27/10/2009

CARTA POEMA A UMA AMIGA DESESPERADA

cruzada sobre o regaço cada mão
veias vincadas que traçam o destino
os olhos que de dentro perguntam a razão
se é por ser mulher que há tal desatino

há ligações que por mais esforço nunca dão
almas avessas rebeldes de insubmissas
procurando no amor a amizade trazem paixão
que é um estado hipnótico de sensações postiças

atravesso a luz rutilante dos teus olhos castanhos
estremecemos da alma os corpos quando toco os teus lábios
e sinto o calor de dois fogos ardendo estranhos
o dos olhos que me perfura a essência de tão sábios
e o outro fogo de dentro da existência fogos tamanhos
de tal sorte que me arrepia a nostalgia dos contágios

dizes que vives sete vidas de vadia à revelia
que nada deu ou dá certo em teu projecto de viver
amores furtivos desencantos que te deixam na agonia
de ter de recomeçar de novo tua ânsia de saber

hoje olho o teu corpo pela primeira vez na totalidade
adejando em volta vejo a tua alma bela graciosa
e não encontro um rasto uma evidência de casualidade
talvez de estranhos a vã cobiça que te cerca a alma carinhosa

é tempo de uma paragem nesta correria alucinante
a vida é ainda em ti do tamanho duma criança
sentir no vazio que aparentas do teu ser pensante
um todo que aguarda o reconhecimento da esperança

é falso que tenhamos montes de amigos sempre à mão
amigos é algo mais que um simples sorriso em horas difíceis
entram em nós com tudo incluindo a mente o coração
os outros desfalecem ausentes nos momentos impossíveis

toda a vida é uma luta injusta pela sobrevivência
uns investem o corpo em desmedida outros o espírito
não é liquido que a alma assuma a insolvência
quando é no corpo que se concentra todo o mérito

eu por exemplo que investi na alma uma vida inteira
não tenho nada no corpo que ao ser da alma me enriqueça
sei que num corpo avulta a carne a pele alva ou trigueira
é certo que cedo ou tarde acorda sem ter quem o aqueça

hoje que te conheci o corpo são da alma enigmática
achei que eras mais bela do que só pela alma imaginava
exorto a menina flor jardim ou estrela que há em ti mulher
na génese do ser em que te moldas tantas vezes pragmática
refulge uma luz de amor que já em ti sempre brilhava
"amigos cento e dez ou talvez mais" , não é quem quer


autor: JRG

24/10/2009

A FLOR MAIS BELA

tive um jardim com as mais belas flores
cores maviosas de perfumes sublimes
de entre elas pétalas dúctis meus amores
uma era a evidência da deusa de Aquiles

alguém a transformou desistiu de mim
eu que a tinha como a mais bela e pura
sorrio hoje que a vi triste entre a rosa e o jasmim
e tal como a imaginei mulher flor menina de ternura

ao vê-la, há tanto tempo que a procurava,
a minha alma vagabunda se emocionou
o ar descontraído, lábios carnudos as mãos que amava
pendentes de um sorriso lindo que me cativou

corri em volta de mim e além no mundo
porque a senti amiga da alma não a queria perder
na solidão do homem que eu sou o mais profundo
amiga era esta flor que amei de amiga sem a conhecer

hoje que a vejo enfim despida e eu a nu deslumbrado
do encanto dos olhos seus, entre sorrisos de alma, rutilantes
tinha que escrever espontâneo este poema endiabrado
ode à beleza da flor mais bela viçosa de sol e lua amantes

autor: JRG

17/10/2009

NA VILA ONDE EU MORO

na vila onde eu moro
vejo a outra margem do rio
há uma rua de escarros sem decoro
vejo de Lisboa imponente o casario

a rua desce desde o largo da igreja
até ao rio com Lisboa à vista
chão escuro laivos de muco para que se veja
que escarrar no chão aqui é uma conquista

dum lado casas de pasto humano
do outro ninhos de gente que na vila habita
sentados no chão velhos de olhar insano
no lusco fusco da vida que a morte regurgita

na vila onde eu moro
nem tudo é morto ou escarro
há natureza e o rio na base do morro
e gente feliz que se ri em cada bairro

há marchas maledicências romarias
homens de senso raro mulheres belas bonitas
há sábios que lêem no céu as ventanias
e cães abandonados por famílias catitas

no rio arrastar ameijoa pesca violenta
entre outras pescas duras ancestrais
na margem meninos de escola e gente que acalenta
no ar adejando gaivotas mergulhões maçaricos reais

na vila onde eu moro
gente que diz bom dia sempre que escarra
extraída de dentro a cava maldição o soro
renovada a esperança na uva que cresce na parra

chilreiam andorinhas, pardais grasnam gaivotas
melros estorninhos pintassilgos voos rasantes
nas Primaveras memória dos ninhos em suas rotas
exultam ao sol emplumados em ritos amantes

o rio de águas mutantes e densa corrente
atravessa vilas cidades estreita rasga montanhas
chegado ao mar estanca no estuário laxante
trocam-se de amores ressuscitam vidas estranhas

na vila onde eu moro
há um tudo e um nada que apetece viver
cada alma é de senso comum um justo foro
onde a vida e a morte se adiam ao escurecer

autor:JRG

04/10/2009

CAÍU A MÁSCARA AO SENHOR PRESIDENTE DA MADEIRA

Caiu a máscara que restava ao senhor da Madeira. E não se pense que tal se deve a uma consistente afirmação por outros valores, mais soltos na defesa dos interesses reais da região, como seja a difusão da cultura, a progressão do ensino, a evidência como povo que pensa e decide pela sua própria cabeça, não! Como disse um sábio estratega politico do século XX, Mao Tsé Tung, "uma faúlha pode incendiar a pradaria", assim, um movimento de opinião, infimamente minoritário, entre a população regional, usando uma estratégia de gota a gota, de incómodo persistente pela sombra, o gesto mudo, a fixação na realidade oculta, fez extravasar o pouco de decoro face à violência efectiva que vinha caracterizando o discurso e a postura do senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível ao riso que provoca um balão, um dirigível, sobre as cabeças concentradas na figura e no discurso do senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível à presença dum carro funerário, ao redor dos fiéis que de uma qualquer forma, não sei qual, que magia, que feitiço, se juntam para prestar vassalagem ao senhor presidente da Madeira.

Ninguém é insensível ao movimento de pessoas com objectivas na mão, que lhe fixam a imagem, o ódio a transparecer nas bochechas coradas, vá lá saber-se de quê, o sangue da ira?!...O medo da descoberta, da nudez dos princípios, da falácia das palavras ante a evidência de uma realidade cada vez mais loquaz.

E é então que, imponente na sua arrogância de mandador sem lei, ferido na sua impotência ante a minoria silenciosa que ousa afrontá-lo no seu próprio reino, o senhor presidente da Madeira, inchado como um sapo prestes a explodir, incita a populaça, já que as policias não podem fazer nada, porque são a lei do Continente, já que Deus o abandonou nesta Santa Cruzada pelo bem estar do bom povo da Madeira, é hora de o povo agir, de fazer justiça pelas próprias mãos!...

E o inevitável aconteceu, ou ia acontecendo, mas fica a previsão de que pode acontecer numa ocasião mais favorável...

Perante os incidentes que vieram nas noticias destes últimos dias, na região autónoma da Madeira e protagonizadas pelo seu Presidente, seria de esperar uma atitude do Senhor Presidente da República, repudiando as atitudes de incitamento à violência das populações, é anti-constitucional, na linha das suas preocupações com a segurança das instituições, mas o senhor presidente da República, "aos costumes disse nada" e segue a novela até que seja o tempo de deitar contas à vida.

Saúdo a coragem, a ousadia, o humor saudável, o atrevimento de afrontar a asfixia da Madeira, do Movimento da Nova Democracia, cujos princípios ideológicos não defendo, mas que considero um marco importante no despertar do povo da Madeira para a vergonha que é ser conotado com tal espécie de pessoas na orientação dos seus destinos.

autor: JRG

27/09/2009

VISÃO DE UMA MULHER MAIOR

viste o mundo travestido de paixão
viste o homem sem Deus desesperado
viste na mulher o ser da nobre criação
viste a luz da esperança num coração rasgado

*****
viste pombas brancas adejando sobre as cidades
viste poetas harmonizando nas palavras melodias
viste andorinhas rasgando o ar de ilusões rasantes
viste ódios amores cobardes apodando-se de ousadias

*****
viste sóis e luas e outros multi milenares planetas
viste o homem afogado em singular solidão
viste horrores a alegria do primeiro grito e os cometas
viste o arco íris unido ao homem pelo coração

*****
viste o sorriso ou o som cristalino do rir duma criança
viste a beleza da floresta o fragor das ondas na rebentação
viste antes do trovão o raio que ilumina a terra de esperança
viste a claridade espelhada do teu rosto advinda do coração


*****
viste a luz cósmica ou Divina que indicia o norte
viste a emoção dos sonhos feitos prisioneiros
viste a liberdade a restauração da confiança que nos dita a sorte
viste a realidade soltaste risos loucos por sermos pioneiros


*****

autor: JRG

26/09/2009

MULHER GLOBAL

mulher quanto mais exótica
o homem seduz plena de beleza
simples perfumada de cio eufórica
tanto mais simples aviva sua nobreza
*****
me faz diferença se é latina ou nórdica
que fique a morena se for do belo a primeira
não apenas fogo quero que seja harmónica
tanto me faz Lusa Índia Mista ou Brasileira
*****
mulher é um outro lado que me faz inteiro
navego em suas marés de devaneio mítico
é sensual sendo dengosa em natural anseio
é perversa quando se mune dum arsenal onírico
*****
mulher flor rosa ou lotus violeta ou puro jasmim
de dentro perfumadas com os aromas da magia
acobreadas morenas leitosas ou alvas marfim
que fiquem, sem Pátria nem algoz que mate nela a fantasia
****
autor:JRG

23/09/2009

A POESIA É, DA VIDA, FILOSÓFICA

"...sei que nada sei..."
frase célebre ela própria se celebrizou
nem sempre é na humildade força de lei
tantas vezes é vaidade de quem se auto validou
*****
o filósofo apenas se referiu à evidência
que o ser sendo está em constante mutação
não era para fugir à ignorante paciência
antes elevar a dúvida e permitir o uso da razão
*****
louvo os sábios que como toda a criança
atiram pedras à água dos charcos pantanosos
colhem nos circulos emitidos sinais de esperança
afastam medos e criam confiança nos medrosos
*****
louvo a poesia que desbrava no eu a consistência
palavras desgarradas que se riem dos conceitos
o poeta afronta a própria alma desnuda a inconsciência
adejando sobre o mundo espalha amores perfeitos
*****
louvo a mulher o homem que ousam sentir a poesia
que para tal se despem e nus na alma se confrontam
de si para si com toda a sorte de amor ou vilania
tomam o poder da vida aos que da morte se amedrotam
*****
"...sei que nada sei!..."
disse o filósofo de aviso a todos os vindouros
depois morreu vitima de si próprio antes que da lei
louvo a poesia que liberta escrita e dita por poetas loucos
*****
autor: jrg

09/09/2009

A M O R...

amor é um continente de emoções
flores mares tempestades e bonança
tudo estremece de amor os corações
porque somos no amor como criança
*****
o que não sente a alma enternecida
quando beijada com fervor nos seus lábios
exulta inebriada confusa convencida
que o que o corpo sente são contrários
:::::
surge quase sempre nuns olhos brilhantes
que se agarram noutros olhos com feitiço
é uma leitura sedutora dos amantes
que chamam logo amor e pode ser enguiço
=====
lembro o amor testado namoradeiro
a conhecer-se dia a dia ajustes frustrações
sentir que não há amor como o primeiro
nem sempre é um consolo falho de emoções
»»»»»
amor é fruto que na amizade amadurece
é sentimento nobre não deve machucar
além do gozo é criação de vida o ser que cresce
é fogo e ar é água e terra vamos amar
«««««
autor J.R.G.

23/08/2009

N A N Y - Parte II

A minha alma passeou a sua inquietude nos sonhos da noite mal dormida, o corpo dorido, ante o alvor que corria célere e se mostrava na sua evidência de luz a meus olhos povoados de imagens sombrias, a aclarearem-se.
É um encontro de estranhos, de mim em mim, surpreso de me ver cativo duma mulher. Há quanto tempo o meu coração, a mente, o corpo estável, habituado a amar a única mulher que me amou sentidamente. Era assim, mesmo após a morte, sentia-me desligado de um qualquer enlace que se sobrepusesse ao único e grande amor de toda uma vida.
A imagem de Anamar impunha-se-me insistente, toda ela luz, sabores, cheiros, toda ela uma melodia única nos sons da voz, candidamente doce, pegajosa, a imiscuir-se nos poros da pele, a apelar um entendimento subtil.
Avisto o infinito do mar, de onde me encontro sobre a cama, a planta Tropical tombada sobre a parte direita da janela a toda a largura do terraço, com as portas ao meio, de correr. Há uma bruma à flor da água, flocos níveos como fumo de fogueira mal apagada.
O sol ainda por detrás da falésia, apenas o vislumbre dos seus raios uniformes que cortam a neblina, as flores que rejubilam amanhecidas, orvalhadas dos néctares nocturnos.
Foi uma noite de inquietação da alma, sem descanso, a mente febril dilacerando-se entre a memória e a realidade a procurar impor-se como uma evidência, a a afirmação de que o ser é sendo, o que ontem era um principio inabalável, hoje aparece em contornos de dúvidas instaladas porque houve uma emoção nos sentidos.
Visto o calção azul escuro que há muito jazia na gaveta e isso é um sinal que o meu ego se prepara para cultivar a aparência, a camisa de xadrez azul claro sobre fundo branco, os chinelos de cabedal abertos ao joanete sobressaindo dos meus pés que me parecem enormes.
A praia ainda semi deserta, esplanadas fechadas, o sol já sobre a falésia, rutilante de luz, caminho ao longo do paredão na direcção do Norte, à minha esquerda o mar de um azul fascinante, as ondas mansas, pessoas que se passeiam cortando a água com os pés, chapinhando-se e penso inevitavelmente nela, esbelta, os olhos doces sobre o meu corpo, o gesticular das mãos que compõem o explanar do seu ponto de vista.
À minha direita o que resta da mata de acácias, os parques de campismo, será que ela vem? Que impressão lhe terei causado? A suficiente para que se dê ao trabalho de vir de novo, na incógnita do que poderá acontecer, no aprofundar de questões da intimidade que aproximam ou afastam, que inibem ou despoletam emoções.
O meu olhar fixa-se, de súbito na silhueta de mulher sentada sobre a pedra grande , à entrada do esporão, o vestido tipo roupão avermelhado, os óculos escuros, os braços exímios descaídos sobre o corpo e o livro preso na axila do lado esquerdo dela. Sinto toda a harmonia do ser que ela é, ou que se me evidencia como sendo. Aproximo-me , o coração em palpitações de adolescente ante o seu primeiro namoro e penso que é assim sempre que há uma verdade nos sentimentos, um click de sedução consentida, a voz presa na garganta ressequida.
_ Anamar!...
Ela vira-se e deixa-me abismado sobre mim, tirou os óculos e toda a luminosidade dos olhos estavam patentes, como se tivessem estado a chorar, ou uma memória, um sentir que se tivesse soltado de dentro de si e o sorriso, aberto, agradado, agradável.
_João Maria!...
Abraçámo-nos, os seios dela de novo no meu peito, os nossos rostos encostados, tão próximos, perfumes alucinantes vindos dos lábios abertos, apelantes e eu arfante, a sentir o coração dela, a ouvir as batidas aceleradas do meu, tão próximos os lábios carnudos, flores vermelhas humedecidas e afundo-me neles, os meus lábios nos dela, dois toques, frescura e fogo de dentro e embrenho-me e ela embrenha-se, as línguas percorrem-se e ladeiam o interior da boca, as laterais, o céu da boca, salivas entrelaçadas de uma doçura quase extravagante, lábios com lábios, as línguas num devaneio possessivo, os nossos corpos colados, roçando-se, o meu sexo levantado, saltitante e julgo perceber o concavo desenhado do sexo dela sob o vestido, onde o meu sexo se acoita prazenteiro, despudorado, as minhas e as mãos dela percorrendo a costas em movimentos circulares, respiração contida, arfante e contida a espaços. Loucos.
_Perdoa-me!...o teu poder foi mais forte...
Os olhos dela tremelicaram, ainda mal refeita, passando a língua pelos lábios, voluptuosa, trémula a voz, entre sumida e grave, quase patética se vista de um outro angulo.
_Teria de ser um perdão mútuo porque eu também não me contive, foi um impulso...
Demos as mãos e caminhámos no sentido da esplanada. No areal os gritos agudos das crianças soltando as energias acomodadas desde a cidade. Atiram-se areia uns aos outros e chapinham na água que vem beijar-lhes os pés puros de meninos.
_Digo-te que eu própria me surpreendo. Venho de uma separação conflituosa, como te disse, um homem que se alterou a dado passo da relação, que se assumiu como se tivesse tomado posse de mim, exibia-me, a sua mulher, prendia-me até os pensamentos, o gosto de andar despida dentro da casa, ejacular-se dentro de mim e soltar-se, sem se importar com a minha própria satisfação, alhear-se dos meus anseios, dos meus projectos, possuir-me... _ Deixa-me possuir-te!..._ era como ele me dizia, ter-me para ele, dócil, submissa.
Aperto-lhe a mão pequenina entre a minha, macia a pele, os dedos esguios, os seios dela batem no meu braço de vez em quando com a oscilação dos corpos no andar e digo-lhe que gostava de ser dentro dela e de a sentir ser dentro de mim
Anamar volta-se e beija-me de leve os lábios.
_És um ser muito querido.
_Acabaste o livro?
_É um livro intenso, de culto pela personagem da mulher, das mulheres todas embutidas na Nany da sua paixão, saída do virtual, deixando-se tomar da paixão dela, ele, um homem velho saudoso da sua juvenilidade, ou da juvenilidade da mulher que é o seu amor de sempre, surpreendido de ser o alvo, o objecto do amor confesso de uma mulher muito mais jovem, bonita, com uma vida confortável, a questionar-se do porquê e do que fazer ao senti-la frágil, ansiosa de o ter como amante.
Anamar fala efusivamente do livro, da substância do livro, percorre os personagens, a entende-los à luz da sua própria imagem.
_E as cenas de sexo, alta madrugada toquei-me ...estou toda molhada...são cenas que saltam do livro e nos colocam dentro da cena, vivenciando-a, depois, toda a teia perversa que ela engendra para acabar a relação, a intriga em volta dele, fazendo-o acreditar que fora um devaneio da sua própria inconstância, o desprezo com que o foi destruindo até que não representasse mais um perigo para a manutenção do seu estatuto de mulher de bem.
E ele, louco, gritando na cidade, julgando que estava à beira do mar: " Nany, Nany!!!..."
Tomámos o café na esplanada, Anamar de costas para o mar, em frente dos meus olhos, o recorte do tom laranja avermelhado do vestido ou túnica de tecido leve sobre o azul forte do mar e digo-lhe que nos está a acontecer algo de imprevisto, que a estou a sentir como uma célula que brota de mim para fora e que se inclina para reentrar, num ir e vir diáfano que me atordoa que me faz sorrir.
_Estou como que numa euforia em que me apetece gritar, soltar gargalhadas intempestivas sem nada que as justifique, adejar sobre nós os dois, os nossos corpos revolvendo-se, como se te conhecesse há séculos, fazer loucuras, beijar-te, mostrar-te o meu corpo...
Ouço a sua voz melodiosa, o brilho cativante dos olhos, os lábios que se mexem, se mordem a sentir sensações dela, do interior dela, as mãos num rodopio de gestos que procuram completar as palavras, as pernas que se abrem e fecham, o corpo todo em movimento, um movimento que vem de dentro e de súbito, aquele cheiro antigo, há quanto tempo? o cheiro do interior do sexo, absorvente e digo-lhe.
_Podiamos fazer um almoço para nós em minha casa...
Anamar sorri, toda ela, o rosto, o corpo esbelto, um sorriso franco, abrangente, a inteirar-se do meu convite, a sentir que é o momento que secretamente ansiava, secretamente dela própria e faz uma cara preocupada.
_Aceito, mas quero dizer-te que estou no terceiro dia da menstruação.
Dito isto levou os dedos aos lábios e encolheu-se toda na cadeira, como se se desse conta que dissera um disparate, se predispusera a ter sexo comigo, se adiantara em ralação ao momento.
_Se não te incomoda eu adoro ser dentro de ti, menstruada, o meu sexo envolto no teu sangue que se purifica, o teu cheiro activo nascido do mais intimo. É isso, a menstruação altera o efeito sedutor de mistura com os cheiros da apetência sexual. Torna-os exaltantes a nos sublimarem num absoluto de amor.
Ela ri-se de novo, a alma em redor, a praia "deserta" num repente. Pego na mão dela e vamos...

autor:j.r.g.

N A N Y

Verão de novo, o sol quente a meio da manhã, espalhando raios sobre o mar manso de vento e de maré. Brisa ainda fresca. Água límpida junto à praia, vejo as conchas, a areia de cor acastanhada, os corpos luzidios de mulheres e de crianças que se banham próximo de onde me encontro e vejo os meus pés horrendos que se movem imersos, o dedo do meio sobreposto, os joanetes de cada um dos lados de cada um dos pés, a areia macia, sussurro de vozes em alarido abafado pelos ecos do mar. as minhas pernas cortando as águas como quilha de barco impelido por remos.
Gosto das esplanadas junto ao mar, mirar os corpos, adivinhar as almas em volta de cada um, de como se conluiam manhosamente na alegria dos dias de descanso, ou de como se provocam. Os ardis das conquistas, os beijos e os olhos que se espraiam em volta, os sorrisos encantadores e os de circunstância, sorrisos tímidos, desconfiados, ou cínicos, ordinários, de gente que se mascara para se misturar com os de pureza da alma, descontraídos.
Gosto das transparências, vestidos soltos ou saias de mulheres que usam a praia não para banhos, mas como um local de lazer momentâneo, ou de encontro consigo, ou algo diferente que as faça sobressair por momentos da apatia em que mergulharam o ser, ou ainda uma procura de encontros fortuitos, uma exposição de si, do que acham belo de si, do que sentem e ambicionam ser possível surgir por entre tanta beleza de sol, gente e mar.
Procuro um lugar sombrio na esplanada cheia. Um casal que se levanta, mesmo a tempo, pouso o livro que ando a ler "NANY" de um autor ainda desconhecido mas promissor que relata uma história sórdida de amor através da net, sórdida porque esbarra em concepções de baixo nível para ter um desfecho abrupto que deixa um dos personagens em estado de choque emocional.
Estou absorto neste e outros pensamentos que se entrecruzam ,rebeldes, com os olhares que lanço aos corpos estendidos sobre toalhas garridas, e outros que regressam do banho, gotículas de água escorregando pelos braços, os cabelos colados, os olhos, os biquínis metidos nas cavidades pudicas, demoro os olhos no volume das vulvas a adivinhar se é inchaço dos lábios internos ou um penso higiénico por motivo de arreliador período menstrual.
E de repente os nossos olhos cruzam-se e fixam-se, como se um poderoso íman os traísse, eu e ela, uma imagem muito linda, doentiamente linda na simplicidade que a envolvia, nas características do rosto oval, os lábios carnudos, levemente rosados, os olhos negros, a pele acetinada, os cabelos de um negro profundo e exaltante de sedução, os seios sobressaindo da blusa vermelha, livres, proporcionais ao corpo de estatura média, nem muito magra nem cheia,, a saia curta , branca de tecido transparente, as cuecas de renda, provocantemente explicitas quando o tecido se colava ao corpo, por acção da brisa ou dos movimentos que ela fazia com o corpo e a luz do sol esbatia nela e na sua evidência.
Estremeci, ela desviou os olhos por momentos e pude apreciá-la com mais ousadia, doía-me a alma, de dentro do peito, as frontes latejantes, de tanta beleza natural, como uma paisagem idílica e depois voltou, agora de soslaio, olhar obliquo, estranheza no rosto ou dúvida. Inquieta de mim, pensei, ou de me sentir a indecisão, a prisão da voz que queria dizer-lhe uma trivialidade, talvez. E disse-lhe, soerguendo-me da cadeira:
_Bom dia..procura uma mesa, ou espera alguém...
_Bom dia, sim, mas isto está tudo muito cheio, eu espero, não se incomode...obrigado
Disse as palavras sorrindo, todo o rosto iluminado num sorriso absoluto de evidente naturalidade, a voz suave e quente, docemente quente, aveludada. Insisti:
_Podemos partilhar a mesa onde estou, pode voltar-me as costas como se estivesse longe, não a olharei menos do que se estivesse num lugar longe, ou podemos conversar porque a sinto tão rica de conhecimentos...
O sorriso dela abriu-se numa gargalhada cristalina, os dentes perfeitos e sãos, pude sentir-lhe aromas que vinham de dentro, frutos maduros, aglutinantes.
_Está bem, aceito, até porque estou aflita para ir a um WC.
E toda ela era um sorriso de empatia envolvente. Deixou sobre a mesa um livro que trazia, de rosto voltado sobre o tampo e foi, fresca e sedutora no andar.
Reparei então, estupefacto, que se tratava do mesmo livro que ando a ler, "NANY" e senti um ardor estranho em todo o interior do meu corpo.
Lembrei-me de Ana Maria e na doçura quase lasciva em que me envolveu a sua amizade. Ana, há quanto tempo tão longe, sem uma palavra, sem um roteiro de encontro, porquê, terás sentido que te queria ter como fêmea luxuriante? Mas eu contei-te a minha história, sabias que amo a minha mulher acima de qualquer devaneio, sabias que me interesso por mulheres pensantes, mulheres que me permitam ir mais além no conhecimento de mim, testar-me nos vários limites a que me proponho, desde logo, o da amizade, até que ponto a amizade é um amor de grande profundidade, até que ponto me engano quando digo que não quero sexo, apenas palavras e gestos de ternura amiga, desmistificar os problemas ditos insolúveis. Conhecer o meu lado feminino, numa tentativa de absoluto do homem agora sem Deus, livre mas só, entregue a si próprio. Ela voltou, graciosa e simples na sua naturalidade exuberante.
_Anamar...
Estendeu-me a mão, os olhos, que eram verdes, um verde escuro quase negro e não pretos como me pareceram, a luz de dentro do rosto e em volta, descendo suave pelas faces coradas, que beleza de nome, pensei e devo ter tido uma expressão significativa que a fez voltar sobre o meu silêncio.
_Não acredita? Eu gosto do meu nome.
_É um nome fora do vulgar, belo, como tudo o que me acontece ver de em si, perdoe, mas é meu hábito expressar tudo o que sinto quando me parece que é reciproco, eu João Maria.
_Andamos a ler o mesmo livro!
_ E que lhe parece, indaguei.
_É uma história possível, absurda na assunção da minha normalidade, mas possível e está muito bem escrita e sentida, as cenas de sexo virtual são um clímax, sinto que as viveram de facto emotivamente, como se estivessem na realidade colados os corpos e se olhassem de dentro de si.
Digo-lhe que o que me fascina é a interiorização dos personagens, como figuras reais, que assumem as mutações próprias, que as antecipam, como quando ele responde às afirmações de amor eterno dela, dizendo que o tempo é a única peça do jogo que condiciona a intemporalidade das palavras, das intenções e que o desfecho será cruel para com ele, por ser a parte mais tendencialmente absurda do romance.
Anamar sorriu, lindo tudo nela.
_Eu venho de um casamento falhado, onde tudo era maravilha e etereamente vivido até ao momento em que senti que era mentira, que já nada tinha o fogo sequer da esperança tardia.
É como se um élan que nos prende à pessoa, a algo da pessoa, se evaporasse e tudo o que ela diga, ou aparente, nos soa a falso.
_ É um dos aspectos que me fascina, digo, o olhar ausente sobre o mar, por vezes os corpos que se movem na areia fina da praia, pensar que as pessoas acreditam na imutabilidade da relação, como se tivessem sido feitos um para o outro, a cara metade, a alma gémea e não houvesse o tempo, o envelhecimento e a morte de células e o renascimento ou proliferação de outras, ou a mutação de genes, ou uma alteração substancial da energia cósmica que acredito nos influencia a vida.
Há um casal em frente que se beija, depois abraçam-se, ainda novos, e reparo nos olhos dele sobre a minha companheira fortuita, olhos malandros, cobiçosos, a medi-la, a tentá-la no sorriso.
_ O João Maria é de que signo .
_ Sou de Capricórnio. Estuda ou é aficionada de Astrologia?
_Não, sou apenas curiosa, não desdenho nada do que pode ser útil na definição do meu carácter, da minha ancestralidade posso tratar-te por tu? Eu sou de Escorpião.
_Sim, claro, sinto que estamos integrados numa semelhante perspectiva do pensamento. Eu creio que existe um influência cósmica que facilita ou incita à união de um homem e uma mulher, que os determina e que isso nem sempre é tido em conta. É mais fácil, aparentemente mudar de parceiro, infinitamente mudar, numa busca desesperada de encontrar o fio condutor. Ao invés, eu penso que devemos ater-nos ao tempo, e ao nosso conhecimento, aceitar as mudanças, discutir sem pressas que a mudança ocorra na pessoa, mas há algo que não depende só de nós, por isso devemos estar atentos em volta.
_Ao ouvir-te, João Maria, penso que te identificas bastante com o autor do livro, há nele um diálogo constante, do lado de fora dos personagens, sobre a procura de uma justificação para o seu envolvimento amoroso, se o que fazem é considerado uma traição aos seus companheiros ou se, pelo contrário, são apenas um conjunto de palavras que constroem um facto e que pode, por ventura, redimensionar as relações em rotura.
_Mas não sou o autor, podes acreditar, discordo, por exemplo, quando o personagem quer fazer-nos acreditar que aceitou o desafio de amante, apenas com o intuito de viver um romance, como um personagem de facto, porque o que eu sinto é que ele se envolveu todo, perdeu a noção da racionalidade e o desfecho só podia ser aquele, a loucura. E tu, queres falar da tua relação, de como tudo aconteceu?
De repente, ao olhá-la nos olhos, sinto que estou confortável na sua companhia, que me apetece prolongá-la sem tempo limite, preso nos seus lábios que são o sorriso, nos seus olhos rutilantes, nos gestos que traduzem encanto e sobe-me o perfume dela, um perfume que me absorve e não eu a ele, ou não só eu já pelas narinas, mas por todos os poros do meu corpo.
_Talvez amanhã, ou outro dia, hoje ainda tenho os meus pais , vou almoçar com eles, vens amanhã?
_Venho, podíamos vir mais cedo...almoçar por aí...que dizes?
_Veremos a nossa disposição amanhã, o tempo que faz e nos condiciona.
Despedimo-nos com um beijo nas faces, senti o ardor da pele na minha pele e o sorriso provocador ao citar o tempo como condicionante do que fazer amnhã.

autor: j.r.g.

22/08/2009

AO MAR O QUE É DO MAR

Ao mar o que é do mar
e eu que sou do mar um pecador
roubei-lhe vidas fi-lo meu companheiro de pensar
construi barreiras contive-o nos limites predador
.....
também finquei os pés na areia aveludada
branca espuma ondas mansas nos enchios da maré grada
deliciei-me sentindo o mar que vinha e areia me levava
aprendi que os castelos ruíam por acção da água brava
.....
fiz do mar meu protector e confidente dele fui e sou amante
gritei-lhe na euforia dos lamentos em sintonia com o rugir dos ventos
fiz dele mulher das ondas seios e na corrente corpo elegante
deixei escrito que quero ser dado a ele em alimentos
autor: j.r.g.

15/08/2009

MULHER DENTRO DO SONHO

cai mel dos teus olhos verdes
...
vens doce na madrugada
tens o dom de poetar
de tal sorte que a palavra usada
parece dirigida a quem te olhar
xxx
"gosto de ti assim..."
...
digo-te eu também gosto
e percorro os teus versos
ansioso de achar o mosto
em que te apuras de poemas excelsos
xxx
"emerges num silêncio cúmplice"
...
é o que sinto na tua ausência
suores de pânico talvez exagerado
pensar que tenhas perdido a paciência
impulsiva menina de mim tão desastrado
xxx
"toque,cheiro,desejo..."
...
quero chegar aonde só a alma existe
quebrar segredos que toda mulher tem
cheirar tocar e desejar como te sentiste
naquele sonho informe que eu sonhei também
xxx

autor:j.r.g

10/08/2009

SER SENDO

sou um ser anónimo com rosto que não conta
sou números que entram na estatística
servi a dita pátria com desperdício de monta
enriqueci algozes alimentei da fé a mística
*****
escrevi palavras em pedras de gelo na memória
tive pai e mãe tive esposa filhos e amantes
sou um tal cujo nome não consta na história
mas não reneguei do homem ideias fascinantes
*****
desde sempre a liberdade que é na alma inerente
não a liberdade do ter do parecer limitada a sul e a norte
tudo o que fiz aonde fui ou sei foi de aderente
escolhi pessoas locais momentos nada e tive sorte
*****
resolvi o mistério que é o de saber quem manda
sondei o homem nas suas profundezas
e vi que é tudo circunstante hoje assim amanhã desanda
tomei a via do ser antigo que assume suas tristezas
*****
aprendi que nada resolve a tempo o desespero
seguir vivendo sendo sem ódio nem rancor
libertino às vezes riso e choro com tempero
amante amigo de tudo o que respira e sente dor
*****
sou um tipo com rosto um tanto homem outro mulher
anónimo que consta e desconta sem remédio
sou sendo e destemido enfrento a um qualquer
já fui criança embora em vão vitima de assédio
*****
excomunguei de mim a Deus e ao Diabo
sou homem só na minha extensa solidão
de em tudo o que vivi sempre soube onde começo e onde acabo
mesmo quando sem norte segurei algures a tua mão.
autor:j.r.g....ser...sendo, sou...sendo...

09/08/2009

A M O - T E

leio a tua mensagem flor preciosa
deixo florir nos focos de luz o meu sorriso
de encontro ao teu de ti bela e graciosa
lembrar que amigo é um bem preciso
###
leio nos teus olhos a mensagem de fogo
o teu coração tão perto do meu
perfumado o ar que expiras e me envolve no jogo
sou gente a quem a vida nunca prometeu
###
canto amizade amor do mundo expectante
vagueio por entre mares de gente perturbada
ser vagabundo é ser livre e de mim amante
e é dar-me inteiro numa criança iluminada
###
vivo do cheiro e do sabor das palavras ditas
que envolvo e recheio em doces de amor
sou gente do mar da terra e do fogo onde me habitas
sou ainda dos ventos que domo ou que excito com fervor
###
e tu que me vês e sentes no ar quem és?
porque me atiras a água em fortes torrentes?
porque me revolves a terra onde enterro os pés?
porque me queimas na chama da paixão que sentes?
autor:j.r.g.

08/08/2009

POLITICOS, ÉTICA, EDUCAÇÃO SEXUAL POR DECRETO, OS MALEFÍCIOS DO PRESERVATIVO, O HOMEM DAS CAVERNAS

Todos os políticos dizem em público que o povo é inteligente, que não esquece, que é soberano...eu diria que para os políticos, no âmago da sua consciência, a inteligência do povo é suficiente no estádio onde se encontra, que o povo tem a memória curta e separada da realidade por blocos ancestrais de religiosidade, que é soberano dentro de sua casa, quando a tem e sobre a sua esposa, quando ela deixa, sem dúvida sobre os filhos até à adolescência...

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Enfim, o governo accionou para valer desde já, a inclusão da disciplina de educação sexual na escola. Falta formar docentes, falta saber quem ministra a disciplina aos alunos, e se será o mesmo para os dois sexos. Eu defendo que deveriam ser professores homens a reger a disciplina às meninas e mulher aos meninos, mas isso sou eu do tempo em que as jaulas da instrução estavam separadas por barras de preconceitos, confio em que chegarão a consensos para o bem de uma sexualidade sem taras e desmistificada de tabus.

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Um estudo cientifico, em Português, alerta para problemas psíquicos provocados pelo uso de preservativos; há outras atoardas na noticia que foram posteriormente desmentidas, como a improbabilidade de infecção de hiv por relação sexual no âmbito da vagina; bem me parecia que deveria haver algo de errado com o preservativo, por isso nunca o usei, preferi sujeitar-me a uma só mulher, um só sexo e partilhar todas as fantasias que os mais inconstantes não encontram numa só relação.

###

Ficamos a saber, pelos jornais, que o presidente da república perdeu a confiança no primeiro ministro, em Portugal, porque não reconduziu o cirurgião Lobo Antunes numa existente comissão de ética, conforme tinha ficado apalavrado entre os dois. Ao povo isto pode cheirar a tráfico de influências, compadrio entre órgãos muito soberanos muito acima destas suspeitas, permuta de favores, ficando por saber qual a medida usada em troca pelo presidente e que este não terá respeitado ou não irá respeitar num futuro breve.

###

O homem das cavernas, ou o "perigoso foragido" que trocou a vida sã e reabilitadora na penitenciaria, pelas cavernas das montanhas, onde sobreviveu durante cerca de 16 anos, o dobro, talvez, da pena que lhe restava, condenado sem apelo, nem recursos (Veja-se Vale de Azevedo) por ter empurrado uma mulher que lhe fazia a vida negra e causado a morte. Uma odisseia que só um Português poderia ter vivido, merece pelo feito um lugar na história.



20/07/2009

AMIGO, AMIGA, UM DIA POR ANO...

ter ou ser amigo amiga
implica a auto estima elevada
cultivar a amizade ideia antiga
de alma pura apaixonada
*****
amigo se não entende inventa uma razão
procura esventra na memória
se nos perder é ele quem perde a nossa mão
e nós perdidos com ele fora da história
*****
por isso eu penso que amigo amiga
é um bem essencial que não pode ser perdido
pode ser mãe ou pai homem mulher cantiga
não podes permitir-te ser dele varrido
*****
é rara mas se a tens contigo a amizade
agarra firmemente com amor sadio
não temas ser dela a luz intensa da verdade
na hora certa um homem só não tem remédio
*****
amigo é quem nos sente
e nos sentimos nele e dele a ansiedade
não são todos os que parecem ser tão boa gente
apenas um em sete é a saudade
*****
saúdo quem me vê de amigo a raridade
e me confia a alma amargurada
sou ser que sendo se afirma novidade
não procuro corpo mas a alma desalmada
*****
todos os dias há festa onde eu existo
sou pedra sou mar, floresta, sou ventania
e arde a chama do amor onde persisto
emerso da tempestade em agonia
*****
autor:J.R.G.

09/07/2009

CONFISSÃO - EU HOMEM

não me perdoo

fui vitima pleno e predador

nasci no meio do nojo e do enjoo

e fiz no planeta em todo o reino que houvesse dor

***

não, não me perdoo

rasguei avisos normas preceitos antigos

fui indiferente à natureza a toda a vida zoo

abati matei menti abominei castigos

***

não, não me perdoo, em vão suplico

violei as leis do senso bom estraguei o ambiente

aniquilei espécies fiz portarias que não aplico

em poucos anos destrui hoje presente

***

amei mulheres quando não devia

destrui famílias que me pareciam desajustadas

fui guerrilheiro espalhei a dor a agonia

onde o amor a vida bela e simples floresciam decuidadas

***

Fui empresário de madeiras

traficante de drogas, de armas e de mais valias

fui fabricante de sonhos nas chaminés do mundo

espalhei crises criei pandemias inteiras

extrai petróleo penetrei nas minas mordomias

pratiquei o luxo inventei deus desci ao fundo

***

não, não me perdoo, mereço ser punido

fui vil cobarde da vida vingativo

ignorei amor amar em mim não fez sentido

estou pronto para pagar o que for activo

***

autor:j.r.g.

26/06/2009

TODA A TEMPESTADE TRAZ BONANÇA

DIA INTERNACIONAL DO COMBATE ÀS DROGAS-Blogagem Colectiva ( I )
a minha participação: neo- jrg ( I )
in
CD - Lado B blogagem colectiva

Que bom ver-te, meu menino! E como estás bonito!
Há quanto tempo não te via, os olhos brilhantes e o rosto cheio de carne sadia. O falar fluente, a alegria, o abraço forte, o beijo.
Fico a olhar os teus gestos decididos a desfazer a mala. A arrumar tudo meticulosamente.
Há vinte anos que te não via e só guardava a tua imagem de menino. Lindo, de olhos grandes, castanho-escuro, os caracóis em revolta na cabeça de sonhos. E o sorriso. O brilho do teu olhar sobre o sonho.
Voltaste a sorrir, como quando jogávamos à bola na mata em frente, tão perto do mar, e te fazia perder para ouvir os teus protestos, porque só querias ganhar. Ganhar sempre, ser o primeiro e pergunto-me porquê? porque de deixei ir?, porque te deixaste ir?, que forças te arrastaram na enxurrada da indignidade.
Que bom ver-te meu amor. Sentir que não te levaram de todo. Que ainda resistes e estás mais determinado do que nunca em vencer.
Bem podias ter vindo mais cedo. A minha mão esteve sempre estendida do lado de fora do mundo em que caíste. Em frente de ti. E sempre que te via, acenava-te. Gritava o teu nome. Filhoooo !!!...no silêncio que me doía, na angústia da tua ausência, tu, ali tão perto e longe, longe...
As novidades? Estamos bem, como vês. Chegou uma menina encantadora que cresce plena de felicidade. A neta, tua sobrinha. O pai está desempregado A mãe, continua batalhadora. Estamos bem, como vês. Endividados, nas mãos de agiotas legalizados, mas havemos de chegar a porto seguro, estamos bem, como vês, porque tu és vivo e estás de novo do lado em que estamos.
Que bom ver-te com a esperança embandeirada. O hino de confiança. A paz que regressou ao teu coração desfeito em rotura com o mundo. O fulgor rutilante dos teus olhos, de novo.
Que bom ver-te, fruto de um grande amor , quando já desesperava de te ver.
Bem-vindo a casa e fica, se vieste para ficar.

( palavras de pai para filho acabado de chegar da comunidade terapêutica, para se fazer à vida) neo-jrg

A matemática, esse quebra-cabeças dos Portugueses em geral, não é uma ciência mítica só ao alcance de alguns iluminados, mas porque é manipulada ao sabor de interesses que ainda persistem e consideram que "em terra de cegos quem tem olho é rei", continuamos a navegar em teorias de combate ao insucesso , condenadas a manter os níveis aceitáveis de cegueira colectiva.
Actualmente a proliferação do consumo de drogas por amplas camadas de juventude de todo o mundo, tornou-se num flagelo que nenhum governo tem conseguido estancar.
Desde sempre houve consumo de drogas, que não eram proibidas, nem atingiam os preços a que são vendidas nas ruas, nem geravam fabulosos lucros. Em consequência, quem sofria de stress por drogas comprava-as onde era possível ou optava pelo vinho. Era uma minoria, contestatária, talvez, das regras de convivência que se iam alterando. Sinais de rebeldia que prenunciavam mudanças radicais.
Eu penso que a partir da eclosão do Maio de 68, se espalha a ideia reivindicativa de que vale tudo. É proibido proibir tudo. Amor livre. Abaixo os poderes instituídos . A inalação de drogas pelo fumo avança em todas as direcções. As democracias tentam resistir, mas rapidamente os senhores da finança vêm ali um filão inesgotável, e são eles que financiam o estado e que o controlam. É para eles que as leis são manipuláveis, no esgrimir de interpretações por magistrados e advogados que as leis permitem. O legislador pondera os riscos da descapitalização e no meio dos artigos que condenam, há sempre uma alínea que descriminaliza. Não há crimes de colarinho branco nem lavagens criminosas de dinheiro derivado de produtos considerados ilícitos, porque o dinheiro é muito e compra tudo o que se apresente como obstáculo, é uma teia sem aranhas. O povo diz:"quem cabritos tem e cabras não cria de algum lado lhe vem..."
Aqui, em Portugal ,o consumo de drogas disparou com o advento da Democracia, não por culpa da Democracia, antes por uma coincidência de tempo, porque estamos sempre atrasados na ventura e na desgraça.
O consumo e o tráfico são proibidos e condenados com pena de prisão.
Milhares de famílias são assoladas por esta praga, Adolescentes instigados ao consumo sobre os mais variados pretextos de afirmação pessoal, de desinibição. de ser mais forte. Jovens, meninas, lindas que foram, agora enrugadas, prostituídas, devassadas.
Os pequenos cartéis de tráfico organizam-se. No interior das prisões superlotadas continuam a traficar e a consumir. Nas ruas os chamados pequenos delitos. A saga da moedinha para o arrumador que surge, do nada quando já tínhamos quase arrumado o carro.
Roubam os pais, a família, os amigos. Vendem tudo o que tem comprador e há quem compre É um negócio de lucros fabulosos, onde se vende tudo até a dignidade.
O estado, nós todos, financiamos as medidas ditas profiláticas que o governo implementa, de apoio financeiro às comunidades terapêuticas de reinserção, aos tratamentos em ambulatório, com resultados deficitários de recuperação efectiva e duradoira, nascem novas clínicas especializadas , criadas por psiquiatras e outros técnicos terapeutas, algumas possivelmente financiadas por dinheiro proveniente da venda de drogas e destinadas a uma camada da população financeiramente desafogada.
As polícias investem na formação especializada no combate ao tráfico. Os criminosos detidos em resultado das investigações são postos em liberdade. Presos são os consumidores, por consumirem e por roubarem. A droga e dinheiro apreendido nas operações, desaparece em circunstâncias misteriosas.
Os verdadeiros agiotas do tráfico continuam impunes. Participam, até, na discussão. Influenciam politicas. Corrompem influências. E seguem na matança intelectual e física do que melhor tem um povo, uma nação.
Surgiu o HIV, as hepatites B e C proliferam.
As famílias a lutar contra a insolvência absoluta. Sem ajudas oficiais, dependentes da força que os catapulta para a frente, da ajuda de uns poucos amigos e familiares que a dinâmica vai gastando, a ganharem tempo.
Condenadas, até, por não terem sido capazes de evitar a desgraça.
Alguns países adoptam medidas para liberalizar o consumo de drogas, que passa a ser disponível em farmácias e locais apropriados criados para o efeito. As noticias sobre a eficácia: se aumentou-reduziu-estagnou, não são distribuídas na mesma dimensão.
Por cá, e não só, os arautos tentam explicar-nos em equações algébricas e outras engenharias matemáticas, que a liberalização não é possível. Iria criar mais dependências, facilitar a transacção entre estados!?...aumentar o consumo, etc.
E nós a percebermos que dois e dois são quatro em qualquer circunstância e que somados sucessivamente, chegamos aos milhões da ganância, que matam e morrem pela ganância de viverem na abastança erguida sobre o sofrimento, a dor e a desdita de quem vê um adolescente primoroso ser arrastado impunemente nas águas sórdidas da mentira.
Toda a gente com bom senso sabe que a solução é só uma: liberalização. Tratamento eficaz com disponibilização de todos os meios, clínicos, ambulatórios, psiquiátricos, de entreajuda e acompanhamento de proximidade. Informação desde os primeiros anos de escola, a consciencialização de professores e auxiliares de educação. Todos, de uma forma organizada, que UTOPIA, nem o facto de alguns dos filhos dos poderosos da droga serem atingidos pelo problema os desarma, em todas as frentes.Tanto os que são contra como os que são a favor, os que só tem a perder com os negócios das drogas, sabem que a liberalização, a venda livre dos produtos em farmácia, acabaria com o tráfico. A determinação dos estados, onde a droga é produzida, para reconverter as culturas, é outra Utopia, sabendo como há estados totalmente dependentes do comércio de drogas.O problema está no que está em jogo: dinheiro, poder, ganância. A vida e a morte. O filão é imenso e corre a favor das máfias que controlam e dinamizam o comérico de todas as drogas. Há uma crise mundial de valores. O Planeta debilitado pela poluição e pelas atrocidades cometidas ao longo dos dois últimos séculos. A falência dos sistemas financeiros. O desemprego generalizado e a falta de alternativas.É só imaginarem a quantidade de gente que beneficia com a proibição e crime sobre o consumo. A corrupção das consciências, a coacção sobre as vitimas e as famílias. O tráfico de influências.Os argumentos dos que são contra a liberalização do comércio das drogas: Paraíso para os traficantes. Mentira, tudo palavras de conveniênciaE quanto aos traficados? Crianças, jovens, famílias!.. engajadas neste esgrimir de posições, tratados em subserviência, com listas de espera nos espaços de reinserção, sem um programa consequente que os insira no mercado de trabalho, deixados à sua sorte num mercado à míngua. Estigmatizados. Frágil é a esperança que alimenta a auto-estima em reconstrução.
Consciencializar, difundir pelo mundo a palavra de ordem de não às drogas, ser cada um um transmissor de esperança, não aproveitando-se, por exemplo, duma menina que se oferece para a prática de fantasias sexuais para satisfazer à ressaca, mas estender a mão à esperança com esperança.

13/06/2009

EU FAÇO SEXO COM AS PALAVRAS

atenção que eu faço sexo com as palavras ditas
e do sexo entre as palavras nasce palavra nova
que sendo muitas e irrequietas podem ser malditas
interditadas numa relação quando postas à prova

atenção que eu faço sexo com palavras compostas
afogo em orgias desassossegos vindos da genética
não se iludam as virgens as inconstantes de amostras
ligações fortuitas ou devaneios de forma frenética

atenção que eu faço sexo com as palavras abjectas
mergulho na sordidez da falsa esperança
esconjuro da ética as boas práticas indiscretas
enganosas damas que perjuram n'aliança

atenção que eu faço sexo com as palavras obscenas
soltam risadas atrevidas captam afectos
movem-se ousadas entre castas meninas serenas
seguem incólumes sob os olhares circunspectos

atenção que eu faço sexo com as palavras sublimes
escorrem discretas pelas almas carentes
exaltam fervores em amantes que oprimes
desenganadas de amores ausentes

atenção que eu faço sexo com as palavras urgentes
quando no limite desesperadas se me confiam
abraço causas esconjuro amantes inconsequentes
e deixo que me amem na alegria de saberem o que já sabiam

porque sou amante do vento forte tempestade
e da água que corre com força na torrente
exulto perante o fogo que arde na cidade
e é tudo amor o que sinto na terra quente

jrg

07/06/2009

AMORES VADIOS

sabia que era um absurdo eu querer acreditar
que era possível tão jovem amares um ser envelhecido
sabia que tudo o que dizias iria ter em breve que findar
mas deixei que o meu pensar fosse por ti conduzido

eram palavras exaltantes que me penetraram
como numa tortura foste induzindo subliminares ilusões
aromas fortes consentidos que me perfumaram
e fui sendo cativo de ti das tuas tentações

inventei desculpas sem qualquer sentido para continuar
conversas ardentes libidinosas pelas noites adentro
no quarto ao lado uma mulher inquietava-se por me amar
imagino o teu quarto e a angústia de um homem sedento

amantes à distância em maratonas de contentamento
soltos infantes de dia e de noite arrufos gargalhadas
palavras vadias há muito amarradas no pensamento
ânsias de aventura correntes desfeitas desenfreadas

segredos da alma intimidades as palavras obscena
sorgasmos sentidos na solidão dos corpos em polvorosa
amar-te-ei sempre como só eu sei amar-te e tu fizeste cenas
se me despedia e te deixava assim despida enganosa

dei por mim a viver intensamente duas vidas de amante
a sentir-me traído eu próprio nas minhas convicções
mas cativo de ti incapaz de um gesto menos galante
a arrastar-me apercebendo-me do desfecho das tuas intenções

era como um garrote em volta do pescoço que me sufocava
um sufoco de perder-te porque te julguei bela apaixonada
e perdi-te de uma forma acintosa sem brilho nada mais restava
porque não havia nada apenas um devaneio de mente insanada

inventaste perfídias que te desnudara em público a intimidade
seguiu-se o silêncio a alma possessa o debate do ser as consciências
espasmos contradições a revolta do sendo em sua saudade
vendo-te rir sem emoções como se apagasses reminiscências

há imenso tempo que me dóis desde quando éramos namorados
e me sorrias deleitada com o que te encantava a minha sensualidade
dóis-me de ti descontinuadamente atormentas os meus neurónios esgotados
fiquei sem tesão com medos e um medo tremendo da realidade

perdi eu sei sou um perdedor e fiquei mais uma vez engajado
a um projecto de amor absurdo e sem via que não tinha saída
soltam-se risos em volta dos meus desabafos de mim ocado
não sei ao que vou se regenerarei um dia a alma esvaída

j.r.g.