31/12/2009

O MEU SEGREDO

Ah se me encontrasse
a sós com o meu segredo
enquanto a chuva meu rosto golpeasse
e eu perdesse dele o medo

mas não...quando estou só
ele recolhe-se dentro de mim num enredo
revolve-me dentro dele levanta o pó
que me encobre de mim em meu segredo

amei um homem maravilhoso
casei e tive um filho mulher ditosa
mas já não sinto aquele fogo fulguroso
e amo outra paixão libidinosa

ah se eu soubesse que não há amor eterno
quando ao ver-me um dia nua descobri
ser por aventura ou gozo condenada ao inferno
talvez ousasse outro caminho que então vi

sou linda bela esbelta mulher airosa
tenho na alma um segredo desde criança
ser na paixão leviana de fogo em fogo esplendorosa
não ser fiel a um conceito absurdo sem esperança

enquanto no corpo a chama aviva e arde
e a alma se pavoneia alegre na provocação
quero encontrar-me a sós com meu segredo embora tarde
viver de novo intenso amor em fogo de paixão

se me encontrasse a sós com o meu segredo
e fosse da coragem o ícone um baluarte
limpasse o preconceito afugentasse o medo
e fosse mulher de novo que no amor reparte...

autor JRG

26/12/2009

A P I A N I S T A

é uma entrada súbita majestosa e bela
a imponência dos contornos da sala pouco iluminada
o brilho da cornija dos camarotes irrompem aplausos
retumbante a emoção que ecoa dentro dela
arfando o coração nos seios sustidos ruborizada
esguia alta o vestido branco medidos os passos


um halo de luz sobre o piano castanho
faz a vénia a pianista ante a poderosa ovação
senta o corpo dócil na cadeira nobre
faz-se um silêncio leve absurdo estranho
as mãos dispõem os dedos acalma o coração
e ouve-se a melodia das notas que o silêncio encobre

afaga as teclas negras e as brancas com volúpia
pára estremece inclina o corpo airoso esbelto
balanceia-se ao ritmo que a alma sente
os dedos esguios longos numa cadeia de som que rodopia
numa simbiose da pianista com o piano solto
como que levitam nas ondas que inundam a mente

no frenesim das notas que se entrecruzam
com subtil mestria dos dedos que a pianista anima
há momentos de acalmia a ideia voa outros delirantes
doce a melodiosa música de sons que inebriam
arrebatadora imagem a pianista e o piano em sintonia
envoltos na partitura que os exubera e torna amantes

quando termina volta-se dá a cara ao público fascinado
como pena flutuando as mãos o corpo os olhos emoção
toda ela ternura beleza encanto sedutora faz a vénia
delega no piano toda a grandeza por não ter desafinado
o publico aplaude de pé com bravos estrondosa ovação
o piano estático cala a pianista deslumbra-se em sincronia

autor JRG

23/12/2009

MISTÉRIOS DA VIDA

tantas pessoas que passam e nos olham indiferentes
gente mais nova que de soslaio pergunta
como será o futuro que mistérios que sementes
e seguem sem resposta no silêncio que as junta
*****
se ouvissem talvez um velho dissesse
olhem os cães vadios que bebem da água da rua
vencem distâncias a pé disputam o alimento
são capazes de ternura quando algum envelhece
dóceis meigos cada dia neles se encrua
nem frio calor ou neve no cio seguem o vento
*****
tantas pessoas que passam de caras altivas ou tombadas
umas tristes amarguradas outras risonhas
gente que obliquamente fazem perguntas caladas
como será o futuro seremos do presente suas vergonhas?
*****
ah se eles ouvissem talvez um velho alertasse
que uma formiga sozinha faz tanto pelo ambiente
nem sempre no mesmo carreiro não assalta o do vizinho
constrói castelos de enredos não esconde a outra face
faça sol chuva ou vento segue em frente
diverte-se na natureza onde vive e faz o ninho
*****
tantas pessoas que passam só elas contam ausentes
não reparam nos meninos e meninas
nem nos velhos que viveram e pensam sapientes
são memórias adormecidas em suas rotinas
*****
autor: JRG

19/12/2009

QUERER OU NÃO QUERER É A QUESTÃO...

o que eu não quero é ser olhado como tirano
nem quero ser sentido indiferente
dói-me a alma de ver decair o ser humano
e a terra à mercê do lucro indigente

o que eu não quero é ser temido como predador
nem quero ser amante amado da vil hipocrisia
dói-me a alma de ver a agonia do amor
de ver fugir a tanta gente a estrela que os guia

o que eu não quero é ser do medo aprisionado
nem quero ser da vontade a cobardia
dói-me a alma de ver o homem acomodado
perdido do belo que premeia a ousadia

querer ou não querer não há meio termo
se sou agente da acção se calo permito o desvario
não posso queixar--me quando estiver enfermo
na derrocada do meu falso poderio

quero ser luz que da lúgubre treva se irradia
e fulgurosa inunda a alva nascitura
servindo o verso que no poema é poesia
e ser do tempo que rege toda a natura

quero ser amor primeiro que ouro poder ou louco
em cada homem mulher criança amar de amigo
em cada jardim floresta na paz descansar um pouco
e sorrir no desencanto de olhar apenas meu umbigo

quero ser além dos quatro o quinto elemento a vida
entre o ar despoluído e o fogo que acalenta
na água que descedenta o corpo e a alma ávida
e ser na terra o deus profano que em tudo atenta

autor: JRG

16/12/2009

COMO SE FORA O SEU DEUS

num hiato do tempo estava o poeta sentado
o dia gélido quase nevava árido
os olhos em volta do silêncio calado
o papel a caneta a tábua sobre o joelho dorido
*****
tinha escrito em cartão sua mensagem
não peço esmola nem a dócil compaixão
escrevo poemas dentro de uma imagem
para prendas de Natal ou coração
*****
acha a massa humana a crueldade
daquela figura insólita exposta ao dia
frio que cortava a carne pelas ruas da cidade
escrevendo sobre o joelho a poesia
*****
passa alguém que que se detém e encomenda
trocam palavras riem-se batem os pés
o poema vai surgindo no papel a prenda
em versos ornamentados de outras fés
*****
estava sentado no adro da igreja
uma senhora distinta interpela o poeta
casa comigo sou rica para que mais ninguém veja
a figura imponente da tua imagem quieta
*****
o poeta disse que não queria tal riqueza
que se comprazia de ser da palavra um tesouro
que lhe deixasse usufruir do ar e da natureza
que são mais preciosos que todo o ouro
*****
a mulher rica primeiro pensou que era louco
depois nas palavras dele se iluminou
mandou parar o abate da floresta
que se fechassem os poços de petróleo pouco a pouco
que tudo começasse de novo onde acabou
que cessassem das guerras o que resta
*****
autor: JRG

08/12/2009

LÁGRIMAS NO TEU OLHAR...

quando vejo nuns olhos de mulher as lágrimas
e sinto que chora por sofrer
o seu rosto iluminado de belezas intimas
a alma a iludir o corpo cansado de viver
***
solto de mim um grito de alerta
agito do ser a sua essência
vou ao fundo da alma que desperta
enxugo lágrimas e sou da virtude a consciência
***
era vestida de negro agreste a solidão
quem da mulher tentava tomar posse
no vazio em que mergulha o coração
quando a alma se inebria do corpo para que fosse
***
no mundo de emoções um baluarte
contra a dor que fere o pensamento
meu brado que a liberta mulher arte
para que cesse nos olhos o seu tormento
***
e ela sorri de novo na sua beleza infinita
ganhou-se quando achei que a perdi
tão jovem bela e na virtude bonita
mulher do tempo e da memória que vivi
autor: JRG

28/11/2009

O QUE EU AMO NA MULHER

claro que não são todas as mulheres o meu encanto
não são cabelos curtos compridos emplumados
nem que sejam doirados ou escuros
separo as almas que são quebranto
as que em devaneio sonham principes encantados
as que tecem urdiduras e me metem em apuros
*****
não são esbeltas formas corporais
nem perfumes de nuances excitantes
tão pouco seios ou sexo promessas virtuais
***
não sendo eu embora a perfeição
nem o mais colorido de todos os amantes
não cedo a caprichos fúteis do coração
*****
o que amo na mulher é o carácter sedução
é a sua infinitude na partilha do amor
é ser do saber a mais humilde claridade
é capaz de ser menina no limite da razão
é a sensualidade de viver comum na dor
é ser esperança e alegria em cada etapa da idade
=====
autor: JRG

21/11/2009

THIERRY HENRY - UM GESTO QUE RESSALTA DA MEDIOCRIDADE GERAL

""Thierry Henry pediu ontem a repetição do França-Rep. Irlanda (1-1) - 2ª mão do play-off de acesso ao Mundial de 2010 - mas a FIFA reagiu com um rotundo 'não'. "Lamento imenso. A Irlanda merecia estar na África do Sul", disse o francês.""
Esta noticia, inserida no Jornal Correio da Manhã de hoje, é uma manifestação de lealdade a si próprio, enquanto homem, e aos outros, num mundo, o do futebol, em que os valores estão todos adulterados pelo vício e o negócio de milhões que representa.
A noticia surpreendeu-me positivamente, é uma gota de alva ou doirada preciosidade, nas relações do homem consigo próprio; como seria tudo mais fácil se cada um reconhecesse que os valores dos outros são muitas vezes silenciados por um ardil mesquinho, por uma ilusão de aparência, por um momento de desconexão com a realidade conjunta; como a complementaridade das relações homem mulher não se reduziria a um toque sensual da personalidade, mas a ela em concreto, o amor é poesia e a poesia nem sempre rima, por vezes corre solta e desabrida, rebelde, intempestiva e não deixa de ser bela, apetecida...; como as relações de trabalho na sociedade assumiriam uma equitativa racionalidade na redistribuição dos proveitos e das responsabilidades; como a convivência do homem com o Planeta, na sua diversidade, espécies, ambiente, consubstanciaria uma perene qualidade de toda a vida.
Obrigado Thierry Henry, serás provavelmente ostracizado na poderosa França, mas permanecerás um exemplo de dignificação da espécie humana, pela arte ímpar com que jogas a bola e a humildade do ser que não se esgota nos conluios que os lobbies tecem.
autor: JRG

19/11/2009

7 VAGAS E O MAR AMANSA

cinco homens dentro do barco
quatro diabos aos remos
um ao leme é o arrais
o mar encapelado de manso parco
a cada 7 vagas o mar é chão avançaremos

grita o mestre para os demos
a Lua num momento sob nuvens oculta
ou a iliteracia de quem o dever erra
por ventura a incerteza do que é dado como certo
uma vaga imensa de súbito se avulta
só o mestre a vê e grita ou berra
rema "caralho" rema tirem-nos deste aperto

os homens remam com a força inconsciente
de encontro à poderosa onda tresmalhada
e no embate brutal a proa sobe a pique
há um que arrancado ao banco o remo perde e sente
o barco rasga a onda que ruge e se desfaz apavorada
e faz-se ao mar que acalma da ânsia a psique

autor: JRG




18/11/2009

VEJO-TE...MULHER!

vejo-te
**
doce e bela
pura
inebriante
sábia mulher singela
mulher cultura
mulher amante
*****
vejo-te
**
incandescente
linda vistosa
sedutora
mulher semente
mulher poderosa
mulher criadora
*****
vejo-te
**
luz rutilante
casta ternura
origem e fim
mulher vibrante
mulher que o tempo apura
mulher aroma de jasmim
*****
vejo-te
**
andar segura
resplandecência majestosa
mãe amante
mulher vitima da usura
mulher sonho maravilhosa
mulher instante
*****
vejo-te
**
e fico apaixonado
de ser na tua alma reflexo
um êxtase na magia
mulher de culto sublimado
mulher fêmea sexo
mulher maior do ser apologia
*****
autor: JRG

17/11/2009

HAVIA O TEMPO CERTO E SOLTO

havia
antes da divisão do tempo
em segundos minutos horas
dias meses anos
um sentimento de tempo infinito
sem pressas contornos limitações
apenas o sol a lua
o vai e vem das marés
as estrelas marcas nocturnas
a sazonalidade dos ventos
das chuvas
dos fogos dentro do Estio
*****
havia
antes da reinvenção da escrita
sabemos porque está gravado nos genes
um tempo indelimitado
sem contadores de esperança de vida
sem compromissos temporizações
sem horas de fazer de pensar
embutido de eternidade
e no entanto
havia o momento certo de caçar
de dormir
de fazer sexo ou fornicar
*****
havia
muito antes da eclosão
mágica ou cientifica da linguagem
uma indefinição do tempo
e do lugar onde ou de aonde
perante o que a liberdade
era um espaço vital
o medo o mal a esconder
a força
ou o ardil
uma nuance feroz
de viver
*****
havia e há
uma sensação biológica
ou cósmica
de ser ou estar
sem correntes de tempo
sem espaços limitativos
sem propriedade ´
pública ou privada
sem castigos divinos
nem hominídeos
sem leis servis
que adulteram o ser e o tempo
autor: JRG

16/11/2009

A SOLIDÃO DO HOMEM

há quantos milénios o homem...
nascer caçar com que comer
fingir ser forte para que o tomem
como capaz de a si e aos seus valer

e nesta senda de melhor viver
foi descobrindo em si a mais valia
que é ter vivido o tempo de sofrer
que o outro a começar ainda não sabia

começou por criar uma família
e fez do tempo um indutor da veneração
filho és pai serás santa homilia
insuficiente para enternecer o coração

criou o estado social para chegado ao termo
não depender de esmola nem comiseração
exercitou doutrina novo humanismo a esmo
e vê-se preso do egoísmo que o condena à solidão

não há volta para quem não acredita na evidência
que o caminho é sempre igual apenas mais extenso
só o amor da alma sobre o corpo, em penitência
permitirá ao homem resolver-se como o penso

autor JRG

DOCE ILUSÃO DE AMOR

tão doce o teu olhar
os lábios esperança
o sorriso verde mar
rosto belo de criança

que fiz eu para merecer o teu silêncio
ousei dizer que amava a tua alma amizade
se provoquei a tua ira me penitencio
é poesia o que em ti sinto é liberdade

tão doce imaginar
como pulsa o coração
duma mulher linda a se dar
aos cuidados da razão

neste jardim de que cuido com desvelo
para ser o teu palácio na majestade de rainha
há um palpitar de anseios que não revelo
sempre que toco a flor liberta d'erva daninha

tão doce sentir
a emanação do teu odor
em palavras florir
sentir o fogo a teu favor

autor: JRG

A POESIA CORRE EM CASCATA SIBILINA

a poesia é um riacho
de água cristalina
se purifica encosta abaixo
na plavra do poeta sibilina

vem desenfreada na torrente
salta sucalcos que o leito cava
na confissão o poeta torna urgente
dizer que a água também suja quando lava

desce docemente e limpida
confessa a sordidez do apetite
é homem também o poeta que liquida
a conta ancestral que pede quite

de repente um declive acentuado
que belo a poesia em cascata
o poeta em confissão impudorado
diz que basta para nó o da gravata

e dito isto para que o não pensem confuso
o poeta adensa a sua vida de mistério
a poesia é o estado da alma a que falta o parfuso
libertina é um riacho que corre norte e sul o hemisfério

autor: JRG

01/11/2009

TROCADILHOS EXPRESSIONISTAS

Da capa da revista Sábado de um dia destes:

Amorim para Joe Berardo: - Sabes o que me disseste do Jardim Gonçalves?
Joe Berardo para Amorim: - ???!!!
Amorim para Joe Berardo: - Tinhas razão!...

Do trocadilho de "Tem a Palavra o Povo:"

Jardim Gonçalves para Amorim: - Lembras-te do que me avisaste sobre o Joe Berardo?
Amorim para Jardim Gonçalves: ???!!!
Jardim Gonçalves para Amorim: Tinhas razão!...

Joe Berardo para Jardim Gonçalves: - Mantens o que me falaste sobre o Amorim?
Jardim Gonçalves para Joe Berardo: - ???!!!
Joe Berardo para Jardim Gonçalves: - Tinhas razão!...

Eles são apenas testas de ferro de um polvo gigante que nos suga o sangue, nos amedronta com o desemprego, nos condiciona o amor. Testas de ferro sem qualidade, sem carisma, sem charme e isto quer dizer que o polvo está a perder a sua força, face à enorme onda de amor que cresce em todo o mundo, pelo próprio mundo, não já só o humano, mas todo o Planeta, suspenso das noticias de novos agravamentos da sua sustentabilidade.

27/10/2009

CARTA POEMA A UMA AMIGA DESESPERADA

cruzada sobre o regaço cada mão
veias vincadas que traçam o destino
os olhos que de dentro perguntam a razão
se é por ser mulher que há tal desatino

há ligações que por mais esforço nunca dão
almas avessas rebeldes de insubmissas
procurando no amor a amizade trazem paixão
que é um estado hipnótico de sensações postiças

atravesso a luz rutilante dos teus olhos castanhos
estremecemos da alma os corpos quando toco os teus lábios
e sinto o calor de dois fogos ardendo estranhos
o dos olhos que me perfura a essência de tão sábios
e o outro fogo de dentro da existência fogos tamanhos
de tal sorte que me arrepia a nostalgia dos contágios

dizes que vives sete vidas de vadia à revelia
que nada deu ou dá certo em teu projecto de viver
amores furtivos desencantos que te deixam na agonia
de ter de recomeçar de novo tua ânsia de saber

hoje olho o teu corpo pela primeira vez na totalidade
adejando em volta vejo a tua alma bela graciosa
e não encontro um rasto uma evidência de casualidade
talvez de estranhos a vã cobiça que te cerca a alma carinhosa

é tempo de uma paragem nesta correria alucinante
a vida é ainda em ti do tamanho duma criança
sentir no vazio que aparentas do teu ser pensante
um todo que aguarda o reconhecimento da esperança

é falso que tenhamos montes de amigos sempre à mão
amigos é algo mais que um simples sorriso em horas difíceis
entram em nós com tudo incluindo a mente o coração
os outros desfalecem ausentes nos momentos impossíveis

toda a vida é uma luta injusta pela sobrevivência
uns investem o corpo em desmedida outros o espírito
não é liquido que a alma assuma a insolvência
quando é no corpo que se concentra todo o mérito

eu por exemplo que investi na alma uma vida inteira
não tenho nada no corpo que ao ser da alma me enriqueça
sei que num corpo avulta a carne a pele alva ou trigueira
é certo que cedo ou tarde acorda sem ter quem o aqueça

hoje que te conheci o corpo são da alma enigmática
achei que eras mais bela do que só pela alma imaginava
exorto a menina flor jardim ou estrela que há em ti mulher
na génese do ser em que te moldas tantas vezes pragmática
refulge uma luz de amor que já em ti sempre brilhava
"amigos cento e dez ou talvez mais" , não é quem quer


autor: JRG

24/10/2009

A FLOR MAIS BELA

tive um jardim com as mais belas flores
cores maviosas de perfumes sublimes
de entre elas pétalas dúctis meus amores
uma era a evidência da deusa de Aquiles

alguém a transformou desistiu de mim
eu que a tinha como a mais bela e pura
sorrio hoje que a vi triste entre a rosa e o jasmim
e tal como a imaginei mulher flor menina de ternura

ao vê-la, há tanto tempo que a procurava,
a minha alma vagabunda se emocionou
o ar descontraído, lábios carnudos as mãos que amava
pendentes de um sorriso lindo que me cativou

corri em volta de mim e além no mundo
porque a senti amiga da alma não a queria perder
na solidão do homem que eu sou o mais profundo
amiga era esta flor que amei de amiga sem a conhecer

hoje que a vejo enfim despida e eu a nu deslumbrado
do encanto dos olhos seus, entre sorrisos de alma, rutilantes
tinha que escrever espontâneo este poema endiabrado
ode à beleza da flor mais bela viçosa de sol e lua amantes

autor: JRG

17/10/2009

NA VILA ONDE EU MORO

na vila onde eu moro
vejo a outra margem do rio
há uma rua de escarros sem decoro
vejo de Lisboa imponente o casario

a rua desce desde o largo da igreja
até ao rio com Lisboa à vista
chão escuro laivos de muco para que se veja
que escarrar no chão aqui é uma conquista

dum lado casas de pasto humano
do outro ninhos de gente que na vila habita
sentados no chão velhos de olhar insano
no lusco fusco da vida que a morte regurgita

na vila onde eu moro
nem tudo é morto ou escarro
há natureza e o rio na base do morro
e gente feliz que se ri em cada bairro

há marchas maledicências romarias
homens de senso raro mulheres belas bonitas
há sábios que lêem no céu as ventanias
e cães abandonados por famílias catitas

no rio arrastar ameijoa pesca violenta
entre outras pescas duras ancestrais
na margem meninos de escola e gente que acalenta
no ar adejando gaivotas mergulhões maçaricos reais

na vila onde eu moro
gente que diz bom dia sempre que escarra
extraída de dentro a cava maldição o soro
renovada a esperança na uva que cresce na parra

chilreiam andorinhas, pardais grasnam gaivotas
melros estorninhos pintassilgos voos rasantes
nas Primaveras memória dos ninhos em suas rotas
exultam ao sol emplumados em ritos amantes

o rio de águas mutantes e densa corrente
atravessa vilas cidades estreita rasga montanhas
chegado ao mar estanca no estuário laxante
trocam-se de amores ressuscitam vidas estranhas

na vila onde eu moro
há um tudo e um nada que apetece viver
cada alma é de senso comum um justo foro
onde a vida e a morte se adiam ao escurecer

autor:JRG

04/10/2009

CAÍU A MÁSCARA AO SENHOR PRESIDENTE DA MADEIRA

Caiu a máscara que restava ao senhor da Madeira. E não se pense que tal se deve a uma consistente afirmação por outros valores, mais soltos na defesa dos interesses reais da região, como seja a difusão da cultura, a progressão do ensino, a evidência como povo que pensa e decide pela sua própria cabeça, não! Como disse um sábio estratega politico do século XX, Mao Tsé Tung, "uma faúlha pode incendiar a pradaria", assim, um movimento de opinião, infimamente minoritário, entre a população regional, usando uma estratégia de gota a gota, de incómodo persistente pela sombra, o gesto mudo, a fixação na realidade oculta, fez extravasar o pouco de decoro face à violência efectiva que vinha caracterizando o discurso e a postura do senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível ao riso que provoca um balão, um dirigível, sobre as cabeças concentradas na figura e no discurso do senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível à presença dum carro funerário, ao redor dos fiéis que de uma qualquer forma, não sei qual, que magia, que feitiço, se juntam para prestar vassalagem ao senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível ao movimento de pessoas com objectivas na mão, que lhe fixam a imagem, o ódio a transparecer nas bochechas coradas, vá lá saber-se de quê, o sangue da ira?!...O medo da descoberta, da nudez dos princípios, da falácia das palavras ante a evidência de uma realidade cada vez mais loquaz.

E é então que, imponente na sua arrogância de mandador sem lei, ferido na sua impotência ante a minoria silenciosa que ousa afrontá-lo no seu próprio reino, o senhor presidente da Madeira, inchado como um sapo prestes a explodir, incita a populaça, já que as policias não podem fazer nada, porque são a lei do Continente, já que Deus o abandonou nesta Santa Cruzada pelo bem estar do bom povo da Madeira, é hora de o povo agir, de fazer justiça pelas próprias mãos!...

E o inevitável aconteceu, ou ia acontecendo, mas fica a previsão de que pode acontecer numa ocasião mais favorável...

Perante os incidentes que vieram nas noticias destes últimos dias, na região autónoma da Madeira e protagonizadas pelo seu Presidente, seria de esperar uma atitude do Senhor Presidente da República, repudiando as atitudes de incitamento à violência das populações, é anti-constitucional, na linha das suas preocupações com a segurança das instituições, mas o senhor presidente da República, "aos costumes disse nada" e segue a novela até que seja o tempo de deitar contas à vida.

Saúdo a coragem, a ousadia, o humor saudável, o atrevimento de afrontar a asfixia da Madeira, do Movimento da Nova Democracia, cujos princípios ideológicos não defendo, mas que considero um marco importante no despertar do povo da Madeira para a vergonha que é ser conotado com tal espécie de pessoas na orientação dos seus destinos.

autor: JRG

27/09/2009

VISÃO DE UMA MULHER MAIOR

viste o mundo travestido de paixão
viste o homem sem Deus desesperado
viste na mulher o ser da nobre criação
viste a luz da esperança num coração rasgado

*****
viste pombas brancas adejando sobre as cidades
viste poetas harmonizando nas palavras melodias
viste andorinhas rasgando o ar de ilusões rasantes
viste ódios amores cobardes apodando-se de ousadias

*****
viste sóis e luas e outros multi milenares planetas
viste o homem afogado em singular solidão
viste horrores a alegria do primeiro grito e os cometas
viste o arco íris unido ao homem pelo coração

*****
viste o sorriso ou o som cristalino do rir duma criança
viste a beleza da floresta o fragor das ondas na rebentação
viste antes do trovão o raio que ilumina a terra de esperança
viste a claridade espelhada do teu rosto advinda do coração


*****
viste a luz cósmica ou Divina que indicia o norte
viste a emoção dos sonhos feitos prisioneiros
viste a liberdade a restauração da confiança que nos dita a sorte
viste a realidade soltaste risos loucos por sermos pioneiros


*****

autor: JRG