28/11/2009

O QUE EU AMO NA MULHER

claro que não são todas as mulheres o meu encanto
não são cabelos curtos compridos emplumados
nem que sejam doirados ou escuros
separo as almas que são quebranto
as que em devaneio sonham principes encantados
as que tecem urdiduras e me metem em apuros
*****
não são esbeltas formas corporais
nem perfumes de nuances excitantes
tão pouco seios ou sexo promessas virtuais
***
não sendo eu embora a perfeição
nem o mais colorido de todos os amantes
não cedo a caprichos fúteis do coração
*****
o que amo na mulher é o carácter sedução
é a sua infinitude na partilha do amor
é ser do saber a mais humilde claridade
é capaz de ser menina no limite da razão
é a sensualidade de viver comum na dor
é ser esperança e alegria em cada etapa da idade
=====
autor: JRG

21/11/2009

THIERRY HENRY - UM GESTO QUE RESSALTA DA MEDIOCRIDADE GERAL

""Thierry Henry pediu ontem a repetição do França-Rep. Irlanda (1-1) - 2ª mão do play-off de acesso ao Mundial de 2010 - mas a FIFA reagiu com um rotundo 'não'. "Lamento imenso. A Irlanda merecia estar na África do Sul", disse o francês.""
Esta noticia, inserida no Jornal Correio da Manhã de hoje, é uma manifestação de lealdade a si próprio, enquanto homem, e aos outros, num mundo, o do futebol, em que os valores estão todos adulterados pelo vício e o negócio de milhões que representa.
A noticia surpreendeu-me positivamente, é uma gota de alva ou doirada preciosidade, nas relações do homem consigo próprio; como seria tudo mais fácil se cada um reconhecesse que os valores dos outros são muitas vezes silenciados por um ardil mesquinho, por uma ilusão de aparência, por um momento de desconexão com a realidade conjunta; como a complementaridade das relações homem mulher não se reduziria a um toque sensual da personalidade, mas a ela em concreto, o amor é poesia e a poesia nem sempre rima, por vezes corre solta e desabrida, rebelde, intempestiva e não deixa de ser bela, apetecida...; como as relações de trabalho na sociedade assumiriam uma equitativa racionalidade na redistribuição dos proveitos e das responsabilidades; como a convivência do homem com o Planeta, na sua diversidade, espécies, ambiente, consubstanciaria uma perene qualidade de toda a vida.
Obrigado Thierry Henry, serás provavelmente ostracizado na poderosa França, mas permanecerás um exemplo de dignificação da espécie humana, pela arte ímpar com que jogas a bola e a humildade do ser que não se esgota nos conluios que os lobbies tecem.
autor: JRG

19/11/2009

7 VAGAS E O MAR AMANSA

cinco homens dentro do barco
quatro diabos aos remos
um ao leme é o arrais
o mar encapelado de manso parco
a cada 7 vagas o mar é chão avançaremos

grita o mestre para os demos
a Lua num momento sob nuvens oculta
ou a iliteracia de quem o dever erra
por ventura a incerteza do que é dado como certo
uma vaga imensa de súbito se avulta
só o mestre a vê e grita ou berra
rema "caralho" rema tirem-nos deste aperto

os homens remam com a força inconsciente
de encontro à poderosa onda tresmalhada
e no embate brutal a proa sobe a pique
há um que arrancado ao banco o remo perde e sente
o barco rasga a onda que ruge e se desfaz apavorada
e faz-se ao mar que acalma da ânsia a psique

autor: JRG




18/11/2009

VEJO-TE...MULHER!

vejo-te
**
doce e bela
pura
inebriante
sábia mulher singela
mulher cultura
mulher amante
*****
vejo-te
**
incandescente
linda vistosa
sedutora
mulher semente
mulher poderosa
mulher criadora
*****
vejo-te
**
luz rutilante
casta ternura
origem e fim
mulher vibrante
mulher que o tempo apura
mulher aroma de jasmim
*****
vejo-te
**
andar segura
resplandecência majestosa
mãe amante
mulher vitima da usura
mulher sonho maravilhosa
mulher instante
*****
vejo-te
**
e fico apaixonado
de ser na tua alma reflexo
um êxtase na magia
mulher de culto sublimado
mulher fêmea sexo
mulher maior do ser apologia
*****
autor: JRG

17/11/2009

HAVIA O TEMPO CERTO E SOLTO

havia
antes da divisão do tempo
em segundos minutos horas
dias meses anos
um sentimento de tempo infinito
sem pressas contornos limitações
apenas o sol a lua
o vai e vem das marés
as estrelas marcas nocturnas
a sazonalidade dos ventos
das chuvas
dos fogos dentro do Estio
*****
havia
antes da reinvenção da escrita
sabemos porque está gravado nos genes
um tempo indelimitado
sem contadores de esperança de vida
sem compromissos temporizações
sem horas de fazer de pensar
embutido de eternidade
e no entanto
havia o momento certo de caçar
de dormir
de fazer sexo ou fornicar
*****
havia
muito antes da eclosão
mágica ou cientifica da linguagem
uma indefinição do tempo
e do lugar onde ou de aonde
perante o que a liberdade
era um espaço vital
o medo o mal a esconder
a força
ou o ardil
uma nuance feroz
de viver
*****
havia e há
uma sensação biológica
ou cósmica
de ser ou estar
sem correntes de tempo
sem espaços limitativos
sem propriedade ´
pública ou privada
sem castigos divinos
nem hominídeos
sem leis servis
que adulteram o ser e o tempo
autor: JRG

16/11/2009

A SOLIDÃO DO HOMEM

há quantos milénios o homem...
nascer caçar com que comer
fingir ser forte para que o tomem
como capaz de a si e aos seus valer

e nesta senda de melhor viver
foi descobrindo em si a mais valia
que é ter vivido o tempo de sofrer
que o outro a começar ainda não sabia

começou por criar uma família
e fez do tempo um indutor da veneração
filho és pai serás santa homilia
insuficiente para enternecer o coração

criou o estado social para chegado ao termo
não depender de esmola nem comiseração
exercitou doutrina novo humanismo a esmo
e vê-se preso do egoísmo que o condena à solidão

não há volta para quem não acredita na evidência
que o caminho é sempre igual apenas mais extenso
só o amor da alma sobre o corpo, em penitência
permitirá ao homem resolver-se como o penso

autor JRG

DOCE ILUSÃO DE AMOR

tão doce o teu olhar
os lábios esperança
o sorriso verde mar
rosto belo de criança

que fiz eu para merecer o teu silêncio
ousei dizer que amava a tua alma amizade
se provoquei a tua ira me penitencio
é poesia o que em ti sinto é liberdade

tão doce imaginar
como pulsa o coração
duma mulher linda a se dar
aos cuidados da razão

neste jardim de que cuido com desvelo
para ser o teu palácio na majestade de rainha
há um palpitar de anseios que não revelo
sempre que toco a flor liberta d'erva daninha

tão doce sentir
a emanação do teu odor
em palavras florir
sentir o fogo a teu favor

autor: JRG

A POESIA CORRE EM CASCATA SIBILINA

a poesia é um riacho
de água cristalina
se purifica encosta abaixo
na plavra do poeta sibilina

vem desenfreada na torrente
salta sucalcos que o leito cava
na confissão o poeta torna urgente
dizer que a água também suja quando lava

desce docemente e limpida
confessa a sordidez do apetite
é homem também o poeta que liquida
a conta ancestral que pede quite

de repente um declive acentuado
que belo a poesia em cascata
o poeta em confissão impudorado
diz que basta para nó o da gravata

e dito isto para que o não pensem confuso
o poeta adensa a sua vida de mistério
a poesia é o estado da alma a que falta o parfuso
libertina é um riacho que corre norte e sul o hemisfério

autor: JRG

01/11/2009

TROCADILHOS EXPRESSIONISTAS

Da capa da revista Sábado de um dia destes:

Amorim para Joe Berardo: - Sabes o que me disseste do Jardim Gonçalves?
Joe Berardo para Amorim: - ???!!!
Amorim para Joe Berardo: - Tinhas razão!...

Do trocadilho de "Tem a Palavra o Povo:"

Jardim Gonçalves para Amorim: - Lembras-te do que me avisaste sobre o Joe Berardo?
Amorim para Jardim Gonçalves: ???!!!
Jardim Gonçalves para Amorim: Tinhas razão!...

Joe Berardo para Jardim Gonçalves: - Mantens o que me falaste sobre o Amorim?
Jardim Gonçalves para Joe Berardo: - ???!!!
Joe Berardo para Jardim Gonçalves: - Tinhas razão!...

Eles são apenas testas de ferro de um polvo gigante que nos suga o sangue, nos amedronta com o desemprego, nos condiciona o amor. Testas de ferro sem qualidade, sem carisma, sem charme e isto quer dizer que o polvo está a perder a sua força, face à enorme onda de amor que cresce em todo o mundo, pelo próprio mundo, não já só o humano, mas todo o Planeta, suspenso das noticias de novos agravamentos da sua sustentabilidade.

27/10/2009

CARTA POEMA A UMA AMIGA DESESPERADA

cruzada sobre o regaço cada mão
veias vincadas que traçam o destino
os olhos que de dentro perguntam a razão
se é por ser mulher que há tal desatino

há ligações que por mais esforço nunca dão
almas avessas rebeldes de insubmissas
procurando no amor a amizade trazem paixão
que é um estado hipnótico de sensações postiças

atravesso a luz rutilante dos teus olhos castanhos
estremecemos da alma os corpos quando toco os teus lábios
e sinto o calor de dois fogos ardendo estranhos
o dos olhos que me perfura a essência de tão sábios
e o outro fogo de dentro da existência fogos tamanhos
de tal sorte que me arrepia a nostalgia dos contágios

dizes que vives sete vidas de vadia à revelia
que nada deu ou dá certo em teu projecto de viver
amores furtivos desencantos que te deixam na agonia
de ter de recomeçar de novo tua ânsia de saber

hoje olho o teu corpo pela primeira vez na totalidade
adejando em volta vejo a tua alma bela graciosa
e não encontro um rasto uma evidência de casualidade
talvez de estranhos a vã cobiça que te cerca a alma carinhosa

é tempo de uma paragem nesta correria alucinante
a vida é ainda em ti do tamanho duma criança
sentir no vazio que aparentas do teu ser pensante
um todo que aguarda o reconhecimento da esperança

é falso que tenhamos montes de amigos sempre à mão
amigos é algo mais que um simples sorriso em horas difíceis
entram em nós com tudo incluindo a mente o coração
os outros desfalecem ausentes nos momentos impossíveis

toda a vida é uma luta injusta pela sobrevivência
uns investem o corpo em desmedida outros o espírito
não é liquido que a alma assuma a insolvência
quando é no corpo que se concentra todo o mérito

eu por exemplo que investi na alma uma vida inteira
não tenho nada no corpo que ao ser da alma me enriqueça
sei que num corpo avulta a carne a pele alva ou trigueira
é certo que cedo ou tarde acorda sem ter quem o aqueça

hoje que te conheci o corpo são da alma enigmática
achei que eras mais bela do que só pela alma imaginava
exorto a menina flor jardim ou estrela que há em ti mulher
na génese do ser em que te moldas tantas vezes pragmática
refulge uma luz de amor que já em ti sempre brilhava
"amigos cento e dez ou talvez mais" , não é quem quer


autor: JRG

24/10/2009

A FLOR MAIS BELA

tive um jardim com as mais belas flores
cores maviosas de perfumes sublimes
de entre elas pétalas dúctis meus amores
uma era a evidência da deusa de Aquiles

alguém a transformou desistiu de mim
eu que a tinha como a mais bela e pura
sorrio hoje que a vi triste entre a rosa e o jasmim
e tal como a imaginei mulher flor menina de ternura

ao vê-la, há tanto tempo que a procurava,
a minha alma vagabunda se emocionou
o ar descontraído, lábios carnudos as mãos que amava
pendentes de um sorriso lindo que me cativou

corri em volta de mim e além no mundo
porque a senti amiga da alma não a queria perder
na solidão do homem que eu sou o mais profundo
amiga era esta flor que amei de amiga sem a conhecer

hoje que a vejo enfim despida e eu a nu deslumbrado
do encanto dos olhos seus, entre sorrisos de alma, rutilantes
tinha que escrever espontâneo este poema endiabrado
ode à beleza da flor mais bela viçosa de sol e lua amantes

autor: JRG

17/10/2009

NA VILA ONDE EU MORO

na vila onde eu moro
vejo a outra margem do rio
há uma rua de escarros sem decoro
vejo de Lisboa imponente o casario

a rua desce desde o largo da igreja
até ao rio com Lisboa à vista
chão escuro laivos de muco para que se veja
que escarrar no chão aqui é uma conquista

dum lado casas de pasto humano
do outro ninhos de gente que na vila habita
sentados no chão velhos de olhar insano
no lusco fusco da vida que a morte regurgita

na vila onde eu moro
nem tudo é morto ou escarro
há natureza e o rio na base do morro
e gente feliz que se ri em cada bairro

há marchas maledicências romarias
homens de senso raro mulheres belas bonitas
há sábios que lêem no céu as ventanias
e cães abandonados por famílias catitas

no rio arrastar ameijoa pesca violenta
entre outras pescas duras ancestrais
na margem meninos de escola e gente que acalenta
no ar adejando gaivotas mergulhões maçaricos reais

na vila onde eu moro
gente que diz bom dia sempre que escarra
extraída de dentro a cava maldição o soro
renovada a esperança na uva que cresce na parra

chilreiam andorinhas, pardais grasnam gaivotas
melros estorninhos pintassilgos voos rasantes
nas Primaveras memória dos ninhos em suas rotas
exultam ao sol emplumados em ritos amantes

o rio de águas mutantes e densa corrente
atravessa vilas cidades estreita rasga montanhas
chegado ao mar estanca no estuário laxante
trocam-se de amores ressuscitam vidas estranhas

na vila onde eu moro
há um tudo e um nada que apetece viver
cada alma é de senso comum um justo foro
onde a vida e a morte se adiam ao escurecer

autor:JRG

04/10/2009

CAÍU A MÁSCARA AO SENHOR PRESIDENTE DA MADEIRA

Caiu a máscara que restava ao senhor da Madeira. E não se pense que tal se deve a uma consistente afirmação por outros valores, mais soltos na defesa dos interesses reais da região, como seja a difusão da cultura, a progressão do ensino, a evidência como povo que pensa e decide pela sua própria cabeça, não! Como disse um sábio estratega politico do século XX, Mao Tsé Tung, "uma faúlha pode incendiar a pradaria", assim, um movimento de opinião, infimamente minoritário, entre a população regional, usando uma estratégia de gota a gota, de incómodo persistente pela sombra, o gesto mudo, a fixação na realidade oculta, fez extravasar o pouco de decoro face à violência efectiva que vinha caracterizando o discurso e a postura do senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível ao riso que provoca um balão, um dirigível, sobre as cabeças concentradas na figura e no discurso do senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível à presença dum carro funerário, ao redor dos fiéis que de uma qualquer forma, não sei qual, que magia, que feitiço, se juntam para prestar vassalagem ao senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível ao movimento de pessoas com objectivas na mão, que lhe fixam a imagem, o ódio a transparecer nas bochechas coradas, vá lá saber-se de quê, o sangue da ira?!...O medo da descoberta, da nudez dos princípios, da falácia das palavras ante a evidência de uma realidade cada vez mais loquaz.

E é então que, imponente na sua arrogância de mandador sem lei, ferido na sua impotência ante a minoria silenciosa que ousa afrontá-lo no seu próprio reino, o senhor presidente da Madeira, inchado como um sapo prestes a explodir, incita a populaça, já que as policias não podem fazer nada, porque são a lei do Continente, já que Deus o abandonou nesta Santa Cruzada pelo bem estar do bom povo da Madeira, é hora de o povo agir, de fazer justiça pelas próprias mãos!...

E o inevitável aconteceu, ou ia acontecendo, mas fica a previsão de que pode acontecer numa ocasião mais favorável...

Perante os incidentes que vieram nas noticias destes últimos dias, na região autónoma da Madeira e protagonizadas pelo seu Presidente, seria de esperar uma atitude do Senhor Presidente da República, repudiando as atitudes de incitamento à violência das populações, é anti-constitucional, na linha das suas preocupações com a segurança das instituições, mas o senhor presidente da República, "aos costumes disse nada" e segue a novela até que seja o tempo de deitar contas à vida.

Saúdo a coragem, a ousadia, o humor saudável, o atrevimento de afrontar a asfixia da Madeira, do Movimento da Nova Democracia, cujos princípios ideológicos não defendo, mas que considero um marco importante no despertar do povo da Madeira para a vergonha que é ser conotado com tal espécie de pessoas na orientação dos seus destinos.

autor: JRG

27/09/2009

VISÃO DE UMA MULHER MAIOR

viste o mundo travestido de paixão
viste o homem sem Deus desesperado
viste na mulher o ser da nobre criação
viste a luz da esperança num coração rasgado

*****
viste pombas brancas adejando sobre as cidades
viste poetas harmonizando nas palavras melodias
viste andorinhas rasgando o ar de ilusões rasantes
viste ódios amores cobardes apodando-se de ousadias

*****
viste sóis e luas e outros multi milenares planetas
viste o homem afogado em singular solidão
viste horrores a alegria do primeiro grito e os cometas
viste o arco íris unido ao homem pelo coração

*****
viste o sorriso ou o som cristalino do rir duma criança
viste a beleza da floresta o fragor das ondas na rebentação
viste antes do trovão o raio que ilumina a terra de esperança
viste a claridade espelhada do teu rosto advinda do coração


*****
viste a luz cósmica ou Divina que indicia o norte
viste a emoção dos sonhos feitos prisioneiros
viste a liberdade a restauração da confiança que nos dita a sorte
viste a realidade soltaste risos loucos por sermos pioneiros


*****

autor: JRG

26/09/2009

MULHER GLOBAL

mulher quanto mais exótica
o homem seduz plena de beleza
simples perfumada de cio eufórica
tanto mais simples aviva sua nobreza
*****
me faz diferença se é latina ou nórdica
que fique a morena se for do belo a primeira
não apenas fogo quero que seja harmónica
tanto me faz Lusa Índia Mista ou Brasileira
*****
mulher é um outro lado que me faz inteiro
navego em suas marés de devaneio mítico
é sensual sendo dengosa em natural anseio
é perversa quando se mune dum arsenal onírico
*****
mulher flor rosa ou lotus violeta ou puro jasmim
de dentro perfumadas com os aromas da magia
acobreadas morenas leitosas ou alvas marfim
que fiquem, sem Pátria nem algoz que mate nela a fantasia
****
autor:JRG

23/09/2009

A POESIA É, DA VIDA, FILOSÓFICA

"...sei que nada sei..."
frase célebre ela própria se celebrizou
nem sempre é na humildade força de lei
tantas vezes é vaidade de quem se auto validou
*****
o filósofo apenas se referiu à evidência
que o ser sendo está em constante mutação
não era para fugir à ignorante paciência
antes elevar a dúvida e permitir o uso da razão
*****
louvo os sábios que como toda a criança
atiram pedras à água dos charcos pantanosos
colhem nos circulos emitidos sinais de esperança
afastam medos e criam confiança nos medrosos
*****
louvo a poesia que desbrava no eu a consistência
palavras desgarradas que se riem dos conceitos
o poeta afronta a própria alma desnuda a inconsciência
adejando sobre o mundo espalha amores perfeitos
*****
louvo a mulher o homem que ousam sentir a poesia
que para tal se despem e nus na alma se confrontam
de si para si com toda a sorte de amor ou vilania
tomam o poder da vida aos que da morte se amedrotam
*****
"...sei que nada sei!..."
disse o filósofo de aviso a todos os vindouros
depois morreu vitima de si próprio antes que da lei
louvo a poesia que liberta escrita e dita por poetas loucos
*****
autor: jrg

09/09/2009

A M O R...

amor é um continente de emoções
flores mares tempestades e bonança
tudo estremece de amor os corações
porque somos no amor como criança
*****
o que não sente a alma enternecida
quando beijada com fervor nos seus lábios
exulta inebriada confusa convencida
que o que o corpo sente são contrários
:::::
surge quase sempre nuns olhos brilhantes
que se agarram noutros olhos com feitiço
é uma leitura sedutora dos amantes
que chamam logo amor e pode ser enguiço
=====
lembro o amor testado namoradeiro
a conhecer-se dia a dia ajustes frustrações
sentir que não há amor como o primeiro
nem sempre é um consolo falho de emoções
»»»»»
amor é fruto que na amizade amadurece
é sentimento nobre não deve machucar
além do gozo é criação de vida o ser que cresce
é fogo e ar é água e terra vamos amar
«««««
autor J.R.G.

23/08/2009

N A N Y - Parte II

A minha alma passeou a sua inquietude nos sonhos da noite mal dormida, o corpo dorido, ante o alvor que corria célere e se mostrava na sua evidência de luz a meus olhos povoados de imagens sombrias, a aclarearem-se.
É um encontro de estranhos, de mim em mim, surpreso de me ver cativo duma mulher. Há quanto tempo o meu coração, a mente, o corpo estável, habituado a amar a única mulher que me amou sentidamente. Era assim, mesmo após a morte, sentia-me desligado de um qualquer enlace que se sobrepusesse ao único e grande amor de toda uma vida.
A imagem de Anamar impunha-se-me insistente, toda ela luz, sabores, cheiros, toda ela uma melodia única nos sons da voz, candidamente doce, pegajosa, a imiscuir-se nos poros da pele, a apelar um entendimento subtil.
Avisto o infinito do mar, de onde me encontro sobre a cama, a planta Tropical tombada sobre a parte direita da janela a toda a largura do terraço, com as portas ao meio, de correr. Há uma bruma à flor da água, flocos níveos como fumo de fogueira mal apagada.
O sol ainda por detrás da falésia, apenas o vislumbre dos seus raios uniformes que cortam a neblina, as flores que rejubilam amanhecidas, orvalhadas dos néctares nocturnos.
Foi uma noite de inquietação da alma, sem descanso, a mente febril dilacerando-se entre a memória e a realidade a procurar impor-se como uma evidência, a a afirmação de que o ser é sendo, o que ontem era um principio inabalável, hoje aparece em contornos de dúvidas instaladas porque houve uma emoção nos sentidos.
Visto o calção azul escuro que há muito jazia na gaveta e isso é um sinal que o meu ego se prepara para cultivar a aparência, a camisa de xadrez azul claro sobre fundo branco, os chinelos de cabedal abertos ao joanete sobressaindo dos meus pés que me parecem enormes.
A praia ainda semi deserta, esplanadas fechadas, o sol já sobre a falésia, rutilante de luz, caminho ao longo do paredão na direcção do Norte, à minha esquerda o mar de um azul fascinante, as ondas mansas, pessoas que se passeiam cortando a água com os pés, chapinhando-se e penso inevitavelmente nela, esbelta, os olhos doces sobre o meu corpo, o gesticular das mãos que compõem o explanar do seu ponto de vista.
À minha direita o que resta da mata de acácias, os parques de campismo, será que ela vem? Que impressão lhe terei causado? A suficiente para que se dê ao trabalho de vir de novo, na incógnita do que poderá acontecer, no aprofundar de questões da intimidade que aproximam ou afastam, que inibem ou despoletam emoções.
O meu olhar fixa-se, de súbito na silhueta de mulher sentada sobre a pedra grande , à entrada do esporão, o vestido tipo roupão avermelhado, os óculos escuros, os braços exímios descaídos sobre o corpo e o livro preso na axila do lado esquerdo dela. Sinto toda a harmonia do ser que ela é, ou que se me evidencia como sendo. Aproximo-me , o coração em palpitações de adolescente ante o seu primeiro namoro e penso que é assim sempre que há uma verdade nos sentimentos, um click de sedução consentida, a voz presa na garganta ressequida.
_ Anamar!...
Ela vira-se e deixa-me abismado sobre mim, tirou os óculos e toda a luminosidade dos olhos estavam patentes, como se tivessem estado a chorar, ou uma memória, um sentir que se tivesse soltado de dentro de si e o sorriso, aberto, agradado, agradável.
_João Maria!...
Abraçámo-nos, os seios dela de novo no meu peito, os nossos rostos encostados, tão próximos, perfumes alucinantes vindos dos lábios abertos, apelantes e eu arfante, a sentir o coração dela, a ouvir as batidas aceleradas do meu, tão próximos os lábios carnudos, flores vermelhas humedecidas e afundo-me neles, os meus lábios nos dela, dois toques, frescura e fogo de dentro e embrenho-me e ela embrenha-se, as línguas percorrem-se e ladeiam o interior da boca, as laterais, o céu da boca, salivas entrelaçadas de uma doçura quase extravagante, lábios com lábios, as línguas num devaneio possessivo, os nossos corpos colados, roçando-se, o meu sexo levantado, saltitante e julgo perceber o concavo desenhado do sexo dela sob o vestido, onde o meu sexo se acoita prazenteiro, despudorado, as minhas e as mãos dela percorrendo a costas em movimentos circulares, respiração contida, arfante e contida a espaços. Loucos.
_Perdoa-me!...o teu poder foi mais forte...
Os olhos dela tremelicaram, ainda mal refeita, passando a língua pelos lábios, voluptuosa, trémula a voz, entre sumida e grave, quase patética se vista de um outro angulo.
_Teria de ser um perdão mútuo porque eu também não me contive, foi um impulso...
Demos as mãos e caminhámos no sentido da esplanada. No areal os gritos agudos das crianças soltando as energias acomodadas desde a cidade. Atiram-se areia uns aos outros e chapinham na água que vem beijar-lhes os pés puros de meninos.
_Digo-te que eu própria me surpreendo. Venho de uma separação conflituosa, como te disse, um homem que se alterou a dado passo da relação, que se assumiu como se tivesse tomado posse de mim, exibia-me, a sua mulher, prendia-me até os pensamentos, o gosto de andar despida dentro da casa, ejacular-se dentro de mim e soltar-se, sem se importar com a minha própria satisfação, alhear-se dos meus anseios, dos meus projectos, possuir-me... _ Deixa-me possuir-te!..._ era como ele me dizia, ter-me para ele, dócil, submissa.
Aperto-lhe a mão pequenina entre a minha, macia a pele, os dedos esguios, os seios dela batem no meu braço de vez em quando com a oscilação dos corpos no andar e digo-lhe que gostava de ser dentro dela e de a sentir ser dentro de mim
Anamar volta-se e beija-me de leve os lábios.
_És um ser muito querido.
_Acabaste o livro?
_É um livro intenso, de culto pela personagem da mulher, das mulheres todas embutidas na Nany da sua paixão, saída do virtual, deixando-se tomar da paixão dela, ele, um homem velho saudoso da sua juvenilidade, ou da juvenilidade da mulher que é o seu amor de sempre, surpreendido de ser o alvo, o objecto do amor confesso de uma mulher muito mais jovem, bonita, com uma vida confortável, a questionar-se do porquê e do que fazer ao senti-la frágil, ansiosa de o ter como amante.
Anamar fala efusivamente do livro, da substância do livro, percorre os personagens, a entende-los à luz da sua própria imagem.
_E as cenas de sexo, alta madrugada toquei-me ...estou toda molhada...são cenas que saltam do livro e nos colocam dentro da cena, vivenciando-a, depois, toda a teia perversa que ela engendra para acabar a relação, a intriga em volta dele, fazendo-o acreditar que fora um devaneio da sua própria inconstância, o desprezo com que o foi destruindo até que não representasse mais um perigo para a manutenção do seu estatuto de mulher de bem.
E ele, louco, gritando na cidade, julgando que estava à beira do mar: " Nany, Nany!!!..."
Tomámos o café na esplanada, Anamar de costas para o mar, em frente dos meus olhos, o recorte do tom laranja avermelhado do vestido ou túnica de tecido leve sobre o azul forte do mar e digo-lhe que nos está a acontecer algo de imprevisto, que a estou a sentir como uma célula que brota de mim para fora e que se inclina para reentrar, num ir e vir diáfano que me atordoa que me faz sorrir.
_Estou como que numa euforia em que me apetece gritar, soltar gargalhadas intempestivas sem nada que as justifique, adejar sobre nós os dois, os nossos corpos revolvendo-se, como se te conhecesse há séculos, fazer loucuras, beijar-te, mostrar-te o meu corpo...
Ouço a sua voz melodiosa, o brilho cativante dos olhos, os lábios que se mexem, se mordem a sentir sensações dela, do interior dela, as mãos num rodopio de gestos que procuram completar as palavras, as pernas que se abrem e fecham, o corpo todo em movimento, um movimento que vem de dentro e de súbito, aquele cheiro antigo, há quanto tempo? o cheiro do interior do sexo, absorvente e digo-lhe.
_Podiamos fazer um almoço para nós em minha casa...
Anamar sorri, toda ela, o rosto, o corpo esbelto, um sorriso franco, abrangente, a inteirar-se do meu convite, a sentir que é o momento que secretamente ansiava, secretamente dela própria e faz uma cara preocupada.
_Aceito, mas quero dizer-te que estou no terceiro dia da menstruação.
Dito isto levou os dedos aos lábios e encolheu-se toda na cadeira, como se se desse conta que dissera um disparate, se predispusera a ter sexo comigo, se adiantara em ralação ao momento.
_Se não te incomoda eu adoro ser dentro de ti, menstruada, o meu sexo envolto no teu sangue que se purifica, o teu cheiro activo nascido do mais intimo. É isso, a menstruação altera o efeito sedutor de mistura com os cheiros da apetência sexual. Torna-os exaltantes a nos sublimarem num absoluto de amor.
Ela ri-se de novo, a alma em redor, a praia "deserta" num repente. Pego na mão dela e vamos...

autor:j.r.g.

N A N Y

Verão de novo, o sol quente a meio da manhã, espalhando raios sobre o mar manso de vento e de maré. Brisa ainda fresca. Água límpida junto à praia, vejo as conchas, a areia de cor acastanhada, os corpos luzidios de mulheres e de crianças que se banham próximo de onde me encontro e vejo os meus pés horrendos que se movem imersos, o dedo do meio sobreposto, os joanetes de cada um dos lados de cada um dos pés, a areia macia, sussurro de vozes em alarido abafado pelos ecos do mar. as minhas pernas cortando as águas como quilha de barco impelido por remos.
Gosto das esplanadas junto ao mar, mirar os corpos, adivinhar as almas em volta de cada um, de como se conluiam manhosamente na alegria dos dias de descanso, ou de como se provocam. Os ardis das conquistas, os beijos e os olhos que se espraiam em volta, os sorrisos encantadores e os de circunstância, sorrisos tímidos, desconfiados, ou cínicos, ordinários, de gente que se mascara para se misturar com os de pureza da alma, descontraídos.
Gosto das transparências, vestidos soltos ou saias de mulheres que usam a praia não para banhos, mas como um local de lazer momentâneo, ou de encontro consigo, ou algo diferente que as faça sobressair por momentos da apatia em que mergulharam o ser, ou ainda uma procura de encontros fortuitos, uma exposição de si, do que acham belo de si, do que sentem e ambicionam ser possível surgir por entre tanta beleza de sol, gente e mar.
Procuro um lugar sombrio na esplanada cheia. Um casal que se levanta, mesmo a tempo, pouso o livro que ando a ler "NANY" de um autor ainda desconhecido mas promissor que relata uma história sórdida de amor através da net, sórdida porque esbarra em concepções de baixo nível para ter um desfecho abrupto que deixa um dos personagens em estado de choque emocional.
Estou absorto neste e outros pensamentos que se entrecruzam ,rebeldes, com os olhares que lanço aos corpos estendidos sobre toalhas garridas, e outros que regressam do banho, gotículas de água escorregando pelos braços, os cabelos colados, os olhos, os biquínis metidos nas cavidades pudicas, demoro os olhos no volume das vulvas a adivinhar se é inchaço dos lábios internos ou um penso higiénico por motivo de arreliador período menstrual.
E de repente os nossos olhos cruzam-se e fixam-se, como se um poderoso íman os traísse, eu e ela, uma imagem muito linda, doentiamente linda na simplicidade que a envolvia, nas características do rosto oval, os lábios carnudos, levemente rosados, os olhos negros, a pele acetinada, os cabelos de um negro profundo e exaltante de sedução, os seios sobressaindo da blusa vermelha, livres, proporcionais ao corpo de estatura média, nem muito magra nem cheia,, a saia curta , branca de tecido transparente, as cuecas de renda, provocantemente explicitas quando o tecido se colava ao corpo, por acção da brisa ou dos movimentos que ela fazia com o corpo e a luz do sol esbatia nela e na sua evidência.
Estremeci, ela desviou os olhos por momentos e pude apreciá-la com mais ousadia, doía-me a alma, de dentro do peito, as frontes latejantes, de tanta beleza natural, como uma paisagem idílica e depois voltou, agora de soslaio, olhar obliquo, estranheza no rosto ou dúvida. Inquieta de mim, pensei, ou de me sentir a indecisão, a prisão da voz que queria dizer-lhe uma trivialidade, talvez. E disse-lhe, soerguendo-me da cadeira:
_Bom dia..procura uma mesa, ou espera alguém...
_Bom dia, sim, mas isto está tudo muito cheio, eu espero, não se incomode...obrigado
Disse as palavras sorrindo, todo o rosto iluminado num sorriso absoluto de evidente naturalidade, a voz suave e quente, docemente quente, aveludada. Insisti:
_Podemos partilhar a mesa onde estou, pode voltar-me as costas como se estivesse longe, não a olharei menos do que se estivesse num lugar longe, ou podemos conversar porque a sinto tão rica de conhecimentos...
O sorriso dela abriu-se numa gargalhada cristalina, os dentes perfeitos e sãos, pude sentir-lhe aromas que vinham de dentro, frutos maduros, aglutinantes.
_Está bem, aceito, até porque estou aflita para ir a um WC.
E toda ela era um sorriso de empatia envolvente. Deixou sobre a mesa um livro que trazia, de rosto voltado sobre o tampo e foi, fresca e sedutora no andar.
Reparei então, estupefacto, que se tratava do mesmo livro que ando a ler, "NANY" e senti um ardor estranho em todo o interior do meu corpo.
Lembrei-me de Ana Maria e na doçura quase lasciva em que me envolveu a sua amizade. Ana, há quanto tempo tão longe, sem uma palavra, sem um roteiro de encontro, porquê, terás sentido que te queria ter como fêmea luxuriante? Mas eu contei-te a minha história, sabias que amo a minha mulher acima de qualquer devaneio, sabias que me interesso por mulheres pensantes, mulheres que me permitam ir mais além no conhecimento de mim, testar-me nos vários limites a que me proponho, desde logo, o da amizade, até que ponto a amizade é um amor de grande profundidade, até que ponto me engano quando digo que não quero sexo, apenas palavras e gestos de ternura amiga, desmistificar os problemas ditos insolúveis. Conhecer o meu lado feminino, numa tentativa de absoluto do homem agora sem Deus, livre mas só, entregue a si próprio. Ela voltou, graciosa e simples na sua naturalidade exuberante.
_Anamar...
Estendeu-me a mão, os olhos, que eram verdes, um verde escuro quase negro e não pretos como me pareceram, a luz de dentro do rosto e em volta, descendo suave pelas faces coradas, que beleza de nome, pensei e devo ter tido uma expressão significativa que a fez voltar sobre o meu silêncio.
_Não acredita? Eu gosto do meu nome.
_É um nome fora do vulgar, belo, como tudo o que me acontece ver de em si, perdoe, mas é meu hábito expressar tudo o que sinto quando me parece que é reciproco, eu João Maria.
_Andamos a ler o mesmo livro!
_ E que lhe parece, indaguei.
_É uma história possível, absurda na assunção da minha normalidade, mas possível e está muito bem escrita e sentida, as cenas de sexo virtual são um clímax, sinto que as viveram de facto emotivamente, como se estivessem na realidade colados os corpos e se olhassem de dentro de si.
Digo-lhe que o que me fascina é a interiorização dos personagens, como figuras reais, que assumem as mutações próprias, que as antecipam, como quando ele responde às afirmações de amor eterno dela, dizendo que o tempo é a única peça do jogo que condiciona a intemporalidade das palavras, das intenções e que o desfecho será cruel para com ele, por ser a parte mais tendencialmente absurda do romance.
Anamar sorriu, lindo tudo nela.
_Eu venho de um casamento falhado, onde tudo era maravilha e etereamente vivido até ao momento em que senti que era mentira, que já nada tinha o fogo sequer da esperança tardia.
É como se um élan que nos prende à pessoa, a algo da pessoa, se evaporasse e tudo o que ela diga, ou aparente, nos soa a falso.
_ É um dos aspectos que me fascina, digo, o olhar ausente sobre o mar, por vezes os corpos que se movem na areia fina da praia, pensar que as pessoas acreditam na imutabilidade da relação, como se tivessem sido feitos um para o outro, a cara metade, a alma gémea e não houvesse o tempo, o envelhecimento e a morte de células e o renascimento ou proliferação de outras, ou a mutação de genes, ou uma alteração substancial da energia cósmica que acredito nos influencia a vida.
Há um casal em frente que se beija, depois abraçam-se, ainda novos, e reparo nos olhos dele sobre a minha companheira fortuita, olhos malandros, cobiçosos, a medi-la, a tentá-la no sorriso.
_ O João Maria é de que signo .
_ Sou de Capricórnio. Estuda ou é aficionada de Astrologia?
_Não, sou apenas curiosa, não desdenho nada do que pode ser útil na definição do meu carácter, da minha ancestralidade posso tratar-te por tu? Eu sou de Escorpião.
_Sim, claro, sinto que estamos integrados numa semelhante perspectiva do pensamento. Eu creio que existe um influência cósmica que facilita ou incita à união de um homem e uma mulher, que os determina e que isso nem sempre é tido em conta. É mais fácil, aparentemente mudar de parceiro, infinitamente mudar, numa busca desesperada de encontrar o fio condutor. Ao invés, eu penso que devemos ater-nos ao tempo, e ao nosso conhecimento, aceitar as mudanças, discutir sem pressas que a mudança ocorra na pessoa, mas há algo que não depende só de nós, por isso devemos estar atentos em volta.
_Ao ouvir-te, João Maria, penso que te identificas bastante com o autor do livro, há nele um diálogo constante, do lado de fora dos personagens, sobre a procura de uma justificação para o seu envolvimento amoroso, se o que fazem é considerado uma traição aos seus companheiros ou se, pelo contrário, são apenas um conjunto de palavras que constroem um facto e que pode, por ventura, redimensionar as relações em rotura.
_Mas não sou o autor, podes acreditar, discordo, por exemplo, quando o personagem quer fazer-nos acreditar que aceitou o desafio de amante, apenas com o intuito de viver um romance, como um personagem de facto, porque o que eu sinto é que ele se envolveu todo, perdeu a noção da racionalidade e o desfecho só podia ser aquele, a loucura. E tu, queres falar da tua relação, de como tudo aconteceu?
De repente, ao olhá-la nos olhos, sinto que estou confortável na sua companhia, que me apetece prolongá-la sem tempo limite, preso nos seus lábios que são o sorriso, nos seus olhos rutilantes, nos gestos que traduzem encanto e sobe-me o perfume dela, um perfume que me absorve e não eu a ele, ou não só eu já pelas narinas, mas por todos os poros do meu corpo.
_Talvez amanhã, ou outro dia, hoje ainda tenho os meus pais , vou almoçar com eles, vens amanhã?
_Venho, podíamos vir mais cedo...almoçar por aí...que dizes?
_Veremos a nossa disposição amanhã, o tempo que faz e nos condiciona.
Despedimo-nos com um beijo nas faces, senti o ardor da pele na minha pele e o sorriso provocador ao citar o tempo como condicionante do que fazer amnhã.

autor: j.r.g.

22/08/2009

AO MAR O QUE É DO MAR

Ao mar o que é do mar
e eu que sou do mar um pecador
roubei-lhe vidas fi-lo meu companheiro de pensar
construi barreiras contive-o nos limites predador
.....
também finquei os pés na areia aveludada
branca espuma ondas mansas nos enchios da maré grada
deliciei-me sentindo o mar que vinha e areia me levava
aprendi que os castelos ruíam por acção da água brava
.....
fiz do mar meu protector e confidente dele fui e sou amante
gritei-lhe na euforia dos lamentos em sintonia com o rugir dos ventos
fiz dele mulher das ondas seios e na corrente corpo elegante
deixei escrito que quero ser dado a ele em alimentos
autor: j.r.g.