13/06/2009

EU FAÇO SEXO COM AS PALAVRAS

atenção que eu faço sexo com as palavras ditas
e do sexo entre as palavras nasce palavra nova
que sendo muitas e irrequietas podem ser malditas
interditadas numa relação quando postas à prova

atenção que eu faço sexo com palavras compostas
afogo em orgias desassossegos vindos da genética
não se iludam as virgens as inconstantes de amostras
ligações fortuitas ou devaneios de forma frenética

atenção que eu faço sexo com as palavras abjectas
mergulho na sordidez da falsa esperança
esconjuro da ética as boas práticas indiscretas
enganosas damas que perjuram n'aliança

atenção que eu faço sexo com as palavras obscenas
soltam risadas atrevidas captam afectos
movem-se ousadas entre castas meninas serenas
seguem incólumes sob os olhares circunspectos

atenção que eu faço sexo com as palavras sublimes
escorrem discretas pelas almas carentes
exaltam fervores em amantes que oprimes
desenganadas de amores ausentes

atenção que eu faço sexo com as palavras urgentes
quando no limite desesperadas se me confiam
abraço causas esconjuro amantes inconsequentes
e deixo que me amem na alegria de saberem o que já sabiam

porque sou amante do vento forte tempestade
e da água que corre com força na torrente
exulto perante o fogo que arde na cidade
e é tudo amor o que sinto na terra quente

jrg

07/06/2009

AMORES VADIOS

sabia que era um absurdo eu querer acreditar
que era possível tão jovem amares um ser envelhecido
sabia que tudo o que dizias iria ter em breve que findar
mas deixei que o meu pensar fosse por ti conduzido

eram palavras exaltantes que me penetraram
como numa tortura foste induzindo subliminares ilusões
aromas fortes consentidos que me perfumaram
e fui sendo cativo de ti das tuas tentações

inventei desculpas sem qualquer sentido para continuar
conversas ardentes libidinosas pelas noites adentro
no quarto ao lado uma mulher inquietava-se por me amar
imagino o teu quarto e a angústia de um homem sedento

amantes à distância em maratonas de contentamento
soltos infantes de dia e de noite arrufos gargalhadas
palavras vadias há muito amarradas no pensamento
ânsias de aventura correntes desfeitas desenfreadas

segredos da alma intimidades as palavras obscena
sorgasmos sentidos na solidão dos corpos em polvorosa
amar-te-ei sempre como só eu sei amar-te e tu fizeste cenas
se me despedia e te deixava assim despida enganosa

dei por mim a viver intensamente duas vidas de amante
a sentir-me traído eu próprio nas minhas convicções
mas cativo de ti incapaz de um gesto menos galante
a arrastar-me apercebendo-me do desfecho das tuas intenções

era como um garrote em volta do pescoço que me sufocava
um sufoco de perder-te porque te julguei bela apaixonada
e perdi-te de uma forma acintosa sem brilho nada mais restava
porque não havia nada apenas um devaneio de mente insanada

inventaste perfídias que te desnudara em público a intimidade
seguiu-se o silêncio a alma possessa o debate do ser as consciências
espasmos contradições a revolta do sendo em sua saudade
vendo-te rir sem emoções como se apagasses reminiscências

há imenso tempo que me dóis desde quando éramos namorados
e me sorrias deleitada com o que te encantava a minha sensualidade
dóis-me de ti descontinuadamente atormentas os meus neurónios esgotados
fiquei sem tesão com medos e um medo tremendo da realidade

perdi eu sei sou um perdedor e fiquei mais uma vez engajado
a um projecto de amor absurdo e sem via que não tinha saída
soltam-se risos em volta dos meus desabafos de mim ocado
não sei ao que vou se regenerarei um dia a alma esvaída

j.r.g.

18/05/2009

MEMÓRIAS DA GUERRA - A CARNE E O CANHÃO

MEMÓRIAS DA GUERRA - A CARNE E O CANHÃO

Tinha os dentes escurecidos pela cárie ou tártaro, a falta de higiene, e havia dois espaços em falso nos de cima, intervalados por um dos incisivos, os lábios grossos, estatura baixa, obesidade acentuada, porque comia de tudo, o que lhe cabia do rancho e as sobras, o que mais ninguém queria, ou o que outros deixavam na marmita por nojo da refeição mal confeccionada. Uns olhos grandes, bonitos, inocentes, onde transparecia lealdade. O bigode era farto e quase lhe cobria os lábios. Mãos sapudas, calejadas de enxada, a testa enrugada, pele morena, tisnada e tinha apenas 20 e poucos anos.
Era básico. Ser básico, na tropa, é ser o último na escala de valores da hierarquia. É ser picaresco e ter direito a ser confrontado com a hilaridade de todos, mesmo os que, não sendo básicos, padecem da mesma insuficiência de raciocínio face às exigências técnicas e tácticas da missão em que estavam inseridos.
Tinha a função de ajudante de padeiro. Ser padeiro alterava por completo o seu estatuto. Ele sabia que o posto de básico era como ser pastor, jornaleiro no amanho da terra, aguadeiro entre os ranchos de ceifeiras ou cavadores de enxada.
O primeiro-sargento cooptara Manuel António para a secretaria, tinha imenso trabalho e o poeta sabia escrever à máquina, sabia digerir um ofício, responder às inquirições, fazer contas.
Manuel António, passo firme, cabeça levantada, o cigarro entre os dedos, contemplava a figura do básico e pensava que ele era o valor mais alto e genuíno de entre toda a companhia. Admirava nele o orgulho de ser padeiro, de querer ter estatuto diferenciado, a revolta com que se indignava por lhe chamarem ironicamente básico.
_Eu báseco, pá!!! Eu sou padeiro!
E agora, aquela noticia inesperada, o primeiro-sargento, os ares efeminados, bamboleando o corpo, as mãos pelo cabelo, como Nero, o Imperador louco, a convidá-lo para a secretaria.
Tinha ficado radiante que o capitão tivesse autorizado sob a indicação aquiescente do alferes. Para Manuel António, que sentia a estima de oficiais e sargentos, todos milicianos, contrários à guerra como ele, e sub-repticiamente desobedientes, ficar na secretaria era um luxo que queria usufruir humildemente para não acicatar invejas. Poder escrever à máquina, artigos e outras histórias que se aglomeravam por sair de si e a que os dedos, a caneta, não acompanhavam a velocidade das ideias fluentes.
Estranhamente ele que colaborava num jornal hostil ao regime, que se auto intitulava de comunista, defendia ideias consideradas subversivas, lia livros proibidos e estava marcado pela polícia política como possível activista a ter em conta.
Podia perfeitamente ser comparado ao básico porque ambos eram incompatíveis com a guerra e ambos foram colocados em áreas diferentes das que receberam formação.
A sombra do mangueiro no centro da parada, mosquitos irrequietos poisavam sobre o suor do pescoço e um sorriso abstracto de criança que os olhava indiferente.
_E tu Francês?
_Eu o quê?!
_Porque vieste, se estavas em França, terra livre, coutada de tantos que desertaram.
O Francês era de Vila Verde, um rosto simples, pacato, de homem bom. Tinha um sorriso que parecia pedir desculpa por tudo, por estar ali, por ter vindo, por não se ter deixado ficar.
_Vim porque tenho umas leiras de família e disseram-me que perdia tudo. Porque tive medo que me fossem buscar à força. Sou casado e tenho um filho que já mal me lembro.
Há um aquartelamento que é bombardeado todos os dias, um pouco longe e tão perto, ouvem-se as saídas de morteiro e o deflagrar das granadas, como uma cantilena rumorejante.
A figura frágil e sedutora de Alexandra interpôs-se de repente, como um mito que se entranha. Alexandra é um amor estranho e impossível de definir porque não sendo possessivo nem obsessivo é tão intrínseco que lhe dói estar ausente dela, do seu cheiro de quando acariciava o sexo e sentia a humidade de fluidos contagiantes, o perfume do interior da boca, de dentro dela, quando a beijava, se chupavam as línguas, o fogo dos corpos que estremeciam de sensações rítmicas. As mãos dela no seu sexo, os lábios que o beijavam, o nariz em carícias ao redor da glande.
Suspirou, nem dera pela pergunta do Francês que permanecia no ar.
_E tu Manuel António, porque vieste?
Há quanto tempo? a pergunta, ou que estamos aqui. Faz meses, anos...Quanto falta?...
Riu-se, os olhos nos olhos mansos do outro que sorria do mesmo modo aberto com que se punha a caminho da missão, carregado de granadas de morteiro. Recusando ser carne para canhão, mas indo...
_Por amor, amigo, simplesmente por amor

03/05/2009

MÃE MULHER GUERREIRA

que linda aquela criança
que riso cristalino tem
que sorriso encanto confiança
que segurança pela mão da mãe
mãe mulher plena amante
mãe esforçada de amor amada
mãe rebelada por não ser bastante
mãe não por todos considerada
mulher de enfeites ornamentada
mulher sentida por tanto desdém
mulher feitiço magia aromada
mulher maior suprema de mãe
guerreira ferida da maldade humana
guerreira sem medo que filhos sustém
guerreira aguerrida vaidosa se abana
guerreira da vida que é vida de mãe
autor: J.R.G.

30/04/2009

AS CRISES, O DESEMPREGO, O CAOS GLOBAL

As crises modernas que se vêm tornando cíclicas e cada vez mais afrontosas da condição humana, tocou o fundo do problema, a financeira.

Desta vez é a sério porque toca no dinheiro, não já na matéria prima que se encontra prestes a esgotar-se, tal a devassa que a procura do lucro crescente e sem fim levou a ganância do homem.

O sistema financeiro é um logro que assenta no crédito sugerido, alimentado pela dinâmica do conforto possível para todos, segundo os parâmetros das modas inventadas a cada trimestre. Acumula-se os excedentes sem préstimo, nem compradores, as empresas vivem da ficção das bolsas, reorganizam-se segundo critérios de optimização que obrigam ao despedimento colectivo de de cada vez maior número de trabalhadores. A máquina, a tecnologia, impõe-se como suficiente face à imobilidade do homem, ofuscado pelas facilidades com que acede ao crédito e pelo deslumbramento ante o desempenho prodigioso das novas máquinas inventadas para o substituir.

Florescem as sociedades financeiras de prestação de crédito que atraem a aderência de um crescente número de pessoas, endividadas, absolutamente falidas, que confiaram no ganhar tempo, na progressão de rendimentos e se vêem de súbito mergulhados numa das maiores crises, a financeira, sem solução credível à vista, que assola a humanidade.

Estas sociedades financeiras, imunes à crise, porque rapasses, agiotas protegidos pela lei, com juros absolutamente surreais, posso dizer que numa divida de 1474,02 euros e de uma prestação de 55 euros, apenas 14,o8 é abatido ao capital em dívida, daí resultando que num ano é abatida à divida a importância de 168.96 euros e que para completa liquidação serão precisos dez anos mais...Estão na crista da onda do sucesso empresarial.

Insolúveis, as empresas fecham portas e lançam pessoas no desemprego, outras aproveitam-se dos efeitos colaterais da crise e reduzem empregos. Dia após dia, engrossam por todo o mundo os sem emprego, as dividas por saldar, habitação, carro, créditos pessoais, cartões de crédito, empréstimos particulares.

Os governos estão manietados sem meios que os habilitem a resolver o problema. Limitam-se a apoiar a economia, os mesmos poderes financeiros que chantageiam com o agudizar da crise, que os desafiam a idealizar soluções de entre os sábios, acodem como podem ao desespero dos desempregados, emitem mensagens de optimismo.

Penso que podemos estar perante, ou no limiar, de acontecimentos imprevisíveis de caos, de saque dos com fome de direitos, sobre estas máfias legalmente organizadas, consideradas impunes, por mais atropelos que tenham cometido sobre a humanidade e o Planeta. O fim do dinheiro, como fonte de alimentação, agora que Deus e o Diabo são uma miragem recôndita na memória do homem, ou o advento da nova ordem que tenha o homem como fim e indissociável da preservação do Planeta,na sua globalidade.

A ver vamos...

18/04/2009

QUEM QUER CASAR COM A PRINCESINHA...

certa vez uma princesa
cansada de desamor
fez-se ao mundo publicitada
em imagem multicolor

quem quer casar com a princesinha
que é bonita e formosinha
e tem amor na gavetinha?

quero eu! Disse o macaco
saltando de galho em galho
solta a tua fala um naco
quero ver se em ti me valho

lançado o grito estridente
do símio escandalizado
a princesa inconsistente
ah não quero és muito alarvado

quem quer casar com a princesinha
que é bonita e formosinha
e tem memórias na gavetinha?

quero eu! Disse o mocho sabichão
Fala para que eu aquilate
Se és macho e tens tesão
Se não faço um disparate…

ao ouvir tal estrugido penetrante
a princesa ironiza cerra os lábios
sem o sorriso é uma careta irritante
que diz ah não quero ser dos sábios

quem quer casar com a princesinha
que é bonita e formosinha
e é fiel à gavetinha?

quero eu disse zurrando o burro
sou silêncio só falo durante o cio
prometo que não te empurro
sou forte e meigo quando te arrelio

seduzida pela voz grave e doce
ou pela robustez do duro falo
a princesa do burro enamorou-se
casaram amantes até ao cantar do galo

quem quer casar com a princesinha
que é bonita e formosinha
viajada tem lugares na gavetinha?...

quem quer? quem quer?
experimentar da princesinha
o desfolhar do malmequer

12/04/2009

TEMPESTADE DE AMOR!...

Estamos no cimo da falésia entre pinheiros e urzes, camarinheiras e insectos errantes que voltejam sobre nós, desde sempre, eles, o sol que cintila ao longe nas águas álgidas agitadas pelo vento que sopra forte de Sudoeste, que é de onde vem sempre a tempestade.
Um homem e uma mulher, como desde o principio, ou de como nos quiseram fazer crer que foi o principio e que tendo sido como o afirmaram, então toda a condenação do presente foi embutida na génese, pais copularam com as filhas, irmãos com irmãs, avós com netos..., como todos os outros animais...
Os teus olhos estão fixos nas aves que adejam sobre nós, que chilreiam comunicações mimosas, que se batem por um grão de poeira, de sementes trazidas pelo vento e se amam, visivelmente, se amam, a valsa do voo, o encanto, a melodia, a felicidade com que se agitam em volta de nós, dos nossos pensamentos.
Digo-te que o homem está cada vez mais isolado do conjunto. Destruiu uma parte substancial do Planeta e dos seus habitantes selvagens, porque não se deixaram amordaçar ás leis inventadas para amansar o homem. A floresta tem a sua própria lei para crescer e ser a casa de todos, o paraíso dos errantes.
Tu falas-me do mar, de como foi possível, sendo o mar tão vasto, num tão curto espaço de tempo, esgotar recursos pela apanha incontrolada e pelo lixo, desde a ponta de um cigarro ao atómico....destruir habitats, semear tempestades agrestes.
A tua mão e a minha acariciam o chão de barro da falésia, levantam crostas, conchas de moluscos antigos, cavalos marinhos, se cavássemos fundo talvez encontrássemos algum tesouro milenar, é assim o homem na sua ânsia de riqueza, destruir.
Vê o que fazem com a extracção do petróleo, vão cada vez mais longe na via que leva ao centro da terra e as minas!!!!...Na medida exacta em que falham, se esgotam os recursos, inventam ouras formas, antinatura, de gerar mais riqueza, criam regras, leis virtuais que não esperam cumprir. Inventam crises e soluções.
Já viste, disseste, pairam sobre nós, como duendes, zombies, manequins desajeitados, estulta magia, nuvens densas carregadas de amor. De Sudoeste só pode ser tempestade, digo para os teus olhos que me brilham para dentro de mim.
Olhando os céus, tu, o teu sorriso, harmoniosa. Penso, porque te amo tanto? Que força é esta que nos atrai, me suga toda a atenção, todo o meu sentir, me faz querer estar juntinho a ti, aspirar-te no todo, tão feminina, a saia subida deixando ver as pernas belas, os joelhos...
Adoro os teus joelhos, perfeitos , tudo de ti.
Tempestade, tomara que seja de amor, que varra o desespero, o ódio, a indiferença perante a insídia destruidora, que inunde mansamente os focos de pensamentos gelatinosos que resvalam de mentes gratinadas pela ganância dum poder efémero. E eram belos os teus lábios ao moverem-se sem azedume, suave e quente a tua voz, pujante de afirmação nas incertezas
Eu beijo os teus lábios púrpura, húmidos porque te provas, a língua em volta, sorvendo-te dos teus aromas e sabores. O vento ruge na ramaria, verga troncos, quebra ramos infelizes, fracos, a terra ganha cheiros de outros tempos, o mar enegrecido de repente, belo ainda assim, a crescer em empatia com o vento, cristas brancas formam ondas e caem pingos de amor sobre nós escondidos um no outro.

28/03/2009

ERA UMA VEZ...UMA PRINCESA!...(parte 2)

foi deprimente assistir ao que se seguiu
a princesa isolou-se numa ilha abandonada
o príncipe confuso entrou em desvario
lançou recados cioso à bela desapaixonada

ultrapassou limites conveniências foi insolente
chegou a questionar da princesa o prometido dote
ser enxotado sem apelo tratado de insolvente
atingiu na sua mente o que restava de fino porte

sentia o cheiro intenso da vulva ardente como vulcão
de quando ela arreliada se colava desnuda inebriante
os corpos suados ondulantes imbuídos de paixão
o falo teso inchado de sangue do desejo da amante

de como se transmitiam sublimes os orgasmos
numa mistura de gemidos e movimentos da alma impudica
sentia ainda nas entranhas da mente os espasmos
que do sexo dela o apertavam de uma forma cíclica

após um silêncio longo envolto em mistérios de jardins
a princesa voltou à urbe onde o príncipe plebeu fenecia
mudou o visual, do amor que torna o rosto belo e afins,
nada restava e veio aguerrida e nostálgica o que enfurecia

o príncipe abriu os olhos para ver aquela imagem surreal
e viu que ela amava dela o menos belo e perdia a sagacidade
que se esgrimia em falsas questões cientificas que era banal
quis intervir mas era tarde toda ela era memória da felicidade

seguia-lhe os passos devaneantes pelos recantos do jardim
ouvia-lhe o sussurro da voz agreste onde antes era melodia
aspirava o perfume de princesa agora fragrâncias de jasmim
o cheiro do cio autêntico ausente em toda ela se desvanecia

de súbito uma manhã cinzenta em que soprava o vento norte
no jardim ante o palácio nu e frio de onde a vida activa evaporara
viu o letreiro berrante que dizia: vende-se! estou a monte da morte.
partiu à desfilada no peito a ansiedade por saber de quem se enamorara

chegou de noite morto de fome e sono o corpo amordaçado
as luzes faiscavam das janelas coloridas por entre reposteiros
havia lua de luz doce prateada sobre o mar dela manso enamorado
o rosto da princesa nos umbrais memórias ocultas nos outeiros

olharam-se por um momento incrédulos profundos abissais
uma chuva impiedosa repentina transbordou a água da levada
raios trovejantes de seguida cruzavam a noite tétrica ancestrais
a princesa o rosto a decadência o príncipe morreu na madrugada

ERA UMA VEZ... UMA PRINCESA!:::

a história que hoje vos vou contar
tem pajens, tem principe e princesa
e fala de um amor estranho de encantar
vivido no silêncio que envolve a realeza

ele, o principe, plebeu, tão velho que dobrava
da infanta princesa a idade da inocência
e ela em tê-lo como amante se ateimava
valendo-se da sua real magnificência

os pajens aplaudiam ainda incrédulos
ao desenrolar do fogoso enlace adivinhado
metiam dicas entre brocados e pêndulos
sorriam do plebeu crente de ser o desejado

reinventaram a epistolografia noite profunda
beijos abraços coitos induzidos fragrâncias
a princesa extraía do príncipe que a inunda
o sabor das palavras soltas arrogâncias

não tinham a visão adúltera dum projecto
apenas iam deixando acontecer inebriados
ela na astrologia convicta dum fim concreto
ele na distância a que estavam confinados

amantes de e nas palavras que cada um sentia
fervilhantes de sabores e aromas etéreos divinais
deram-se a conhecer em absolutos de maresia
felizes os sorrisos e piropos que trocavam matinais

Ela era linda, bela de olhos castanhos profundos
o cabelo solto riso aberto em franca sintonia
ele encanecido ousado senhor de outros mundos
crente no amor que do cosmos neles se reflectia

o mundo em volta parava ante esta incómoda parceria
congeminava no silêncio a forma de fazer cessar o mito
que permitia a uma princesa afogar em amor a agonia
de ser instável diabólica e ter em mente apenas um só fito

o cosmos e os genes estabeleceram enfim uma aliança
encerraram a princesa num faustoso e firme quadrado
de cima cessariam os raios insignes da destemperança
que espalhavam fluídos de aromas sobre o bem amado

tremeram os sentimentos amantes nobres estanques
surgiram efeitos gravosos que alimentaram o ciúme
a princesa armou uma cilada palavras feridas irritantes
o plebeu saiu de cena vencido abrupto sem um queixume

autor:jrg

28/02/2009

DEVANEIOS SOBRE O AMOR E O SEXO...

Era uma festa, a discoteca animada, a cerveja , as luzes cintilantes, os corpos agitados na toada da musica que induzia à dança. Não eras bonita, mas tinhas da sabedoria o belo e trazias um amiga, de olhar dócil, aspecto feminino, olhos febris.
No calor das conversas as tuas mãos tocavam as minhas mãos, electrizantes, como era possível? Choques eléctricos que me petrificavam e eu olhava-te e olhava-a a ela. Serias dúbia, bipartida no cromossoma que define o género, 50 por 50, ou eram efeitos do álcool, das luzes, dos corpos em crescendo de energia, ou das batidas desconcertantes da música?
Tu de calças e ela de saia, deixando a descoberto uns joelhos bem torneados, sensual ela a convidar-me provocante, provocando-te e foi quando de súbito pensaste que seria talvez giro uma orgia , um bacanal a três, em que envoltos na doce volúpia dos sexos, ébrios de prazeres nos deixávamos conduzir na corda bamba da razão.
_Oh, não!!!...
Disseste, quando eu disse que era amante de ligações sólidas, que não alinhava em divagações sexuais libidinosas.

#######

Estavam sentados em mesas pouco distantes, ela de perna traçada, as coxas em evidência, o pé subindo e descendo ao ritmo da música ensurdecedora, o corpo deambulando em oblíquos meneios, um sorriso malicioso nos lábios carnudos, os olhos esfusiantes , luz intensa de encantamento, cabelos negros, vestida de ramagens primaveris, a pele morena e as mãos de uma finura extasiante, tamborilando sobre o tampo da mesa em movimentos subtis.
Ele, de olhar tímido, olhando de soslaio, quando pensava que ela distraída não daria pelo seu envolvimento na dança caliente dos seu olhos. Não era homem de se deixar seduzir facilmente por uma mulher, e no entanto, das raras vezes em que foi apanhado na linha de cruzamento da visão de ambos, ficou preso, sentiu um fulgor excitante, misterioso e mágico e teve dificuldade em desviar -se do íman inflexível.
Foi ela quem se levantou e veio a ele sedutora no andar simples e com um gesto o levou a dançar. Olharam-se e sorriram, quente aquele corpo, a dureza das mamas, seriam naturais? E o perfume, talvez Channel!... Como seria o cheiro do seu sexo, ao natural? Neste momento seria talvez uma mistura de suores e fluidos do cio, com resquícios de urina...Uma mistura escaldante, animalesca.
Que fogo, o sexo dele em batidas no V concavo do dela sobre o vestido, as mãos nas ancas ondulantes, em rodopios na pista, o ar sufocante, os seios, a cor das faces rosadas os olhos hilariantes de prazeres, uma leve camada de suor sobre a testa e saem de rompante para o ar fresco da noite, possessos de vontade, os olhos inquietos na procura de um lugar, as mãos dadas, ela na frente, quase correndo, e ele afogueado em pensamentos algozes da razão. Um vão de escada, ela tira as cuecas e ele baixa as calças, ela levanta uma das pernas e agarra com sofreguidão o sexo dele em chamas e enfia no seu sexo ardente, qual vulcão derretendo lava incandescente, abraços e beijos de grande exaltação, arfar de peitos, movimentos bruscos de vai e vem, as mãos que apertam os corpos que se penetram, pequenos ais, olhos húmidos da emoção do momento e um ai final, mais prolongado de orgasmos, de libertação de energias acumuladas no stress da semana.
Um doce olhar de despedida, ela no seu, ele no dele, os carros arrancam em sentidos opostos...

#######

Eu digo:
_Amo-te!...
E tu:
_Também de amo...muito!...
Os nossos braços apertam os nossos corpos, e o mar chia baixinho e docemente no marulhar das ondas mansas no imenso deserto que é a praia de areias finas, branqueadas.
Tens os cabelos escuros de castanho e os olhos de um verde avelã adocicados. A nossa pele morena ,genética ancestral de sóis e maresias, um corpo em harmonia com a beleza da alma que se pavoneia em volta e um sabor a frutos maduros sobressai nos beijos que me dão os teus lábios, a tua língua frenética na agitação de me ter.
Ser de ti e sentir o que é seres de mim, apaixonados na mítica esperança de não mais acabar este enleio de fios resistentes, de sentimentos viscerais consistentes.
Passeamos de mãos dadas, saltas pequenos obstáculos que o mar deixou na maré cheia e é como se um mar fossemos, imenso e profundo, ondas rebeldes correndo ao sabor do vento em alegre correria.
_Vamos amar-nos sobre a areia? Beijar o teu sexo, tudo de ti que eu amo, os teus perfumes, deixar que a noite venha e nos tape com seu manto escuro? Inebriar-nos da transparência do ar de maresia, exaltar de pureza o amor que somos numa simbiose quase perfeita? _Digo. E tu, olhas-me sorridente e incrédula.
_E se vem alguém e no surpreende? Sabes que me inibo na nudez exposta ainda que com sentido da ousadia libertina de ser livre.
Digo que aceito o teu senso e sentamo-nos um pouco, tu de pernas dobradas e entreabertas, deixando ver a cueca preta sedutora e eu deitado a teus pés, passando as mãos pelas tuas pernas em carícias dolentes de desejos, vou indo até ás coxas, passo os dedos na abertura vulvica e entreabro a cueca para mexer nos pelos macios em volta.
O cheiro que me penetra é exaltante, possui-me em absoluto, Tu apertas as coxas, prendendo-me a mão, os dedos que te percorrem, que sentem e me transmitem sensações espasmódicas, fluidos vertidos em profusão.
Deitas-te no sentido inverso, as pernas arqueadas em V a permitirem a incursão dos meus dedos, o poisar da minha cabeça sobre o teu ventre, a aspirar-te, a verter-te e beijo os lábios do teu sexo, doce loucura.
Tu descobres de mim o membro palpitante, acaricias a glande rosada, beija-lo com ternura e dás um ai quando sentes que está húmido.
Moves-te e sentas-te tu sobre o meu ventre, o teu sexo sobre o meu sexo e baixas-te a mim para me beijar deleitosa, ardente. Afasto a tua cueca e deixo que ele, amachucado te penetre e se liberte e és tu quem comanda os movimentos, as minhas mãos sobre os teus seios, os teus olhos revirados, não posso ver os meus, mas sinto como que uma névoa que me cobre e é só de dentro que me vem a imagem de sons, aromas e sentires que me alucinam.
_Se for menino, será Pedro, como o pai..._dizes com um sorriso carinhoso.
_Se for menina será Cristina, como a mãe_ e beijo-te os lábios entreabertos de menina.


autor:J.R.G.

08/02/2009

PARABÉNS AMOR!...e vão 39

P A R A B É N S AMOR!...e vão 39
O vestido branco arrastando pelo chão, encobrindo as tuas pernas maravilhosas, sufocando os aromas do teu corpo, a grinalda de flores brancas sobre os teus cabelos negros, os teus olhos verdes, raiados de verdes intermédios, de tom escuro. mágicos , onde aprendi a ler de ti, da alma esfuziante de encantos. A luz dos teus olhos, aprendi que era amor, altivos e submissos, não a mim, de mim, mas a algo que aceitamos como o sendo do nosso ser.
O sorriso de felicidade, as gargalhadas, a ternura com que me beijavas a cada instante, por cada motivo, por mais banal. O pote do arroz que despejaram à nossa passagem triunfal, como se carecêssemos da tradição para nos consubstanciarmos de e em amor eterno.
A cerimónia do sim ante as testemunhas, o ar incrédulo de alguns que não acreditavam na possibilidade de sermos amantes, ou talvez aguardassem um desfecho trágico à sublimidade de nos amarmos para além do racionalmente aceite.
Hoje olhei-te e vi o mesmo brilho. Penso que o vi em todos os anos a sete, e sinto a mesma ansiedade, o bater forte do coração, como se fosse hoje o dia sempre em absoluto.
Só eu vejo a tua pele luzidia, só eu vislumbro o brilho dos teus olhos, só eu capto o encanto do teu sorriso, só eu te sinto airosa, o andar igual , a voz doce e quente que me chamava amor, que me chama amor. Só eu sinto que os anos não passaram, que és a minha eleita, o meu mimo de ternura, na doença e na alegria, nas tempestades agrestes que nos assolaram. Onde outros fraquejaram por tão pouco, nós erigimos uma fortaleza de amor.
És um exemplo de mulher no comando. Trabalhaste, foste e és mãe, avó, amante fulgurosa, a financeira que resolveu as crises, a mãe que desceu ao fundo e esgatanhou a besta. Eu fui o sonho, o sonhador que interpretou a vida como um romance em que os personagens se agitavam nas águas revoltas e lamacentas e se erigiam em ondas de espuma para continuarem a ganhar tempo ao tempo. O tempo decidiria, decidiu?
Olho-te hoje e vejo a mesma menina de há quase quarenta anos. Minha paixão de amor, minha eternidade. Habituei-me aos novos aromas, à rebeldia da tua intransigência, beijo-te nos lábios e chamo-te amor. Há quantos anos és o meu amor?
Hoje vamos ser de novo como dantes, renovaremos o cenário, ou reinventá-lo-emos, haverá música suave ao jantar, talvez velas, flores, trocaremos sorrisos e olhares indiscretos, daremos as mãos, terás momentos de ser mais coquete, talvez tomemos um duche juntos e deixar-nos-emos enredar na teia que vimos construindo, até à eternidade da tua infinitude de mulher.
Amo-te

01/01/2009

A PRIMEIRA VEZ, o SOM!...

Recordo a minha imagem de menino, o corpo nu e o olhar triste sobre a areia negra da rua junto à casa. Em redor, o juncal de águas estagnadas, onde os girinos candidatos a rãs e salamandras se movimentavam apressados.
Galinhas cacarejavam por entre os patos deliciados com as poças de água que se formavam onde a areia enrijara, batida pelos pés de anos e anos, desde que se formara o bairro de pedra e cal, a substituir as barracas andrajosas, albergues de famílias numerosas.
Era Dezembro frio e nevava na Serra, longe, talvez na Guarda, Bragança...quando eu nasci, ia o sol a meio e berrei alto que me deixassem crescer, que haveria de ser grande e homem.
Dizem que deu trabalho arrancar-me do ventre de minha mãe. Terá sido por isso que a nossa relação foi sempre distante? Talvez ela quisesse uma menina, ou nada.
Cresci triste e timido, temeroso de tudo o que gerasse violência e dos mistérios da noite.
Tenho o sentido de ter amado minha mãe e queixo-me de me ter sentido mal amado. o meu pai era de poucos afectos. Trabalhava dia e parte da noite para ter melhor vida, ou termos nós.
Quando dei por mim tinha crescido, alinhei nos namoricos de rapaz, joguei à pancada, apanhei raposas na escola e aprendi a fumar como os homens, rapei os pelos das pernas e do púbis para que crescecem depressa e de raposa em raposa, veio o trabalho árduo.
Cresci timido, triste e mau amante do meu corpo, encovado no torax pela tosse da bronquite asmática ,curada a papas de linhaça.
Dezembro é o mês da estrela redentora, logo, o meu curso de vida devia mudar a todo o instante, porque eu tinha sonhos, eu adormecia agarrado aos meu sonhos, ser homem, ser pessoa, ser um dos guardiães do mundo. Defender todos os fracos dos poderosos sem lei, para quem a lei fora feita, logo a lei de Deus. "Não desobedecerás ao teu senhor".
Voltar à escola, reaprender, ler desde o começo de onde se deve começar a ler. o romance, o documento, a filosofia, o pensamento humanista, a história. sobretudo a história que nos permite redimensionar o presente. A repetição dos acontecimentos é uma evidência, não igual, o mesmo item ou quadro de apresentação, mas os pressupostos, as incidências, as razões e as causas, a perfidia insinuosa das teias qe se tecem e envolvem os protagonistas, as causas e os efeitos, cada vez mais devastadores.
Amar. Descobrir que amar era possivel, à medida que o amor por mim, pelo meu corpo, pelo meu pénis quando me masturbava, pelo meu cheiro, de mim, crescia e se fortificava em confiança, em poder...Amei profundamente de mim e para além de mim. Sentir que alguém que não eu, me amava o corpo, me amava as palavras soltas pela alma, que acreditava ser possivel viver comigo um projecto consubstanciado no tempo. E era um outro corpo além de mim, uma outra alma, a alinhar-se a ser, a fundir-se como um só sendo dois, assumindo-se como um só sendo dois, até ao fim...
Estou sentado sob a palmeira junto ao rio e retenho a memória que me escorre lentamente, ás vezes rápida demais, atafulhando-me de palavras sobrepostas que se perfilam por fim, dipostas ordenadamente.
E veio a guerra, o medo dos medos, tensão e o reafirmar dos valores que eram já uma fortaleza do ser. Preservar a existência, os rosto de um povo simples, completamente simples, os olhos negros na pele negra, as crianças, a magia do seu olhar interrogativo, as barrigas opadas, o sorriso inocente e crédulo e amar, amar sempre como um fim únio de chegar a um infinito, amar acima de tudo o que vou sendo, o que estou sendo e ir ganhando aos poucos o tempo, de dentro do próprio tempo, uma infima nesga de espaço. Não ter achado o homem qu procuro, será que existe? , mas trazer um novo elan por ter vivido a busca intensamente, sentido a metáfora do homem novo, absoluto, total.
Viver a mais bela história de amor. Saciar-se de sexo e fantasias libidinosas, realizar a utopia, os filhos, o sucesso pessoal.
A derrocada...
Ter vencido tantas coisas e derrotas pesadas, julgadas demasiado pesadas, querer dar um fim a tudo, apagar tudo sem recomeço, apagar simplesmente e definitivamente., para qe não conste
Definhar até ao limite do fim e ressurgir desse nada quase absoluto, de onde ninguém pensa ser possivel voltar. Soerguer-se, olhar o horizonte carregado de nuvens e descobrir o sol. Fazer-se valer...ganhar a luz e arrancar de si, do fundo onde repousa a dor, o saber, o ser de novo que é ainda sendo, porque não deixei de ir sendo, não se é, vai-se sendo.
Reformular aceitando a evidência do que já aconteceu e continuar a amar, a amar-se. Voltar a sentir esse dom maravilhoso do amor. As palavras enxertadas de amor, como se foram novas, vicejantes e a fazerem-se acreditar. Amar de novo, ainda. Sentir o desassossego da alma, a ferroada do abandono e deixar-se amar de novo e amar de novo, a fazer-se ao tempo, como se fosse do tempo que corre.
Deixo entrelinhas por preencher. Faz frio sob a palmeira junto ao rio, agora que o sol se escondeu para lá do horizonte do mar.
Sou amigo, amante, amigante, também de mim homem...
É Dezembro e faz anos que gritei...pela primeira vez.

J.R.G.

14/12/2008

NOITE DE NATAL

a uma menina que sonha

Amanhecera claro, o dia, com o sol a tremelicar por entre nuvens que se esfumavam ao sabor da brisa que soprava de Nordeste, por detrás da montanha coberta de uma camada fina de neve.
O sincelo que cobria as árvores, dando-lhes um aspecto maravilhoso de bondade Natalicia, era como cristais de vidro resplandecente aos raios que do sol se expandiam alegremente.
Era um dia de paz, uma trégua instituída desde há séculos, assumida pelas mentalidades, desde a mais violenta, de modo a que um pouco de amor, de concórdia, de cinismo, tudo de mistura, se evidenciasse da amálgama de interesses, se evidenciase da materialidade onde o ódio e a impostura de principios reinavam na arrelia dos dias.
Maria Antónia tinha esperado este dia como o culminar de uma acção que preparava há anos, que se construía dentro dela, que sobressaía das atitudes. Ter atitude. Arrumar as ideias fervilhantes e confusas que a atormentavam, que a impediam de ver além do quadro negro que pintara nos últimos dias.
O namorado delsiludira-a. Dissera-lhe até que se tratava de um capricho, o facto de ela querer que ele deixasse de passar a consoada de Natal com os pais. Ela pensava que era possivel passarem os dois de uma forma diferente essa noite mitica. Sonhava com uma ceia a dois, enamorados, num restaurante de prestigio que a fizesse sonhar que já tinha ultrapassado, todos os obstáculos que sentia , a Universidade, o seu projecto profissional, ser mãe, sentir -se amada em toda a infinitude do seu ser mulher, e era ainda uma jovem que acabara de fazer dezoito anos...mas sonhava e, de tão mimada, tomara o hábito de satisfazer todas as suas aspirações.
O sonho acabaria num dos quartos da casa que ele tinha vazia do outro lado do rio, casa de férias da família, onde fizeram amor pela primeira vez.. Vazia de gente, e tão confortável que apetecia habitá-la, fazer dela a sua casa dos sonhos onde se encontrariam sempre que o desejo surgisse do interior do corpo e suplicasse à alma.
Deixara-a na dúvida se o faria. E era o que mais a perturbava, não ter certeza, certezas de nada, no momento em que pensava sobre si, dúvidas, dúvidas. Estaria certa na carreira que escolhera? Sentia falta de algo de mais substancial, de uma confiança extra, de fora de si, dissipadora das contradições que lhe afloravam a mente, a comprimiam , sufocavam.
Sentia a cabeça oca, como se tudo o que a compunha, o cerne de todas as decisões, tivesse desaparecido e a deixasse desamparada, indecisa, sem a vitalidade que a tonara respeitada entre colegas, amigas e mestres.
Maria Antónia tinha uma simpatia especial pelo seu mestre de comunicação escrita. Era um homem maduro que ela admirava e sentia até uma atracção subtil pelos seus cabelos louros , o seu ar de quem não receia nada, sereno, risonho e de palavras suaves e quentes que, quando o ouvia o seu pensar parava e o coração batia apressado. Mas era uma emoção diferente que não sabia explicar, diferente do que sentia com Pedro, o formigueiro no sexo, o desejo intenso...
Prguntara-lhes como iam passar o Natal, as famílias e dissera dele próprio que era com indiferença que olhava a quadra desde que, há anos, um acidente o deixara sem os bens mais preciosos, a mulher e a filha pequenina... Que sempre olhara o Natal como uma quadra propícia ao desenvolvimento do comércio, hipócrita e inibidora dos reais sentimentos que o homem mantinha encerrado no mais fundo de si. Um comércio dos sentimentos genuinos da criança ou da dádiva. Um dia instituido para dar, para a concórdia, para o perdão...
_O que vem ao de cima, o que se diz no momento, o que se faz, são apenas aflorações da razão,de algo que o incomoda, fruto, talvez, de incómodos que o atormentam pela sua trajectória individualista e material. _ E terminara com um feliz Natal pra todos.
Maria Antónia tinha essa afeição especial por Daniel, assim se chamava o mestre, que não sabia explicar muito bem e pensava nele, neste momento de si, em que revia os últimos acontecimentos com o seu namorado e se perguntava o que era na verdade ter amor, ser amada , amar. Se eram apenas palavras cujo significado se alterava na medida das conveniências, se amar não seria o mesmo para todas as pessoas.Se era apenas ter sexo, ou se consubstanciava em sexo, mais sexo, mais amor, infinitamente...ou se, por outro lado, era algo de transcendente, sentido pelos dois seres amantes, como que vindo misteriosamente do fundo da razão, un gene. Haveria um gene do amor, que se identificava com o o do outro, só perceptivel entre eles, genes, como se de um chip, uma transmissão cósmica de dentro do corpo ou da alma, inexplicável, intangível de fora de nós.
Sentia-se magoada com o Pedro Miguel, seu namorado. Sentira mesmo um gesto de enfado, ou de superioridade, como se a ideia dela fosse tão infantil que não merecia outro tratamento que não a rejeição pura e simples.
Maria Antónia estava nestas deambulações da mente, bela no seu cabelo loiro escuro, os olhos castanhos claros, a pele clara, fina, o seu corpo estava tenso, os lábios moviam-se inquietos. As mãos em gestos desapontados, como se falasse com alguém
Tê-la-ia deixado de amar? ele que a tivera em tantos momentos de deliciosas aventuras pelo corpo, os sexos, as experimentações, a aventura do desejo, a procura da satisfação total, incessante, porque havia sempre algo que ficara.
Tinha muitos amigos e amigas, que a adoravam, as sua prédicas bem falantes, o seu sentido de humanidade ante as injustiças, o seu vestir elegante, o perfume, os adornos de peças únicas da ourivesaria Portuguesa.
_Olá!..por aqui?!...
Daniel viera comprar alguns ingredientes para a sua noite de natal. Era um homem de mediana estatura, elegante no porte e vestia com esmero, um fato de estilo clássico, moderno, azul escuro, a camisa azul claro, o sobretudo preto e o cachecol, o cabelo louro e os olhos num tom claro de azul celeste. Era um homem de aparência alegre, de quem se gostava à primeira vista, comunicativo, conhecedor dos temas que aflorava e tinha um sorriso encantador. Olhando-o atentamente, ver-se-ia uma ponta de tristeza nos seus olhos.
Há vinte anos que cumpria um ritual, comprava a ceia de Natal, dispunha os acepipes pela mesa posta com delicadeza, os três lugares, as fotos delas ante cada prato, viradas para ele, do outro lado da mesa, em frente da janela de vista alargada sobre o rio. Colocava a música preferida do seu amor e comia, lentamente, pela noite dentro e meditava na ausência silenciosa dos entes que perdera mas que se perfilavam ali na sua presença, eternos em si e de si, elas, as suas flores de infinitos aromas . Os presentes dispostos num dos cantos da sala e a árvore de Natal com as luzes cintilantes que a mais pequena adorava.
_Professor Daniel, mas que surpresa agradável!...
Levantou-se e beijaram-se nas faces, sorridentes, luminosos os olhos e os sorrisos, numa combinação perfeita.
_Então menina, são 21 horas e a ceia de família?
Ela perturbou-se um pouco e de repente soltou as palavras como Daniel ensinara, um mote interior, de dentro, que se solta e parte à desfilada como cavalo espavorido, contou a recusa de Pedro Miguel, de como pensara uma noite diferente, provocantemente diferente, porque afrontosa dos conceitos instituídos e de como ele a recusara, se recusara e ela resolvera mentir à sua família dizendo que vinha com ele, que era maior e queria ser ela a conduzir a sua vontade.
Daniel Olhou Maria Antónia com emoção, segurou nas mãos delicadas que ela mantinha sobre a mesa do café, em cima da mala de pele escura. Quentes e macias, as mãos, a pele suave, mãos de menina.
_Queres passar a ceia comigo?...não...é melhor não...ou por outra, se quiseres, vem.
Maria Antónia olhou para ele entre incrédula e sorridente.
_Professor Daniel, hesitante!... não o reconheço!
Soltou uma gargalhada juvenil, em crescendo de melodia que o contagiou , o levou ao riso, alegre. Há quanto tempo não se ria assim, deste modo estranho, comunicante, efusivo?...
Cearam à luz de velas em silêncio. Apenas os olhos se cruzavam por momentos, os dois lugres ocupados plas fotos de corpo inteiro e ela, Maria Antónia, num espaço entre as duas, luminosa, solta, ruborizada pelo champanhe. "Que faço aqui?...Que sou ou represento?, mais confusões na minha cabeça, não..."
_Fez-me bem que tivesses vindo. Ela teria hoje a tua idade. És linda, inteligente, o amor é um sentimento multipessoal, amamos a pessoa a coisa, como se fora algo de nós. Não há amor fora do nosso próprio sentir em nós. Queremos ser e ter, mas só sendo podemos aspirar ao ter. Eu digo ,ás vezes, que o ser anula o ter. O ser é já em si bastante. Ser amor, uma bola infinita de amor.
Fumavam os dois no limiar da porta de acesso à varanda, um extenso terraço com vista para o rio. A noite gélida antes parecia aquecer os corpos esquecidos sob o umbral. O céu estrelado e limpo de nuvens.
_Daniel, isto que eu sinto, que sentimos, também é amor? Que tipo de amor?...
Ele abraçou-a e uma das mãos afagou-lhe os cabelos longos, seda macia e aromados e os dedos dela sobre as costas de Daniel. Um abraço de amor, os beijos dele sobre os cabelos, as lágrimas que se evadiam dos olhos de ambos, não eram dor, nem alegria, era um amor de dentro uma outra e estranha forma de amor...
FELIZ NATAL!

29/11/2008

CARTAS A UMA MULHER AUSENTE...A REBELDINHA

A lua, hoje, surgiu por entre os prédios longe na cidade, imensa de tamanho e escarlate. Era como se uma bola de fogo flamejante tivesse surgido do nada e avançasse na direcção de onde eu estava e se apoderasse de mim, dos meus sentidos de mim, reduzindo-me a esperança de ser eu o centro da gravidade dos acontecimentos que ao redor do meu corpo, me envolviam de fora para dentro.
Durante meses, talvez anos, escrevi-lhe cartas de a fazer regressar à vida que avidamente procurava e constantemente se desalentava de encontrar, de reconhecer como a vida que queria viver. Cartas que mantenho na memória activa, como se acabasse de as escrever, e ás quais não obtinha qualquer resposta. Acreditava que ela as lia, que lhe eram indispensáveis, que lhe transmitiam a energia positiva para sorrir. Para vencer a inércia em que enclausurara a alma.
Tudo começou, de nós, quando ela me disse que estava desesperada. Acreditara num homem, num projecto de amor para construir uma família, dera-se na sua totalidade e até engravidara o que fora uma alegria imensa por se realizar, ou ver-se na possibilidade de se realizar como mãe. Cumprir-se como mulher plena. O fogo da paixão, a juvenilidade do corpo na sua formosura, a casa comprada entre os dois, a decoração, o respirar os cheiros, os dele e os dela, entrelaçados como as ondas do mar. O orgulho de si, da sua congeminação de si, de como se criara em imagem indestrutível, de firmeza e carácter forte.
Amava aquele homem como um pedaço de si própria. E ia ter um filho com ele, de uma parte dele, dum acto de amor sublime, como se lembrava!...
Toda a infância em perdas irreparáveis da sua estrutura emocional. E agora, como um sonho até há bem pouco inimaginável, este projecto de vida a dois, quase a três porque o sentia de dentro de si, um embrião em crescimento, a evidenciar-se como ser absoluto, um ser ela em um outro. A alegria luminosa que a acompanhava desde que ao acordar, ainda quentes os corpos, ele a beijava e faziam amor ao começo da manhã.
Um dia sentira uma dor de enlouquecer. Uma dor de fora do mundo, de dentro de si mas fora. Dum lado de fora que teimava em ser dentro da sua alma. Sentira.se mal, desmaiara, perdera a noção de lutar por si, de se suplantar como sempre acontecera em momentos de perda de algo que julgava importante.
Quando acordou, estranhamente desavinda da sua racionalidade. Onde estava, o que acontecera?, que fazia ali deitada entre quatro paredes e mais dois rostos que a olhavam,
rostos amarelecidos, surpresos dela ali, pesarosos dela. E a enfermeira que a olhava igualmente, um sorriso nos lábios mortiços, sem a vida que um sorriso intui, a tentar animá-la a ela que , deitada ,sentia frio, um frio estranho sobre o quente das cobertas da cama, Brancas.
-Perdi-o!...
E estavam secos, os olhos, porque se recusava a chorar sobre si, porque se fortalecera contra todos os elementos. Secos mas tristes. E estava só. O tipo com quem trocara juras de amor, a quem se entregara com a alma em chamas de paixão, porque acreditara em tudo o que ele lhe dissera. Sim, desertara, dissera-lhe palavras dolorosas, infames, que se iria embora se ela não conseguisse dar-lhe um filho. Que era uma vadia que andara a foder com uns e com outros e agora não aguentava um embrião no útero. Chamou-lhe bêbada, que talvez se tivesse drogado, prostituído.
Ela sabia que não, que tudo o que fizera fora em busca de um projecto de vida. Trabalhava 12 horas por dia para ser independente. Tinha sentimentos de amor, tinha paixão por pessoas e por ser mãe. E tinha a sua rebeldia, dava-se toda excepto na sua rebeldia, que era como que uma espécie de essência da sua totalidade.
O ser rebelde, nela, era não se deixar possuir, não se deixar ser objecto de ornamento, de posse, de ser de alguém que não ela própria. "A minha filha, a minha namorada, a minha mulher". Ela também não tinha nada de seu a não ser o que sentia que era e mesmo isso, a cada momento, mudava, já não era no momento seguinte.Tinha um nome, uma imagem, um sorriso, uma reputação de frívola nos amores.
-Sim, perdeste-o. Tinha uma deficiência grave.
-Não precisa dizer mais. Apenas saber que o perdi, o meu bebé. Talvez seja melhor que assim fosse...
Eu tinha-te escrito uma mensagem talvez de esperança, sem saber nada de ti, apenas as palavras, curtas as palavras, que me tinhas enviado.

"Não sei se sonhei com as tuas vitórias se adormeci sobre a tua alma e todas as emoções que tive ontem já de madrugada. Acordei com uma sensação de leveza e quando fui ao espelho olhar-me de fora de mim para dentro, senti o fogo desta emoção que é ter-te desperta, gritante dos teus valores que são imensos e cheios de virtudes.
Escrevo provavelmente disparates, mas fiquei eufórico de ti. Consegui ver a tua imagem na crista da onda. É uma imagem bela, não sei se gostas, os teus cabelos negros esvoaçando ao vento e tu gritando, saiam da frente que sou rebelde, sorriso lindo nos teus lábios de menina e já tão bela mulher, e já tão sofrida mulher, mas o sofrer trás maturidade, não amolece, antes vivifica o carácter indomável de viver e enfrentar tudo com a coragem de uma mulher Capricorniana.
Haverá uma mulher Capricorniana? Um lado feminino que cultiva igualmente a persistência, a vontade de ser melhor, a ambição de ser melhor.? Um ir ao fundo e voltar porque está no cimo o que se persegue e queremos alcançar a todo o custo?
Saúdo o teu dia, a tua semana, os segundos, os minutos, as horas. Saúdo o teu cheiro, o teu sorriso, o teu corpo, a tua alma, os teus passos firmes e decidios.Saúdo a tua voz doce e mordaz quando tiver que ser, a tua alegria de ti, porque só tu interessas meu amor de amiga.
Chorei contigo, choro contigo esta tua alegria de viver.. Eu vivenciei momentos similares não há muito tempo, uma dúzia de anos. E fui o mais alegre e querido dos personagens da vida que vivi.
Um bom dia para ti amiga, amor de amiga, na onda vou a teu lado, do lado de fora de ti, para que ninguém traiçoeiro te desvie do rumo, enquanto quiseres que vá."

Escrevo as palavras na esperança de te encontrar que elas te encontrem receptiva, te dêem a certeza que estás acompanhada e embora não receba noticias de ti, acredito que estás a resistir, não aos elementos exteriores que te magoaram, que te magoam, mas um resistir de ti a ti. Acredito na tua juventude, na sabedoria que consubstancia todo o teu viver. E vejo-te como um símbolo perfeito de uma imagem de mulher que faz parte da mudança, duma nova era ou ordem de coisas, de valores, que se desenha nos horizontes da humanidade. Há um mar de gente à tua espera, de olhos postos no que fazes para sair do labirinto que te armaram, e como o fazes...
E nada, do lado de lá de mim, onde tu estás, onde penso que te agitas, individualista, a congeminar hipóteses que se coadunem com os projectos, onde falta sempre um qualquer elemento indefinido, uma falta rebelde, que se rebela contra a tua própria rebeldia. Insisto.

"Sinto todo o turbilhão na tua vida e queria ser um pilar. Uma âncora. Uma mola potente que te catapultasse para níveis superiores do teu ser mulher.
Sinto que estou do lado de fora do teu tempo, ainda que pudesse ser um tempo ameno para a tua alma perturbada. É demasiado brutal tudo o que envolve a tua existência, embora eu pense que é sempre possível vencer a resistência que de dentro nos determina a solidão quando se impunha a união de esforços concertados e com o único interesse de te ajudar à libertação da alma, pela compreensão dos fenómenos que te comprimem e sufocam.
Quero dizer-te que não gosto da forma como encaras a solução de ti enquanto menina e enquanto mulher. Penso que não deves isolar-te. Perder não é sair vencida, perder é natural quando se joga e tu jogas uma parte de ti. Ainda que penses que jogaste tudo, não acredites, é algo de ti que faz Bluff, nunca jogamos tudo e ficamos cá para ver. Viveste um quarto de século de vida e há mais três quartos por viver, vamos a eles. Não como amantes do corpo, mas como amantes da alma, tu e eu, na distância do tempo
Façamos uma análise desapaixonada, como se lêssemos a contabilidade de uma loja de antiguidades. Descobrir o fio da meada que .que fez surgir em ti um ser mulher diferente das demais. Fazer evidenciar de ti todas as virtude, e são muitas. Amiga és uma menina muito virtuosa. É preciso reconstruir uma nova imagem da rebelde, construa-mo-la.
É preciso erradicar todos os conflitos que navegam no teu sangue e te povoam a alma e o corpo. erradique-mo-los.
Linda menina, amiga de mim. Não quero que percas o sorriso. Podes perder quase tudo, mas o sorriso não.
Estou aqui. Não posso partir ao teu encontro e no entanto parto, desta forma igualmente sã e onde podes responder aos teus anseios, desnudar-te dos teus mistérios. Vais ver que são tigres de papel e que tu és mais poderosa. Fazes parte da nova ordem, quero que faças...
Amiga, aceita a minha amizade. Sê rebelde."

A Lua cor de fogo está agora sobre mim. Posso ver o recorte das montanhas, ou dos vales ,saliências da evidente beleza intuída de um rosto belo de mulher. Lembro-me de antes de sabermos que eram montes, crateras, depressões e imaginávamos nela o rosto da nossa amada, ainda antes de sabermos, ou dizermos que a Lua é mentirosa porque não tinham sido inventadas as palavras.
Digo-te ainda que tu és uma solução do problema, como a água pura, o alimento das almas inquietas, uma parte da essência com que se constrói a paz e o amor.
Ficarei à espera, amiga, à tua espera, dum sinal teu, do infinito de onde te sei ou sinto que sei...

11/11/2008

SEI QUE NÃO SEI, MAS ATIRO PEDRAS...

Sei que não sei, mas atiro pedras cruzadas, sem rumo certo, nem alvo fixo, como quem pergunta, na salada de respostas que me interiorizam, se há um lado certo, ou se apenas um momento certo, uma conveniência de grupo, para determinar a justeza dos acontecimentos.
Hoje sei, saberei?..., que nenhum homem é suficientemente importante, ou capaz em si próprio, para se afirmar como a evidência de todos os outros, como a esperança, como o condutor das vontades de um universo maior que aquele que ele é na realidade, como o salvador ou o guia da desesperança, nem para ser aceite como tal.
A análise das leis do Universo Humano pode ser feita através de um único ser, mas ele,ou isso, não determina que ele seja mais superior que qualquer outro, enquanto individualidade. Porque será sempre uma análise subjectiva, de ele enquanto potência de si próprio e ou ao serviço de outros interesses, manipulado ou engajado ou principescamente pago para direccionar o seu discurso na direcção pretendida pela entidade ou grupo de entidades, que detém o poder real da matéria sobre o espirito.
Poderei dizer, igualmente, o mesmo pressuposto em relação aos que pretendem direccionar o rumo do espirito sobre a matéria, com mais probabilidades, até, de acertar, porque esses devem o seu sucesso comprovado, hoje decadente, à custa da afirmação dos outros, dos da matéria, na esperança de nos submeter pela espiritualidade.
Teremos de começar pelo homem e o circulo amplo da amizade,ou da empatia psíquica e ou hormonal, ou pela força dos músculos ou da violência congénita, ainda no banco da escola, quando ele se destaca pela facilidade da aprendizagem e a sua transposição para a realidade, exteriorização de sentimentos que captam a empatia geral, ou de um número considerável de condiscípulos e mestres.
A sua luminosidade exposta granjeia antipatias em outros grupos. E aí, ou ele se rodeia de um grupo forte que o adula e protege, que se serve da sua mais valia intelectual e o condiciona na sua liberdade total, ou se reduz, progressivamente, a uma anónima progressão subjectiva da sua totalidade. Seduzido por si próprio, muitas vezes é ele que se deixa enredar nas teias complexas das relações entre pessoas e grupos, porque cada pessoa é um Universo, e um conjunto não forma forçosamente uma unidade, mas um agrupamento de individualidades em disputa por cada afirmação de si próprio, ainda que pareçam concordar com a ideia geral, ou com o elemento que lidera o projecto ou ideia. Há uma aparente unidade de contrários, quando o fim em vista é o poder real, ou a parte dele que interessa em determinado momento de tempo.
O líder é apenas um personagem que, mercê das suas qualidades estéticas, da sua maleabilidade face aos poderes de facto, se propõe ser o cabeça de cartaz de uma fantasia de poder. Ele destaca-se pelo que diz e a forma como o diz, não pelo que faz, porque efectivamente ele não pode fazer muito do que se propõe em propaganda. O líder é um tipo de homem flexível na sua aparente inflexibilidade. A máscara do carácter cai quando a rigidez dos conceitos se abate sobre si próprio.
Quando eramos crianças, há uns anos atrás, quando nos cerceavam a vontade da descoberta com a palavra e a imagem de Deus. Quando nos amordaçavam com os castigos corporais e psicológicos, nos impunham a austeridade dum chefe implacável ante os nossos erros, tínhamos medo de tantas pequenas coisas que nos habituámos a engrandecer, como um papão a evitar. Um dirigente do estado era como que o dono de todos nós e ele era-o por vontade de Deus, logo , devíamos-lhe obediência cega. E eles acreditavam no seu poder sobre nós quando nos viam curvar ás suas ordens e decretos. E abusavam de nós, da nossa credulidade até um limite que só eles julgavam saber, o da nossa resistência ao fim da passividade das almas ordenadas em obediência a Deus.
Poderemos dizer hoje que o mito de Deus acabou, que toda a trama dos poderes, dos medos, se desmoronou e o homem se vê, como há milénios, de novo só, mas mais sábio,mais só e sem conhecer o seu rumo , nem a razão de ser da sua sobrevivência enquanto animal de "inteligência superior".
Hoje sabemos que o homem de inteligência superior, que aproveita as experiências acumuladas para as transformar, criar ou recriar em favor do nosso pretenso bem estar, não é um imediatista, nem lidera qualquer causa humanitária, que é a essência dele próprio enquanto sábio.
O poder é de lobies, desde logo no cimo da pirâmide do poder, mas igualmente em todos os campos da nossa existência, mesmo no trabalho, os sindicatos, mesmo no local de emprego, o grupo dos que adulam o chefe, mesmo na amizade, os intriguistas, mesmo no amor, os convencidos da sua materialidade, mesmo em cada um de nós, o conjunto das bactérias que num dado momento, nos anulam a imunidade adquirida.
Isto para dizer que a vitória de uma qualquer individualidade numa eleição Nacional ou mundial, não é a vitória dum preceito, mas apenas de um conceito. Ele obedece a regras estanques que o cerceiam na sua acção. Ele é um produto do marketing criado para promover produtos e o homem enquanto produto a consumir por outros homens. Tem qualidades a prazo, desde logo o de comunicação. Mas as palavras esgotam-se em discursos perante a paralisia da acção e o desencadear das crises do conjunto.
As crises mundiais, podem ser vistas um pouco como as pragas de Deus aos egípcios, deixaram apenas de ser sete. E são criadas para movimentação cíclica dos grupos de poder, para que possam aparecer os seus produtos de nova geração, como a solução salvadora das nossas inquietudes. E para que nos aquietemos na nossa sede de mudança, de querermos ser tidos em conta.
Insisto numa direcção, não tão rígida que se queira impor, mas reflexiva ela própria, de dentro e de fora da ideia: com a queda do mito de Deus e do papão, o comum dos homens despertou, procurou saber mais da sua história, rebuscou na essência do seu ser reminiscências das origens, abdicou do seguidismo de lideres e procurou assumir-se como líder de si mesmo, é uma procura que persiste, em cujo centro evolutivo estamos a viver os momentos da mudança. Extinguem-se os resquícios da submissão, tanto se chama ladrão ao que nos rouba presencialmente, como ao que nos encurta o orçamento no silêncio dos gabinetes. Perdemos o medo. Aceitámos a emancipação da mulher, como um dado adquirido, uma evidência tão afirmativa que pasmamos de a ter permitido. Ainda há quem apelide de traição quando apenas assumimos uma expressão sentida do nosso amor a uma causa. Mas isso é o desespero da desesperança.
O homem aprende-se de si próprio e ergue-se majestoso na sua humanidade de novo tipo, a requerer a formação de um novo lóbie Universal, o lóbie dos sábios, não dos catedráticos emplumados em conceitos estereotipados da realidade , que não o têm como fim, a ele homem,. Dos sábios mesmo, os humildes que não querem ser tidos como superiores, que legam as suas ideias sem recolha de fundos, para que sejam moldadas ás conveniências dos que se julgam hoje imortais e tudo detroem, a fauna e a floresta, o ambiente e a paz salutar entre tudo o que respira.
Esse lóbie dos sábios, que terá em conta o homem em si mesmo e o que de fora dele o sustém enquanto membro de um Universo complexo, despretensioso de poder, utilizando a sabedoria como arma única de pacificação explosiva está na crista da onda da mutação que se desenha no horizonte do tempo.

07/11/2008

UMA HISTÓRIA DE NATAL!...

O AMOR DOS SIMPLES...
I
Nasceu ao quinto dia num mês frio, Janeiro, daquele ano de sessenta e era o terceiro filho da família que já tinha um casal e que se projectava em quantos a vida lhes proporcionar, como dádivas de Deus e frutos de se amarem nos corpos e nas almas.
Cresceu feliz, até ao dia em que o pai sucumbiu a uma cirrose galopante o que fez com que se alterassem os destinos de todos eles, interrompendo estudos e projectos sonhados. Porque a vida é sonho e o sonho acrescenta vida .
Carlos Alberto era um rapaz elegante, altura média, cabelos e olhos castanhos, olhos leais, sorriso nos lábios e sempre amável para os amigos e os colegas do trabalho que precocemente tivera que abarcar. Tinha uma paixão e um sonho que o acompanhava de menino, a descoberta de como os brinquedos electrónicos se moviam ao simples toque de um botão, daí a todos os aparelhos que faziam parte do seu quotidiano, uma curiosidade para descobrir o principio e o meio da ciência electrónica. Desmanchava aparelhos, reconstruía e foi ganhando amor a essa forma de recuperar aqueles que o tempo e o uso colocara fora de serviço. Fez até um curso de electrónica por correspondência, que lhe trouxe bases importantes para as suas aventuras de descoberta ao funcionamento dos mecanismos.
O trabalho de estafeta que fazia na empresa, não era de todo monótono. É certo que via quase sempre as mesmas pessoas, mas foi-se habituando a descobrir que cada momento era diferente, como se as pessoas mudassem de dia para dia, de instante para o seguinte.
Conheceu uma jovem por quem se enamorou, uma jovem atrevida, bonitinha, mas fácil na forma como se dispunha à partilha das intimidades, ter sexo com ela, não foi um deslumbramento. Ficou-lhe um vazio para o qual não encontrava resposta, como quando um aparelho tinha tudo para funcionar e ao carregar o botão, não acontecia nada...
Naquele dia ao entrar no escritório, distribuindo bons dias pelos que ia encontrando, parou de repente, sentindo um calafrio estranho por todo o corpo, sentindo-se preso de uns olhos castanhos, uma pele clara e aqueles cabelos compridos, castanhos como os dele. Linda, linda, linda, mas que mulher!!!...pensou e dirigiu-se a ela para a saudar.
_Olá princesa! És a nova telefonista, ou os meus olhos estão noutra galáxia?
Ela, tímida e lisonjeada por tão principesca saudação a que nunca fora habituada, presa, num primeiro instante, naquela figura galante de olhos tão brilhantes como nunca vira em outro homem. Embora, filha única, tivesse recebido todos os mimos que se podem imaginar
_Sim, sou a nova telefonista, muito prazer. Chamo-me Clara Branca das Neves. E o senhor, quem é?
_Qual senhor, sou apenas um colega e estou encantado por te conhecer, por te sentir tão menina num corpo formoso de mulher, vais ver que nos iremos dar bem. Sou o Carlos Alberto, mas os amigos tratam-me por Carlos.
Ficaram a olhar-se, por momentos e foi ela quem primeiro desviou o olhar, numa timidez inocente, para se dedicar ao atendimento telefónico.
Carlos passou todo o dia com a imagem de Clara no pensamento. Uma figura de menina dócil, mas convicta do que pretendia, bonita, a voz sedutora, as maminhas harmoniosas sob a camisola de lã de cor rosa debruada a azul na gola junto ao pescoço, deixando este a descoberto, alto, a pedir beijos e devaneios que povoavam a sua mente. Vestia calças ele preferia ver-lhe as pernas, talvez até sentisse o cheiro emanado do seu corpo.
Carlos e Clara, brincaram com as palavras, ele galante, ela difícil, teimosa em reconhecer que era amor o que se vislumbrava das conversas amigas em crescendo de ansiedade e de fervor das almas enamoradas. Até que ele se decidiu a tomar a iniciativa.
Naquele dia acordou com a ideia de avançar para a consolidação desse sentimento que o absorvia na quase totalidade do seu ser e que sentia nela, como que a convidá-lo a entrar na sua vida, pela porta grande da frente, com decoro e cumprindo toda a tradição em que foram educados.
Carlos comprou um lindo anel de noivado. A caixinha era grená, de veludo, e quando a abria, o brilho das pedras preciosas ofuscavam-lhe os olhos e era também a comoção. Sim,um homem também chora, quando o momento é o do grande amor da sua vida.
Clara não sabia o que dizer naquele momento em que ele, de mãos trémulas apertando a caixa, a voz segura e quente:
_Clarinha, eu amo-te. Aceitas casar comigo?
Toda ela corou. As mãos inquietas, os olhos luzidios, os lábios entreabrindo-se num sorriso incandescente, o coração a 100 há hora como ela gostava de dizer, como o sentia há muito sempre que o via a ele, o seu Carlos.
_Sim, Carlos, eu amo-te muito e aceito casar contigo, mas primeiro vamos conhecer-nos melhor, namorar.
Ele disse que sim. Com a cabeça, com todo o corpo que se aproximou dela e numa manifestação súbita, ou esperada, deu-lhe um beijo ao de leve nos lábios carnudos e húmidos e sentiu que os corpos, o dele e o dela tinham estremecido, como se um choque eléctrico tivesse ocorrido e os aproximasse em correntes de afectos sublimes.
Em volta deles, por detrás do momento superior que viviam, os colegas aplaudiram, com palavras de parabéns e desejos de felicidade.
II
Durante cerca de quadro anos namoraram em edilicos momentos de absorção de si próprios, um no outro, com birras e amuos, seguidos de pazes feitas com mimos e outras fantasias, passeios de mão dada junto à foz, tentativas de sedução dele, para que fizessem amor, unissem os sexos numa evidência de amor que sentiam, do interior de si, ás vezes violentos, os desejos, os anseios, o cio de cada um, o cheiro indutor que se exalava dos corpos numa emanação natural que os sentimentos fortaleciam e se testavam à rigidez dos principios.
Clara fazia questão de casar virgem. Era um sonho de menina, podiam beijar-se, envolver-se em afagos, podia até mexer-lhe nas maminhas, beijá-las, mexer-lhe no sexo, beijá-lo se quisesse e ela faria o mesmo com ele, o que lhe desse prazer dela, de estar com ela, mas sexo com sexo, fazer amor, só depois do acto solene do casamento.
E ele aceitava, ardendo de desejo, mas aceitava, porque sentia por aquela mulher um amor profundo, um sentimento de respeito por tudo o que nela era um simbolo de pureza. Aceitava que fosse ela a decidir, era uma manifestação da sua, dela, maturidade, ante os desvarios infantis dele, homem, a pensar apenas na sua satisfação libidinosa.
Chegou o dia do casamento.Um primeiro de Agosto quente que marcaria para sempre as suas vidas em comum. O nervosismo e a alegria de mistura com os sentidos da enorme responsabilidade do acto que iam consumar e de finalmente puderem dar azo a toda a imaginação dos corpos em conluio para a construção da sua felicidade. Entrar nela e ela senti-lo na sua totalidade, no seu corpo.
A festa reuniu as famílias de ambos, e amigos, em alegre convívio onde o comer foi farto e a alegria esfuziante se contagiou de uns para outros, até que a hora do voo se aproximava, para os levar à Madeira, onde projectaram a lua de mel, impondo que partissem.
A lua de mel na Ilha da Madeira foi paradisíaca. A Ilha é um paraíso e rodeada de mar que eles tanto amavam, foi um cenário maravilhoso que os envolveu . Fizeram sexo a noite toda, em explorações dóceis dos corpos e das sensações produzidas. Ele, mais experiente, foi-lhe ensinando do que sabia. Ela ,plenamente confiante do seu amor, deixando-se conduzir, confiante e absorvendo todas as delicias de ser amada até à exaustão. Juraram amor eterno e fidelidade aos principios do projecto comum que agora encetavam. Foram doces delírios das almas apaixonadas.
Compraram casa, na sua cidade, o Porto, para viverem, suficientemente grande para a prole que se perspectivaram ter.
Clara queria ser mãe. Carlos ansiava por ser pai. Ambos faziam projectos para esse evento maravilhoso que os extrapolaria para a eternidade. A vida fluía, simples, por entre as dificuldades que surgiam dia a dia, pequenos nadas que os enervavam, problemas das famílias de origem para cujo entendimento apelavam constantemente ao amor que sentiam um pelo outro e por si próprios enquanto parte do outro, para se entenderem, para se continuarem a amar.
Foi ela quem sugeriu que fossem ao médico, que fizessem exames, para saberem a razão de não engravidar, se havia uma falha genética ou apenas biológica, se era possivel emendar o que estivesse errado. E foram.
Os resultados dela eram animadores, nada obstava a que tivesse filhos, ser mãe. Carlos, que tivera a coragem de se submeter ao teste, ao contrário de tantos outros, que sempre consideraram que o problema de gravidez era sempre da mulher e que quando elas, após um curto tratamento, apareciam grávidas, exaltavam as suas razões, de como estavam certos, sem cuidarem de por em causa se o filho era efectivamente deles ou de um outro a que a mulher cansada de se sentir desprezada, acorrera numa conjugação de afectos para ser mãe.
Sentiu que o mundo lhe caía em cima quando os resultados lhe trouxeram a evidência da sua infertilidade. Chorou, angustiou-se, sozinho na penumbra de uma casa de banho pública, onde se refugiara, como se sentisse todo o peso da multidão da rua, como se todos os olhos o apontassem como a causa e o efeito da sua nulidade procriadora.
À noite, no sossego da casa grande, Carlos e Clara discutiram a nova realidade, partindo do zero, ele colocou tudo à disposição da mulher amada. Podiam divorciar-se e ela encontraria um homem que a estimasse e lhe desse a possibilidade de ser mãe. Clarinha dizia que não, enroscando-se no corpo dele, á procura dele, do todo dele que se esvaía nas palavras. Podiam tentar a fertilização in vitro recorrendo a dador anónimo. Clarinha, que não, ser mãe só através dele, o seu amado Carlinhos. Ele insistia com soluções que ela podia ter um amante, de entre um dos amigos com quem simpatizasse mais, só por uns dias, até engravidar. Clarinha que não, que ele era louco, tolo, que perdera o juízo, ela aceitava não ser mãe, sem traumas. Era a vontade de Deus. Se Deus os juntara e Deus sabia que o sémen dele era infértil, ela submetia-se dócilmente à vontade de Deus. E abraçaram-se com ternura, beijaram-se, agarraram-se das palavras e dos sentimentos que deles saíra em votos de amor e fortaleceram-se na nobreza das suas decisões. Não seriam pais, nem biológicos nem afectivos. E selaram-se em sexo, como nunca até então, num frenesim de amantes na doce loucura do amor.
III
Clara conheceu um homem mais velho de quem se tornou amiga. Apresentou-o ao marido e falaram de generalidades. Era um homem de palavra fácil, palavras sedutoras que atraíam imagens de sonhos inventados. Ele falava de tudo com naturalidade, de sexo, de amores, infidelidades, de prazeres que a libido construía sem que a pudéssemos controlar. Falava de aromas e sabores, de amores absolutos e ela, Clarinha, adorava ouvi-lo, de se confrontar consigo própria e com o seu amor próprio, que reafirmava a cada teste de Anastácio Bandarra, era assim que se chamava este amigo, que viera do sul com a intenção de se fixar no Porto, caso as suas ideias se consolidassem, se materializassem em alguém predisposto a aceitar as suas teorias de vulnerabilidade da alma, quando o corpo insiste para que se completem os ciclos do absoluto, no amor e na vida em amor.
Carlos Alberto tinha plena confiança em Clarinha, nem se importava que ele, Anastácio Bandarra, a tratasse familiarmente por minha querida amiga, ou simplesmente por querida Clarinha.
Acresce dizer que Carlos Alberto tinha concebido um dispositivo electrónico capaz de captar a grande distância imagens e sons, ainda que difusos e que colocara um em cada salto dos sapatos de Clarinha, era um sonho a realizar-se.
Não que a quisesse controlar, mas era a única possibilidade que tinha de testar o seu invento, e não dissera nada para não estragar a surpresa que lhe faria neste Natal, com as gravações de todos os passos que ela dera.
Anastácio Bandarra tinha uma fixação teórica em Clarinha, pela sua personalidade teimosa , mas dócil ao sentido das palavras, como se fosse uma contradição, um absurdo de ser e não ser, pela sedução do seu olhar e do seu sorriso, pela beleza do seu todo de mulher e considerava um desafio importante que ela se recusasse a ser mãe por amor ao seu marido. Era um homem a caminho dos sessenta anos, charmoso, cabelo grisalho e pele morena, galante no trato e quente nas palavras, que direccionava com precisão no rumo certo do que pretendia.
Ele convidou-a para saírem, num dia em que Carlos resolvera ir assistir a um jogo de Futebol que prometia grande excitação e Clarinha recusara acompanhá-lo, por não se sentir motivada para o evento.
Falaram da natureza, do mar, de países distantes, das relações entre homens e mulheres, de amor e de amizade, de amor de amigo, amor da alma que não tinha a necessidade de amar o corpo, de ter do corpo a fruição total ou abstracta.
_Sim, eu sinto uma grande amizade por ti, a que poderia chamar um outro tipo de amor, que não o que sinto pelo meu marido.
_E serias capaz de me beijar?
Clarinha corou e sorriu, olhando-o nos olhos e agarrando nos ombros dele deu-lhe um beijo no lado esquerdo do rosto.
_Já dei!...
Ele riu-se com gosto, gargalhou durante segundos entre sorrisos e palavras inteligíveis.
_Assim não vale, miúda querida. Eu dizia na boca, nos lábios, molhados pela língua, chupar a língua.
_Nunca beijei com a língua, apenas encosto de lábios, o meu Carlos não gosta. É tolo, mas eu respeito tudo do meu Carlos, o meu amor..
Anastácio Bandarra olhou surpreso a naturalidade daquela mulher que estava com ele, que ouvia dele as palavras e não desarmava de amar o seu marido, onde outras, carentes de fantasias eróticas, se deleitariam por envolver-se num romance de desvarios amorosos.
_Aluguei aqui uma casa, queres ver?
_Sim, não me importo.
Clarinha acreditava na sua intuição. Sentia que por vezes era demasiado crédula, alguma ingenuidade fora de moda, mas não se dera mal até então, se bem que neste momento, aquele homem era quase um desconhecido. Tinham-se falado à distância e era praticamente a segunda vez que se encontravam. Sentia sinceridade naqueles olhos, ainda que por vezes malandros, atrevidos, mas pareciam-lhe leais.
Anastácio Bandarra fechou a porta à chave, retirando-a da fechadura. Era um rés do chão alto, com grades nas janelas e com uma vista soberba sobre o Douro.
_Que tomas?
_Apenas água. Tens aqui uma bela casa!...E a vista é linda.
_Sabes, Clarinha, trouxe-te aqui porque quero dar-te todos os prazeres que ainda desconheces, chupar-te a língua em beijos ardentes de sedução, beijar-te o sexo húmido dos fluidos das sensações que te faço sentir, penetrar em ti no auge quase absoluto do prazer de dois corpos que se interiorizam, atingir o absoluto pleno dos corpos exaltados pela libido e fazer-te ter um filho meu, nosso que criaremos longe. Numa Ilha, se gostas de ilhas que pode ser a Madeira, ou nos Açores. Ou numa outra cidade, Nova Iorque, Londres, Paris ou Barcelona. Sou rico, viverás como uma princesa, serás mãe. Ser mãe.
As palavras sussurradas de Anastácio Bandarra, não a fizeram desviar os olhos do seu Douro amado. E foi dizendo, com a maior naturalidade, como se não estivesse refém de uma alma, ou pensamento, de homem alucinado por um objectivo em que ela era a razão.
_Mas sabes que só faria tudo o que dissestes se fosse com o meu marido. Amo muito o meu Carlos, de uma forma que não sei bem como explicar. Estamos casados há dez anos... Quando o vejo, ainda hoje, o meu coração acelera a 100 à hora. Contigo, só se me forçasses, amarrando-me, me violasses, me matasses e devassasses o meu corpo inerte. E eu não acredito que fosses capaz de o fazer. Sou tua amiga, só te quero como amigo...
Anastácio Bandarra olhou de frente aqueles olhos castanhos, límpidos, leais e ternos, onde toda a doçura de um coração bom se espelhava.
Alguém bate à porta com estrondo.
_Clarinha!...Estás aí, meu amor? Estás viva?...
Era uma voz ansiosa, aflita. Angustiada que repetia as pancadas na porta e os gritos que exigiam uma resposta rápida, antes que arrombasse a porta com a força que um homem vai buscar nestes momentos, vá lá saber-se onde .
_Estou aqui, meu amor, meu Carlos querido, não me aconteceu nada, não se passa nada.
Clarinha correu para a porta e apanhou a chave que Anastácio Bandarra lhe estendeu, abrindo-a e recebendo nos seus braços o corpo amado.
Carlos Alberto, o rosto congestionado pela angústia e a raiva, afastou-a da frente e brandindo uma faca de cozinha dirigiu-se para Anastácio Bandarra que se encolheu a um dos cantos da sala. Clarinha gritou-lhe.
_Não!....Carlos, meu amor, não faças mal ao nosso amigo, estávamos apenas em amena cavaqueira amiga. Não se passou nada de estranho. Apenas as palavras. Mas como descobriste a casa?
_Não se passou nada e estão aqui fechados? Ele queria por certo violar-te. Eu acredito em tudo de ti, que não vieste de livre vontade, mas ele...
_Vamos para a nossa casa, explicar-nos-emos melhor.
Clarinha aproximou-se de Anastácio Bandarra e deu-lhe um beijo sobre os lábios.
Saíram ambos, Clarinha e Carlos, de mãos dadas, serena ela e ele ainda inquietado pela ansiedade da busca e pela emotividade do encontro.
O carro parecia voar. Ele olhava-a docemente e ela retribuía com o seu olhar apaixonado de menina.
Já em casa, na casa grande que compraram com as economias de cada um, sentaram-se de frente , os olhos amantes de cada um em particular e do todo que são como um só.
_Foi apenas um teste que Deus me quis fazer. A ver, talvez, se estou pronta para mais dez anos de amor profundo com o único amor da minha vida, tu, meu Carlos adorado. E vai ser Natal...E tu? Como me descobriste, meu amor?
Carlos olhou-a surpreso, os olhos toldados pela comoção do momento, acreditando tudo dela, bebendo tudo dela, ele que acreditava que a mulher é que é o sexo superior, ou deveria ser. Descalçou-lhe um dos sapatos.
_Sabes Clarinha, meu amor, inventei um mecanismo que procurei testar em ti sem o saberes. Aquela maquineta que vês ali é um difusor e receptor de sons e imagens, com gps, ouço as palavras e sei sempre onde estás, se te acontecesse alguma coisa, como um rapto. A transmissão é feita através desta espécie de chip que introduzi no salto dos teus sapatos.
Clara Branca das Neves levantou-se e abraçou-o com paixão e êxtase.
_Meu amor, Deus testou-nos na totalidade da nossa pequena grandeza face a Ele e saímos ambos bem desse teste maravilhoso. Amo-te sempre!...Meu Carlinhos querido!...Feliz Natal!...
_Amo-te sempre, minha doce mulher!..Minha Clarinha amada!...Feliz Natal!...
E amaram-se noite dentro, já Natal, prendando-se de inusitadas emoções, num pleno absoluto de duas almas e dois corpos consubstanciados na plenitude infinita do amor.

Autor: J.R.G.

É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um homem, de uma mulher. Uma oferta de Natal ou aniversário.
Escreverei por encomenda, preços a partir de 60 Euros, de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.

J.R.G.

01/11/2008

AO MEU NETO - COM AMOR!...

São 50 centímetros de gente, que se movimenta em pequenos gestos de abrir e fechar de mãos, esticar os pés, bocejar, caretas que querem talvez afugentar espíritos que procuram entrar na sua alma iniciada.
Emite sons que já são uma comunicação e olha-me nos olhos, um pouco estranho de mim, como quem quer inteirar-se do que sou, se sou, quem sou. Enterneço-me de o olhar, de o sentir e levanto-o nos meus braços, aconchego-o ao meu peito e ele deixa-se ficar. Aceitou-me. E é , somos, já, uma evidência um do outro
Coloco um dos meus dedos entre uma das suas mãos pequeninas, os dedos dele esguios, longos, e a mão fecha-se sobre o meu dedo, numa primeira saudação, a dizer que me aceita, que podemos vir a descobrir juntos outros caminhos...
Fecha os olhos e dorme enquanto lhe observo os pequenos movimentos com que procura fixar-se na vida. E relembro nele os meus filhos, os traços que se afirmam indeléveis, os lábios,o mexer dos lábios, o queixo saliente, mas sobretudo a expectativa do ser que irão sendo, que foram sendo e que são hoje e que ele, esta pequena parte de mim, irá ser, sendo, a cada momento.
Olho os seus cabelos negros e a penugem que o cobre nas partes visíveis do corpo. E penso que seria assim, talvez tivesse sido, quando tudo começou, e as crias nasciam num qualquer recanto da natureza. Os pelos como vestimenta única e universal de igualitarismo.
Chama-se Pedro e é, segundo as convenções que organizam as hierarquias da família, meu neto. Eu chamo-lhe uma parte de mim. Não é meu, não sou dele, somos uma ligação intemporal e imaterial da espécie.
Nasceste Escorpião, como a avó, e vais por certo saber amar e sofrer, e ganhar vencendo todas as barreiras.
Temos genes comuns e vamos provavelmente amar-nos como só nós sabemos amar.
Olho as tuas mãos que se fecham e se abrem, como se me quisesses dizer, desde já, recebo e dou, recebo e dou, ou dou e recebo, dou e recebo...E fico na dúvida em qual dos dois termos deverei iniciar-te...ou de cujo espírito já vens imbuído...
Os teus olhos miram-me de novo, franzes a testa , semi cerras os olhos, interrogas-me, interrogas-te. Quem és?... Quem sou?...E eu não tenho respostas, meu amor...

29/10/2008

PARABÉNS - MEU AMOR!...

Lembro-me de quando nasceste, a bacia da água quente e o teu pai encolhido a um canto,expectante de saber se eras menino ou menina, se berravas, se eras loira ou morena, se eras linda e a azáfama da tia Zéfa, a parteira do pequeno burgo que botava a mão em todas as cabeças que assomavam a toca de todo o mundo, a pedir mais água quente...O sangue a placenta, e tu já tão grande, os cabelos negros e a pele morena, gritando a alegria de respirar um tempo que ainda não sabias difícil.
Era um dia frio de Outono, folhas secas, fenecidas da estiagem prolongada , esvoaçavam de um para outro lado aos arrepios do vento que soprava agreste. Pescadores faziam-se ao rio, as águas mexidas, dificultando as remadas e o avanço lento das pequenas lanchas que partiam à cata do pão.
Lembro-me porque me contaste, porque te contaram, em registo falado, descrito ao pormenor de radiografia. Lendas do teu nascer.
A chamada grande guerra estava no auge da carnificina entre as várias facções que se digladiavam pela partilha do mundo e das suas riquezas, constituindo-se, o ganhador, como a potência hegemónica a quem todos prestariam vassalagem.
Havia duas concepções principais e que se destacavam pela violência dos gestos e das palavras: A dos opressores e a dos oprimidos. E tu nascestes do lado dos últimos, mas já dotada de um espírito rebelde e insubmisso, pela forma como reclamavas os teus direitos de viver.
Hoje faz anos que nascestes e eu quero saudar o ter-te conhecido anos mais tarde, então a mais linda das jovens deste burgo, que alguma vez os meus olhos haviam visto. O teu sorriso, as tuas gargalhadas de alegria, as palavras que te saíam bem sonantes, doces, cultas. E o teu corpo harmonioso, os olhos verdes de um verde raro porque imbuído de outras nuances de verde e de castanho. A tua pele macia e os odores do teu corpo que me prendiam de ti.
Faz hoje anos que nascestes, sem o que, não teria sentido a frescura do teu aroma, o cheiro cativante a sexo em plenos de cio, a magnitude do teu olhar sobre mim e a vida que nos predestinavas, os ensinamentos de amor que me proporcionaste.
Amámo-nos como nunca talvez alguém tivesse amado, numa simbiose perfeita de almas e corpos, consubstanciados numa vontade indómita de sermos um só ser em duas essências próprias, como se fôssemos duas almas e um só corpo com o mesmo objectivo de atingir um infinito de prazer.
Acreditamos no poder deste amor, sentimento de dentro de nós, que nos transformou em seres mandantes dos elementos de fora de nós. E revestimo-nos de protecção inflexível a todas as investidas adversas. Jurámos amor eterno e cumprimos, cumpriste.
Eu não, eu fui o ser mais abjecto, o personagem insidioso do romance em que transformei a nossa vivência. Omiti-te devaneios com outras mulheres. Infidelidades, traições. Alterei os conceitos para mos permitir e considerar que não ofendia a tua essência. Que permanecia intocável a nossa ideia de amor absoluto. E tu perdoaste sempre,magnânima da tua integridade, da tua sublimidade de ser mulher e bela. Vejo o teu porte altivo, inteiro de ti, insubmisso, afagando-me os cabelos com um sorriso de condescendência pelas minhas fraquezas e sorrio-me do teu nascimento, do teu destino de mim, como um só.
Hoje fazes anos, meu amor e ofereço-te um sorriso,uma flor que se alinda na cor dos teus olhos, ciente que me perdoas a mais aviltante das traições. Porque me interpretas como uma outra parte do teu ser, a mais fraca, mas de ti, indestrutível de ti. indissociável do teu ser e da essência que nos assimilou como um todo.
Parabéns, meu amor, vamos visitar as coisas simples que vivemos intensamente. A minha mão na tua mão, o vento sopra de sudoeste, e ambos sorrimos à vida que ainda somos.
No alto da falésia, o miradouro dos amantes, para onde corríamos despertos da liberdade de sermos pessoas, inocentes ávidos de tudo que nos parecia belo, a ver o sol que se evadia deste espaço numa festa de cores que nos envolviam nos beijos que apaixonadamente nos dávamos.
Descemos à praia. O areal já não é o mesmo, encolheu de tanta maldade que lhe fizeram, mas ainda há um espaço onde podemos amar-nos como nunca nos amámos antes.
E talvez no pleno do orgasmo uma onda atrevida nos baptize a sensação maior de nos amarmos.
Quero cantar hoje,que fazes anos a grandeza eterna de seres mulher. Mulher maior, como nenhuma outra que conheci. Mulher mãe, sem limites. Mulher amante, fulgurosa, luxuriante que me elevaste a paixão de ser amado.
Feliz aniversário, meu amor, tão jovem sempre no meu olhar......tão linda, tão bela no teu sorriso de esperança. Vamos viver!...

26/10/2008

LEILA - VIDÊNCIAS DA ALMA

A vida sempre lhe sorrira fértil em sonhos que se iam transformando em realidades que sugeriam novos sonhos, numa sucessão infinita de probabilidades pensadas nos sonhos e que partiam de si alegremente à conquista da luz e da alma que as solidificasse em realidade.
Vivia numa cidade pequena dos estado de Minas, mulata, de corpo altivo e olhos luminosos de uma vivacidade que a tornavam temida, porque as suas palavras eram cortantes, não ofendiam, mas cortavam dos sonhos alheios, a magia .
Casou e projectou viver em harmonia uma vida plena de momentos doces de felicidade. Sabia que dois destinos, duas almas, duas vontades, era algo de diferente, não era pai, não era mãe, era ela e um outro ser, um homem que lhe parecia uma alma capaz de complementar as insuficiências que via inscritas nos seu sonhos.
Tiveram três filhos, na ânsia de se multiplicarem, de se expandirem em amor. Três filhos lindos que eram o seu orgulho de ser mãe.
O marido de Leila, seu Raimundo, que sempre mostrara uma total afeição pela esposa, sofria de um mal psíquico que não estava totalmente descoberto, nem de si, nem em si e se mantinha num secretismo absoluto, no mais profundo leito da sua alma.
Um dia em que Leila saiu para umas compras de Sábado de manhã, ela que era uma mãe muito possessiva, terna, previdente, quando estava nas compras sentiu uma sensação estranha vinda de dentro a tomar-lhe o pensamento todo, a apertar-lhe o peito, a descompassar-lhe as batidas do coração. E deu como que um grito: Não!...e saiu disparada,deixando as compras no carrinho do super mercado.
Correu esbaforida para sua casa que era térrea e tinha um quintal grande onde plantava flores e alguns legumes para suprir necessidades básicas e que tinha um poço de grande profundidade, fundo escuro, fundo mágico onde o seu rosto por vezes ondulava quando atirava pequenas pedras para lá e as águas se agitavam em círculos luminosos que lhe transmitiam sinais.
E eram esses círculos ou sinais que a alertavam agora, para algo de terrível que estaria para acontecer.
O quadro que se lhe deparou era Dantesco: seu Raimundo amarrara os três filhos e os colocara num carrinho de mão de transportar terra e com um deles, que se debatia e gritava, em seus braços, preparava-se para os atirar para o fundo do poço.
Leila, manteve o sangue frio e pegando num ferro que estava por ali abandonado, ou que alguém , ou Deus, colocara ali, correu na direcção de seu Raimundo e zás, derrubou-o com uma única pancada.
Desamarrou os filhotes, chamou o socorro para o marido inerte e partiu para casa de um irmão, Flávio, que a acolheu e queria partir para acabar com seu Raimundo. Leila não o permitiu. Agora havia que partir para outra situação. Não podia continuar naquele lugar e não confiar mais em deixar seus filhos sós.
Entregou-se ao sonho dia e noite. Raimundo escapara ao golpe e estava no hospital se recuperando. Leila contactou seus irmãos que estavam em Portugal que, alertando-a para as dificuldades da integração a entusiasmaram a partir em vez de viver enclausurada no seu imenso Brasil tendo um marido fixado na morte de seus próprios filhos.
Congeminou o sonho, espartilhou-o, reuniu pedaços que colou, projectou sua nova vida num país estranho, mas onde a língua e a cultura se assemelhavam. Haveria de encontrar gente de bem. Consolidou o sonho como uma predição e era já a realidade que a transportava no enorme avião em que se estreava como viajante dos ares, tão próxima de onde lhe vinham os sonhos.
Aceitou a indicação de um irmão para que ficasse numa cidade pequena, junto ao mar, de onde sempre podia imaginar o seu Brasil ao fundo, quando se desce, seguindo a inclinação do por do sol.
Viveu dias de grande dificuldade, de não ter o que comer, mas as crianças era o que mais a incomodava, Ter comer para as crianças. Leila sempre acreditava que havia de criar seus filhos e só depois morrer. Projectou ajudas e encontrou almas que se dispuseram a dar-lhe ferramentas de defesa e de construção dos seus alicerces para sobreviver à enxurrada.
Gente certa no lugar certo e que tinha da ideia de proporcionar ensinamentos para pescar, uma outra realidade e que era a de que, até se aprender, era preciso ter de comer e onde ficar.
E foi assim que de sonho positivo em sonho positivo, extrapolando do sonho a sua realidade a que era e a que queria, que alugou casa, obteve ajuda oficial, sobrealogou a um amigo de infância caído do céu, um quarto vazio, e foi montando um salão de cabeleireiro para cujo sucesso muito contribuiu a sua arte, o seu optimismo e a partilha de tudo o que sentia de positivo com aquelas almas que a ajudavam.
Os filhos cresciam, saudáveis e felizes. Persistiam dificuldades, mas menores, um pouco mais de tempo, sem pressas, e conseguiria . Foi então que lhe sobreveio um diagnóstico médico que a deixou abalada. Seu rim estava desfeito, sem cura, era preciso encontrar um dador compatível urgentemente e a inscreveram desde logo em lista de espera para transplante e que procurasse junto da família, alguém que se dispusesse e fosse compatível.
Escreveu para Minas, a seu irmão Flávio, que era de todos o que sentia mais no interior de si própria e ele a ela, como se fossem ou tivessem sido projectados para gémeos.
Ele respondeu de imediato, que marcasse a consulta para os testes que ele vinha logo. E veio. Era uma tarde quente daquele Verão Estiado, o sol no pino do dia a transmitir força à sua alma sonhadora que acreditava com um sorriso num desfecho positivo que a libertaria do sufoco de se saber condenada a não cuidar mais de seus filhos.
Feitos os testes, o irmão era compatível e estava disposto a doar-lhe um rim para que ela sobrevivesse. Se tudo corresse bem, ambos festejariam o mistério da continuidade de suas almas sobre a vastidão do Planeta.
Leila lembrou-se de dar uma festa enquanto aguardava o dia ,já marcado, para a operação de transplante. Todos os dias eram uma festa do seu espírito positivo, mas esta seria uma festa em que reuniria amigos e amigas que sentia tão próximos de si que eram como se a sua alma poisasse em cada um deles sempre que queria descansar. Além de que a preocupava, não por si, mas pelo irmão. A operação podia correr mal e morriam os dois, mas podia morrer só um deles. Se fosse ela, já estava destinada, mas o irmão que estava são, seria uma dor que a acompanharia toda a vida se sobrevivesse. Mas queria acreditar no sucesso total.
A festa ia animada, noite dentro, Leila, seu irmão Flávio e os amigos, musica Brasileira, samba e canções de sucesso no Brasil e em todo o mundo. O telemóvel toca insistentemente, mas o ruído da música abafava, as vozes em uníssono que se reuniam na orgia das almas. Os copos de mão em mão, mais cerveja, caipirinhas, e é quando algo a aproxima do local de onde pode ouvir o toque nítido, agora evidente, do celular, que a chama.
Atende e ouve, do outro lado, como se de si,ou de um além estranho, a voz afável e quente que lhe diz:
_Leila!...
_Sim, sou eu!...
_Leila, ainda bem que está em casa. Temos um rim disponível, uma pessoa que acabou de morrer, tem de estar pela manhã cedo no hospital,seis horas. Pode?...Quer?:::
_Sim, lá estarei, vou já se quer!...
Respondeu tudo automático, como se fosse uma outra pessoa, uma outra de si, ainda longe da realidade da festa quando se virou e gritou num tom de alegria imensa.
_Gente!...Parou a música!...
Todos se calaram, os olhos apreensivos de entre a névoa do álcool, de entre o eco das cantigas da Pátria longínqua, atentos ás palavras.
_Gente, eu sabia, eu sentia que Deus não queria submeter o meu Flávio a esta prova de amor. Tenho um dador e vai ser já daqui a pouco que vou ser operada.
Um grito de alegria, mais cerveja, mais música e Leila e Flávio abraçados , chorando como uma só alma na orgia da festa.
A operação correu bem e Leila regressou a casa, casa vazia de seus amores, os filhos ficaram com um irmão dela até que tudo em si voltasse à normalidade. Vivia só, Leila, com seus sonhos, havia de ter uma casa dela, um marido que a respeitasse e que com ela quisesse romper as brumas que se envolviam no sonho. Ser feliz, criar os seus filhos.
No hospital disseram que se sentisse alguma perturbação fosse directo lá. Nada de outros hospitais.
Estava ela nas congeminações de tornar realidades novos sonhos, quando começou a sentir um calor imenso que a percorria e se instalava, como se um fogo de chama e labareda sem fumo, sem aviso prévio a quisesse consumir lentamente. Tentou levantar-se e caiu no chão, os pensamentos longe. Ouvia tocar o telefone, mas não via o telefone. O pensamento nos filhos, sentia que ia morrer. E não queria morrer sem ter cumprido o que achava de direito, ter os filhos criados, os filhos que salvara do poço, os filhos que não pediram para nascer, os filhos que eram toda a luz da sua alma. E o telefone que tocava e não o via, não sabia de onde esse barulho estranho que ela própria instalara. Ia morrer, Ia morrer...
Lá está, com esforço, arrastando o corpo cada vez mais pesado, o volume a aumentar, o seu corpo ainda esbelto, agora disforme,
_Leila!...Leila!...
Ouvia a voz de Ana, uma amiga de cá, do coração, da alma e a voz que não lhe saía....
_Ana, vou morrer!...
-Leila, vou já para aí, abra a porta e ponha um sapato, alguma coisa, que mantenha a porta. Vou já para ai...
Abriu a porta de baixo, colocou um sapato a impedir que a porta se fechasse e deixou-se ficar, sentia que a vida se esvaia de todo. Os filhos...
Ana chegou e depara-se com o quadro indescritível, o corpo inchado de Leila, a febre elevada e a voz dela, sussurrante.
_Ana, eu não vou morrer sem ter criado meus filhos. Me leva, Ana...
Ana chama a emergência, os bombeiros chegam rápido mas querem levar Leila cumprindo os preceitos legais, primeiro o hospital de residência. Ana discute com eles a urgência de a levar ao hospital que a operou, eram essas as indicações.
Exaltam-se, discutem e Ana toma uma resolução.
_Ajudem-me a coloca-la no meu carro eu levo-a!...
Os bombeiros Olham-na surpreendidos e executam o pedido. Ana parte a toda a velocidade.
Vai sem controlo emocional, olha o corpo de Leila que arde a seu lado, mal respira, julga que a leva morta, conduz todo o trajecto como se fosse uma outra pessoa e não ela. Vocifera contra o trânsito que lhe obstrui a passagem, buzina.
Não sabe muito bem onde fica o hospital mas guia o carro por estradas e ruas, sons e cheiros de um corpo que lhe parece já não ser. e, de repente, o nome do hospital ante os seus olhos, como se uma visão e não uma realidade, como se algo ou alguém que não ela a tivesse conduzido com a precisão infalível de um mecanismo irreal, absurdo.
Viu o corpo que a urgência levava e aguardou na sala um veredicto que se recusava a acreditar. Leila...
O médico surgiu como uma visão aos olhos de Ana.
_E então Dr.?...
_Salva por um milagre da prontidão com que a trouxe.
Leila, tudo projectado mulher, por entre as brumas do sonho



É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita de Natal ou Aniversário.

J.R.G.