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07/04/2011

SOCIEDADE SECRETA..."A UTOPIA"...- A EDUCAÇÃO É A BASE DO NOSSO DESENVOLVIMENTO !...

A EDUCAÇÃO É A BASE DO NOSSO DESENVOLVIMENTO !...
Apesar de escrito em 1896, este texto não perde actualidade, ao caracterizar a
sociedade portuguesa, antes reforça uma caracteristica, talvez proveniente da nossa miscigenação
genética, que mais facilmente nos coloca de bem com um outro ( estrangeiro) do que connosco
próprios...
jrg


Caracterização do povo Português, no livro "Pátria" de Guerra Junqueiro, em 1896

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga,
besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um
mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde
vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência
como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal,
sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a
infâmia, da mentira à falsificação, violência ao roubo, donde provem que na política portuguesa
sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este,
finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País. [.] A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos [.] sem ideias, sem planos, sem
convicções, incapazes, [.] vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas
palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se
malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos
duma vez na mesma sala de jantar."
Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896.
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Penso que evoluímos, apesar de tudo, não de uma forma homogénea, mas modernizamos o nosso

conhecimento, operamos mudanças na nossa mentalidade, não sendo, todavia, suficiente estamos
mais abertos a pesquisar nos novos horizontes...

Sendo a educação a força motriz que gera o desenvolvimento, é também, por consequência, a matéria
onde se movem interessses contraditórios, lobies sem escrúpulos quer ao nível da ideologia quer do
mercantilismo, dado o volumoso fluxo de capitais envolvidos, no sistema, que os torna
concomitantes...

Penso que a escola é a base fundamental da formação humana e que não tem cumprido este
pressuposto, mercê do afluxo de agentes de ensino, vulgo professores, sem vocação pedagógica, da
falta de orientação disciplinar adequada, das lutas intestinas pela hegemonia da classe, da
partidarização dos órgãos corporativos, e da obsessão com que se digladiam as eminências que
tutelam os modelos e conteúdos do sistema de ensino e os que se arrogam defensores dum certo
modelo de classe...

Convido professores e pedagogos, educadores, pais, alunos ao contributo da sua reflexão que permita
desmistificar esta fatalidade de sermos mesquinhos, miúdos, iletrados, desenrascados, tristes,
acomodados, espertos, mas pouco convictos da nossa consciência...
jrg

18/09/2008

AMAR A ALMA DE ALGUÉM

O corpo é um conjunto de matéria povoada de minúsculos micro-organismos que nos condicionam ou imprimem energia. É um espaço físico em evidência perante os outros, mas é na alma oculta, transparente, estulta ou clarividente, que reside toda a nossa capacidade de amar de nós o que nos é bom e nos permite transmitir aos outros de nós o nosso amor a eles, sendo ainda nós.
A alma está por dentro e do outro lado, do lado de fora de nós e é de onde bebe as interferências cósmicas que nos diferem de um dia para o outro ou em apenas momentos do dia.
Podemos amar um corpo, saciar-nos nele até à exaustão que será sempre efémera, mas amar a alma de alguém, mesmo sem lhe conhecer a matéria, o cheiro e o sabor, através dum livro, de escritos epistolo-gráficos, da voz em off de imagem, do simples imaginário criado no submundo virtual da ideia, é raro e de efeitos devastadores na vivência do presente, de cada dia presente que se prepara para ser futuro.
Quando alguém, a alma de alguém, nos diz que "Somos perfeitos um para o outro, a perfeição não existe em ninguém , prefiro continuar a pensar assim." São diatribes da alma que se inquieta perante o desabrochar de emoções que as palavras suscitam. Porque não há perfeições. O conjunto da frase sai confuso, porque a própria alma se confundiu, mas provoca um efeito na alma que a recebe e que está receptiva. Porquê? Ou " que nunca ninguém me fez sentir assim", a alma sente a importância de ter sido ousada, de ter caminhado ao encontro daquela outra, carente, apaixonada que persegue a substância do amor, o que lhe falta, ou que não conheceu ainda, ou não sabe.
A alma entra em transe, desvario de exaltantes emoções criadas pelas palavras e pelo imaginário em abstracto que se pretende solidificar e lança em jeito de desafio, não à outra que sente já aprisionada, mas a si própria, a ganhar força no sentido e na ênfase das palavras que transmite de si: "E como te quero ter... continuo a ler o que escreveste "tanto fogo que nos arde e não se apaga", não sei que fogo é este meu amor, nem quero saber, quero é senti-lo, sentir-te, lamber-te, sugar-te, beber-te... onde estás? Lá vou eu outra vez."
E é um deleite envolvente. Todo o corpo estremece e sente o estremecer do outro, como se fosse a primeira vez de cada qual.
Mas se do outro lado da alma persiste a dúvida, se procura desanuviar a crescente fixação , a alma forte não desiste. "Achei!...Não vou deixar fugir o que sinto ser o que sempre procurei.
És meu!... Ouviste?..És meu!...Estás aí? Quem és tu? O que fazes? O que fizeste? Porque procuras outras mulheres se amas a tua? Porquê? És um bom samaritano apenas e esperas resolver as frustrações de todas as mulheres que aparecem ou procuras um amor maior para ti?" O desafio inteligente. Se a alma cede, se o que procura é de facto um outro amor maior, entrega-se à insistência que promete calor na frieza do momento. Mas se resiste, é como se ficasse para sempre a dúvida de sentir uma outra face do amor, diferente, a provocar o doce sabor de uma nova vida refulgente onde a bruma cobria parte do brilho que o tempo amaciara. A dúvida instala-se na alma desassossegada e nem a confissão de que se havia enganado, a outra, que se tinha apaixonado julgando ser um outro que não respondia e que as parecenças eram tantas que agora era a alma insegura que viera em resposta aos seu apelos que ela queria amar, sem corpo, sem cheiros nem sabores Bastar-se da alma que sentia nas palavras.Tê-la a todo o custo, quando a sentia desanimar, pretextar evasões."Tenho que te animar, estás sempre a dizer que me desiludo, eu amo-te, esqueces? E adoro ter-te e estou tudo menos desiludida. Nem imaginas como o meu coração começou a bater mais forte há medida que a hora de sair se aproximava, fiquei cada vez mais excitada. Era como se me esperasses lá fora e os teus olhos me procurassem por entre a multidão. Recebeste o email das almas gémeas? É isso que sinto contigo apesar de nunca ter estado ao pé de ti. A sintonia é tão grande que parece que te conheço desde sempre. As sensações que me provocas...E adorei o email-telegrama, fartei-me de rir e puseste-me em fogo, só assim, por pensar em ti, minha alma querida, meu amor."
Que fazer? Uma alma adormecida, descrente dos seu préstimos, acomodada a uma vivência repartida entre o ser e o não ser. O nada subsistente na razão do ser, como um absoluto vindo de uma outra essência de si. O resultado é sempre arrasador. Se subsiste transforma em erosão corrosiva uma ideia que era para ser eterna. Mas se é um devaneio de uma outra alma, ou a força de um desejo, ou a convicção profunda que pretende ter encontrado a razão do ser para continuar sendo, Mas que a meio do percurso inverte, ou por cansaço, ou por lhe surgir , enfim, o absurdo da ideia. Agora com a clareza que a sofreguidão do achado não permitiu ver na hora.
As almas envolveram-se, deram tudo como se fosse a última oportunidade, deram o que não tinham dado a mais ninguém e o que fica na absorção do desfecho ,já esperado mas não aceite, a considerar-se inesperado, é um desespero de ausência a que as almas não estão habituadas. E sofrem ambas. Esbracejam, tentando apaziguar os efeitos colaterais deixados no âmago de si, de onde não é possivel extrair nada, agridem-se mutuamente, onde antes era só amor, ostracizam-se, cultivam uma indiferença que não é possivel e deixam-se cair na melancólica solidão.
Exorto as almas de todo o mundo a que se disponham a uma sã reflexão introspectiva.
Somos apenas uma alma em tantos milhões de almas e não temos como nos controlar. é um enigma. a alma e o que a induz ao sublime ou a perverte criadora de ilusão. Não há certezas, aconteceu.
Não há explicações para os aspectos e os desígnios da alma. Mas devemos continuar a procura até ao infinito. Procurar saber se alma não é o tudo, se para além da alma e do corpo há um outro elemento de nós, de bem dentro de nós, que comanda a alma e toda a consciência do que julgamos saber. Se a essência do ser se reparte em diferentes aspectos do próprio ser, onde a alma é o mais irrequieto, porque se coloca do lado de fora de nós, de onde nos vê, deixando-se sentir sem se deixar ver. Como quando digo a alguém:
"Não vou, nem canso.", e momentos depois me vou de cansaço.
Que força é esta contra a qual não há estratégia de defesa ou ataque possível?
Que nos toma, nos surpreende e nos arrasa...

Nota:
Este Natal ou no Aniversário de alguém especial, ofereça um quadro da vida romanceado. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.

30/07/2008

A NOVA ERA QUE AI VEM

Hoje venho dizer-vos que a nova era está ai ,ás portas da nossa existência desesperada. Foi instituída no cosmos pelos planetas que regem a vida na Terra. Reuniram-se e decidiram que era tempo de alterar tudo porque estávamos enfim conscientes da nossa evidência. Amadurecidos pelas tragédias e pela glória. Mas desesperados, sem saída plausível para uma vida sem sentido perante tanta abundância.
Decretaram que a vida seria regida do interior de cada um, da essência do ser e não transmitida ao ser como até aqui.
Decretaram o fim de todos os conceitos em que nos enrodilhamos na expectativa de justificarmos os nossos próprios erros. Instituíram a plena consciência.
Decretaram o fim do dinheiro e da propriedade. Instituíram a livre distribuição da riqueza.
Decretaram o fim da tristeza melancólica que conduz ao suicídio. Instituíram a alegria.
Decretaram o fim dos julgamentos públicos e privados. Instituíram o bom senso.
Decretaram o fim do ódio. Instituíram o amor profundo. A paixão.
Decretaram o fim da infidelidade, da traição. Instituíram os actos de amor. múltiplos.
Decretaram o fim de todas as guerras. Instituíram a paz eterna.
Decretaram o fim dos desperdícios da produção. Instituíram a racionalização
Decretaram o fim da mentira e da verdade. Instituíram a realidade.
Decretaram o fim da loucura, da insanidade. Instituíram a cura por absorção de realidade.
Decretaram o fim da razão pura. Instituíram a interioridade.
Decretaram o fim das fontes de energia. Instituíram a fusão a frio.
Decretaram o fim da ignorância. Instituíram o ensino permanente.
Decretaram o fim do tempo. Instituíram o intemporal.
Decretaram o fim de Deus e do Diabo. Instituíram o homem como símbolo de toda a animalidade.
E perguntam que mais nos aflige. Estão reunidos em permanência, e na roda das regências é Plutão quem reina e manda que se afixem, na mente de cada um, na alma, nas vísceras, para que comecem a preparar o advento da nova era, sem dor, sem especulação, antes moderada, docemente.
A nova era quer trazer a paz, o amor a sedução pelo belo e o mais profundo do ser. O amor à natureza e aos animais que nela convivem em equilíbrio de certezas.
Saudemos a nova era que aí vem. O fim de todos os nossos problemas. Os males de amores. As traições. O fim dos despedimentos, das doenças, dos aumentos constantes dos preços. Das invejas. Desrespeitos. Da ladroagem que nos rouba o sustento. Das religiões que nos oprimem a liberdade de pensamento. O fim do pecado, do erro.
Cheire-mo-nos uns aos outros e construamos um novo amor

17/07/2008

O DELFIM NÃO ERA UM ASSASSINO

O Delfim era um jovem. como todos os que compunham a Companhia, arrancado compulsivamente à terra, à família, aos amores. Um jovem alegre, mas intranquilo, emocionalmente frágil, questionante do porquê ele, ali, algures África.
Cumpria o seu dever ao integrar as tropas regulares de um país, o seu país. Integrava as colunas, sofria emboscadas e estava sujeito ás armadilhas, ás minas traiçoeiras que já vira rebentar, pisadas por jovens como ele e sem que houvesse em quem atirar, fazer a desforra. Nada. minas solitárias, intransigentes com uma pequena distracção, com a insuficiência de material de detecção. A importância da desforra. A vingança...
O delfim bebia para afogar o desespero de estar ali, algures África sem ver a família, sem poder ajudar a família, sem poder estar com a namorada, os amigos.
O ar era quente e húmido. As mulheres andavam de peito descoberto. De resto eram só jovens como ele, sem grandes diálogos, que jogavam as cartas, a lerpa, nos momentos de ócio e bebiam na cantina cerveja que matasse a sede e a saudade, que afugentasse a morte. A morte, morrer dum tiro vindo do silêncio da mata verde e bela.
Manuel António observava aquela personalidade caótica, dia após dia. Delfim viera falar-lhe do efeito das granadas ofensivas, granadas de mão. Cada um tinha umas quantas à sua guarda. Levavam-nas e traziam-nas. Calculavam que rebentariam se as tivessem de usar. Não traziam prazo de garantia. Estavam ali, a um canto dos armários, verdes , elas, as granadas, com uns relevos a toda a volta para evitar que resvalassem das mãos que as atirariam, um dia.
-Sabes, Manuel António, ainda um dia gostava de ver o efeito disto a rebentar.
A granada na mão. A cavilha de segurança, um pedaço de arame revirado na ponta, a argola de onde um dedo a puxaria, com determinação.
Manuel António olhou para delfim. Procurou os olhos e só viu uma espécie de baba que lhe saía dos cantos dos lábios. Lábios finos, cortantes. Abominava granadas, balas, tudo o que cheirasse a pólvora..
- Cuidado com isso, pá. Que fazes com a granada? Vão sair?
-Não, mas que gostava de ver isto rebentar, gostava. Para que temos isto?
Cambaleava de um lado para o outro. Olhou-o, agora sim, nos olhos pequeninos se mi cerrados, um brilho estranho, metálico a sobressair da pele escurecida pelo Sol .
-É melhor nunca saberes o efeito dessa merda. Vai guardar. Não podes andar aí com uma granada ofensiva. Cais e matas-.te e matas alguém.
Delfim recuou uns passos, temendo que o outro lhe tirasse a granada. Fez um esgar, um riso indecifrável se de alegria se de louco ou cobardia. Manuel António insistiu, tentando segurá-lo ali até que viesse alguém. Um outro. E disse.
-És de Vila Verde?. Fala-me da tua vida lá, Família, namorada. Que fazias.
Os olhos de Delfim encheram-se de lágrimas e a voz soou rouca, trémula, desequilibrada.
-Sou. Porra, não me fales da família. Eu era uma parte que fazia falta. A namorada já me pôs os cornos. Que sa foda. Vai cu caralho. Ninguém me escreve. Ás tantas já não tenho ninguém.
Numa das mãos a garrafa de cerveja quase vazia, na outra a granada. E nada. Pessoa alguma aparecia naquele fim de tarde, quase noite. O motor da geradora roncava a sua toada constante e monótona. O grito agonizante dos macacos que se recolhiam.
-Tem calma, disse Manuel António, os olhos húmidos, moreno quase negro, olhos castanhos de um escuro quase negro, vais arranjar outra quando chegares. Aguenta. São mais uns meses, poucos.
Delfim chorava convulsivamente. bebeu o resto da cerveja dum trago, sem uma palavra e desandou para a cantina dos soldados.
Manuel António ficou a vê-lo, cambaleando em vai e vens e troca de passos, viu que entrou primeiro na caserna e voltou a sair. Descansou porque não lhe viu a granada na mão.
Lá ia ele, o Delfim, para mais umas cervejas, até o fim de si. e pensou que era uma geração fodida. O álcool, o calor, a pressão, os tiros e rebentamentos, as armadilhas, as minas.
Uma geração estropiada. Aguentar, prever-se de si, a si, mas como ? Se o quadro estava pintado de uma forma indelével. Sem saída que provesse o futuro que queria.
Como sair ileso? os neurónios desafectados, os genes compactados na revolta contra os elementos. Como sair ileso deste inferno?
Ouviu-se um estrondo medonho, Manuel António encolheu-se. deitou-se no chão. todo ele tremia sem saber que atitude tomar. A espingarda estava longe, mas estranhou não ver a correria do costume . Silêncio. Apenas o motor da geradora, monótono, incessante. Já não era um ruído. É como se fizesse parte do silêncio.
O básico a correr.
-É básico, o que foi?
-Olha, rebentou uma granada na cantina, os dois cantineiros foram cu caralho.
O Delfim, foda-se. O choro de raiva. O choro em raiva e a palavra FODA-SE. Agonizante de si. A justificar o poema:

Esta noite
quando todos dormirem
pego no vento
e fujo...

05/07/2008

MEMÓRIAS DA GUERRA - O CORREIO

Na guerra, quando não estás só e és ainda povoado por mundos e gentes que estando longe, te ocupam uma parte importante do que o teu cérebro te permite pensar, é ainda a solidão de que te sentes, de que te és perante ti e a impotência de decidires no momento imediato, ou no certo.
As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.
O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.
Advinha destes condicionalismos a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.
Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.
Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências
sem outros ouvidos.
Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.
Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se
amavam? Teria já nascido o meu filho? Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.
Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.
Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.
- Quarenta e dois!
-Oi! O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.
Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.
- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.
Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.
-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!
E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.

25/05/2008

O ABSOLUTO DO AMOR

Estar encurralado entre as quatro paredes e o tecto obscuro do sotão da casa. Estou só no meu silêncio de mim. Por vezes vejo os fantasmas especados nas paredes sujas de branco, porque deveriam ser negras, as paredes do sotão.
Em baixo, no outro pleno da casa, a mulher mexe e remexe no que resta na tentativa de lhe dar uma harmonia impossivel, na lembrança dos tempos que ainda a habitam
Também ela está só na sua solidão de si. E ainda somos como um só na solidão de nós ambos.
Fora, na quietude do tempo, a sugadora de cereais mata o doce muralhar das águas que, vindas de Espanha, aqui se espraiam, comprimindo-se contra o mar, adocicando-o.
Estar na penumbra do homem, sem saída consistente E sentir que tudo o que posso é remediar, nada de definitivo, de absoluto.
-"Vamos tentar o absoluto. Viver o absoluto.
Diziamos entre nós, tu e eu, no pleno daqueles anos que nos arrebataram. E foi assim que, apaixonados de nós e por nós, deixámos que o sistema nos envolvesse na sua teia pretensamente irreversível e nos fosse quebrando.
Quebrando sem partir. Cacos que fomos consolidando numa ânsia de nos termos, encurralados mas livres e possuídos de nós.
Ganhámos na essência da vida, porque ninguém amou como nós amámos e sobreviveu.
Tristão e Isolda...Romeu e Julieta...Pedro e Inês....Nós, em absoluto de amor.
E veio a guerra. A sério. Com tiros e rebentamentos de minas, com crianças mortas e mães destroçadas. E macacos desesperados em gritos aflitos. Mas isso foi antes de nos fundirmos como um só. Ainda nos prometiamos na ilusão do amor e da cabana. Virgens de nós em absoluto.
Amámo-nos num desvario de loucura arrebatadora. Amámo-nos para além de nós, porque já era algo que nos ultrapassava em sentir.
O teu sorriso, o teu olhar refulgindo de esperança.
Meu amor absoluto.
Agora, no momento em que te penso e sentindo que te mexes em baixo de mim de onde eu estou e te sinto, compreendo que posso amar o infinito de ti.
Porque eu e tu somos um só, em nós.

11/05/2008

MEMÓRIAS DA GUERRA - A EMBOSCADA

Na densa mata de aromas a avivar a memória, no limiar da infância, os homens acoitados de armas aperradas, tensos, olhos vivos no estreito carreiro eleito como objectivo da morte.
O silêncio, cortado de avisos da macacada inquieta por intrusão abusiva do seu espaço, sem permissão para ciciar o medo ou a revolta.
Imagino as pessoas que se põem ao caminho algures no interior da mata. Mulheres que vão labutar na bolanha, que levam crianças, algumas, de colo. Gente distraída, indefesa, gente que fala uma outra língua.
Os insectos colados no suor do corpo, num acto supremo de amor sádico, mas amor, porque se bastam em nós, em mim, se fertilizam e multiplicam.
Lembrar as emboscadas de outros caminhos, na vida já vivida e na que espera por viver, na solicitude de nos acharmos no direito de decidir o tempo do outro, ali, no silêncio da mata, floresta de árvores enormes, amantes taciturnas de ervas daninhas e bichos ainda não adulterados, ainda não manipulados.
Olho os rostos dos outros numa tentativa de ver o meu próprio rosto. De achar os contornos da razão que nos, me motiva ou que nos, me permite, não ser e sendo os criminosos que matam à distância e a coberto da cilada, surpresa, se bem que a mando, ainda que a mando, de quê? de quem? E como vou, vamos viver depois, após o descarregar das balas agigantadas pelo percutir do cão da arma feita monstro em mãos que se permitem não saber?
Tu, Transmontano, recto na apreciação dos usos e costumes e aberto à junção de novos conhecimentos, que respeitas a integridade e zeloso dos fracos.
Aquele, beirão, entre a alta, a baixa e o litoral. O olhar franco, o espírito fraterno, cioso de estender a mão a quem venha por bem.
Pássaros grandes, abutres, aguardam pacientes a orgia da carne esventrada por instantes e atirada em lascas à súcia dos milhafres expectantes.
Olho ainda o rosto do tripeiro, do minhoto. Gente esforçada e penitente, afiançada nos baptismos de Sés, ermidas e oradas.
Olho e não vejo como subsiste este estar aqui, estando noutro lugar. E volto a procurar, nos rostos inocentes que queremos ser, uma luz que me permite ver na escuridão.
O sol afecta os neurónios já empobrecidos por décadas de ostracismo cultural. Não fomos habituados a pensar. Na adversidade, lá estavam: Deus, Jesus, Maria e os Santos Apóstolos.
E agora que era preciso raciocinar, servimo-nos dos mesmos postulados. Que Deus nos salve, enquanto matamos o filho, o pai, a mãe, de adeptos de outro Deus e Santidades.
O rosto envergonhado do Algarvio, A tez morena do alto e do baixo Alentejano dum cabrão, e é o mesmo sentir de não sou eu, quem aqui está de olhos fitos numa imagem de terra no carreiro.
O capitão, da fina elite Lisboeta, despreocupado, sem galões, como um igual a tantos, a justificar que a cultura não é desculpa para não vencer, matando a estupidez que se quer impor à história. Olhando um por um a a cada instante.
E eu? A quem pertenço? De que região sou oriundo? De Portugal inteiro, ou cidadão do mundo?
Foi quando o tiroteio irrompeu com fragor de explosões de granadas de morteiro e os uivos sibilantes das balas tracejantes por entre as folhas verdes do sibilino e majestoso arvoredo.
Saltam macacos apavorados, guinchando em estrondos de ódio ou medo. Aves que piam, e são gritos aflitos de mães obrigadas a abandonar o ninho.
Como começou, parou, o tiroteio. Foram ver.
Uma criança, talvez de 2 ou 2 e meio, ilesa, chorava sobre o corpo crivado e o sangue de sua mãe.

07/05/2008

DROGA-A RESSACA

Era um quadro considerado importante. Pode dizer-se , um alto quadro de empresa farmacêutica , com direito a assessores e outras mordomias instituídas .
Telefonou a antecipar um período de férias por quinze dias
O dia amanhecera fresco, com o sol de uma cor amarelada a despontar por sobre a falésia, enquanto em frente o mar de infinito, a cor verde adensada, espelhada numa larga extensão até que a linha de horizonte , como um traço fino de lápis afiado, se esbatia abruptamente no alcance da visão .
Dormitara na cadeira em frente da cama onde o corpo dela meio despido se espraiava em movimentos lentos , quase doces , por vezes convulsivos. E acordava, ele, em cada instante, sobressaltado , olhando de imediato o volume pequeno mas visível dos 2 panfletos de droga em cima do pequeno móvel das fotografias.
Será que vou ser capaz ? interrogou-se no silêncio do quarto amplo e meio na sombra dos cortinados corridos que escondiam a luz, prolongando a ideia de noite.
O corpo da mulher jovem e talvez bela um dia , ainda, que já fora . Parecia-lhe mais cheio. Que a carne ressequida voltava a ocupar, muito lentamente, os espaços escavados pela fome de anos. Um corpo de mulher na sua cama de desimpedido, livre de grilhetas legais .
Ele e ela como um só, o pensamento dele a vogar um sentido, enquanto o dela imerso em sonhos de afogada salva no ultimo instante, permanecia inacessível a qualquer apelo da razão
Pensava na essência do amor , O sentido presente da significação da palavra enquanto entidade que lhes proporcionava uma oportunidade de redenção. A cama dele, onde vivera noites fatídicas de orgasmos múltiplos com mulheres carenciadas de afectos, perfumadas de aromas exóticos e que ao acordar pela manhã se mostravam na verdade puras de odores imcompativeis com a sua genética do cheiro.
Não havia perfumes adulterados naquele corpo de mulher e no entanto, o ar do quarto estava purificado pela maresia que entrava na fresta da janela e os inundava num amplexo terno e sedutor.
Levantou a perna, ela, num gesto descuidado descobrindo a púbis luzidia, os pelos emaranhados mas soltos, leves, seco de pruridos ou corrimentos o sexo de crostas ainda agarradas no clitóris engelhado, como sem vida.
Levantou-se aturdido pela imagem dum ontem que procurava esquecer e com um sorriso. ainda tímido nos lábios carnudos, foi preparar o pequeno almoço.
Estava acordada, quando voltou de tabuleiro recheado, e o melhor dos sorrisos, a dizer a palavra bom dia.
Recomposta, esclarecida da nova situação, mastigando cada pedaço, rebuscando na memória escaldante, justificações quase pueris.
Os pais separados. A preocupação com a carreira de cada um. O irmão que era a glória da família. Namoricos desinteressantes de adolescente fugidia. Uma mudança de escola intempestiva.
-Seria melhor avisá-los que está bem?
-Não. Puseram-me fora, acreditaram nas palavras de psicólogos imbecis.Que eu havia de me cansar da rua. Quando o que eu precisava era que me amassem sem reservas. Que atendessem ao eclodir de mim como pessoa. Que se confiassem em mim.
Parou. Os olhos febris e suores pelo rosto. Os olhos castanhos, chocolate, a olhar os panfletos em cima da mesa dos retratos. o corpo a contorcer.se em espasmos incontroláveis.
-O que foi? Ele, com mel na voz, quase ciciando as palavras.
Os olhos dela nos panfletos, a levantar-se, encolhida, agarrada a si própria, os braços magros em volta do corpo, a chegar à mesa, a poisar a mão no objecto de toda a fixação, o sonho, a libertação afrodisiaca. Um gesto brusco e o ar desvairado na procura, de quê, ainda.
Os olhos dele em ela, como que guiando o sentido da vontade.
-Não!. O tratado! Quase um grito alucinado, a fugir do nada que não sendo é quase tudo.
Voltou, deixando os panfletos no local exacto onde estavam. Não já para a cama, mas deixando-se escorregar em tremuras, num canto do quarto, o mais escuro dos quatro, continuamente agarrada a olhar aquele homem que não a quisera ter como tantos outros e a perguntar-se porquê. Que fazia ela ali, a sofrer dores insuportáveis. Se bastava uma simples dose do produto. E outra. E outra até à finitude de toda a matéria que ainda era.
Foram oito dias das férias. Fechados os dois, no quarto amplo de cortinas corridas. O comer encomendado pela Net. a langerie umas roupas bonitas para que se gostasse, os sapatos.
Três dias a implorar, ela , em delirios lancinantes. Por mais de uma vez segurara os panfletos entre as mãos trémulas e por entre soluços os largara.
Ao oitavo dia, ele tinha adormecido, por um momento. Acordou ao bater de palmas repetidas. O primeiro olhar foi para a mesa dos retratos. O coração em estrondos de batuques frenéticos. Desapareceram.
Olhou em volta e na expressão de espanto dos seus olhos, a imagem raiada de luz, em catadupas de luz, como um sol dos principios do mundo, intenso, espalhando sonoridades na luz. como se um coro de meninos entoasse uma canção de amor
O vestido vermelho cingido no corpo renovado de carne. Os olhos com uma expressão tão viva de felicidade. Sobretudo os olhos. Castanhos chocolate.
O vermelho sangue do vestido. O cabelo brilhante caído a raiar os ombros a descoberto pela cava do vestido.
Olhou a mesa. os panfletos que haviam desparecido. E o riso dela, cristalino, aberto, confiante a levantar a moldura de criança em cima da mesa, deixando ver os pacotinhos. o papel branco sujo.
Levantou-se, os olhos toldados e abraçou aquele corpo bem cheiroso de aromas únicos, naturais, as mãos dele nas faces da menina bonita que ela se transformara, macias agora, os braços, os seios a voltarem a uma normalidade estranha ao corpo de antes.
Abraçou o corpo em êxtase.
-Minha menina! Minha menina! Como tu estás linda e vistosa.
Como eu amo o que tu és agora. Um amor diferente de todas as espécies de amor. Um amor da ideia que consubstancias na forma do teu ser absoluto.
Vou amar-te e mimar-te sem limites.

04/05/2008

AS DROGAS-O FIM DA TRAGÉDIA

Era de noite e vieste, silenciosa como um felino, de manso caminhar por entre escombros, ruínas, da velha cidade adormecida. Tu e eu, num recanto da rua mal iluminada.
Os teus olhos ainda grandes, mal me olham, assustados. A pele do rosto descuidada e manchada pelo cisco das poeiras adejantes . Magra, diria escanzelada, enferma de carinhos e de ambição.
O sistema traiu-te e tu trais o sistema. Pagar na mesma moeda. Dente por dente. Sem olhar atrás nem para a frente nebulosa do caminho. Para ti, chegaste ao termo da etapa que para outros ainda é tão curta
Amparas-te no meu braço enquanto caminhamos lado a lado como dois amantes estranhos que tivessem combinado encontrar-se a esta hora, no momento estremo em que deambulavas na ânsia de encontrar algo, alguém que te bastasse o consumo da tragédia que já és.
Congregas o absoluto da tragédia. É isso.
Deixo-te sentada no carro e volto à porta do bar. Não ao Bar. Apenas a porta, onde um tipo de assobio saltitante, a barba indigente, puxa fumaças agressivas de uma espécie de cigarro
Compro três tomas do produto que me indicaste e regresso ao carro em passos decididos. Tenho pressa.
Estás inclinada para a frente e uma humidade indecisa a bailar-te, escorrendo dos lábios entreabertos. Cai sobre o banco. Tremes alucinações. Balbucias palavras inteligíveis .
Arranco com o carro, tenho pressa, enquanto preparas o produto e o injectas numa das veias disponíveis, sob o meu olhar de soslaio.
Chegados, a casa não tem adornos nem vistas. É soturna, com livros e papeis espalhados sem critério. Ainda se o tivesse, se escolhesse o sitio onde o livro tal num determinado lugar do chão, ou o papel em relevo, atirado num momento de raiva ou de simples abstracção
Olho para ti, o teu corpo ainda de criança, mal cresceste, rodeado de feridas provocadas em improvisos da tragédia. A garro-me a esta palavra: TRAGÉDIA, ao seu significado linguístico quando incluída num contexto, a esmiuçá-la quanto à significação da palavra em si e o que representa para ti e para mim, necessariamente emoções contrárias e não porque sejas mulher e eu homem, mas por força de outras eminências do ser e do não ser neste momento.
Olhas para mim enquanto despes, peça a peça, com falsa volúpia nos meneios do corpo, tentando induzir-me em eróticos fluidos inexistentes . Os olhos mortiços, apagados, sem brilho, sem luz, mas olhos e com um certo tipo de visão. evasiva, turva
Atiras-me a cueca mal cheirosa. Mijo e esperma de momentos antigos.
No quarto de banho a água morna sobre o teu corpo. Deixas que as minhas mãos o percorram em movimentos lentos com a esponja embebida em gel e a espuma abundante a cobrir a pele, as chagas ainda não abertas. Os meus dedos penetram o canal anal em movimentos suaves retirando a merda acumulada. Há quantos dias, meses, anos. Desde quando. Dilatado o teu cu por enrabadelas consentidas em sôfregas investidas de gente tão sem ser como tu. O teu sexo original. Que te fizeram? Queimada com cigarro.? elástica pelo uso sem nexo e a violência da irracionalidade.
Os teus pés tão delicados, gretados e as pernas que foram belas e agora encanecidas de veias duras, chagadas . As mamas são dois balões que se foram esvaziando. Espremidas, a carne, as glândulas , a seiva.
Seco o teu corpo com a toalha grande de todos os banhos e estendo-te a camisa de dormir da última mulher que amei. Escovo o teu cabelo. Abraço-te para te sentir. Para que me sintas.
-Estou limpa, vá. podes-me foder .
Olho para ti de novo. estás limpa por fora. Quase linda. Se tu quisesses!!! Se tu quiseres!!!
Preparo uma refeição para nós dois. Bifes grelhados e batatas fritas. Faço sumo de laranja.
Sentados em frente, os meus olhos nos teus olhos até que me fixas e te deixas fixar.
Falas-me do desacerto da família. As carências de amor e de ódio. Apenas indiferença que dói , manipula a pessoa e a degrada. As noitadas sem registo, o desinteresse de tudo. A venda dos sentidos. Por momentos alucinantes de loucura. e as ressacas são uma outra espécie de prazeres ocultos que nos inibem de nós e nos transportam para o outro lado do ser, o não ser. Onde já ninguém se importa de nós, até que um dia, Bah . Apaga-se.
Perdeste os modos de comer. Tens fome e fastio. Sem pressa e enquanto experimento sondar o que resta do teu eu, da essência que resta, que a droga não extinguiu.
-Gostava que ficasses aqui.
-O quê? Viver contigo?
-Não. Ficares aqui, simplesmente e deixares que que te reaprenda e que tu própria reaprendas a pessoa que há em ti.
Choras. As lágrimas escorrem desabridas pelo teu rosto que vem ganhando alguma cor.
Abraço-te e levo-te para a cama. Vejo que ficas na expectativa do que vou fazer a seguir e ensaias as posições aprendidas na tragédia.
-Fazemos um tratado.
-O que é isso?
-Um acordo de princípios . Vou colocar as duas doses que restam ali, ante ti. Para que os teus olhos as vejam. Em cima da mesa das fotos de família . E tu vais resistir-lhes. Que dizes?
Viras-me o cu. E momentos depois, emocionada, a voz embargada numa aura de esperança, envolta em amor, sem palavras, o sentido diáfano do conceito.
-Porque esperas? Acaba com isto de vez. Faço tudo o que quiseres, Na cona , no cu, na boca. E deixa-me seguir o caminho. Podes ficar com a merda da droga. está pago.
Ela disse as palavras sem o olhar. a cabeça enterrada na almofada, a aspirar os aromas lavados há tanto esquecidos.
Levantou-a docemente da cama. Ele. O corpo dela a exalar os cheiros que cativam encantos.
-Esquece tudo. Apaga. Agora és uma outra pessoa, sem passado e de presente suspenso.
Estou aqui para te amar num pleno de intenções e conceitos da palavra. Não quero ter nada contigo do que dizes. Não quero foder . Quero-te num todo onde
tu também és querer. O que eu quero agora é amar-te por todos os que não te amaram.
-Ufa! Queimas-me . Onde é que eu assino.

02/05/2008

ABJECCIONISMO

O abjeccionismo ainda incomoda muita gente. Talvez por ser oriundo dum pensador de origem Portuguesa e que nos deixou uma pergunta a que muitos tentam responder:
O Abjeccionismo basear-se-á na resposta de cada um à pergunta : Que pode fazer um homem desesperado, quando o ar é um vómito e nós seres abjectos? (De Pedro Oom)
Ora, sendo o ar que respiramos um vómito continuado, quase irrespirável, nas sua componentes de gases e palavras que procuram definir conceitos e intenções. Palavras que ofendem a razão pura e nos reduzem à qualidade de seres abjectos e desesperados por nos libertarmos das palavras que nos circundam, dos sistemas em que nos deixámos enrodilhar e de que não vislumbramos a alternativa porque nos fizeram esquecer o que somos, nos tiraram o significado do ser.
O que vos proponho é um desafio à vossa capacidade de pensar de e para vós, na resposta possível à pergunta que ficou no ar e à qual, eminentes criadores tentaram responder sem sucesso e por via disso condenados ao ostracismo implacável da mediocridade actuante que nos rege a matéria e o espírito.

21/04/2008

NOVAS GERAÇÕES-UM EXEMPLO

No Correio da Manhã de Domingo, a noticia: Turma angaria dinheiro para ajudar professor.
É uma noticia que nos alerta para os valores que subsistem. E nos evidencia que nem tudo vai mal no reino da educação.
O professor disponibilizou a viatura para uma prova de aferição de conhecimentos no terreno.
Houve um acidente sem feridos, onde a viatura ficou muito danificada. Provavelmente o arranjo ficou de fora das coberturas de seguro contratadas.
Os alunos, jovens, disponibilizaram-se em angariar fundos para ajudar o professor e é emocionante a descrição dos meios, a criatividade, o empenho das famílias, da comunidade.
Um exemplo a ser divulgado por todos os meios. É possível congregar valores em torno da batalha pela educação. Afinal as novas gerações têm valores. Não são só cabeças ocas e insurrectas .

13/04/2008

S.MIGUEL,AÇORES,O SONHO DE ESTAR VIVO-Parte II

A garrafa vazia/de Manuel Maria. A voz rouca, dolente, de Zeca Medeiros, no Cantinho dos Anjos, café rente à rua, na esquina de quem sai do Alcides, onde o Sr. José grava com mestria e paciência Franciscana, o nome de clientes afectos em taças de vinho ou licor, balões de Whisky e os oferece agradecendo a visita . A paixão de ser pessoa.
A decoração a lembrar outros povos, vitórias e derrotas, evidências de culturas, mimos de simpatia Açoriana , num ambiente acolhedor onde bonitas raparigas a sós ou em grupo falam de realidades e de sonhos e soltam gargalhadas diáfanas de alegria esfusiante, construindo certezas no perfume dos aromas.
Que povo é este? Que cruzamento, ou raça pura?
A bela Estela, briosa, de aspecto grave, atento, responsável no atendimento de e sobre cultura e que se diverte à noite em paródias inocentes de procura.
A divina Venilde , linda, o nome a sugerir veleidades de Olimpo, mas terrena, sonhadora e as partidas que a vida lhe pregou. Marco! Como te meteste, meteram nisso? Que tragédia ou ambição te levou ao tráfico, a destruir em lágrimas de sofrimento e dor, os sonhos encantados da mulher que te amava? Do povo que te gerou? As noites pela madrugada na explanação de projectos limpos de droga!...
O Gil do Couto, homem grande na sabedoria humilde sobre a superficialidade enfatuada. A paixão na crença dos milagres do Senhor Santo Cristo. A lisura de uma personalidade sã e conjugativa de amores comuns. O filho Francisco e a pesquisa dos fundos Oceânicos em busca, talvez de Atlântida e Znaida , artesã, o sentido prático da vida, taxativa.
A visita à estufa onde crescem, eu diria milagres gustativos, os saborosos ananases . Abastecer a garrafeira com o licor afrodisíaco do seu néctar.
O dia, onde o Sol e a humidade confraternizam, convida à procura de ambientes mais frescos.
O aroma especifico das infusões naturais. A única plantação em toda a vasta Europa. Os processos manuais de escolha, purificação e embalagem.
A Ribeira Grande. A escavação natural das água vindas da serra em direcção ao mar. O aproveitamento magnifico das margens, convertidas em lugares aprazíveis de lazer e convívio entre povos. As pessoas. Clara, a contagiante melodia das palavras.
E Rabo de Peixe. O lugar maldito, onde a vida se faz ao mar. Tido como perigoso, povoado por inadaptados da comum das gentes da ilha. Bêbados , arruaceiros, oportunistas que obrigam os filhos a não faltar à escola para não lhes cortarem os subsídios estatais, pescadores invejosos, ladrões, piratas. Tudo isto me foi dito. Mas, a avaliar pela obrigação de mandar os filhos à escola, tenho esperança na regeneração.


registed by: Samuel Dabó

09/04/2008

DEIXEM VIVER ESMERALDA

Um homem em uma relação fortuita com uma mulher. Da relação nasce uma menina. A mãe diz-lhe que ele é o pai. Ele duvida e não assume a paternidade. A menina nasce e a mãe, considerando que não tem condições para a criar, entrega-a, à revelia do direito, para adopção.
A menina tem cinco anos hoje. O pai biológico que entretanto fez testes de paternidades viu confirmada a génese e quer a menina de volta, contra a opinião de psicólogos, sociólogos , pedopediatras e os pais adoptivos.
O caso é levado aos tribunais. Os juízes não se entendem. Ora ordenam a entrega, ora favorecem compassos de espera. A última página, à porta do tribunal, com a criança a recusar sair do carro e alguém abalizado a instigar o pai adoptivo para que tomasse uma atitude de força contra a criança.
Juízes, advogados, gente a que nos habituámos o devido respeito.
Não há quem pare esta tragédia que se abateu sobre uma criança que não pediu a ninguém para vir?
A declaração universal dos direitos da criança não é suficiente para acabar com este suplicio?
Não será tempo de fazermos ouvir o nosso : Nãããããããããoooooooooo !!!!!!!!!!!!, em uníssono , de Norte a Sul, para que os hipócritas do direito deixem esta criança em paz?
Não basta perguntar à criança. Onde , com quem queres ficar?
Vamos, nós gente que habitamos este país, que pagamos impostos directos e indirectos, permitir que uma criança de cinco anos seja disputada na praça pública, nas salas frias dos tribunais, despojada da sua personalidade, interditada de amar a quem ama e de querer a quem quer?
Estendo-te a minha mão, Esmeralda, temendo que não vá a tempo de a poderes agarrar. E apelo às pessoas, chamadas povo, do meu país, e aos que têm a responsabilidade pelo nosso bem estar, para que termine esta chacina da tua identidade.

06/04/2008

VIOLENCIA INFANTIL!!!!!

Há dias, num infantário, jardim de infância, na vila onde eu moro, assisti à luta de um menino de 4 anos com a sua educadora.
O menino debatia-se, perante a sua própria impotência, e gritava o mais alto que lho permitiam os seu pulmões ainda viçosos.
-Larga a minha mão! Larga a mão! e chorava.
Indiferente, insensível ao choro, quase o arrastando, a educadora lá ia dizendo.
-Tens que vir! Tens que vir!.
-E o menino, debatendo-se ( não, não vi pontapés), fincando os pés, resistindo.
-Larga a minha mão!
Juro que é verdade. Eu vi!
Não uso telemóvel com câmara. Mas, por um momento pensei chamar a policia e ser testemunha do ataque violenta dum menino à sua educadora. Que pais? Que País. Aonde vamos parar.
Mas não. Pus-me a pensar. É pura coincidência!

04/04/2008

À Dra PAULA TEIXEIRA DA CRUZ

A dra. Paula Teixeira da Cruz, na coluna pessoal do Correio da manhã de ontem, sobre o caso da aluna, a professora e o telemovel, consensual, plena de humanidade e racionalidade.

As minhas felicitações pela coragem de desmistificar e educar consciências.