcia, falou com mamãe, falou consigo próprio, ouviu os amigos na mesma situação e resolveu seguir para Portugal.
Arranjou trabalho pesado, foi aldrabado, humilhado na sua condição de noviço, mas foi aprendendo. Mudando de trabalho, aprendendo artes e manhas. Inscreveu-se num curso de canalizador e montou uma pequena empresa com outro brasileiro. Legalizou-se e mandou vir Márcia e os filhos.
Márcia chegou e viu em que se transformara seu Flávio. Um homem dinâmico e com objectivos. Um trabalhador exemplar. Os filhos inscritos na escola, Márcia arranjou trabalho numa pastelaria onde já havia outros Brasileiros. E foram alimentando o sonho de voltar a Goiás com um pedacinho mais de dinheiro para recomeçar vida nova na sua terra natal.
Os filhos cresceram, Rubinho, o mais velho já está tirando um curso de informática e elegeu a sua nova Pátria para fazer carreira, Taís, na idade púbere, só pensa em voltar, seus amigos, suas amigas e todo um mundo inventado que deixou há já três longos anos.
O Cruzeiro valorizou face ao Euro e as condições de poupança não são as mesmas agora que eram a quando da vinda. Mas o sonho está lá, como que a justificar a continuidade da descoberta.
Celsinho também tem um sonho, voltar e ajudar sua família, construir uma casa nova, casar com sua noiva que ainda o espera.
Os Brasileiros e as Brasileiras instalaram-se para ficar, como todos os emigrantes, eles ocupam hoje uma faixa considerável em muitos aspectos da vida Portuguesa e estão a mudar Portugal.
São médicos, enfermeiras, cabeleireiras, trabalhadores dos serviços, administradores de empresas, atletas de alta competição, pastores evangélicos...
As cores das suas vestes, a sua alegria contagiante, o seu positivismo face à adversidade, entraram no coração e nos hábitos de um povo que era triste, que sempre foi triste, e que abraçou, desde as telenovelas, uma nova relação de proximidade com a sonoridade da voz e a ternura dos modos. Os brasileiros são hoje uma mais valia para os Portugueses.
Relembro a enfermeira, linda, morena e linda que me falava, cantante:
_Está doendo? Estou sendo mázinha, mas é para seu bem?
E o meu sorriso que aceita a pica sem um ai.

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É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita de Natal ou Aniversário.

J.R.G.

31/08/2008

SAMSARA- DIÁLOGOS DA ALMA

Quando o comandante do avião anunciou a descida para o aeroporto do Funchal, um tremor de emoção percorreu o meu corpo adormecido, acordando-me de um leve torpor e deixando retidas na minha memória imagens fantásticas de nuvens a galope, sobrepondo-se umas ás outras em imensos flocos de uma brancura e de uma leveza sensual.
A dada altura, provavelmente por a descida ser bem acentuada, a pressão que se faz sentir, parece querer fazer saltar todo o cérebro, numa sensação estranha que eu já tinha sentido em África, quando viajei num pequeno avião de guerra. As entranhas a quererem saltar, todo eu. Surdo, abrir as maxilas. Uma dor fortemente aguda nas frontes. A impressão de que o cérebro vai rebentar a todo o momento. O susto e o toque salvador das rodas na pista.
Chegar numa manhã de Domingo, o Sol castigador, desde logo cedo.
Enquanto espero as malas da bagagem, acendo um cigarro e olho em volta. E dou de olhos nos teus olhos, castanhos, refulgentes de vida mas tristes. O que sobressai de ti é o sorriso, imenso de simpatia, de sinceridade plena.
Quando deste por eu te olhar, os teus tomaram uma atitude altiva. Levantaste um pouco mais os teus belos cabelos castanhos que te caíam sobre os ombros. Bonita, pensei, mas estranho aquele olhar e o que vai naquela alma.
Absorvido nos meus pensamentos de ti, deixei cair o isqueiro e tu apressaste-te a apanhá-lo. Os meus olhos nos teus olhos e o teu sorriso.
“Olá. Chamo-me neoabjeccionismo e sinto que na temperatura amena da Ilha mais cosmopolita, o teu rosto é um mimo de encantos. e a imagem de Princesa Esquimó, um sonho de mudança”.
Levantaste-te com um ar irritado pelo tom atrevido das minhas palavras. Nem eu sei porque as disse, como fui capaz de as dizer. Foi um impulso abusivo de mim, de algo de mim que subiste em mistério. Os teus lábios fecharam o sorriso, uma nuvem espessa cobriram a retina dos olhos que antes brilhavam, e disseste, a voz trémula, grave
“Não sei se dê a boas vindas a uma pessoa que se chama "neoabjeccionismo". Os teus pais não gostavam de ti, ou o "Neo" quer dizer algo "muito à frente" que só um Uraniano compreenderia? Mas como sou um Rato Balança...Vou dar o benefício da dúvida e vou mesmo fazer um esforço para acreditar que o que disseste é cheio de boas intenções. Sou a Samsara.
Chegaram-me as malas e a pessoa que esperavas e saíste deitando-me um olhar de despeito.
Chegado ao hotel tomei um duche para me refrescar e fui ver a Cidade.
A primeira impressão de uma estranha e sensual beleza. O asseio nos passeios. O casario subindo os declives, o mar azul e a lembrança de miúdos, quando brincávamos no juncal, em jeito de desafio.
-É malta, levamos uma chata e vamos a remar até à Madeira. No mapa era como se a distância se medisse com um palmo.
Estava tão longe de um dia ser possível realizar esse sonho. E aqui estava eu. Madeira, a Pérola do Atlântico.
Comecei por vaguear por toda a parte baixa da cidade, encantando-me da arquitectura, das belas mulheres encaloradas, de múltiplas Nacionalidades, da vista sob as íngremes montanhas, até aos picos, nublados por densas nuvens, aqui e ali deixando que se abrisse o azul do céu.
A marina e os restaurantes em forma de barco, ou mesmo de antigos barcos recuperados para o efeito, A alameda ajardinada e embelezada de quiosques entre palmeiras e outras plantas e flores exóticas.
Percorrer a via Atlântica, longa e recheada de motivos de paragem, a fortaleza, os jardins em escada que vão dar ao casino e os próprios jardins do casino, de plantas luxuriantes e lindas de uma beleza de verdes e multi cores que contrasta com a imensidão azul do mar.
E como aquilatar da beleza sem ter por oposição a coisa feia, o desajuste da harmonia que se sente em canta encanto. Nos olhos das pessoas que não sorriem. Nos miúdos andrajosos que vagueiam desajustados do fausto da paisagem. O clima quente e húmido que me cola a camisa ao corpo.
Eu fora convidado para a inauguração duma livraria que se propunha ser um veículo de cultura, moderno e diferente de outros modelos já existentes na Cidade, a temática da cultura para todos e ao serviço de todos, as novas fronteiras do conhecimento e do saber...
Jantei nos Combatentes, servido por empregadas de Libré e um sorriso de enorme simpatia, em frente um dos belos jardins da cidade.
Quando cheguei ao local do evento, no Madeira shopping, a noite descera sobre a cidade e mostrava-me um deslumbrante espectáculo de cor e luz, das casas que subiam a montanha em toda a volta para onde eu olhasse. É um êxtase.
Já havia muitos convidados que se passeavam de copo na mão e petiscando das iguarias espalhadas em pequenas mesas ao redor da sala. E dei de caras com ela, que se ria em cristalinas gargalhadas com um grupo de amigas e que se quedou ao ver-me, de repente, como se de um fantasma.
Sorri para ela e disse em jeito de cumprimento:
“Olá, Samsara, para quem me dá um desprezível beneficio da dúvida, vê-la duas vezes num mesmo dia, não está nada mau. Quero reafirmar a sinceridade do que disse. E quanto ao neoabjeccionismo, é uma corrente de escrita, como que uma filosofia do desespero, que deriva do abjeccionismo, que não procura ofender ninguém em particular. E não me pareceu nada ético, que da sua principesca tribuna tenha chamado à vida, os meus falecidos pais. Mas vindo desta região , já nada me admira”
Tinha-se feito um silêncio em volta. As tuas amigas não perceberam o que se passava, o porquê daquelas palavras e ditas com um sorriso. Tu ficaste vermelha , mas os teus olhos brilhavam e intempestivamente largaste uma sonora gargalhada.
Uma das tuas amigas, a Luísa não gostou do meu tom, nem de algumas das minhas palavras e sem rodeios, citando-me, para melhor se situar:
“ “Mas vindo desta região, já nada me admira?”...Que engraçado, pelos vistos não a conhece, a Samsara não é Madeirense. Apenas costuma dizer que se sente mais Madeirense. Ou está a dizer que as gentes do Continente são mal educadinhas? Hum...talvez seja mesmo isso que quis dizer.
Ups...ou será que não?...”
Luísa, penso num relâmpago, tão bonito o teu rosto, tão jovem, os olhos grandes cintilantes, os lábios sedutores, o cabelo negro, a tua pele. Uma beleza que dói de olhar. O teu ar de desafio a parecer uma galinha da Índia empoleirada. Mas séria.. e ainda uma menina...
A anfitriã interrompe o nosso diálogo, surgindo admirada por nos ver em acalorado diálogo e sem se aperceber que eram tensas as palavras trocadas sob o ruído das conversas envolventes.
“Viva, Neo, Chegou e nem dei por si. Mas vejo que já fez amigas!...”
Carla, tinha vindo dos Açores apaixonada por um homem que lhe prometera a Lua e o Sol, sem se aperceber que o Sol e a Lua eram dois amantes condenados à solidão estática da distância. Que se encontravam de tempos a tempos quando, por motivos cósmicos, um deles eclipsa o outro dos nossos olhos. Desesperara de raiva porque se tinha entregue na sua totalidade à ilusão de um amor eterno, que não soubera distinguir da simples atracção física e do encanto das palavras galantes. ”Carla!...Valquíria da Terceira!. Exclamei, beijando-a nas faces coradas pelo ambiente ou pelo champanhe que já corria de boca em boca, gelado, doce entre acepipes de sabor contrário.
“Faço já as apresentações. A Samsara- Ui...o teu perfume, mulher, os teus lábios quentes sobre a minha pele, a sensação de frescura que deixaram. – A Luísa...- o teu beijo de lado, em falso, descomprometido de qualquer sentido que indicie amizade, mas o teu aroma a chegar-me fresco, sedutor, inocente. - A Anabela...tens um olhar longínquo, ausente, como se procurasses alguém em abstracto, mas és bela e o teu sorriso aprisiona-me. - E esta a Infiel.., o teu abraço confiante, expansivo e os beijos nas faces quase a tocar-me os lábios, atrevida, como se me quisesses sorver no momento. - Desculpem, meninas, mas vamos começar e o Neo vai ter que se sentar na mesa dos discursos..

nota:" o texto é pura ficção,qualquer semelhança de nomes é pura coincidência."
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É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.

J.R.G.

28/08/2008

A N A B E L A - DIÁLOGOS DA ALMA

Anabela!O que tem a Anabela? Hã???? Foi assim que tudo começou, naquela tarde Primaveril, o sol atormentado com um compacto de nuvens vindas de Norte. Imaginei, desde logo, o fogo que ardia no teu peito. O fulgor enigmático nos teus olhos castanhos. A beleza que sobressaia da tua alma aflorada apenas na tua interrogação.
Anabela. Hã!!!??? Que se passa amiga? Fui ver. E lá está de facto ...a Anabela... antes de loucos e depois de a voz ouve-se...E penso na virtude que é ter a fortuna de te haver achado entre a palavra loucos e a palavra voz e não saber o motivo. Sonhei-te. Já sei! Tínhamo-nos cruzado no blog de Samsara . Tinhas feito um, desafio, após uma prédica aos loucos . E eu ia perguntar a Samsara se a Anabela era sua amiga. foi isso. Só pode. Apareces sempre tão misteriosa, vais e vens pelos caminhos do Planeta Terra. Não dizes de onde vens, quem és, para onde vais depois de aqui, só sabes que vais pelos teus próprios pés. Saúdo-te mulher bela e formosa, e a harmonia das palavras que já de ti ouvi. O teu rosto é sereno, sabe à lírica de doce poesia. E porque não comentas a saga dos amantes desesperados, afogados em volúpia de prazeres sórdidos mas reais.? Amiga, não se passa nada. Tão só o que te expliquei acima.
Anabela a tua exclamação e o tom irritado, quase colérico da tua voz, sentida, inspirou-me esta breve composição. Achas que me saí bem? É isso, julgo que ia escrever a pergunta, se ela sabia quem eras, ou para não formular toda a pergunta deixei em uma espécie de código. Que pelos vistos a dita Samsara não ligou muito porque nunca mais me respondeu.
Fazes um compasso de espera na penumbra da sala onde o computador sobre a mesa repousa das consultas frenéticas que executas amiúde, para saberes de ti, a informação conflituosa que te vem de fora do mundo, do teu mundo, e onde reaprendes o retorno das palavras, a sua acutilância em aspectos importantes do teu viver.
Estás enganado Neo.Digo quem sou, sim...devo ser a única que assina com o seu verdadeiro nome...já te disse de onde venho...que queres saber mais?Olho de onde me vêm as tuas palavras, suaves, quentes, irritadas, ou serão maliciosas?O que eu queria e não digo, penso apenas à espera de ter a coragem de te dizer, era saber o lugar onde nasceste, onde correste a infância e viveste a adolescência, onde amaste pela primeira vez, onde aprendeste os segredos da descrição, a sublimidade dos gestos e da sabedoria. De onde vieste menina para continuar o sentido de ser mulher. Se amas, se és amada, se queres amar se esperas por ser amada, se sofres...
Anabela.Admiro-te pela graça, pela ousadia e o tom das tuas palavras. Imagino que és uma mulher de grande sensibilidade. Que estás ferida de uma qualquer situação mas não sentes ainda, espero que venhas a sentir, a confiança neste espaço onde entraste e só viste mixórdia e insanidade, ou aparente insanidade. Quero dizer-te que aqui tudo é falso menos as palavras de todos os intervenientes, eu devia falar só por mim, mas atrevo-me a acreditar nas análises das palavras e a atribuir-lhes vida e conexões várias de per si e entre si. ( e da música, gostas?), Quem aqui entra é porque está interessado na procura, para mais se entra e fala. Tu falaste minha amiga, e eu acredito que tens de ter algo de mais substancial para nos ajudar e te ajudar na busca do sentido dos desejos, de como desmistificar os dramas que as pessoas enfrentam e fortalecermos a confiança de cada um para enfrentar-se enquanto destino.As tuas palavras acima, querem dizer intervenção. E eu digo que sim, intervém. Ganha confiança em mim, em nós.
A tua voz ainda soa longe do tom amigo e fraterno com que te falo, com que tento ganhar-te, porque te sinto importante, porque a tua luminosidade confunde-me com o êxtase da Luz Divina, e quero beber de ti, imbuir-me de ti...Neo. Não sinto confiança, pois para esta existir, a meu ver, tem que se olhar para a outra pessoa, sentir o seu olhar...podemos trocar ideias, espicaçar-nos mentalmente, aprendermos coisas uns com os outros...mas confiar plenamente?... desculpa-me mas não consigo...Espero ser uma mulher de grande sensibilidade...e por isso mesmo sinto também quem tem essa sensibilidade...a Samsara, por exemplo, é de uma sensibilidade extrema, linda como só ela..

nota parte ( II ) esá editada no blog http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt/
parte (III) está editada no blog http://samueldabo.blogs.sapo.pt/



É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.

J.R.G.

19/08/2008

UMA HISTÒRIA DA VIDA - O COXO

O Cocho e eu tínhamos um compromisso de partilha, selado na taberna da Americana num dia chuvoso de Dezembro, e frio, entre dois cortadinhos de excelsa qualidade, que ele bebia de um trago, numa pausa, enquanto eu os sorvia gole a gole, guloso de os saborear com evidente luxuria gustativa.
Ele desabafava de si, do interior de si, as memórias de acontecimentos da sua vida simples, eu ouvia-o .O sr. Manuel, como vimos anteriormente em http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt/ ,.
O COXO, ficou sem uma perna e usava uma prótese artificial metálica, que os anos tornaram obsoleta, mas era o que tinha e que concertava inventando enhenhocas, sistemas alternativos de molas e engates com arames, de forma a torná-la funcional.
Tinha quatro filhas, a Gi, a Bé, a Lu e a An. Quatro lindas meninas criadas ao sabor do tempo e de uma ampla solidariedade, num tempo em que vingava um tipo de humanismo saído da Revolução Francesa e que vinha vingando na civilização Ocidental, permitindo olhar para o homem como um ser infeliz de se encontrar amargurado ao levantar e bêbado ao deitar e que era preciso dignificar, estabelecido o conceito de ter o homem como fim., para cujo alcance valiam todos os meios: declarar a guerra, roubar, espoliar, prender, arrasar a natureza e exterminar os animais "nocivos" ao homem.
O pais vivia sob uma ditadura politica e económica, em ambiente semi rural, vida simples, beatificada pela Igreja e o temor a Deus e aos poderosos.
O Coxo viera para Lisboa ainda novo, ordenhara vacas e fora condutor de sidecar, ficara sem a perna, como vimos,e no tempo que vamos descrever, no inicio dos anos 50 do século XX, o coxo era continuo numa instituição de " previdência " do estado.
Casara com uma mulher oriunda de famílias poderosas, mas que fora excomungada, deserdada à nascença, em virtude de dois acontecimentos, o pai ter casado a contragosto da família, com uma mulher de meio diferente e por ter nascido gémea, as duas tão sem graça, felosas, e haver uma outra menina esplendorosa, irmã mais velha que morreu pouco depois por ciúmes? constituir o motivo de as considerar culpadas de terem nascido. Só a Maria sobreviveu, destas três e logo que ganhou corpo foi posta a servir em casas de famílias.
O Coxo conheceu-a como sopeira e viveram uma relação apaixonada. Maria era uma linda mulher, analfabeta, mas linda. O Coxo ainda frequentara a escola, sabia ler e escrever um pouco. Era um homem bonito, bem parecido, baixo, moreno, olhos escuros e vivos.
Ele já tinha mais de quarenta anos, ela à beira dos trinta. Ela deserdada pelos seus, ele deserdado pela vida e estavam na iminência de herdar uma família.
Maria ficou grávida e logo pensaram em casar, porque o Coxo era homem de palavra. Gostava dela e queria seguir o tempo. Se o tempo era o mestre, como que um Deus, se havia um mínimo, uma base de partida, uma casa de família para os abrigar, se havia a possibilidade de uma casa social, era dar tempo ao tempo.
Nasceram as três com intervalos curtos. A Gi, a Bé, a Lu, esta já na casa nova. Maria trabalhava agora numa fábrica de conservas de peixe que abrira de novo. Trazia peixe escondido entre as mamas. O trabalho de continuo acabara porque o Coxo apanhou tuberculose. Esteve à morte, mas o tempo deu-lhe a mão, recuperou-o para o que havia de vir. E tornou-se carpinteiro de arranjos e de pequenas peças de utilidade que fazia no quintal da casa, sob um pinheiro manso, frondoso e entre canteiros de uma horta que lhe
fornecia a sopa. Tinha arte nas mãos calejadas que lhe advinha da alma simples.
Havia momentos de alegria, as raparigas faziam peças de teatro inventadas na imaginação,
por histórias e anedotas picarescas que o Coxo contava e pelos livros de leitura que a mais velha já lia e crescia nos enredos.
Maria engravidou novamente. Ficou furiosa, que a vida já era difícil e mais um , como ia ser!...
O Coxo, sereno, que se arremediariam como até então. Havia trabalho. O tempo era a favor. A favor de quê? De quem?
O que ele escondia era a sua ansiedade, pela primeira vez sentia alguma pressa, por saber se seria enfim o filho varão que tanto ambicionara. Se não fosse não era, mas gostava, era a sua paixão há anos. Um filho homem, em que pudesse reinventar-se ao vê-lo crescer, estudar, ser homem completo, como o Jean Valgean dos Miseráveis de Victor Hugo, personagem que elegia como simbolo de bondade e de justiça.
Nasceu. E era um menino, como o Coxo desejava. O seu sorriso iluminou a noite, aquela noite em que a Gi foi chamar a correr a Tia Mariana, parteira oficial do bairro, e ele a colocar a panela sobre as brasas do fogareiro, para que tivesse tempo de ferver.
Ouviu o seu berro, um grito imenso que parecia de glória, pleno de pulmões, de vida. Comoveu-se, como não se lembrava á quanto. Fumou mais que o normal. E riu-se para dentro de si, olhando a Lua que se avolumava no cèu estrelado. Um filho varão!...
As filhas traziam leite do centro social. Os visinhos, uma galinha, um coelho, umas couves. O trabalho, pequenos arranjos, ia aparecendo e o JoMa, o seu rebento crescia e já se sentava num caixote de madeira que ele fizera em jeito de parque, de recinto só dele, para que não se sujasse na areia do quintal.
O Coxo no rasg, rasg do serrote e o puto brincando com pequenas peças que ele lhe fizera em madeira boleada e leve. E já queria falar : Pá ...e mais à frente, ainda disperso Pá.... E o Coxo, sorridente, a quem aparecia, a dizer que o miúdo parecia querer dizer papá.
Dava-lhe o biberão embevecido. As miúdas mimavam-no. O JoMa era um Sol.
_É pá, traz lá mais um traçado, mas cheio. _ os olhos dele brilhavam de humidade cristalina e eu surpreso, indaguei.
_Mas então, não foi um momento único de alegria?_ ele, dum trago, o copo cheio, a limpar os lábios, os olhos, os óculos, a colocá-los novamente em movimentos pausados.
Um dia, enquanto lhe dava o biberão de leite da manhã, sentiu que o menino parou. Não ria, os olhos parados, os braços caídos, quase inertes, convulsões estranhas.Fazia frio, mas o Coxo estava afogueado sem perceber o que se passava. Chamou uma vizinha. Ela veio e viu que o menino estava mal. Pediu a alguém que fosse chamar a Gi, a mais velha e que estava na escola. A Gi veio, oito anos, uma menina. Alarmou-se. Era preciso ir chamar a mãe à fábrica e foi, numa correria, por entre os arbustos da mata de Pinheiros, veloz como uma gazela fugindo ao predador.
Maria, esforçada desde as 6 da manhã, arrancada à disciplina mórbida imposta na fábrica, por um motivo de força maior. Chegou e viu que o menino respirava com dificuldade, mas respirava, embrulhou-o numa mantinha e correu para o barco. Em Lisboa apanhou o electrico, o menino nos braços, os olhos baços, o coração asfixiado num espaço tão curto do seu peito que arfava. Silêncio. Alguém perguntou sobre o menino e ela, que ia simplesmente ao hospital. Estava mal, não chorava, não gemia, mas respirava, ou era ela que o fazia por ele, que lhe emprestava do seu ar, ou que se confundia, o confundia.
No hospital o médico olha o menino, olha Maria, levanta os olhos a querer talvez fugir dali e diz-lhe:
_Está morto!...Maria incrédula, mas.. e o médico
_Se não quer que ele fique cá, leve-o para evitar mais despesa. Vá num táxi, ninguém pode saber que o leva morto.
-Num táxi? Diz Maria entre lágrimas. Não tenho dinheiro para isso.
O médico deu-lhe o dinheiro e disse que fosse em siêncio. E ela foi, com o seu menino nos braços.
No táxi, em silêncio, contendo as lágrimas, comprimindo o peito, em ânsias por chegar.
No barco, vizinhas, conhecidas, amigas. _ Então e o menino, está melhor? E Maria respondia que sim, que não podiam vê-lo porque dormia, dormia...
Á chegada a casa, o Coxo em pé, amparado à cancela do quintal, o vulto de Maria ao cimo da rua, A mata de Pinheiros mansos, o abraço de ambos, sem gritos nem choros. À espera do tempo...

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Podia ser o inicio de uma história de vida romanceada, a envolver negócios, empresas de estilo familiar que ainda são o sustentáculo do país. E a tragédia que os apanha desprevenidos e vai condicionar toda a estrutura familiar futura. Ou o êxito de empreendimentos pessoais, conquistados e construídos a pulso.

É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.

J.R.G.