15/08/2009

MULHER DENTRO DO SONHO

cai mel dos teus olhos verdes
...
vens doce na madrugada
tens o dom de poetar
de tal sorte que a palavra usada
parece dirigida a quem te olhar
xxx
"gosto de ti assim..."
...
digo-te eu também gosto
e percorro os teus versos
ansioso de achar o mosto
em que te apuras de poemas excelsos
xxx
"emerges num silêncio cúmplice"
...
é o que sinto na tua ausência
suores de pânico talvez exagerado
pensar que tenhas perdido a paciência
impulsiva menina de mim tão desastrado
xxx
"toque,cheiro,desejo..."
...
quero chegar aonde só a alma existe
quebrar segredos que toda mulher tem
cheirar tocar e desejar como te sentiste
naquele sonho informe que eu sonhei também
xxx

autor:j.r.g

10/08/2009

SER SENDO

sou um ser anónimo com rosto que não conta
sou números que entram na estatística
servi a dita pátria com desperdício de monta
enriqueci algozes alimentei da fé a mística
*****
escrevi palavras em pedras de gelo na memória
tive pai e mãe tive esposa filhos e amantes
sou um tal cujo nome não consta na história
mas não reneguei do homem ideias fascinantes
*****
desde sempre a liberdade que é na alma inerente
não a liberdade do ter do parecer limitada a sul e a norte
tudo o que fiz aonde fui ou sei foi de aderente
escolhi pessoas locais momentos nada e tive sorte
*****
resolvi o mistério que é o de saber quem manda
sondei o homem nas suas profundezas
e vi que é tudo circunstante hoje assim amanhã desanda
tomei a via do ser antigo que assume suas tristezas
*****
aprendi que nada resolve a tempo o desespero
seguir vivendo sendo sem ódio nem rancor
libertino às vezes riso e choro com tempero
amante amigo de tudo o que respira e sente dor
*****
sou um tipo com rosto um tanto homem outro mulher
anónimo que consta e desconta sem remédio
sou sendo e destemido enfrento a um qualquer
já fui criança embora em vão vitima de assédio
*****
excomunguei de mim a Deus e ao Diabo
sou homem só na minha extensa solidão
de em tudo o que vivi sempre soube onde começo e onde acabo
mesmo quando sem norte segurei algures a tua mão.
autor:j.r.g....ser...sendo, sou...sendo...

09/08/2009

A M O - T E

leio a tua mensagem flor preciosa
deixo florir nos focos de luz o meu sorriso
de encontro ao teu de ti bela e graciosa
lembrar que amigo é um bem preciso
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leio nos teus olhos a mensagem de fogo
o teu coração tão perto do meu
perfumado o ar que expiras e me envolve no jogo
sou gente a quem a vida nunca prometeu
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canto amizade amor do mundo expectante
vagueio por entre mares de gente perturbada
ser vagabundo é ser livre e de mim amante
e é dar-me inteiro numa criança iluminada
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vivo do cheiro e do sabor das palavras ditas
que envolvo e recheio em doces de amor
sou gente do mar da terra e do fogo onde me habitas
sou ainda dos ventos que domo ou que excito com fervor
###
e tu que me vês e sentes no ar quem és?
porque me atiras a água em fortes torrentes?
porque me revolves a terra onde enterro os pés?
porque me queimas na chama da paixão que sentes?
autor:j.r.g.

08/08/2009

POLITICOS, ÉTICA, EDUCAÇÃO SEXUAL POR DECRETO, OS MALEFÍCIOS DO PRESERVATIVO, O HOMEM DAS CAVERNAS

Todos os políticos dizem em público que o povo é inteligente, que não esquece, que é soberano...eu diria que para os políticos, no âmago da sua consciência, a inteligência do povo é suficiente no estádio onde se encontra, que o povo tem a memória curta e separada da realidade por blocos ancestrais de religiosidade, que é soberano dentro de sua casa, quando a tem e sobre a sua esposa, quando ela deixa, sem dúvida sobre os filhos até à adolescência...

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Enfim, o governo accionou para valer desde já, a inclusão da disciplina de educação sexual na escola. Falta formar docentes, falta saber quem ministra a disciplina aos alunos, e se será o mesmo para os dois sexos. Eu defendo que deveriam ser professores homens a reger a disciplina às meninas e mulher aos meninos, mas isso sou eu do tempo em que as jaulas da instrução estavam separadas por barras de preconceitos, confio em que chegarão a consensos para o bem de uma sexualidade sem taras e desmistificada de tabus.

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Um estudo cientifico, em Português, alerta para problemas psíquicos provocados pelo uso de preservativos; há outras atoardas na noticia que foram posteriormente desmentidas, como a improbabilidade de infecção de hiv por relação sexual no âmbito da vagina; bem me parecia que deveria haver algo de errado com o preservativo, por isso nunca o usei, preferi sujeitar-me a uma só mulher, um só sexo e partilhar todas as fantasias que os mais inconstantes não encontram numa só relação.

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Ficamos a saber, pelos jornais, que o presidente da república perdeu a confiança no primeiro ministro, em Portugal, porque não reconduziu o cirurgião Lobo Antunes numa existente comissão de ética, conforme tinha ficado apalavrado entre os dois. Ao povo isto pode cheirar a tráfico de influências, compadrio entre órgãos muito soberanos muito acima destas suspeitas, permuta de favores, ficando por saber qual a medida usada em troca pelo presidente e que este não terá respeitado ou não irá respeitar num futuro breve.

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O homem das cavernas, ou o "perigoso foragido" que trocou a vida sã e reabilitadora na penitenciaria, pelas cavernas das montanhas, onde sobreviveu durante cerca de 16 anos, o dobro, talvez, da pena que lhe restava, condenado sem apelo, nem recursos (Veja-se Vale de Azevedo) por ter empurrado uma mulher que lhe fazia a vida negra e causado a morte. Uma odisseia que só um Português poderia ter vivido, merece pelo feito um lugar na história.



20/07/2009

AMIGO, AMIGA, UM DIA POR ANO...

ter ou ser amigo amiga
implica a auto estima elevada
cultivar a amizade ideia antiga
de alma pura apaixonada
*****
amigo se não entende inventa uma razão
procura esventra na memória
se nos perder é ele quem perde a nossa mão
e nós perdidos com ele fora da história
*****
por isso eu penso que amigo amiga
é um bem essencial que não pode ser perdido
pode ser mãe ou pai homem mulher cantiga
não podes permitir-te ser dele varrido
*****
é rara mas se a tens contigo a amizade
agarra firmemente com amor sadio
não temas ser dela a luz intensa da verdade
na hora certa um homem só não tem remédio
*****
amigo é quem nos sente
e nos sentimos nele e dele a ansiedade
não são todos os que parecem ser tão boa gente
apenas um em sete é a saudade
*****
saúdo quem me vê de amigo a raridade
e me confia a alma amargurada
sou ser que sendo se afirma novidade
não procuro corpo mas a alma desalmada
*****
todos os dias há festa onde eu existo
sou pedra sou mar, floresta, sou ventania
e arde a chama do amor onde persisto
emerso da tempestade em agonia
*****
autor:J.R.G.

09/07/2009

CONFISSÃO - EU HOMEM

não me perdoo

fui vitima pleno e predador

nasci no meio do nojo e do enjoo

e fiz no planeta em todo o reino que houvesse dor

***

não, não me perdoo

rasguei avisos normas preceitos antigos

fui indiferente à natureza a toda a vida zoo

abati matei menti abominei castigos

***

não, não me perdoo, em vão suplico

violei as leis do senso bom estraguei o ambiente

aniquilei espécies fiz portarias que não aplico

em poucos anos destrui hoje presente

***

amei mulheres quando não devia

destrui famílias que me pareciam desajustadas

fui guerrilheiro espalhei a dor a agonia

onde o amor a vida bela e simples floresciam decuidadas

***

Fui empresário de madeiras

traficante de drogas, de armas e de mais valias

fui fabricante de sonhos nas chaminés do mundo

espalhei crises criei pandemias inteiras

extrai petróleo penetrei nas minas mordomias

pratiquei o luxo inventei deus desci ao fundo

***

não, não me perdoo, mereço ser punido

fui vil cobarde da vida vingativo

ignorei amor amar em mim não fez sentido

estou pronto para pagar o que for activo

***

autor:j.r.g.

26/06/2009

TODA A TEMPESTADE TRAZ BONANÇA

DIA INTERNACIONAL DO COMBATE ÀS DROGAS-Blogagem Colectiva ( I )
a minha participação: neo- jrg ( I )
in
CD - Lado B blogagem colectiva

Que bom ver-te, meu menino! E como estás bonito!
Há quanto tempo não te via, os olhos brilhantes e o rosto cheio de carne sadia. O falar fluente, a alegria, o abraço forte, o beijo.
Fico a olhar os teus gestos decididos a desfazer a mala. A arrumar tudo meticulosamente.
Há vinte anos que te não via e só guardava a tua imagem de menino. Lindo, de olhos grandes, castanho-escuro, os caracóis em revolta na cabeça de sonhos. E o sorriso. O brilho do teu olhar sobre o sonho.
Voltaste a sorrir, como quando jogávamos à bola na mata em frente, tão perto do mar, e te fazia perder para ouvir os teus protestos, porque só querias ganhar. Ganhar sempre, ser o primeiro e pergunto-me porquê? porque de deixei ir?, porque te deixaste ir?, que forças te arrastaram na enxurrada da indignidade.
Que bom ver-te meu amor. Sentir que não te levaram de todo. Que ainda resistes e estás mais determinado do que nunca em vencer.
Bem podias ter vindo mais cedo. A minha mão esteve sempre estendida do lado de fora do mundo em que caíste. Em frente de ti. E sempre que te via, acenava-te. Gritava o teu nome. Filhoooo !!!...no silêncio que me doía, na angústia da tua ausência, tu, ali tão perto e longe, longe...
As novidades? Estamos bem, como vês. Chegou uma menina encantadora que cresce plena de felicidade. A neta, tua sobrinha. O pai está desempregado A mãe, continua batalhadora. Estamos bem, como vês. Endividados, nas mãos de agiotas legalizados, mas havemos de chegar a porto seguro, estamos bem, como vês, porque tu és vivo e estás de novo do lado em que estamos.
Que bom ver-te com a esperança embandeirada. O hino de confiança. A paz que regressou ao teu coração desfeito em rotura com o mundo. O fulgor rutilante dos teus olhos, de novo.
Que bom ver-te, fruto de um grande amor , quando já desesperava de te ver.
Bem-vindo a casa e fica, se vieste para ficar.

( palavras de pai para filho acabado de chegar da comunidade terapêutica, para se fazer à vida) neo-jrg

A matemática, esse quebra-cabeças dos Portugueses em geral, não é uma ciência mítica só ao alcance de alguns iluminados, mas porque é manipulada ao sabor de interesses que ainda persistem e consideram que "em terra de cegos quem tem olho é rei", continuamos a navegar em teorias de combate ao insucesso , condenadas a manter os níveis aceitáveis de cegueira colectiva.
Actualmente a proliferação do consumo de drogas por amplas camadas de juventude de todo o mundo, tornou-se num flagelo que nenhum governo tem conseguido estancar.
Desde sempre houve consumo de drogas, que não eram proibidas, nem atingiam os preços a que são vendidas nas ruas, nem geravam fabulosos lucros. Em consequência, quem sofria de stress por drogas comprava-as onde era possível ou optava pelo vinho. Era uma minoria, contestatária, talvez, das regras de convivência que se iam alterando. Sinais de rebeldia que prenunciavam mudanças radicais.
Eu penso que a partir da eclosão do Maio de 68, se espalha a ideia reivindicativa de que vale tudo. É proibido proibir tudo. Amor livre. Abaixo os poderes instituídos . A inalação de drogas pelo fumo avança em todas as direcções. As democracias tentam resistir, mas rapidamente os senhores da finança vêm ali um filão inesgotável, e são eles que financiam o estado e que o controlam. É para eles que as leis são manipuláveis, no esgrimir de interpretações por magistrados e advogados que as leis permitem. O legislador pondera os riscos da descapitalização e no meio dos artigos que condenam, há sempre uma alínea que descriminaliza. Não há crimes de colarinho branco nem lavagens criminosas de dinheiro derivado de produtos considerados ilícitos, porque o dinheiro é muito e compra tudo o que se apresente como obstáculo, é uma teia sem aranhas. O povo diz:"quem cabritos tem e cabras não cria de algum lado lhe vem..."
Aqui, em Portugal ,o consumo de drogas disparou com o advento da Democracia, não por culpa da Democracia, antes por uma coincidência de tempo, porque estamos sempre atrasados na ventura e na desgraça.
O consumo e o tráfico são proibidos e condenados com pena de prisão.
Milhares de famílias são assoladas por esta praga, Adolescentes instigados ao consumo sobre os mais variados pretextos de afirmação pessoal, de desinibição. de ser mais forte. Jovens, meninas, lindas que foram, agora enrugadas, prostituídas, devassadas.
Os pequenos cartéis de tráfico organizam-se. No interior das prisões superlotadas continuam a traficar e a consumir. Nas ruas os chamados pequenos delitos. A saga da moedinha para o arrumador que surge, do nada quando já tínhamos quase arrumado o carro.
Roubam os pais, a família, os amigos. Vendem tudo o que tem comprador e há quem compre É um negócio de lucros fabulosos, onde se vende tudo até a dignidade.
O estado, nós todos, financiamos as medidas ditas profiláticas que o governo implementa, de apoio financeiro às comunidades terapêuticas de reinserção, aos tratamentos em ambulatório, com resultados deficitários de recuperação efectiva e duradoira, nascem novas clínicas especializadas , criadas por psiquiatras e outros técnicos terapeutas, algumas possivelmente financiadas por dinheiro proveniente da venda de drogas e destinadas a uma camada da população financeiramente desafogada.
As polícias investem na formação especializada no combate ao tráfico. Os criminosos detidos em resultado das investigações são postos em liberdade. Presos são os consumidores, por consumirem e por roubarem. A droga e dinheiro apreendido nas operações, desaparece em circunstâncias misteriosas.
Os verdadeiros agiotas do tráfico continuam impunes. Participam, até, na discussão. Influenciam politicas. Corrompem influências. E seguem na matança intelectual e física do que melhor tem um povo, uma nação.
Surgiu o HIV, as hepatites B e C proliferam.
As famílias a lutar contra a insolvência absoluta. Sem ajudas oficiais, dependentes da força que os catapulta para a frente, da ajuda de uns poucos amigos e familiares que a dinâmica vai gastando, a ganharem tempo.
Condenadas, até, por não terem sido capazes de evitar a desgraça.
Alguns países adoptam medidas para liberalizar o consumo de drogas, que passa a ser disponível em farmácias e locais apropriados criados para o efeito. As noticias sobre a eficácia: se aumentou-reduziu-estagnou, não são distribuídas na mesma dimensão.
Por cá, e não só, os arautos tentam explicar-nos em equações algébricas e outras engenharias matemáticas, que a liberalização não é possível. Iria criar mais dependências, facilitar a transacção entre estados!?...aumentar o consumo, etc.
E nós a percebermos que dois e dois são quatro em qualquer circunstância e que somados sucessivamente, chegamos aos milhões da ganância, que matam e morrem pela ganância de viverem na abastança erguida sobre o sofrimento, a dor e a desdita de quem vê um adolescente primoroso ser arrastado impunemente nas águas sórdidas da mentira.
Toda a gente com bom senso sabe que a solução é só uma: liberalização. Tratamento eficaz com disponibilização de todos os meios, clínicos, ambulatórios, psiquiátricos, de entreajuda e acompanhamento de proximidade. Informação desde os primeiros anos de escola, a consciencialização de professores e auxiliares de educação. Todos, de uma forma organizada, que UTOPIA, nem o facto de alguns dos filhos dos poderosos da droga serem atingidos pelo problema os desarma, em todas as frentes.Tanto os que são contra como os que são a favor, os que só tem a perder com os negócios das drogas, sabem que a liberalização, a venda livre dos produtos em farmácia, acabaria com o tráfico. A determinação dos estados, onde a droga é produzida, para reconverter as culturas, é outra Utopia, sabendo como há estados totalmente dependentes do comércio de drogas.O problema está no que está em jogo: dinheiro, poder, ganância. A vida e a morte. O filão é imenso e corre a favor das máfias que controlam e dinamizam o comérico de todas as drogas. Há uma crise mundial de valores. O Planeta debilitado pela poluição e pelas atrocidades cometidas ao longo dos dois últimos séculos. A falência dos sistemas financeiros. O desemprego generalizado e a falta de alternativas.É só imaginarem a quantidade de gente que beneficia com a proibição e crime sobre o consumo. A corrupção das consciências, a coacção sobre as vitimas e as famílias. O tráfico de influências.Os argumentos dos que são contra a liberalização do comércio das drogas: Paraíso para os traficantes. Mentira, tudo palavras de conveniênciaE quanto aos traficados? Crianças, jovens, famílias!.. engajadas neste esgrimir de posições, tratados em subserviência, com listas de espera nos espaços de reinserção, sem um programa consequente que os insira no mercado de trabalho, deixados à sua sorte num mercado à míngua. Estigmatizados. Frágil é a esperança que alimenta a auto-estima em reconstrução.
Consciencializar, difundir pelo mundo a palavra de ordem de não às drogas, ser cada um um transmissor de esperança, não aproveitando-se, por exemplo, duma menina que se oferece para a prática de fantasias sexuais para satisfazer à ressaca, mas estender a mão à esperança com esperança.

13/06/2009

EU FAÇO SEXO COM AS PALAVRAS

atenção que eu faço sexo com as palavras ditas
e do sexo entre as palavras nasce palavra nova
que sendo muitas e irrequietas podem ser malditas
interditadas numa relação quando postas à prova

atenção que eu faço sexo com palavras compostas
afogo em orgias desassossegos vindos da genética
não se iludam as virgens as inconstantes de amostras
ligações fortuitas ou devaneios de forma frenética

atenção que eu faço sexo com as palavras abjectas
mergulho na sordidez da falsa esperança
esconjuro da ética as boas práticas indiscretas
enganosas damas que perjuram n'aliança

atenção que eu faço sexo com as palavras obscenas
soltam risadas atrevidas captam afectos
movem-se ousadas entre castas meninas serenas
seguem incólumes sob os olhares circunspectos

atenção que eu faço sexo com as palavras sublimes
escorrem discretas pelas almas carentes
exaltam fervores em amantes que oprimes
desenganadas de amores ausentes

atenção que eu faço sexo com as palavras urgentes
quando no limite desesperadas se me confiam
abraço causas esconjuro amantes inconsequentes
e deixo que me amem na alegria de saberem o que já sabiam

porque sou amante do vento forte tempestade
e da água que corre com força na torrente
exulto perante o fogo que arde na cidade
e é tudo amor o que sinto na terra quente

jrg

07/06/2009

AMORES VADIOS

sabia que era um absurdo eu querer acreditar
que era possível tão jovem amares um ser envelhecido
sabia que tudo o que dizias iria ter em breve que findar
mas deixei que o meu pensar fosse por ti conduzido

eram palavras exaltantes que me penetraram
como numa tortura foste induzindo subliminares ilusões
aromas fortes consentidos que me perfumaram
e fui sendo cativo de ti das tuas tentações

inventei desculpas sem qualquer sentido para continuar
conversas ardentes libidinosas pelas noites adentro
no quarto ao lado uma mulher inquietava-se por me amar
imagino o teu quarto e a angústia de um homem sedento

amantes à distância em maratonas de contentamento
soltos infantes de dia e de noite arrufos gargalhadas
palavras vadias há muito amarradas no pensamento
ânsias de aventura correntes desfeitas desenfreadas

segredos da alma intimidades as palavras obscena
sorgasmos sentidos na solidão dos corpos em polvorosa
amar-te-ei sempre como só eu sei amar-te e tu fizeste cenas
se me despedia e te deixava assim despida enganosa

dei por mim a viver intensamente duas vidas de amante
a sentir-me traído eu próprio nas minhas convicções
mas cativo de ti incapaz de um gesto menos galante
a arrastar-me apercebendo-me do desfecho das tuas intenções

era como um garrote em volta do pescoço que me sufocava
um sufoco de perder-te porque te julguei bela apaixonada
e perdi-te de uma forma acintosa sem brilho nada mais restava
porque não havia nada apenas um devaneio de mente insanada

inventaste perfídias que te desnudara em público a intimidade
seguiu-se o silêncio a alma possessa o debate do ser as consciências
espasmos contradições a revolta do sendo em sua saudade
vendo-te rir sem emoções como se apagasses reminiscências

há imenso tempo que me dóis desde quando éramos namorados
e me sorrias deleitada com o que te encantava a minha sensualidade
dóis-me de ti descontinuadamente atormentas os meus neurónios esgotados
fiquei sem tesão com medos e um medo tremendo da realidade

perdi eu sei sou um perdedor e fiquei mais uma vez engajado
a um projecto de amor absurdo e sem via que não tinha saída
soltam-se risos em volta dos meus desabafos de mim ocado
não sei ao que vou se regenerarei um dia a alma esvaída

j.r.g.

18/05/2009

MEMÓRIAS DA GUERRA - A CARNE E O CANHÃO

MEMÓRIAS DA GUERRA - A CARNE E O CANHÃO

Tinha os dentes escurecidos pela cárie ou tártaro, a falta de higiene, e havia dois espaços em falso nos de cima, intervalados por um dos incisivos, os lábios grossos, estatura baixa, obesidade acentuada, porque comia de tudo, o que lhe cabia do rancho e as sobras, o que mais ninguém queria, ou o que outros deixavam na marmita por nojo da refeição mal confeccionada. Uns olhos grandes, bonitos, inocentes, onde transparecia lealdade. O bigode era farto e quase lhe cobria os lábios. Mãos sapudas, calejadas de enxada, a testa enrugada, pele morena, tisnada e tinha apenas 20 e poucos anos.
Era básico. Ser básico, na tropa, é ser o último na escala de valores da hierarquia. É ser picaresco e ter direito a ser confrontado com a hilaridade de todos, mesmo os que, não sendo básicos, padecem da mesma insuficiência de raciocínio face às exigências técnicas e tácticas da missão em que estavam inseridos.
Tinha a função de ajudante de padeiro. Ser padeiro alterava por completo o seu estatuto. Ele sabia que o posto de básico era como ser pastor, jornaleiro no amanho da terra, aguadeiro entre os ranchos de ceifeiras ou cavadores de enxada.
O primeiro-sargento cooptara Manuel António para a secretaria, tinha imenso trabalho e o poeta sabia escrever à máquina, sabia digerir um ofício, responder às inquirições, fazer contas.
Manuel António, passo firme, cabeça levantada, o cigarro entre os dedos, contemplava a figura do básico e pensava que ele era o valor mais alto e genuíno de entre toda a companhia. Admirava nele o orgulho de ser padeiro, de querer ter estatuto diferenciado, a revolta com que se indignava por lhe chamarem ironicamente básico.
_Eu báseco, pá!!! Eu sou padeiro!
E agora, aquela noticia inesperada, o primeiro-sargento, os ares efeminados, bamboleando o corpo, as mãos pelo cabelo, como Nero, o Imperador louco, a convidá-lo para a secretaria.
Tinha ficado radiante que o capitão tivesse autorizado sob a indicação aquiescente do alferes. Para Manuel António, que sentia a estima de oficiais e sargentos, todos milicianos, contrários à guerra como ele, e sub-repticiamente desobedientes, ficar na secretaria era um luxo que queria usufruir humildemente para não acicatar invejas. Poder escrever à máquina, artigos e outras histórias que se aglomeravam por sair de si e a que os dedos, a caneta, não acompanhavam a velocidade das ideias fluentes.
Estranhamente ele que colaborava num jornal hostil ao regime, que se auto intitulava de comunista, defendia ideias consideradas subversivas, lia livros proibidos e estava marcado pela polícia política como possível activista a ter em conta.
Podia perfeitamente ser comparado ao básico porque ambos eram incompatíveis com a guerra e ambos foram colocados em áreas diferentes das que receberam formação.
A sombra do mangueiro no centro da parada, mosquitos irrequietos poisavam sobre o suor do pescoço e um sorriso abstracto de criança que os olhava indiferente.
_E tu Francês?
_Eu o quê?!
_Porque vieste, se estavas em França, terra livre, coutada de tantos que desertaram.
O Francês era de Vila Verde, um rosto simples, pacato, de homem bom. Tinha um sorriso que parecia pedir desculpa por tudo, por estar ali, por ter vindo, por não se ter deixado ficar.
_Vim porque tenho umas leiras de família e disseram-me que perdia tudo. Porque tive medo que me fossem buscar à força. Sou casado e tenho um filho que já mal me lembro.
Há um aquartelamento que é bombardeado todos os dias, um pouco longe e tão perto, ouvem-se as saídas de morteiro e o deflagrar das granadas, como uma cantilena rumorejante.
A figura frágil e sedutora de Alexandra interpôs-se de repente, como um mito que se entranha. Alexandra é um amor estranho e impossível de definir porque não sendo possessivo nem obsessivo é tão intrínseco que lhe dói estar ausente dela, do seu cheiro de quando acariciava o sexo e sentia a humidade de fluidos contagiantes, o perfume do interior da boca, de dentro dela, quando a beijava, se chupavam as línguas, o fogo dos corpos que estremeciam de sensações rítmicas. As mãos dela no seu sexo, os lábios que o beijavam, o nariz em carícias ao redor da glande.
Suspirou, nem dera pela pergunta do Francês que permanecia no ar.
_E tu Manuel António, porque vieste?
Há quanto tempo? a pergunta, ou que estamos aqui. Faz meses, anos...Quanto falta?...
Riu-se, os olhos nos olhos mansos do outro que sorria do mesmo modo aberto com que se punha a caminho da missão, carregado de granadas de morteiro. Recusando ser carne para canhão, mas indo...
_Por amor, amigo, simplesmente por amor

03/05/2009

MÃE MULHER GUERREIRA

que linda aquela criança
que riso cristalino tem
que sorriso encanto confiança
que segurança pela mão da mãe
mãe mulher plena amante
mãe esforçada de amor amada
mãe rebelada por não ser bastante
mãe não por todos considerada
mulher de enfeites ornamentada
mulher sentida por tanto desdém
mulher feitiço magia aromada
mulher maior suprema de mãe
guerreira ferida da maldade humana
guerreira sem medo que filhos sustém
guerreira aguerrida vaidosa se abana
guerreira da vida que é vida de mãe
autor: J.R.G.

30/04/2009

AS CRISES, O DESEMPREGO, O CAOS GLOBAL

As crises modernas que se vêm tornando cíclicas e cada vez mais afrontosas da condição humana, tocou o fundo do problema, a financeira.

Desta vez é a sério porque toca no dinheiro, não já na matéria prima que se encontra prestes a esgotar-se, tal a devassa que a procura do lucro crescente e sem fim levou a ganância do homem.

O sistema financeiro é um logro que assenta no crédito sugerido, alimentado pela dinâmica do conforto possível para todos, segundo os parâmetros das modas inventadas a cada trimestre. Acumula-se os excedentes sem préstimo, nem compradores, as empresas vivem da ficção das bolsas, reorganizam-se segundo critérios de optimização que obrigam ao despedimento colectivo de de cada vez maior número de trabalhadores. A máquina, a tecnologia, impõe-se como suficiente face à imobilidade do homem, ofuscado pelas facilidades com que acede ao crédito e pelo deslumbramento ante o desempenho prodigioso das novas máquinas inventadas para o substituir.

Florescem as sociedades financeiras de prestação de crédito que atraem a aderência de um crescente número de pessoas, endividadas, absolutamente falidas, que confiaram no ganhar tempo, na progressão de rendimentos e se vêem de súbito mergulhados numa das maiores crises, a financeira, sem solução credível à vista, que assola a humanidade.

Estas sociedades financeiras, imunes à crise, porque rapasses, agiotas protegidos pela lei, com juros absolutamente surreais, posso dizer que numa divida de 1474,02 euros e de uma prestação de 55 euros, apenas 14,o8 é abatido ao capital em dívida, daí resultando que num ano é abatida à divida a importância de 168.96 euros e que para completa liquidação serão precisos dez anos mais...Estão na crista da onda do sucesso empresarial.

Insolúveis, as empresas fecham portas e lançam pessoas no desemprego, outras aproveitam-se dos efeitos colaterais da crise e reduzem empregos. Dia após dia, engrossam por todo o mundo os sem emprego, as dividas por saldar, habitação, carro, créditos pessoais, cartões de crédito, empréstimos particulares.

Os governos estão manietados sem meios que os habilitem a resolver o problema. Limitam-se a apoiar a economia, os mesmos poderes financeiros que chantageiam com o agudizar da crise, que os desafiam a idealizar soluções de entre os sábios, acodem como podem ao desespero dos desempregados, emitem mensagens de optimismo.

Penso que podemos estar perante, ou no limiar, de acontecimentos imprevisíveis de caos, de saque dos com fome de direitos, sobre estas máfias legalmente organizadas, consideradas impunes, por mais atropelos que tenham cometido sobre a humanidade e o Planeta. O fim do dinheiro, como fonte de alimentação, agora que Deus e o Diabo são uma miragem recôndita na memória do homem, ou o advento da nova ordem que tenha o homem como fim e indissociável da preservação do Planeta,na sua globalidade.

A ver vamos...

18/04/2009

QUEM QUER CASAR COM A PRINCESINHA...

certa vez uma princesa
cansada de desamor
fez-se ao mundo publicitada
em imagem multicolor

quem quer casar com a princesinha
que é bonita e formosinha
e tem amor na gavetinha?

quero eu! Disse o macaco
saltando de galho em galho
solta a tua fala um naco
quero ver se em ti me valho

lançado o grito estridente
do símio escandalizado
a princesa inconsistente
ah não quero és muito alarvado

quem quer casar com a princesinha
que é bonita e formosinha
e tem memórias na gavetinha?

quero eu! Disse o mocho sabichão
Fala para que eu aquilate
Se és macho e tens tesão
Se não faço um disparate…

ao ouvir tal estrugido penetrante
a princesa ironiza cerra os lábios
sem o sorriso é uma careta irritante
que diz ah não quero ser dos sábios

quem quer casar com a princesinha
que é bonita e formosinha
e é fiel à gavetinha?

quero eu disse zurrando o burro
sou silêncio só falo durante o cio
prometo que não te empurro
sou forte e meigo quando te arrelio

seduzida pela voz grave e doce
ou pela robustez do duro falo
a princesa do burro enamorou-se
casaram amantes até ao cantar do galo

quem quer casar com a princesinha
que é bonita e formosinha
viajada tem lugares na gavetinha?...

quem quer? quem quer?
experimentar da princesinha
o desfolhar do malmequer

12/04/2009

TEMPESTADE DE AMOR!...

Estamos no cimo da falésia entre pinheiros e urzes, camarinheiras e insectos errantes que voltejam sobre nós, desde sempre, eles, o sol que cintila ao longe nas águas álgidas agitadas pelo vento que sopra forte de Sudoeste, que é de onde vem sempre a tempestade.
Um homem e uma mulher, como desde o principio, ou de como nos quiseram fazer crer que foi o principio e que tendo sido como o afirmaram, então toda a condenação do presente foi embutida na génese, pais copularam com as filhas, irmãos com irmãs, avós com netos..., como todos os outros animais...
Os teus olhos estão fixos nas aves que adejam sobre nós, que chilreiam comunicações mimosas, que se batem por um grão de poeira, de sementes trazidas pelo vento e se amam, visivelmente, se amam, a valsa do voo, o encanto, a melodia, a felicidade com que se agitam em volta de nós, dos nossos pensamentos.
Digo-te que o homem está cada vez mais isolado do conjunto. Destruiu uma parte substancial do Planeta e dos seus habitantes selvagens, porque não se deixaram amordaçar ás leis inventadas para amansar o homem. A floresta tem a sua própria lei para crescer e ser a casa de todos, o paraíso dos errantes.
Tu falas-me do mar, de como foi possível, sendo o mar tão vasto, num tão curto espaço de tempo, esgotar recursos pela apanha incontrolada e pelo lixo, desde a ponta de um cigarro ao atómico....destruir habitats, semear tempestades agrestes.
A tua mão e a minha acariciam o chão de barro da falésia, levantam crostas, conchas de moluscos antigos, cavalos marinhos, se cavássemos fundo talvez encontrássemos algum tesouro milenar, é assim o homem na sua ânsia de riqueza, destruir.
Vê o que fazem com a extracção do petróleo, vão cada vez mais longe na via que leva ao centro da terra e as minas!!!!...Na medida exacta em que falham, se esgotam os recursos, inventam ouras formas, antinatura, de gerar mais riqueza, criam regras, leis virtuais que não esperam cumprir. Inventam crises e soluções.
Já viste, disseste, pairam sobre nós, como duendes, zombies, manequins desajeitados, estulta magia, nuvens densas carregadas de amor. De Sudoeste só pode ser tempestade, digo para os teus olhos que me brilham para dentro de mim.
Olhando os céus, tu, o teu sorriso, harmoniosa. Penso, porque te amo tanto? Que força é esta que nos atrai, me suga toda a atenção, todo o meu sentir, me faz querer estar juntinho a ti, aspirar-te no todo, tão feminina, a saia subida deixando ver as pernas belas, os joelhos...
Adoro os teus joelhos, perfeitos , tudo de ti.
Tempestade, tomara que seja de amor, que varra o desespero, o ódio, a indiferença perante a insídia destruidora, que inunde mansamente os focos de pensamentos gelatinosos que resvalam de mentes gratinadas pela ganância dum poder efémero. E eram belos os teus lábios ao moverem-se sem azedume, suave e quente a tua voz, pujante de afirmação nas incertezas
Eu beijo os teus lábios púrpura, húmidos porque te provas, a língua em volta, sorvendo-te dos teus aromas e sabores. O vento ruge na ramaria, verga troncos, quebra ramos infelizes, fracos, a terra ganha cheiros de outros tempos, o mar enegrecido de repente, belo ainda assim, a crescer em empatia com o vento, cristas brancas formam ondas e caem pingos de amor sobre nós escondidos um no outro.

28/03/2009

ERA UMA VEZ...UMA PRINCESA!...(parte 2)

foi deprimente assistir ao que se seguiu
a princesa isolou-se numa ilha abandonada
o príncipe confuso entrou em desvario
lançou recados cioso à bela desapaixonada

ultrapassou limites conveniências foi insolente
chegou a questionar da princesa o prometido dote
ser enxotado sem apelo tratado de insolvente
atingiu na sua mente o que restava de fino porte

sentia o cheiro intenso da vulva ardente como vulcão
de quando ela arreliada se colava desnuda inebriante
os corpos suados ondulantes imbuídos de paixão
o falo teso inchado de sangue do desejo da amante

de como se transmitiam sublimes os orgasmos
numa mistura de gemidos e movimentos da alma impudica
sentia ainda nas entranhas da mente os espasmos
que do sexo dela o apertavam de uma forma cíclica

após um silêncio longo envolto em mistérios de jardins
a princesa voltou à urbe onde o príncipe plebeu fenecia
mudou o visual, do amor que torna o rosto belo e afins,
nada restava e veio aguerrida e nostálgica o que enfurecia

o príncipe abriu os olhos para ver aquela imagem surreal
e viu que ela amava dela o menos belo e perdia a sagacidade
que se esgrimia em falsas questões cientificas que era banal
quis intervir mas era tarde toda ela era memória da felicidade

seguia-lhe os passos devaneantes pelos recantos do jardim
ouvia-lhe o sussurro da voz agreste onde antes era melodia
aspirava o perfume de princesa agora fragrâncias de jasmim
o cheiro do cio autêntico ausente em toda ela se desvanecia

de súbito uma manhã cinzenta em que soprava o vento norte
no jardim ante o palácio nu e frio de onde a vida activa evaporara
viu o letreiro berrante que dizia: vende-se! estou a monte da morte.
partiu à desfilada no peito a ansiedade por saber de quem se enamorara

chegou de noite morto de fome e sono o corpo amordaçado
as luzes faiscavam das janelas coloridas por entre reposteiros
havia lua de luz doce prateada sobre o mar dela manso enamorado
o rosto da princesa nos umbrais memórias ocultas nos outeiros

olharam-se por um momento incrédulos profundos abissais
uma chuva impiedosa repentina transbordou a água da levada
raios trovejantes de seguida cruzavam a noite tétrica ancestrais
a princesa o rosto a decadência o príncipe morreu na madrugada

ERA UMA VEZ... UMA PRINCESA!:::

a história que hoje vos vou contar
tem pajens, tem principe e princesa
e fala de um amor estranho de encantar
vivido no silêncio que envolve a realeza

ele, o principe, plebeu, tão velho que dobrava
da infanta princesa a idade da inocência
e ela em tê-lo como amante se ateimava
valendo-se da sua real magnificência

os pajens aplaudiam ainda incrédulos
ao desenrolar do fogoso enlace adivinhado
metiam dicas entre brocados e pêndulos
sorriam do plebeu crente de ser o desejado

reinventaram a epistolografia noite profunda
beijos abraços coitos induzidos fragrâncias
a princesa extraía do príncipe que a inunda
o sabor das palavras soltas arrogâncias

não tinham a visão adúltera dum projecto
apenas iam deixando acontecer inebriados
ela na astrologia convicta dum fim concreto
ele na distância a que estavam confinados

amantes de e nas palavras que cada um sentia
fervilhantes de sabores e aromas etéreos divinais
deram-se a conhecer em absolutos de maresia
felizes os sorrisos e piropos que trocavam matinais

Ela era linda, bela de olhos castanhos profundos
o cabelo solto riso aberto em franca sintonia
ele encanecido ousado senhor de outros mundos
crente no amor que do cosmos neles se reflectia

o mundo em volta parava ante esta incómoda parceria
congeminava no silêncio a forma de fazer cessar o mito
que permitia a uma princesa afogar em amor a agonia
de ser instável diabólica e ter em mente apenas um só fito

o cosmos e os genes estabeleceram enfim uma aliança
encerraram a princesa num faustoso e firme quadrado
de cima cessariam os raios insignes da destemperança
que espalhavam fluídos de aromas sobre o bem amado

tremeram os sentimentos amantes nobres estanques
surgiram efeitos gravosos que alimentaram o ciúme
a princesa armou uma cilada palavras feridas irritantes
o plebeu saiu de cena vencido abrupto sem um queixume

autor:jrg

28/02/2009

DEVANEIOS SOBRE O AMOR E O SEXO...

Era uma festa, a discoteca animada, a cerveja , as luzes cintilantes, os corpos agitados na toada da musica que induzia à dança. Não eras bonita, mas tinhas da sabedoria o belo e trazias um amiga, de olhar dócil, aspecto feminino, olhos febris.
No calor das conversas as tuas mãos tocavam as minhas mãos, electrizantes, como era possível? Choques eléctricos que me petrificavam e eu olhava-te e olhava-a a ela. Serias dúbia, bipartida no cromossoma que define o género, 50 por 50, ou eram efeitos do álcool, das luzes, dos corpos em crescendo de energia, ou das batidas desconcertantes da música?
Tu de calças e ela de saia, deixando a descoberto uns joelhos bem torneados, sensual ela a convidar-me provocante, provocando-te e foi quando de súbito pensaste que seria talvez giro uma orgia , um bacanal a três, em que envoltos na doce volúpia dos sexos, ébrios de prazeres nos deixávamos conduzir na corda bamba da razão.
_Oh, não!!!...
Disseste, quando eu disse que era amante de ligações sólidas, que não alinhava em divagações sexuais libidinosas.

#######

Estavam sentados em mesas pouco distantes, ela de perna traçada, as coxas em evidência, o pé subindo e descendo ao ritmo da música ensurdecedora, o corpo deambulando em oblíquos meneios, um sorriso malicioso nos lábios carnudos, os olhos esfusiantes , luz intensa de encantamento, cabelos negros, vestida de ramagens primaveris, a pele morena e as mãos de uma finura extasiante, tamborilando sobre o tampo da mesa em movimentos subtis.
Ele, de olhar tímido, olhando de soslaio, quando pensava que ela distraída não daria pelo seu envolvimento na dança caliente dos seu olhos. Não era homem de se deixar seduzir facilmente por uma mulher, e no entanto, das raras vezes em que foi apanhado na linha de cruzamento da visão de ambos, ficou preso, sentiu um fulgor excitante, misterioso e mágico e teve dificuldade em desviar -se do íman inflexível.
Foi ela quem se levantou e veio a ele sedutora no andar simples e com um gesto o levou a dançar. Olharam-se e sorriram, quente aquele corpo, a dureza das mamas, seriam naturais? E o perfume, talvez Channel!... Como seria o cheiro do seu sexo, ao natural? Neste momento seria talvez uma mistura de suores e fluidos do cio, com resquícios de urina...Uma mistura escaldante, animalesca.
Que fogo, o sexo dele em batidas no V concavo do dela sobre o vestido, as mãos nas ancas ondulantes, em rodopios na pista, o ar sufocante, os seios, a cor das faces rosadas os olhos hilariantes de prazeres, uma leve camada de suor sobre a testa e saem de rompante para o ar fresco da noite, possessos de vontade, os olhos inquietos na procura de um lugar, as mãos dadas, ela na frente, quase correndo, e ele afogueado em pensamentos algozes da razão. Um vão de escada, ela tira as cuecas e ele baixa as calças, ela levanta uma das pernas e agarra com sofreguidão o sexo dele em chamas e enfia no seu sexo ardente, qual vulcão derretendo lava incandescente, abraços e beijos de grande exaltação, arfar de peitos, movimentos bruscos de vai e vem, as mãos que apertam os corpos que se penetram, pequenos ais, olhos húmidos da emoção do momento e um ai final, mais prolongado de orgasmos, de libertação de energias acumuladas no stress da semana.
Um doce olhar de despedida, ela no seu, ele no dele, os carros arrancam em sentidos opostos...

#######

Eu digo:
_Amo-te!...
E tu:
_Também de amo...muito!...
Os nossos braços apertam os nossos corpos, e o mar chia baixinho e docemente no marulhar das ondas mansas no imenso deserto que é a praia de areias finas, branqueadas.
Tens os cabelos escuros de castanho e os olhos de um verde avelã adocicados. A nossa pele morena ,genética ancestral de sóis e maresias, um corpo em harmonia com a beleza da alma que se pavoneia em volta e um sabor a frutos maduros sobressai nos beijos que me dão os teus lábios, a tua língua frenética na agitação de me ter.
Ser de ti e sentir o que é seres de mim, apaixonados na mítica esperança de não mais acabar este enleio de fios resistentes, de sentimentos viscerais consistentes.
Passeamos de mãos dadas, saltas pequenos obstáculos que o mar deixou na maré cheia e é como se um mar fossemos, imenso e profundo, ondas rebeldes correndo ao sabor do vento em alegre correria.
_Vamos amar-nos sobre a areia? Beijar o teu sexo, tudo de ti que eu amo, os teus perfumes, deixar que a noite venha e nos tape com seu manto escuro? Inebriar-nos da transparência do ar de maresia, exaltar de pureza o amor que somos numa simbiose quase perfeita? _Digo. E tu, olhas-me sorridente e incrédula.
_E se vem alguém e no surpreende? Sabes que me inibo na nudez exposta ainda que com sentido da ousadia libertina de ser livre.
Digo que aceito o teu senso e sentamo-nos um pouco, tu de pernas dobradas e entreabertas, deixando ver a cueca preta sedutora e eu deitado a teus pés, passando as mãos pelas tuas pernas em carícias dolentes de desejos, vou indo até ás coxas, passo os dedos na abertura vulvica e entreabro a cueca para mexer nos pelos macios em volta.
O cheiro que me penetra é exaltante, possui-me em absoluto, Tu apertas as coxas, prendendo-me a mão, os dedos que te percorrem, que sentem e me transmitem sensações espasmódicas, fluidos vertidos em profusão.
Deitas-te no sentido inverso, as pernas arqueadas em V a permitirem a incursão dos meus dedos, o poisar da minha cabeça sobre o teu ventre, a aspirar-te, a verter-te e beijo os lábios do teu sexo, doce loucura.
Tu descobres de mim o membro palpitante, acaricias a glande rosada, beija-lo com ternura e dás um ai quando sentes que está húmido.
Moves-te e sentas-te tu sobre o meu ventre, o teu sexo sobre o meu sexo e baixas-te a mim para me beijar deleitosa, ardente. Afasto a tua cueca e deixo que ele, amachucado te penetre e se liberte e és tu quem comanda os movimentos, as minhas mãos sobre os teus seios, os teus olhos revirados, não posso ver os meus, mas sinto como que uma névoa que me cobre e é só de dentro que me vem a imagem de sons, aromas e sentires que me alucinam.
_Se for menino, será Pedro, como o pai..._dizes com um sorriso carinhoso.
_Se for menina será Cristina, como a mãe_ e beijo-te os lábios entreabertos de menina.


autor:J.R.G.

08/02/2009

PARABÉNS AMOR!...e vão 39

P A R A B É N S AMOR!...e vão 39
O vestido branco arrastando pelo chão, encobrindo as tuas pernas maravilhosas, sufocando os aromas do teu corpo, a grinalda de flores brancas sobre os teus cabelos negros, os teus olhos verdes, raiados de verdes intermédios, de tom escuro. mágicos , onde aprendi a ler de ti, da alma esfuziante de encantos. A luz dos teus olhos, aprendi que era amor, altivos e submissos, não a mim, de mim, mas a algo que aceitamos como o sendo do nosso ser.
O sorriso de felicidade, as gargalhadas, a ternura com que me beijavas a cada instante, por cada motivo, por mais banal. O pote do arroz que despejaram à nossa passagem triunfal, como se carecêssemos da tradição para nos consubstanciarmos de e em amor eterno.
A cerimónia do sim ante as testemunhas, o ar incrédulo de alguns que não acreditavam na possibilidade de sermos amantes, ou talvez aguardassem um desfecho trágico à sublimidade de nos amarmos para além do racionalmente aceite.
Hoje olhei-te e vi o mesmo brilho. Penso que o vi em todos os anos a sete, e sinto a mesma ansiedade, o bater forte do coração, como se fosse hoje o dia sempre em absoluto.
Só eu vejo a tua pele luzidia, só eu vislumbro o brilho dos teus olhos, só eu capto o encanto do teu sorriso, só eu te sinto airosa, o andar igual , a voz doce e quente que me chamava amor, que me chama amor. Só eu sinto que os anos não passaram, que és a minha eleita, o meu mimo de ternura, na doença e na alegria, nas tempestades agrestes que nos assolaram. Onde outros fraquejaram por tão pouco, nós erigimos uma fortaleza de amor.
És um exemplo de mulher no comando. Trabalhaste, foste e és mãe, avó, amante fulgurosa, a financeira que resolveu as crises, a mãe que desceu ao fundo e esgatanhou a besta. Eu fui o sonho, o sonhador que interpretou a vida como um romance em que os personagens se agitavam nas águas revoltas e lamacentas e se erigiam em ondas de espuma para continuarem a ganhar tempo ao tempo. O tempo decidiria, decidiu?
Olho-te hoje e vejo a mesma menina de há quase quarenta anos. Minha paixão de amor, minha eternidade. Habituei-me aos novos aromas, à rebeldia da tua intransigência, beijo-te nos lábios e chamo-te amor. Há quantos anos és o meu amor?
Hoje vamos ser de novo como dantes, renovaremos o cenário, ou reinventá-lo-emos, haverá música suave ao jantar, talvez velas, flores, trocaremos sorrisos e olhares indiscretos, daremos as mãos, terás momentos de ser mais coquete, talvez tomemos um duche juntos e deixar-nos-emos enredar na teia que vimos construindo, até à eternidade da tua infinitude de mulher.
Amo-te

01/01/2009

A PRIMEIRA VEZ, o SOM!...

Recordo a minha imagem de menino, o corpo nu e o olhar triste sobre a areia negra da rua junto à casa. Em redor, o juncal de águas estagnadas, onde os girinos candidatos a rãs e salamandras se movimentavam apressados.
Galinhas cacarejavam por entre os patos deliciados com as poças de água que se formavam onde a areia enrijara, batida pelos pés de anos e anos, desde que se formara o bairro de pedra e cal, a substituir as barracas andrajosas, albergues de famílias numerosas.
Era Dezembro frio e nevava na Serra, longe, talvez na Guarda, Bragança...quando eu nasci, ia o sol a meio e berrei alto que me deixassem crescer, que haveria de ser grande e homem.
Dizem que deu trabalho arrancar-me do ventre de minha mãe. Terá sido por isso que a nossa relação foi sempre distante? Talvez ela quisesse uma menina, ou nada.
Cresci triste e timido, temeroso de tudo o que gerasse violência e dos mistérios da noite.
Tenho o sentido de ter amado minha mãe e queixo-me de me ter sentido mal amado. o meu pai era de poucos afectos. Trabalhava dia e parte da noite para ter melhor vida, ou termos nós.
Quando dei por mim tinha crescido, alinhei nos namoricos de rapaz, joguei à pancada, apanhei raposas na escola e aprendi a fumar como os homens, rapei os pelos das pernas e do púbis para que crescecem depressa e de raposa em raposa, veio o trabalho árduo.
Cresci timido, triste e mau amante do meu corpo, encovado no torax pela tosse da bronquite asmática ,curada a papas de linhaça.
Dezembro é o mês da estrela redentora, logo, o meu curso de vida devia mudar a todo o instante, porque eu tinha sonhos, eu adormecia agarrado aos meu sonhos, ser homem, ser pessoa, ser um dos guardiães do mundo. Defender todos os fracos dos poderosos sem lei, para quem a lei fora feita, logo a lei de Deus. "Não desobedecerás ao teu senhor".
Voltar à escola, reaprender, ler desde o começo de onde se deve começar a ler. o romance, o documento, a filosofia, o pensamento humanista, a história. sobretudo a história que nos permite redimensionar o presente. A repetição dos acontecimentos é uma evidência, não igual, o mesmo item ou quadro de apresentação, mas os pressupostos, as incidências, as razões e as causas, a perfidia insinuosa das teias qe se tecem e envolvem os protagonistas, as causas e os efeitos, cada vez mais devastadores.
Amar. Descobrir que amar era possivel, à medida que o amor por mim, pelo meu corpo, pelo meu pénis quando me masturbava, pelo meu cheiro, de mim, crescia e se fortificava em confiança, em poder...Amei profundamente de mim e para além de mim. Sentir que alguém que não eu, me amava o corpo, me amava as palavras soltas pela alma, que acreditava ser possivel viver comigo um projecto consubstanciado no tempo. E era um outro corpo além de mim, uma outra alma, a alinhar-se a ser, a fundir-se como um só sendo dois, assumindo-se como um só sendo dois, até ao fim...
Estou sentado sob a palmeira junto ao rio e retenho a memória que me escorre lentamente, ás vezes rápida demais, atafulhando-me de palavras sobrepostas que se perfilam por fim, dipostas ordenadamente.
E veio a guerra, o medo dos medos, tensão e o reafirmar dos valores que eram já uma fortaleza do ser. Preservar a existência, os rosto de um povo simples, completamente simples, os olhos negros na pele negra, as crianças, a magia do seu olhar interrogativo, as barrigas opadas, o sorriso inocente e crédulo e amar, amar sempre como um fim únio de chegar a um infinito, amar acima de tudo o que vou sendo, o que estou sendo e ir ganhando aos poucos o tempo, de dentro do próprio tempo, uma infima nesga de espaço. Não ter achado o homem qu procuro, será que existe? , mas trazer um novo elan por ter vivido a busca intensamente, sentido a metáfora do homem novo, absoluto, total.
Viver a mais bela história de amor. Saciar-se de sexo e fantasias libidinosas, realizar a utopia, os filhos, o sucesso pessoal.
A derrocada...
Ter vencido tantas coisas e derrotas pesadas, julgadas demasiado pesadas, querer dar um fim a tudo, apagar tudo sem recomeço, apagar simplesmente e definitivamente., para qe não conste
Definhar até ao limite do fim e ressurgir desse nada quase absoluto, de onde ninguém pensa ser possivel voltar. Soerguer-se, olhar o horizonte carregado de nuvens e descobrir o sol. Fazer-se valer...ganhar a luz e arrancar de si, do fundo onde repousa a dor, o saber, o ser de novo que é ainda sendo, porque não deixei de ir sendo, não se é, vai-se sendo.
Reformular aceitando a evidência do que já aconteceu e continuar a amar, a amar-se. Voltar a sentir esse dom maravilhoso do amor. As palavras enxertadas de amor, como se foram novas, vicejantes e a fazerem-se acreditar. Amar de novo, ainda. Sentir o desassossego da alma, a ferroada do abandono e deixar-se amar de novo e amar de novo, a fazer-se ao tempo, como se fosse do tempo que corre.
Deixo entrelinhas por preencher. Faz frio sob a palmeira junto ao rio, agora que o sol se escondeu para lá do horizonte do mar.
Sou amigo, amante, amigante, também de mim homem...
É Dezembro e faz anos que gritei...pela primeira vez.

J.R.G.

14/12/2008

NOITE DE NATAL

a uma menina que sonha

Amanhecera claro, o dia, com o sol a tremelicar por entre nuvens que se esfumavam ao sabor da brisa que soprava de Nordeste, por detrás da montanha coberta de uma camada fina de neve.
O sincelo que cobria as árvores, dando-lhes um aspecto maravilhoso de bondade Natalicia, era como cristais de vidro resplandecente aos raios que do sol se expandiam alegremente.
Era um dia de paz, uma trégua instituída desde há séculos, assumida pelas mentalidades, desde a mais violenta, de modo a que um pouco de amor, de concórdia, de cinismo, tudo de mistura, se evidenciasse da amálgama de interesses, se evidenciase da materialidade onde o ódio e a impostura de principios reinavam na arrelia dos dias.
Maria Antónia tinha esperado este dia como o culminar de uma acção que preparava há anos, que se construía dentro dela, que sobressaía das atitudes. Ter atitude. Arrumar as ideias fervilhantes e confusas que a atormentavam, que a impediam de ver além do quadro negro que pintara nos últimos dias.
O namorado delsiludira-a. Dissera-lhe até que se tratava de um capricho, o facto de ela querer que ele deixasse de passar a consoada de Natal com os pais. Ela pensava que era possivel passarem os dois de uma forma diferente essa noite mitica. Sonhava com uma ceia a dois, enamorados, num restaurante de prestigio que a fizesse sonhar que já tinha ultrapassado, todos os obstáculos que sentia , a Universidade, o seu projecto profissional, ser mãe, sentir -se amada em toda a infinitude do seu ser mulher, e era ainda uma jovem que acabara de fazer dezoito anos...mas sonhava e, de tão mimada, tomara o hábito de satisfazer todas as suas aspirações.
O sonho acabaria num dos quartos da casa que ele tinha vazia do outro lado do rio, casa de férias da família, onde fizeram amor pela primeira vez.. Vazia de gente, e tão confortável que apetecia habitá-la, fazer dela a sua casa dos sonhos onde se encontrariam sempre que o desejo surgisse do interior do corpo e suplicasse à alma.
Deixara-a na dúvida se o faria. E era o que mais a perturbava, não ter certeza, certezas de nada, no momento em que pensava sobre si, dúvidas, dúvidas. Estaria certa na carreira que escolhera? Sentia falta de algo de mais substancial, de uma confiança extra, de fora de si, dissipadora das contradições que lhe afloravam a mente, a comprimiam , sufocavam.
Sentia a cabeça oca, como se tudo o que a compunha, o cerne de todas as decisões, tivesse desaparecido e a deixasse desamparada, indecisa, sem a vitalidade que a tonara respeitada entre colegas, amigas e mestres.
Maria Antónia tinha uma simpatia especial pelo seu mestre de comunicação escrita. Era um homem maduro que ela admirava e sentia até uma atracção subtil pelos seus cabelos louros , o seu ar de quem não receia nada, sereno, risonho e de palavras suaves e quentes que, quando o ouvia o seu pensar parava e o coração batia apressado. Mas era uma emoção diferente que não sabia explicar, diferente do que sentia com Pedro, o formigueiro no sexo, o desejo intenso...
Prguntara-lhes como iam passar o Natal, as famílias e dissera dele próprio que era com indiferença que olhava a quadra desde que, há anos, um acidente o deixara sem os bens mais preciosos, a mulher e a filha pequenina... Que sempre olhara o Natal como uma quadra propícia ao desenvolvimento do comércio, hipócrita e inibidora dos reais sentimentos que o homem mantinha encerrado no mais fundo de si. Um comércio dos sentimentos genuinos da criança ou da dádiva. Um dia instituido para dar, para a concórdia, para o perdão...
_O que vem ao de cima, o que se diz no momento, o que se faz, são apenas aflorações da razão,de algo que o incomoda, fruto, talvez, de incómodos que o atormentam pela sua trajectória individualista e material. _ E terminara com um feliz Natal pra todos.
Maria Antónia tinha essa afeição especial por Daniel, assim se chamava o mestre, que não sabia explicar muito bem e pensava nele, neste momento de si, em que revia os últimos acontecimentos com o seu namorado e se perguntava o que era na verdade ter amor, ser amada , amar. Se eram apenas palavras cujo significado se alterava na medida das conveniências, se amar não seria o mesmo para todas as pessoas.Se era apenas ter sexo, ou se consubstanciava em sexo, mais sexo, mais amor, infinitamente...ou se, por outro lado, era algo de transcendente, sentido pelos dois seres amantes, como que vindo misteriosamente do fundo da razão, un gene. Haveria um gene do amor, que se identificava com o o do outro, só perceptivel entre eles, genes, como se de um chip, uma transmissão cósmica de dentro do corpo ou da alma, inexplicável, intangível de fora de nós.
Sentia-se magoada com o Pedro Miguel, seu namorado. Sentira mesmo um gesto de enfado, ou de superioridade, como se a ideia dela fosse tão infantil que não merecia outro tratamento que não a rejeição pura e simples.
Maria Antónia estava nestas deambulações da mente, bela no seu cabelo loiro escuro, os olhos castanhos claros, a pele clara, fina, o seu corpo estava tenso, os lábios moviam-se inquietos. As mãos em gestos desapontados, como se falasse com alguém
Tê-la-ia deixado de amar? ele que a tivera em tantos momentos de deliciosas aventuras pelo corpo, os sexos, as experimentações, a aventura do desejo, a procura da satisfação total, incessante, porque havia sempre algo que ficara.
Tinha muitos amigos e amigas, que a adoravam, as sua prédicas bem falantes, o seu sentido de humanidade ante as injustiças, o seu vestir elegante, o perfume, os adornos de peças únicas da ourivesaria Portuguesa.
_Olá!..por aqui?!...
Daniel viera comprar alguns ingredientes para a sua noite de natal. Era um homem de mediana estatura, elegante no porte e vestia com esmero, um fato de estilo clássico, moderno, azul escuro, a camisa azul claro, o sobretudo preto e o cachecol, o cabelo louro e os olhos num tom claro de azul celeste. Era um homem de aparência alegre, de quem se gostava à primeira vista, comunicativo, conhecedor dos temas que aflorava e tinha um sorriso encantador. Olhando-o atentamente, ver-se-ia uma ponta de tristeza nos seus olhos.
Há vinte anos que cumpria um ritual, comprava a ceia de Natal, dispunha os acepipes pela mesa posta com delicadeza, os três lugares, as fotos delas ante cada prato, viradas para ele, do outro lado da mesa, em frente da janela de vista alargada sobre o rio. Colocava a música preferida do seu amor e comia, lentamente, pela noite dentro e meditava na ausência silenciosa dos entes que perdera mas que se perfilavam ali na sua presença, eternos em si e de si, elas, as suas flores de infinitos aromas . Os presentes dispostos num dos cantos da sala e a árvore de Natal com as luzes cintilantes que a mais pequena adorava.
_Professor Daniel, mas que surpresa agradável!...
Levantou-se e beijaram-se nas faces, sorridentes, luminosos os olhos e os sorrisos, numa combinação perfeita.
_Então menina, são 21 horas e a ceia de família?
Ela perturbou-se um pouco e de repente soltou as palavras como Daniel ensinara, um mote interior, de dentro, que se solta e parte à desfilada como cavalo espavorido, contou a recusa de Pedro Miguel, de como pensara uma noite diferente, provocantemente diferente, porque afrontosa dos conceitos instituídos e de como ele a recusara, se recusara e ela resolvera mentir à sua família dizendo que vinha com ele, que era maior e queria ser ela a conduzir a sua vontade.
Daniel Olhou Maria Antónia com emoção, segurou nas mãos delicadas que ela mantinha sobre a mesa do café, em cima da mala de pele escura. Quentes e macias, as mãos, a pele suave, mãos de menina.
_Queres passar a ceia comigo?...não...é melhor não...ou por outra, se quiseres, vem.
Maria Antónia olhou para ele entre incrédula e sorridente.
_Professor Daniel, hesitante!... não o reconheço!
Soltou uma gargalhada juvenil, em crescendo de melodia que o contagiou , o levou ao riso, alegre. Há quanto tempo não se ria assim, deste modo estranho, comunicante, efusivo?...
Cearam à luz de velas em silêncio. Apenas os olhos se cruzavam por momentos, os dois lugres ocupados plas fotos de corpo inteiro e ela, Maria Antónia, num espaço entre as duas, luminosa, solta, ruborizada pelo champanhe. "Que faço aqui?...Que sou ou represento?, mais confusões na minha cabeça, não..."
_Fez-me bem que tivesses vindo. Ela teria hoje a tua idade. És linda, inteligente, o amor é um sentimento multipessoal, amamos a pessoa a coisa, como se fora algo de nós. Não há amor fora do nosso próprio sentir em nós. Queremos ser e ter, mas só sendo podemos aspirar ao ter. Eu digo ,ás vezes, que o ser anula o ter. O ser é já em si bastante. Ser amor, uma bola infinita de amor.
Fumavam os dois no limiar da porta de acesso à varanda, um extenso terraço com vista para o rio. A noite gélida antes parecia aquecer os corpos esquecidos sob o umbral. O céu estrelado e limpo de nuvens.
_Daniel, isto que eu sinto, que sentimos, também é amor? Que tipo de amor?...
Ele abraçou-a e uma das mãos afagou-lhe os cabelos longos, seda macia e aromados e os dedos dela sobre as costas de Daniel. Um abraço de amor, os beijos dele sobre os cabelos, as lágrimas que se evadiam dos olhos de ambos, não eram dor, nem alegria, era um amor de dentro uma outra e estranha forma de amor...
FELIZ NATAL!