Brasil. A grande colónia que virou maldição.Era tanta a riqueza e a extensão de território que se julgou que Deus tinha premiado a aventura de um povo pequeno e louco. com um reino Paradísico e infinitamente rico.
Um dia, alguém descobriu que o Brasil perdeu os Portugueses de si próprios. Reduzindo-os a esta incessante procura de uma identidade vencedora que se esvaziou de nós desde que o ouro fácil, os diamantes e o frutuoso comércio de escravos, tudo tão fácil de obter, se estancou lá de onde vinha, para servir uma outra classe de vampiros, gananciosa de poder e que vinha conspirando na sombra contra o envio da riqueza para os madraços de Lisboa.
O Brasil continuou, durante muitos anos, a ser a porta de escape dos que, fracassados nas suas terras, se metiam ao caminho, valendo de tudo para lá chegar: cartas de chamada, clandestinamente a bordo de navios mercantes, como marinheiros ou moços de fretes, e já então através de máfias suficientemente organizadas.
Com o advento da Democracia Portuguesa e o crescimento económico que a adesão Europeia vinha proporcionando, a realidade alterou-se e virou sonho de efeitos controversos.
Os Brasileiros procuraram sair do Brasil em massa, asfixiados por uma inflação galopante, e seduzidos pelos relatos de compatriotas mais ousados que mandavam noticias do novo Eldorado: Portugal. É que se não desse certo aqui, sempre tinham a porta aberta para a E.Europa, onde a riqueza da economia se mostrava consistente e imparável.
Márcia, vivia no estado de Goiás e tinha um pequeno salão de cabeleireira, casada com Flávio, mulher bonita, alegre e plena de vida, não via como mudar o seu Flávio, madraço, vivendo ás sua custas e quando a coisa apertava, virando-se para os pais, pedindo ajuda que sempre vinha.
Um dia, desafiado por amigos e pela irmã a viver em Londres, meteu-se à aventura da nova Europa. Veio só, Márcia e os filhos ficaram a aguardar que ele se instalasse.
Chegado a Paris não o deixaram seguir para Londres. Ficou desorientado sem saber o que fazer. Falou ao telefone com Márcia, falou com mamãe, falou consigo próprio, ouviu os amigos na mesma situação e resolveu seguir para Portugal.
Arranjou trabalho pesado, foi aldrabado, humilhado na sua condição de noviço, mas foi aprendendo. Mudando de trabalho, aprendendo artes e manhas. Inscreveu-se num curso de canalizador e montou uma pequena empresa com outro brasileiro. Legalizou-se e mandou vir Márcia e os filhos.
Márcia chegou e viu em que se transformara seu Flávio. Um homem dinâmico e com objectivos. Um trabalhador exemplar. Os filhos inscritos na escola, Márcia arranjou trabalho numa pastelaria onde já havia outros Brasileiros. E foram alimentando o sonho de voltar a Goiás com um pedacinho mais de dinheiro para recomeçar vida nova na sua terra natal.
Os filhos cresceram, Rubinho, o mais velho já está tirando um curso de informática e elegeu a sua nova Pátria para fazer carreira, Taís, na idade púbere, só pensa em voltar, seus amigos, suas amigas e todo um mundo inventado que deixou há já três longos anos.
O Cruzeiro valorizou face ao Euro e as condições de poupança não são as mesmas agora que eram a quando da vinda. Mas o sonho está lá, como que a justificar a continuidade da descoberta.
Celsinho também tem um sonho, voltar e ajudar sua família, construir uma casa nova, casar com sua noiva que ainda o espera.
Os Brasileiros e as Brasileiras instalaram-se para ficar, como todos os emigrantes, eles ocupam hoje uma faixa considerável em muitos aspectos da vida Portuguesa e estão a mudar Portugal.
São médicos, enfermeiras, cabeleireiras, trabalhadores dos serviços, administradores de empresas, atletas de alta competição, pastores evangélicos...
As cores das suas vestes, a sua alegria contagiante, o seu positivismo face à adversidade, entraram no coração e nos hábitos de um povo que era triste, que sempre foi triste, e que abraçou, desde as telenovelas, uma nova relação de proximidade com a sonoridade da voz e a ternura dos modos. Os brasileiros são hoje uma mais valia para os Portugueses.
Relembro a enfermeira, linda, morena e linda que me falava, cantante:
_Está doendo? Estou sendo mázinha, mas é para seu bem?
E o meu sorriso que aceita a pica sem um ai.
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta. É uma oferta bonita de Natal ou Aniversário.
J.R.G.
Blog de intervenção e reflexão e alguma literatura, numa salada que pretendo harmoniosa e saudável.
18/09/2008
BRASIL - BRASILEIROS - A RECONQUISTA
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AMAR A ALMA DE ALGUÉM
O corpo é um conjunto de matéria povoada de minúsculos micro-organismos que nos condicionam ou imprimem energia. É um espaço físico em evidência perante os outros, mas é na alma oculta, transparente, estulta ou clarividente, que reside toda a nossa capacidade de amar de nós o que nos é bom e nos permite transmitir aos outros de nós o nosso amor a eles, sendo ainda nós.
A alma está por dentro e do outro lado, do lado de fora de nós e é de onde bebe as interferências cósmicas que nos diferem de um dia para o outro ou em apenas momentos do dia.
Podemos amar um corpo, saciar-nos nele até à exaustão que será sempre efémera, mas amar a alma de alguém, mesmo sem lhe conhecer a matéria, o cheiro e o sabor, através dum livro, de escritos epistolo-gráficos, da voz em off de imagem, do simples imaginário criado no submundo virtual da ideia, é raro e de efeitos devastadores na vivência do presente, de cada dia presente que se prepara para ser futuro.
Quando alguém, a alma de alguém, nos diz que "Somos perfeitos um para o outro, a perfeição não existe em ninguém , prefiro continuar a pensar assim." São diatribes da alma que se inquieta perante o desabrochar de emoções que as palavras suscitam. Porque não há perfeições. O conjunto da frase sai confuso, porque a própria alma se confundiu, mas provoca um efeito na alma que a recebe e que está receptiva. Porquê? Ou " que nunca ninguém me fez sentir assim", a alma sente a importância de ter sido ousada, de ter caminhado ao encontro daquela outra, carente, apaixonada que persegue a substância do amor, o que lhe falta, ou que não conheceu ainda, ou não sabe.
A alma entra em transe, desvario de exaltantes emoções criadas pelas palavras e pelo imaginário em abstracto que se pretende solidificar e lança em jeito de desafio, não à outra que sente já aprisionada, mas a si própria, a ganhar força no sentido e na ênfase das palavras que transmite de si: "E como te quero ter... continuo a ler o que escreveste "tanto fogo que nos arde e não se apaga", não sei que fogo é este meu amor, nem quero saber, quero é senti-lo, sentir-te, lamber-te, sugar-te, beber-te... onde estás? Lá vou eu outra vez."
E é um deleite envolvente. Todo o corpo estremece e sente o estremecer do outro, como se fosse a primeira vez de cada qual.
Mas se do outro lado da alma persiste a dúvida, se procura desanuviar a crescente fixação , a alma forte não desiste. "Achei!...Não vou deixar fugir o que sinto ser o que sempre procurei.
És meu!... Ouviste?..És meu!...Estás aí? Quem és tu? O que fazes? O que fizeste? Porque procuras outras mulheres se amas a tua? Porquê? És um bom samaritano apenas e esperas resolver as frustrações de todas as mulheres que aparecem ou procuras um amor maior para ti?" O desafio inteligente. Se a alma cede, se o que procura é de facto um outro amor maior, entrega-se à insistência que promete calor na frieza do momento. Mas se resiste, é como se ficasse para sempre a dúvida de sentir uma outra face do amor, diferente, a provocar o doce sabor de uma nova vida refulgente onde a bruma cobria parte do brilho que o tempo amaciara. A dúvida instala-se na alma desassossegada e nem a confissão de que se havia enganado, a outra, que se tinha apaixonado julgando ser um outro que não respondia e que as parecenças eram tantas que agora era a alma insegura que viera em resposta aos seu apelos que ela queria amar, sem corpo, sem cheiros nem sabores Bastar-se da alma que sentia nas palavras.Tê-la a todo o custo, quando a sentia desanimar, pretextar evasões."Tenho que te animar, estás sempre a dizer que me desiludo, eu amo-te, esqueces? E adoro ter-te e estou tudo menos desiludida. Nem imaginas como o meu coração começou a bater mais forte há medida que a hora de sair se aproximava, fiquei cada vez mais excitada. Era como se me esperasses lá fora e os teus olhos me procurassem por entre a multidão. Recebeste o email das almas gémeas? É isso que sinto contigo apesar de nunca ter estado ao pé de ti. A sintonia é tão grande que parece que te conheço desde sempre. As sensações que me provocas...E adorei o email-telegrama, fartei-me de rir e puseste-me em fogo, só assim, por pensar em ti, minha alma querida, meu amor."
Que fazer? Uma alma adormecida, descrente dos seu préstimos, acomodada a uma vivência repartida entre o ser e o não ser. O nada subsistente na razão do ser, como um absoluto vindo de uma outra essência de si. O resultado é sempre arrasador. Se subsiste transforma em erosão corrosiva uma ideia que era para ser eterna. Mas se é um devaneio de uma outra alma, ou a força de um desejo, ou a convicção profunda que pretende ter encontrado a razão do ser para continuar sendo, Mas que a meio do percurso inverte, ou por cansaço, ou por lhe surgir , enfim, o absurdo da ideia. Agora com a clareza que a sofreguidão do achado não permitiu ver na hora.
As almas envolveram-se, deram tudo como se fosse a última oportunidade, deram o que não tinham dado a mais ninguém e o que fica na absorção do desfecho ,já esperado mas não aceite, a considerar-se inesperado, é um desespero de ausência a que as almas não estão habituadas. E sofrem ambas. Esbracejam, tentando apaziguar os efeitos colaterais deixados no âmago de si, de onde não é possivel extrair nada, agridem-se mutuamente, onde antes era só amor, ostracizam-se, cultivam uma indiferença que não é possivel e deixam-se cair na melancólica solidão.
Exorto as almas de todo o mundo a que se disponham a uma sã reflexão introspectiva.
Somos apenas uma alma em tantos milhões de almas e não temos como nos controlar. é um enigma. a alma e o que a induz ao sublime ou a perverte criadora de ilusão. Não há certezas, aconteceu.
Não há explicações para os aspectos e os desígnios da alma. Mas devemos continuar a procura até ao infinito. Procurar saber se alma não é o tudo, se para além da alma e do corpo há um outro elemento de nós, de bem dentro de nós, que comanda a alma e toda a consciência do que julgamos saber. Se a essência do ser se reparte em diferentes aspectos do próprio ser, onde a alma é o mais irrequieto, porque se coloca do lado de fora de nós, de onde nos vê, deixando-se sentir sem se deixar ver. Como quando digo a alguém:
"Não vou, nem canso.", e momentos depois me vou de cansaço.
Que força é esta contra a qual não há estratégia de defesa ou ataque possível?
Que nos toma, nos surpreende e nos arrasa...
Nota:
Este Natal ou no Aniversário de alguém especial, ofereça um quadro da vida romanceado. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
A alma está por dentro e do outro lado, do lado de fora de nós e é de onde bebe as interferências cósmicas que nos diferem de um dia para o outro ou em apenas momentos do dia.
Podemos amar um corpo, saciar-nos nele até à exaustão que será sempre efémera, mas amar a alma de alguém, mesmo sem lhe conhecer a matéria, o cheiro e o sabor, através dum livro, de escritos epistolo-gráficos, da voz em off de imagem, do simples imaginário criado no submundo virtual da ideia, é raro e de efeitos devastadores na vivência do presente, de cada dia presente que se prepara para ser futuro.
Quando alguém, a alma de alguém, nos diz que "Somos perfeitos um para o outro, a perfeição não existe em ninguém , prefiro continuar a pensar assim." São diatribes da alma que se inquieta perante o desabrochar de emoções que as palavras suscitam. Porque não há perfeições. O conjunto da frase sai confuso, porque a própria alma se confundiu, mas provoca um efeito na alma que a recebe e que está receptiva. Porquê? Ou " que nunca ninguém me fez sentir assim", a alma sente a importância de ter sido ousada, de ter caminhado ao encontro daquela outra, carente, apaixonada que persegue a substância do amor, o que lhe falta, ou que não conheceu ainda, ou não sabe.
A alma entra em transe, desvario de exaltantes emoções criadas pelas palavras e pelo imaginário em abstracto que se pretende solidificar e lança em jeito de desafio, não à outra que sente já aprisionada, mas a si própria, a ganhar força no sentido e na ênfase das palavras que transmite de si: "E como te quero ter... continuo a ler o que escreveste "tanto fogo que nos arde e não se apaga", não sei que fogo é este meu amor, nem quero saber, quero é senti-lo, sentir-te, lamber-te, sugar-te, beber-te... onde estás? Lá vou eu outra vez."
E é um deleite envolvente. Todo o corpo estremece e sente o estremecer do outro, como se fosse a primeira vez de cada qual.
Mas se do outro lado da alma persiste a dúvida, se procura desanuviar a crescente fixação , a alma forte não desiste. "Achei!...Não vou deixar fugir o que sinto ser o que sempre procurei.
És meu!... Ouviste?..És meu!...Estás aí? Quem és tu? O que fazes? O que fizeste? Porque procuras outras mulheres se amas a tua? Porquê? És um bom samaritano apenas e esperas resolver as frustrações de todas as mulheres que aparecem ou procuras um amor maior para ti?" O desafio inteligente. Se a alma cede, se o que procura é de facto um outro amor maior, entrega-se à insistência que promete calor na frieza do momento. Mas se resiste, é como se ficasse para sempre a dúvida de sentir uma outra face do amor, diferente, a provocar o doce sabor de uma nova vida refulgente onde a bruma cobria parte do brilho que o tempo amaciara. A dúvida instala-se na alma desassossegada e nem a confissão de que se havia enganado, a outra, que se tinha apaixonado julgando ser um outro que não respondia e que as parecenças eram tantas que agora era a alma insegura que viera em resposta aos seu apelos que ela queria amar, sem corpo, sem cheiros nem sabores Bastar-se da alma que sentia nas palavras.Tê-la a todo o custo, quando a sentia desanimar, pretextar evasões."Tenho que te animar, estás sempre a dizer que me desiludo, eu amo-te, esqueces? E adoro ter-te e estou tudo menos desiludida. Nem imaginas como o meu coração começou a bater mais forte há medida que a hora de sair se aproximava, fiquei cada vez mais excitada. Era como se me esperasses lá fora e os teus olhos me procurassem por entre a multidão. Recebeste o email das almas gémeas? É isso que sinto contigo apesar de nunca ter estado ao pé de ti. A sintonia é tão grande que parece que te conheço desde sempre. As sensações que me provocas...E adorei o email-telegrama, fartei-me de rir e puseste-me em fogo, só assim, por pensar em ti, minha alma querida, meu amor."
Que fazer? Uma alma adormecida, descrente dos seu préstimos, acomodada a uma vivência repartida entre o ser e o não ser. O nada subsistente na razão do ser, como um absoluto vindo de uma outra essência de si. O resultado é sempre arrasador. Se subsiste transforma em erosão corrosiva uma ideia que era para ser eterna. Mas se é um devaneio de uma outra alma, ou a força de um desejo, ou a convicção profunda que pretende ter encontrado a razão do ser para continuar sendo, Mas que a meio do percurso inverte, ou por cansaço, ou por lhe surgir , enfim, o absurdo da ideia. Agora com a clareza que a sofreguidão do achado não permitiu ver na hora.
As almas envolveram-se, deram tudo como se fosse a última oportunidade, deram o que não tinham dado a mais ninguém e o que fica na absorção do desfecho ,já esperado mas não aceite, a considerar-se inesperado, é um desespero de ausência a que as almas não estão habituadas. E sofrem ambas. Esbracejam, tentando apaziguar os efeitos colaterais deixados no âmago de si, de onde não é possivel extrair nada, agridem-se mutuamente, onde antes era só amor, ostracizam-se, cultivam uma indiferença que não é possivel e deixam-se cair na melancólica solidão.
Exorto as almas de todo o mundo a que se disponham a uma sã reflexão introspectiva.
Somos apenas uma alma em tantos milhões de almas e não temos como nos controlar. é um enigma. a alma e o que a induz ao sublime ou a perverte criadora de ilusão. Não há certezas, aconteceu.
Não há explicações para os aspectos e os desígnios da alma. Mas devemos continuar a procura até ao infinito. Procurar saber se alma não é o tudo, se para além da alma e do corpo há um outro elemento de nós, de bem dentro de nós, que comanda a alma e toda a consciência do que julgamos saber. Se a essência do ser se reparte em diferentes aspectos do próprio ser, onde a alma é o mais irrequieto, porque se coloca do lado de fora de nós, de onde nos vê, deixando-se sentir sem se deixar ver. Como quando digo a alguém:
"Não vou, nem canso.", e momentos depois me vou de cansaço.
Que força é esta contra a qual não há estratégia de defesa ou ataque possível?
Que nos toma, nos surpreende e nos arrasa...
Nota:
Este Natal ou no Aniversário de alguém especial, ofereça um quadro da vida romanceado. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
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04/09/2008
ENTRE O SONHO E A REALIDADE
Os teus cabelos ondulam ao vento, uma brisa amena, mas suficiente para os fazer mover , como as ondas serenas que beijam a areia da praia, indolentes, tímidas, num deleite luxuriante.
É Setembro, um mês que elegeste, que elegeram à revelia da tua vontade, mas que aceitaste eleger, como se foras tu, o mês "D", o mês do sonho que sonhaste envolto em brumas espessas, inevitavelmente espessas, para que se escondesse de ti o sabor mágico, enigmático da realidade. Uma realidade que sempre quiseste sonho, alimentando de dentro do teu ser, da essência do que és e não te deixa aperceber , o doce sabor e o sentir do sonho que veio do outro lado do sonho.
Está no seu lugar de encanto, o sorriso indizível. As palavras que foram, que são um monumento diáfano erigido ao amor, que despertaram em ti e de ti o sentimento de uma nova paixão..
Fizeste um balanço exaustivo, consultaste os deuses reunidos em assembleia interplanetária, bebeste da sua sabedoria, desenraizaste do sonho a realidade, como um tumor arrancado a frio, choraste a dor.
As tuas mãos finas, delicadas, brincam com os grãos de areia fina que saturam a praia. Grãos que se esgueiram , como sonhos. Que se tornam em pó, que nos cegam, cortam a pele quando o vento se ufana da sua valentia.
Pelo caminho caíram outras realidades que faziam parte do sonho. Ou que se colaram sem querer, sem quereres, porque a ansiedade de ser verdade te fez acreditar que eram a realidade do sonho. Não foi da tua vontade, colaram-se. Enganaram-te nas entrelinhas das palavras que indiciavam príncipes e castelos rodeados de espaços verde de evasão.
A vontade é tua, o sonho é teu, não viessem, não se atravessassem no teu caminho de fantasia que buscava uma realidade concreta. O amor.
Encontrar o amor por quem sempre foste apaixonada e que é a razão maior de todo o teu viver. O amor que tu amas é uma alma imensa sem corpo, advinda de sonho em sonho, inconstante na forma e no ser que contróis, ou que se contrói na tua poderosa imaginação. Sentes que os corpos que te amam, que te amaram , não têm, nunca tiveram alma. São voláteis à volta do teu corpo, porque te moves acima, estás por fora deles que rodopiam nas brumas da névoa que cobre o mar e te impede de ver e impede que te vejam.
Quando o teu corpo dorme a alma desperta sonha. Sonhas sempre .Quando o teu corpo relaxa e pensas, devaneias no ideal que que almejas, é um outro sonho que se pretende afirmar, que arreda outros, e assim até ao infinito de ti enquanto vida.
Conheci alguém que fez de viver um romance. Sonhou que a vida era um livro imenso, desordenado, de páginas em branco, a que haveria de acrescer imagens escritas ou pictóricas, à medida do tempo. Foi um tudo e um nada em constante desarmonia na busca de verdades inexistentes e a cada descoberta do embuste, refazia-se no ideal que um dia, se persistisse na senda da procura, terminaria o livro com sucesso.
É um tudo ou nada
Queres amar, queres ser amada de uma forma que só tu sabes, sem cedências, sem limar arestas, porque tudo é perfeito. Está tudo idealizado em ti. Os tempos certos. O perfil. A definição dos espaços. A partilha de ambições. A conquista antes do sexo. O namoro eterno. As festas, os amigos. Estás apaixonada. Plena de evasões alucinantes. Os teus olhos brilham, o teu corpo inquieta-se, estás no meio so sonho e tudo se encaixa como previste. Agora é a sério, real, definitivamente real. Os teus pés movem-se em movimentos dúctis, graciosos, as mãos como asas e os olhos elevados, rompendo as brumas que insistem numa última tentativa para te ocultar, mas o sol brilha no seu lugar ainda eterno, desanuvia os flocos da névoa marítima. Firmas-te ansiosa, o coração em palpitações arritmicas, uma sufocação na garganta que procura soltar sons, os sons que se aglomeram da parte da alma aprisionada, num outro espaço de ti que ainda não visitaras.
É um som cavo que te sai da garganta ressequida pelo sal que aspiras e porque julgas ver um barco que se aproxima da costa, que não viras antes, que surgiu de súbito por entre as farripas de nevoeiro que se esfumavam por acção do sol. E de dentro do barco, imponente, o sorriso brando, enigmático, uma figura estranha que sempre amaste de antes do dia que elegeste como " D ". E viste que do mar tão manso uma onda sem nexo. De onde esta onda? se preparava para cobrir o barco, afundando-o . E pensaste que afundando-se se afundava o sonho e a realidade.
E gritaste. Correste em pânico por água adentro, numa tentativa vã de evitares o desastre que se sentia . O barco lentamente submergindo e a figura estática do teu príncipe, inalterável na postura. O sorriso. Gritaste mais forte. Não!!!... Sim ouviste o teu grito...
E acordaste no sonho, ainda sonho, um outro que se sobrepusera, a perguntares se era verdade, se tu própria eras de verdade, se eras sonho se eras realidade.
E acordaste!...
É Setembro, um mês que elegeste, que elegeram à revelia da tua vontade, mas que aceitaste eleger, como se foras tu, o mês "D", o mês do sonho que sonhaste envolto em brumas espessas, inevitavelmente espessas, para que se escondesse de ti o sabor mágico, enigmático da realidade. Uma realidade que sempre quiseste sonho, alimentando de dentro do teu ser, da essência do que és e não te deixa aperceber , o doce sabor e o sentir do sonho que veio do outro lado do sonho.
Está no seu lugar de encanto, o sorriso indizível. As palavras que foram, que são um monumento diáfano erigido ao amor, que despertaram em ti e de ti o sentimento de uma nova paixão..
Fizeste um balanço exaustivo, consultaste os deuses reunidos em assembleia interplanetária, bebeste da sua sabedoria, desenraizaste do sonho a realidade, como um tumor arrancado a frio, choraste a dor.
As tuas mãos finas, delicadas, brincam com os grãos de areia fina que saturam a praia. Grãos que se esgueiram , como sonhos. Que se tornam em pó, que nos cegam, cortam a pele quando o vento se ufana da sua valentia.
Pelo caminho caíram outras realidades que faziam parte do sonho. Ou que se colaram sem querer, sem quereres, porque a ansiedade de ser verdade te fez acreditar que eram a realidade do sonho. Não foi da tua vontade, colaram-se. Enganaram-te nas entrelinhas das palavras que indiciavam príncipes e castelos rodeados de espaços verde de evasão.
A vontade é tua, o sonho é teu, não viessem, não se atravessassem no teu caminho de fantasia que buscava uma realidade concreta. O amor.
Encontrar o amor por quem sempre foste apaixonada e que é a razão maior de todo o teu viver. O amor que tu amas é uma alma imensa sem corpo, advinda de sonho em sonho, inconstante na forma e no ser que contróis, ou que se contrói na tua poderosa imaginação. Sentes que os corpos que te amam, que te amaram , não têm, nunca tiveram alma. São voláteis à volta do teu corpo, porque te moves acima, estás por fora deles que rodopiam nas brumas da névoa que cobre o mar e te impede de ver e impede que te vejam.
Quando o teu corpo dorme a alma desperta sonha. Sonhas sempre .Quando o teu corpo relaxa e pensas, devaneias no ideal que que almejas, é um outro sonho que se pretende afirmar, que arreda outros, e assim até ao infinito de ti enquanto vida.
Conheci alguém que fez de viver um romance. Sonhou que a vida era um livro imenso, desordenado, de páginas em branco, a que haveria de acrescer imagens escritas ou pictóricas, à medida do tempo. Foi um tudo e um nada em constante desarmonia na busca de verdades inexistentes e a cada descoberta do embuste, refazia-se no ideal que um dia, se persistisse na senda da procura, terminaria o livro com sucesso.
É um tudo ou nada
Queres amar, queres ser amada de uma forma que só tu sabes, sem cedências, sem limar arestas, porque tudo é perfeito. Está tudo idealizado em ti. Os tempos certos. O perfil. A definição dos espaços. A partilha de ambições. A conquista antes do sexo. O namoro eterno. As festas, os amigos. Estás apaixonada. Plena de evasões alucinantes. Os teus olhos brilham, o teu corpo inquieta-se, estás no meio so sonho e tudo se encaixa como previste. Agora é a sério, real, definitivamente real. Os teus pés movem-se em movimentos dúctis, graciosos, as mãos como asas e os olhos elevados, rompendo as brumas que insistem numa última tentativa para te ocultar, mas o sol brilha no seu lugar ainda eterno, desanuvia os flocos da névoa marítima. Firmas-te ansiosa, o coração em palpitações arritmicas, uma sufocação na garganta que procura soltar sons, os sons que se aglomeram da parte da alma aprisionada, num outro espaço de ti que ainda não visitaras.
É um som cavo que te sai da garganta ressequida pelo sal que aspiras e porque julgas ver um barco que se aproxima da costa, que não viras antes, que surgiu de súbito por entre as farripas de nevoeiro que se esfumavam por acção do sol. E de dentro do barco, imponente, o sorriso brando, enigmático, uma figura estranha que sempre amaste de antes do dia que elegeste como " D ". E viste que do mar tão manso uma onda sem nexo. De onde esta onda? se preparava para cobrir o barco, afundando-o . E pensaste que afundando-se se afundava o sonho e a realidade.
E gritaste. Correste em pânico por água adentro, numa tentativa vã de evitares o desastre que se sentia . O barco lentamente submergindo e a figura estática do teu príncipe, inalterável na postura. O sorriso. Gritaste mais forte. Não!!!... Sim ouviste o teu grito...
E acordaste no sonho, ainda sonho, um outro que se sobrepusera, a perguntares se era verdade, se tu própria eras de verdade, se eras sonho se eras realidade.
E acordaste!...
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31/08/2008
SAMSARA- DIÁLOGOS DA ALMA
Quando o comandante do avião anunciou a descida para o aeroporto do Funchal, um tremor de emoção percorreu o meu corpo adormecido, acordando-me de um leve torpor e deixando retidas na minha memória imagens fantásticas de nuvens a galope, sobrepondo-se umas ás outras em imensos flocos de uma brancura e de uma leveza sensual.
A dada altura, provavelmente por a descida ser bem acentuada, a pressão que se faz sentir, parece querer fazer saltar todo o cérebro, numa sensação estranha que eu já tinha sentido em África, quando viajei num pequeno avião de guerra. As entranhas a quererem saltar, todo eu. Surdo, abrir as maxilas. Uma dor fortemente aguda nas frontes. A impressão de que o cérebro vai rebentar a todo o momento. O susto e o toque salvador das rodas na pista.
Chegar numa manhã de Domingo, o Sol castigador, desde logo cedo.
Enquanto espero as malas da bagagem, acendo um cigarro e olho em volta. E dou de olhos nos teus olhos, castanhos, refulgentes de vida mas tristes. O que sobressai de ti é o sorriso, imenso de simpatia, de sinceridade plena.
Quando deste por eu te olhar, os teus tomaram uma atitude altiva. Levantaste um pouco mais os teus belos cabelos castanhos que te caíam sobre os ombros. Bonita, pensei, mas estranho aquele olhar e o que vai naquela alma.
Absorvido nos meus pensamentos de ti, deixei cair o isqueiro e tu apressaste-te a apanhá-lo. Os meus olhos nos teus olhos e o teu sorriso.
“Olá. Chamo-me neoabjeccionismo e sinto que na temperatura amena da Ilha mais cosmopolita, o teu rosto é um mimo de encantos. e a imagem de Princesa Esquimó, um sonho de mudança”.
Levantaste-te com um ar irritado pelo tom atrevido das minhas palavras. Nem eu sei porque as disse, como fui capaz de as dizer. Foi um impulso abusivo de mim, de algo de mim que subiste em mistério. Os teus lábios fecharam o sorriso, uma nuvem espessa cobriram a retina dos olhos que antes brilhavam, e disseste, a voz trémula, grave
“Não sei se dê a boas vindas a uma pessoa que se chama "neoabjeccionismo". Os teus pais não gostavam de ti, ou o "Neo" quer dizer algo "muito à frente" que só um Uraniano compreenderia? Mas como sou um Rato Balança...Vou dar o benefício da dúvida e vou mesmo fazer um esforço para acreditar que o que disseste é cheio de boas intenções. Sou a Samsara.
Chegaram-me as malas e a pessoa que esperavas e saíste deitando-me um olhar de despeito.
Chegado ao hotel tomei um duche para me refrescar e fui ver a Cidade.
A primeira impressão de uma estranha e sensual beleza. O asseio nos passeios. O casario subindo os declives, o mar azul e a lembrança de miúdos, quando brincávamos no juncal, em jeito de desafio.
-É malta, levamos uma chata e vamos a remar até à Madeira. No mapa era como se a distância se medisse com um palmo.
Estava tão longe de um dia ser possível realizar esse sonho. E aqui estava eu. Madeira, a Pérola do Atlântico.
Comecei por vaguear por toda a parte baixa da cidade, encantando-me da arquitectura, das belas mulheres encaloradas, de múltiplas Nacionalidades, da vista sob as íngremes montanhas, até aos picos, nublados por densas nuvens, aqui e ali deixando que se abrisse o azul do céu.
A marina e os restaurantes em forma de barco, ou mesmo de antigos barcos recuperados para o efeito, A alameda ajardinada e embelezada de quiosques entre palmeiras e outras plantas e flores exóticas.
Percorrer a via Atlântica, longa e recheada de motivos de paragem, a fortaleza, os jardins em escada que vão dar ao casino e os próprios jardins do casino, de plantas luxuriantes e lindas de uma beleza de verdes e multi cores que contrasta com a imensidão azul do mar.
E como aquilatar da beleza sem ter por oposição a coisa feia, o desajuste da harmonia que se sente em canta encanto. Nos olhos das pessoas que não sorriem. Nos miúdos andrajosos que vagueiam desajustados do fausto da paisagem. O clima quente e húmido que me cola a camisa ao corpo.
Eu fora convidado para a inauguração duma livraria que se propunha ser um veículo de cultura, moderno e diferente de outros modelos já existentes na Cidade, a temática da cultura para todos e ao serviço de todos, as novas fronteiras do conhecimento e do saber...
Jantei nos Combatentes, servido por empregadas de Libré e um sorriso de enorme simpatia, em frente um dos belos jardins da cidade.
Quando cheguei ao local do evento, no Madeira shopping, a noite descera sobre a cidade e mostrava-me um deslumbrante espectáculo de cor e luz, das casas que subiam a montanha em toda a volta para onde eu olhasse. É um êxtase.
Já havia muitos convidados que se passeavam de copo na mão e petiscando das iguarias espalhadas em pequenas mesas ao redor da sala. E dei de caras com ela, que se ria em cristalinas gargalhadas com um grupo de amigas e que se quedou ao ver-me, de repente, como se de um fantasma.
Sorri para ela e disse em jeito de cumprimento:
“Olá, Samsara, para quem me dá um desprezível beneficio da dúvida, vê-la duas vezes num mesmo dia, não está nada mau. Quero reafirmar a sinceridade do que disse. E quanto ao neoabjeccionismo, é uma corrente de escrita, como que uma filosofia do desespero, que deriva do abjeccionismo, que não procura ofender ninguém em particular. E não me pareceu nada ético, que da sua principesca tribuna tenha chamado à vida, os meus falecidos pais. Mas vindo desta região , já nada me admira”
Tinha-se feito um silêncio em volta. As tuas amigas não perceberam o que se passava, o porquê daquelas palavras e ditas com um sorriso. Tu ficaste vermelha , mas os teus olhos brilhavam e intempestivamente largaste uma sonora gargalhada.
Uma das tuas amigas, a Luísa não gostou do meu tom, nem de algumas das minhas palavras e sem rodeios, citando-me, para melhor se situar:
“ “Mas vindo desta região, já nada me admira?”...Que engraçado, pelos vistos não a conhece, a Samsara não é Madeirense. Apenas costuma dizer que se sente mais Madeirense. Ou está a dizer que as gentes do Continente são mal educadinhas? Hum...talvez seja mesmo isso que quis dizer.
Ups...ou será que não?...”
Luísa, penso num relâmpago, tão bonito o teu rosto, tão jovem, os olhos grandes cintilantes, os lábios sedutores, o cabelo negro, a tua pele. Uma beleza que dói de olhar. O teu ar de desafio a parecer uma galinha da Índia empoleirada. Mas séria.. e ainda uma menina...
A anfitriã interrompe o nosso diálogo, surgindo admirada por nos ver em acalorado diálogo e sem se aperceber que eram tensas as palavras trocadas sob o ruído das conversas envolventes.
“Viva, Neo, Chegou e nem dei por si. Mas vejo que já fez amigas!...”
Carla, tinha vindo dos Açores apaixonada por um homem que lhe prometera a Lua e o Sol, sem se aperceber que o Sol e a Lua eram dois amantes condenados à solidão estática da distância. Que se encontravam de tempos a tempos quando, por motivos cósmicos, um deles eclipsa o outro dos nossos olhos. Desesperara de raiva porque se tinha entregue na sua totalidade à ilusão de um amor eterno, que não soubera distinguir da simples atracção física e do encanto das palavras galantes. ”Carla!...Valquíria da Terceira!. Exclamei, beijando-a nas faces coradas pelo ambiente ou pelo champanhe que já corria de boca em boca, gelado, doce entre acepipes de sabor contrário.
“Faço já as apresentações. A Samsara- Ui...o teu perfume, mulher, os teus lábios quentes sobre a minha pele, a sensação de frescura que deixaram. – A Luísa...- o teu beijo de lado, em falso, descomprometido de qualquer sentido que indicie amizade, mas o teu aroma a chegar-me fresco, sedutor, inocente. - A Anabela...tens um olhar longínquo, ausente, como se procurasses alguém em abstracto, mas és bela e o teu sorriso aprisiona-me. - E esta a Infiel.., o teu abraço confiante, expansivo e os beijos nas faces quase a tocar-me os lábios, atrevida, como se me quisesses sorver no momento. - Desculpem, meninas, mas vamos começar e o Neo vai ter que se sentar na mesa dos discursos..
nota:" o texto é pura ficção,qualquer semelhança de nomes é pura coincidência."
...................................................................................................................................................
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
J.R.G.
A dada altura, provavelmente por a descida ser bem acentuada, a pressão que se faz sentir, parece querer fazer saltar todo o cérebro, numa sensação estranha que eu já tinha sentido em África, quando viajei num pequeno avião de guerra. As entranhas a quererem saltar, todo eu. Surdo, abrir as maxilas. Uma dor fortemente aguda nas frontes. A impressão de que o cérebro vai rebentar a todo o momento. O susto e o toque salvador das rodas na pista.
Chegar numa manhã de Domingo, o Sol castigador, desde logo cedo.
Enquanto espero as malas da bagagem, acendo um cigarro e olho em volta. E dou de olhos nos teus olhos, castanhos, refulgentes de vida mas tristes. O que sobressai de ti é o sorriso, imenso de simpatia, de sinceridade plena.
Quando deste por eu te olhar, os teus tomaram uma atitude altiva. Levantaste um pouco mais os teus belos cabelos castanhos que te caíam sobre os ombros. Bonita, pensei, mas estranho aquele olhar e o que vai naquela alma.
Absorvido nos meus pensamentos de ti, deixei cair o isqueiro e tu apressaste-te a apanhá-lo. Os meus olhos nos teus olhos e o teu sorriso.
“Olá. Chamo-me neoabjeccionismo e sinto que na temperatura amena da Ilha mais cosmopolita, o teu rosto é um mimo de encantos. e a imagem de Princesa Esquimó, um sonho de mudança”.
Levantaste-te com um ar irritado pelo tom atrevido das minhas palavras. Nem eu sei porque as disse, como fui capaz de as dizer. Foi um impulso abusivo de mim, de algo de mim que subiste em mistério. Os teus lábios fecharam o sorriso, uma nuvem espessa cobriram a retina dos olhos que antes brilhavam, e disseste, a voz trémula, grave
“Não sei se dê a boas vindas a uma pessoa que se chama "neoabjeccionismo". Os teus pais não gostavam de ti, ou o "Neo" quer dizer algo "muito à frente" que só um Uraniano compreenderia? Mas como sou um Rato Balança...Vou dar o benefício da dúvida e vou mesmo fazer um esforço para acreditar que o que disseste é cheio de boas intenções. Sou a Samsara.
Chegaram-me as malas e a pessoa que esperavas e saíste deitando-me um olhar de despeito.
Chegado ao hotel tomei um duche para me refrescar e fui ver a Cidade.
A primeira impressão de uma estranha e sensual beleza. O asseio nos passeios. O casario subindo os declives, o mar azul e a lembrança de miúdos, quando brincávamos no juncal, em jeito de desafio.
-É malta, levamos uma chata e vamos a remar até à Madeira. No mapa era como se a distância se medisse com um palmo.
Estava tão longe de um dia ser possível realizar esse sonho. E aqui estava eu. Madeira, a Pérola do Atlântico.
Comecei por vaguear por toda a parte baixa da cidade, encantando-me da arquitectura, das belas mulheres encaloradas, de múltiplas Nacionalidades, da vista sob as íngremes montanhas, até aos picos, nublados por densas nuvens, aqui e ali deixando que se abrisse o azul do céu.
A marina e os restaurantes em forma de barco, ou mesmo de antigos barcos recuperados para o efeito, A alameda ajardinada e embelezada de quiosques entre palmeiras e outras plantas e flores exóticas.
Percorrer a via Atlântica, longa e recheada de motivos de paragem, a fortaleza, os jardins em escada que vão dar ao casino e os próprios jardins do casino, de plantas luxuriantes e lindas de uma beleza de verdes e multi cores que contrasta com a imensidão azul do mar.
E como aquilatar da beleza sem ter por oposição a coisa feia, o desajuste da harmonia que se sente em canta encanto. Nos olhos das pessoas que não sorriem. Nos miúdos andrajosos que vagueiam desajustados do fausto da paisagem. O clima quente e húmido que me cola a camisa ao corpo.
Eu fora convidado para a inauguração duma livraria que se propunha ser um veículo de cultura, moderno e diferente de outros modelos já existentes na Cidade, a temática da cultura para todos e ao serviço de todos, as novas fronteiras do conhecimento e do saber...
Jantei nos Combatentes, servido por empregadas de Libré e um sorriso de enorme simpatia, em frente um dos belos jardins da cidade.
Quando cheguei ao local do evento, no Madeira shopping, a noite descera sobre a cidade e mostrava-me um deslumbrante espectáculo de cor e luz, das casas que subiam a montanha em toda a volta para onde eu olhasse. É um êxtase.
Já havia muitos convidados que se passeavam de copo na mão e petiscando das iguarias espalhadas em pequenas mesas ao redor da sala. E dei de caras com ela, que se ria em cristalinas gargalhadas com um grupo de amigas e que se quedou ao ver-me, de repente, como se de um fantasma.
Sorri para ela e disse em jeito de cumprimento:
“Olá, Samsara, para quem me dá um desprezível beneficio da dúvida, vê-la duas vezes num mesmo dia, não está nada mau. Quero reafirmar a sinceridade do que disse. E quanto ao neoabjeccionismo, é uma corrente de escrita, como que uma filosofia do desespero, que deriva do abjeccionismo, que não procura ofender ninguém em particular. E não me pareceu nada ético, que da sua principesca tribuna tenha chamado à vida, os meus falecidos pais. Mas vindo desta região , já nada me admira”
Tinha-se feito um silêncio em volta. As tuas amigas não perceberam o que se passava, o porquê daquelas palavras e ditas com um sorriso. Tu ficaste vermelha , mas os teus olhos brilhavam e intempestivamente largaste uma sonora gargalhada.
Uma das tuas amigas, a Luísa não gostou do meu tom, nem de algumas das minhas palavras e sem rodeios, citando-me, para melhor se situar:
“ “Mas vindo desta região, já nada me admira?”...Que engraçado, pelos vistos não a conhece, a Samsara não é Madeirense. Apenas costuma dizer que se sente mais Madeirense. Ou está a dizer que as gentes do Continente são mal educadinhas? Hum...talvez seja mesmo isso que quis dizer.
Ups...ou será que não?...”
Luísa, penso num relâmpago, tão bonito o teu rosto, tão jovem, os olhos grandes cintilantes, os lábios sedutores, o cabelo negro, a tua pele. Uma beleza que dói de olhar. O teu ar de desafio a parecer uma galinha da Índia empoleirada. Mas séria.. e ainda uma menina...
A anfitriã interrompe o nosso diálogo, surgindo admirada por nos ver em acalorado diálogo e sem se aperceber que eram tensas as palavras trocadas sob o ruído das conversas envolventes.
“Viva, Neo, Chegou e nem dei por si. Mas vejo que já fez amigas!...”
Carla, tinha vindo dos Açores apaixonada por um homem que lhe prometera a Lua e o Sol, sem se aperceber que o Sol e a Lua eram dois amantes condenados à solidão estática da distância. Que se encontravam de tempos a tempos quando, por motivos cósmicos, um deles eclipsa o outro dos nossos olhos. Desesperara de raiva porque se tinha entregue na sua totalidade à ilusão de um amor eterno, que não soubera distinguir da simples atracção física e do encanto das palavras galantes. ”Carla!...Valquíria da Terceira!. Exclamei, beijando-a nas faces coradas pelo ambiente ou pelo champanhe que já corria de boca em boca, gelado, doce entre acepipes de sabor contrário.
“Faço já as apresentações. A Samsara- Ui...o teu perfume, mulher, os teus lábios quentes sobre a minha pele, a sensação de frescura que deixaram. – A Luísa...- o teu beijo de lado, em falso, descomprometido de qualquer sentido que indicie amizade, mas o teu aroma a chegar-me fresco, sedutor, inocente. - A Anabela...tens um olhar longínquo, ausente, como se procurasses alguém em abstracto, mas és bela e o teu sorriso aprisiona-me. - E esta a Infiel.., o teu abraço confiante, expansivo e os beijos nas faces quase a tocar-me os lábios, atrevida, como se me quisesses sorver no momento. - Desculpem, meninas, mas vamos começar e o Neo vai ter que se sentar na mesa dos discursos..
nota:" o texto é pura ficção,qualquer semelhança de nomes é pura coincidência."
...................................................................................................................................................
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
J.R.G.
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28/08/2008
A N A B E L A - DIÁLOGOS DA ALMA
Anabela!O que tem a Anabela? Hã???? Foi assim que tudo começou, naquela tarde Primaveril, o sol atormentado com um compacto de nuvens vindas de Norte. Imaginei, desde logo, o fogo que ardia no teu peito. O fulgor enigmático nos teus olhos castanhos. A beleza que sobressaia da tua alma aflorada apenas na tua interrogação.
Anabela. Hã!!!??? Que se passa amiga? Fui ver. E lá está de facto ...a Anabela... antes de loucos e depois de a voz ouve-se...E penso na virtude que é ter a fortuna de te haver achado entre a palavra loucos e a palavra voz e não saber o motivo. Sonhei-te. Já sei! Tínhamo-nos cruzado no blog de Samsara . Tinhas feito um, desafio, após uma prédica aos loucos . E eu ia perguntar a Samsara se a Anabela era sua amiga. foi isso. Só pode. Apareces sempre tão misteriosa, vais e vens pelos caminhos do Planeta Terra. Não dizes de onde vens, quem és, para onde vais depois de aqui, só sabes que vais pelos teus próprios pés. Saúdo-te mulher bela e formosa, e a harmonia das palavras que já de ti ouvi. O teu rosto é sereno, sabe à lírica de doce poesia. E porque não comentas a saga dos amantes desesperados, afogados em volúpia de prazeres sórdidos mas reais.? Amiga, não se passa nada. Tão só o que te expliquei acima.
Anabela a tua exclamação e o tom irritado, quase colérico da tua voz, sentida, inspirou-me esta breve composição. Achas que me saí bem? É isso, julgo que ia escrever a pergunta, se ela sabia quem eras, ou para não formular toda a pergunta deixei em uma espécie de código. Que pelos vistos a dita Samsara não ligou muito porque nunca mais me respondeu.
Fazes um compasso de espera na penumbra da sala onde o computador sobre a mesa repousa das consultas frenéticas que executas amiúde, para saberes de ti, a informação conflituosa que te vem de fora do mundo, do teu mundo, e onde reaprendes o retorno das palavras, a sua acutilância em aspectos importantes do teu viver.
Estás enganado Neo.Digo quem sou, sim...devo ser a única que assina com o seu verdadeiro nome...já te disse de onde venho...que queres saber mais?Olho de onde me vêm as tuas palavras, suaves, quentes, irritadas, ou serão maliciosas?O que eu queria e não digo, penso apenas à espera de ter a coragem de te dizer, era saber o lugar onde nasceste, onde correste a infância e viveste a adolescência, onde amaste pela primeira vez, onde aprendeste os segredos da descrição, a sublimidade dos gestos e da sabedoria. De onde vieste menina para continuar o sentido de ser mulher. Se amas, se és amada, se queres amar se esperas por ser amada, se sofres...
Anabela.Admiro-te pela graça, pela ousadia e o tom das tuas palavras. Imagino que és uma mulher de grande sensibilidade. Que estás ferida de uma qualquer situação mas não sentes ainda, espero que venhas a sentir, a confiança neste espaço onde entraste e só viste mixórdia e insanidade, ou aparente insanidade. Quero dizer-te que aqui tudo é falso menos as palavras de todos os intervenientes, eu devia falar só por mim, mas atrevo-me a acreditar nas análises das palavras e a atribuir-lhes vida e conexões várias de per si e entre si. ( e da música, gostas?), Quem aqui entra é porque está interessado na procura, para mais se entra e fala. Tu falaste minha amiga, e eu acredito que tens de ter algo de mais substancial para nos ajudar e te ajudar na busca do sentido dos desejos, de como desmistificar os dramas que as pessoas enfrentam e fortalecermos a confiança de cada um para enfrentar-se enquanto destino.As tuas palavras acima, querem dizer intervenção. E eu digo que sim, intervém. Ganha confiança em mim, em nós.
A tua voz ainda soa longe do tom amigo e fraterno com que te falo, com que tento ganhar-te, porque te sinto importante, porque a tua luminosidade confunde-me com o êxtase da Luz Divina, e quero beber de ti, imbuir-me de ti...Neo. Não sinto confiança, pois para esta existir, a meu ver, tem que se olhar para a outra pessoa, sentir o seu olhar...podemos trocar ideias, espicaçar-nos mentalmente, aprendermos coisas uns com os outros...mas confiar plenamente?... desculpa-me mas não consigo...Espero ser uma mulher de grande sensibilidade...e por isso mesmo sinto também quem tem essa sensibilidade...a Samsara, por exemplo, é de uma sensibilidade extrema, linda como só ela..
nota parte ( II ) esá editada no blog http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt/
parte (III) está editada no blog http://samueldabo.blogs.sapo.pt/
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
J.R.G.
Anabela. Hã!!!??? Que se passa amiga? Fui ver. E lá está de facto ...a Anabela... antes de loucos e depois de a voz ouve-se...E penso na virtude que é ter a fortuna de te haver achado entre a palavra loucos e a palavra voz e não saber o motivo. Sonhei-te. Já sei! Tínhamo-nos cruzado no blog de Samsara . Tinhas feito um, desafio, após uma prédica aos loucos . E eu ia perguntar a Samsara se a Anabela era sua amiga. foi isso. Só pode. Apareces sempre tão misteriosa, vais e vens pelos caminhos do Planeta Terra. Não dizes de onde vens, quem és, para onde vais depois de aqui, só sabes que vais pelos teus próprios pés. Saúdo-te mulher bela e formosa, e a harmonia das palavras que já de ti ouvi. O teu rosto é sereno, sabe à lírica de doce poesia. E porque não comentas a saga dos amantes desesperados, afogados em volúpia de prazeres sórdidos mas reais.? Amiga, não se passa nada. Tão só o que te expliquei acima.
Anabela a tua exclamação e o tom irritado, quase colérico da tua voz, sentida, inspirou-me esta breve composição. Achas que me saí bem? É isso, julgo que ia escrever a pergunta, se ela sabia quem eras, ou para não formular toda a pergunta deixei em uma espécie de código. Que pelos vistos a dita Samsara não ligou muito porque nunca mais me respondeu.
Fazes um compasso de espera na penumbra da sala onde o computador sobre a mesa repousa das consultas frenéticas que executas amiúde, para saberes de ti, a informação conflituosa que te vem de fora do mundo, do teu mundo, e onde reaprendes o retorno das palavras, a sua acutilância em aspectos importantes do teu viver.
Estás enganado Neo.Digo quem sou, sim...devo ser a única que assina com o seu verdadeiro nome...já te disse de onde venho...que queres saber mais?Olho de onde me vêm as tuas palavras, suaves, quentes, irritadas, ou serão maliciosas?O que eu queria e não digo, penso apenas à espera de ter a coragem de te dizer, era saber o lugar onde nasceste, onde correste a infância e viveste a adolescência, onde amaste pela primeira vez, onde aprendeste os segredos da descrição, a sublimidade dos gestos e da sabedoria. De onde vieste menina para continuar o sentido de ser mulher. Se amas, se és amada, se queres amar se esperas por ser amada, se sofres...
Anabela.Admiro-te pela graça, pela ousadia e o tom das tuas palavras. Imagino que és uma mulher de grande sensibilidade. Que estás ferida de uma qualquer situação mas não sentes ainda, espero que venhas a sentir, a confiança neste espaço onde entraste e só viste mixórdia e insanidade, ou aparente insanidade. Quero dizer-te que aqui tudo é falso menos as palavras de todos os intervenientes, eu devia falar só por mim, mas atrevo-me a acreditar nas análises das palavras e a atribuir-lhes vida e conexões várias de per si e entre si. ( e da música, gostas?), Quem aqui entra é porque está interessado na procura, para mais se entra e fala. Tu falaste minha amiga, e eu acredito que tens de ter algo de mais substancial para nos ajudar e te ajudar na busca do sentido dos desejos, de como desmistificar os dramas que as pessoas enfrentam e fortalecermos a confiança de cada um para enfrentar-se enquanto destino.As tuas palavras acima, querem dizer intervenção. E eu digo que sim, intervém. Ganha confiança em mim, em nós.
A tua voz ainda soa longe do tom amigo e fraterno com que te falo, com que tento ganhar-te, porque te sinto importante, porque a tua luminosidade confunde-me com o êxtase da Luz Divina, e quero beber de ti, imbuir-me de ti...Neo. Não sinto confiança, pois para esta existir, a meu ver, tem que se olhar para a outra pessoa, sentir o seu olhar...podemos trocar ideias, espicaçar-nos mentalmente, aprendermos coisas uns com os outros...mas confiar plenamente?... desculpa-me mas não consigo...Espero ser uma mulher de grande sensibilidade...e por isso mesmo sinto também quem tem essa sensibilidade...a Samsara, por exemplo, é de uma sensibilidade extrema, linda como só ela..
nota parte ( II ) esá editada no blog http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt/
parte (III) está editada no blog http://samueldabo.blogs.sapo.pt/
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
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22/08/2008
CRÓNICA DA CIDADE GRANDE
Vista de onde eu a vejo, a Cidade é extensa e intensa, dorme de luzes acesas em continuo e tem a Lua poderosa como estigma dos sonhos.
Estou do outro lado da Cidade grande, descaído para a foz do rio que a banha vindo de Espanha. Na marginal correm luzes possessas sem destino. Infinitas. Sei quando é o comboio, pelas janelas iluminadas, o som das rodas nos carris de ferro, ou quando é uma ambulância que se esgueira por entre os possessos dos outros, distraídos, a verem de onde vem o som de alarme, de SOS, se é para eles ou para uns outros .
Estou na penumbra da outra margem obscura frente à cidade grande e tive sonhos, tenho sonhos, de ser grande como a Cidade
O brilho da Lua quase ofusca as luzes da Cidade e produz ecos que ressoam na minha memória incandescente. A brisa é fresca, suave, amena e em frente há casa com luzes acesas.
Fixo os meus olhos em uma delas, é como se um pisca-pisca alucinante, como um íman poderoso, distante, me apelasse o registo. Sim, são dois vultos que se movem, parecem lutar pela posse de algo que não vejo ainda bem. Sinto que são um homem e uma mulher, ainda jovens. Acusam-se mutuamente, gritam, choram e agarram-se desesperadamente, soltando palavras que ferem. Culpabilizando-se. E movem-se em contínuos movimentos de vai e vem em roda de um candeeiro de mesa ou de tecto.
_Acreditei nos teus sentimentos. Na tua lealdade. Saíste-me um traste. São palavras da mulher entre soluços de dor profunda._ deixaste de me amar.
_Tu é que só pensas em ti, não tens a noção de projecto conjunto, de espaço. Já não me amas e eu amo-te. Quero amar-te sempre. _São dele, as palavras proferidas no silêncio aparente da Cidade. Silêncio absurdo sobressaindo dos ruídos.
Percebo, o que eles disputam. É algo invisível que se lhes escapa a cada gesto Disputam amor, algo que sentiram, que sentem, mas que não entendem como se esfuma, se esvai deles que o querer reter, porque o queriam estanque, à mão de cada zanga, à mão dos desejos quando o desespero de ficar só aperta o sentimento de amar.
Desvio os olhos para a luz azul celeste na negritude da noite. Impaciente perante a passividade, o condutor liga a sirene. Leva uma criança que chora, que arde em febre de origem desconhecida. Um homem e uma mulher trocam olhares de socorro mútuo. Dizem palavras com os olhos, entre si e para a criança que lhes estende os braços. O seu filho. E é amor o que vejo, tanto que me seduz, me pára o pensamento, me encanta de mim, porque são formas de amor distintas que eu vejo naqueles olhos e naqueles olhares. Amores diversos, acutilantes, que se entre cruzam.
Gente jovem deambula pelas ruas em busca de mais horas de vida. Garrafas de cerveja nas mãos, risos estridentes, palavreado fácil, inútil. Apenas palavras para se ouvirem. Palavras que procuram projectar alegrias em si e nos outros. Palavras , por vezes amargas, outras obscenas, arrogantes ou simplesmente afectuosas, se são amantes. Palavras para esquecer ao dealbar do dia. Que fiz? Por onde andei? Que foi que disse ou prometi? E a quem? E amanhã?
Vejo brigas, discussões fúteis que provocam agressões. Assaltos de delinquentes menores.
Capitães da rua, decididos, disciplinados, cheios de vontade de serem maiores, ou tão grandes como a cidade. Seguem em grupo porque sozinhos perdem a força. Caçam como as Leoas, em grupo, escolhem a presa, também a mais fraca, debilitada.
Há gente que trabalha, despudoradamente, trabalha na noite para que a Cidade não estagne. Trabalham para poder pagar tudo o que gastam , que se torna numa justificante, para continuarem a trabalhar. A apresentação, o carro, a alimentação, a casa própria, o estatuto, a moda.
Vagabundos alienados procuram insistentemente nos caixotes de lixo algo que os reconforte. Têm pressa, antes da recolha que os inibe desse prazer de achar. Vasculham. Lançam impropérios por entre os dentes moídos, descarnados quando se riem.
Ás vezes procuram apenas um pedaço de cartão que lhes sirva de cama, um leito diferente, de cores e cheiros. Discutem uns com os outros, é meu! A garrafa vazia.
A Lua aproxima-se inexoravelmente da linha do horizonte, de onde passará para o outro lado de onde a vemos, estamos, de onde estou. E sei que o seu movimento produz mutações, alimenta desejos. Sei que influi na essência das almas que vagueiam na noite. E nas que dormem, que se disputam nos sonhos.
Estamos no dealbar de uma nova aurora e ainda tenho tempo de olhar a luz fraca, adormecida, do 12º , imponente, do lado de onde o Sol nasce, e aperceber-me dos movimentos exaltados de dois amantes que se entregam, como que na totalidade, tal a fluidez dos gestos e dos aromas que me chegam, os gemidos de prazer, os beijos, os ais do clímax, dum absoluto de amor.
Olho os corpos desnudos, despreocupados, relaxantes que as mãos de um e outro se acariciam ternurentos.
E mais à frente, salteando de janela em janela, os solitários que a insónia mantém vigilantes, desesperados de procuras insistentes sem achado: os amores frustrados, amigos desleais, contas por pagar, o desemprego, os pais que os abandonaram sem afectos, filhos desviados, os objectivos difusos, falhas de amor próprio, procuram, no passado, no seu passado, razões de afectação ao presente e esquecem-se de si, do seu interior onde tudo adormecido podia despertar, onde se asfixiam na amalgama de sentimentos profundos, dolorosos que se comprimem na ânsia de se soltarem, de uma palavra chave, uma luz, um milagre de si.
Sinto uma mudança brusca na aragem e um clarão ténue de claridade. Vai ser dia.
Ouço as vozes cavernosas dos primeiros pescadores, dos que chegam e dos que partem.
É o momento preciso em que a Cidade perde o brilho entre a bruma opaca da manhã junto ao rio.
Imensa, a Cidade grande, é agora um esboço e regurgita de um outro tipo de vida.
Estou do outro lado da Cidade grande, descaído para a foz do rio que a banha vindo de Espanha. Na marginal correm luzes possessas sem destino. Infinitas. Sei quando é o comboio, pelas janelas iluminadas, o som das rodas nos carris de ferro, ou quando é uma ambulância que se esgueira por entre os possessos dos outros, distraídos, a verem de onde vem o som de alarme, de SOS, se é para eles ou para uns outros .
Estou na penumbra da outra margem obscura frente à cidade grande e tive sonhos, tenho sonhos, de ser grande como a Cidade
O brilho da Lua quase ofusca as luzes da Cidade e produz ecos que ressoam na minha memória incandescente. A brisa é fresca, suave, amena e em frente há casa com luzes acesas.
Fixo os meus olhos em uma delas, é como se um pisca-pisca alucinante, como um íman poderoso, distante, me apelasse o registo. Sim, são dois vultos que se movem, parecem lutar pela posse de algo que não vejo ainda bem. Sinto que são um homem e uma mulher, ainda jovens. Acusam-se mutuamente, gritam, choram e agarram-se desesperadamente, soltando palavras que ferem. Culpabilizando-se. E movem-se em contínuos movimentos de vai e vem em roda de um candeeiro de mesa ou de tecto.
_Acreditei nos teus sentimentos. Na tua lealdade. Saíste-me um traste. São palavras da mulher entre soluços de dor profunda._ deixaste de me amar.
_Tu é que só pensas em ti, não tens a noção de projecto conjunto, de espaço. Já não me amas e eu amo-te. Quero amar-te sempre. _São dele, as palavras proferidas no silêncio aparente da Cidade. Silêncio absurdo sobressaindo dos ruídos.
Percebo, o que eles disputam. É algo invisível que se lhes escapa a cada gesto Disputam amor, algo que sentiram, que sentem, mas que não entendem como se esfuma, se esvai deles que o querer reter, porque o queriam estanque, à mão de cada zanga, à mão dos desejos quando o desespero de ficar só aperta o sentimento de amar.
Desvio os olhos para a luz azul celeste na negritude da noite. Impaciente perante a passividade, o condutor liga a sirene. Leva uma criança que chora, que arde em febre de origem desconhecida. Um homem e uma mulher trocam olhares de socorro mútuo. Dizem palavras com os olhos, entre si e para a criança que lhes estende os braços. O seu filho. E é amor o que vejo, tanto que me seduz, me pára o pensamento, me encanta de mim, porque são formas de amor distintas que eu vejo naqueles olhos e naqueles olhares. Amores diversos, acutilantes, que se entre cruzam.
Gente jovem deambula pelas ruas em busca de mais horas de vida. Garrafas de cerveja nas mãos, risos estridentes, palavreado fácil, inútil. Apenas palavras para se ouvirem. Palavras que procuram projectar alegrias em si e nos outros. Palavras , por vezes amargas, outras obscenas, arrogantes ou simplesmente afectuosas, se são amantes. Palavras para esquecer ao dealbar do dia. Que fiz? Por onde andei? Que foi que disse ou prometi? E a quem? E amanhã?
Vejo brigas, discussões fúteis que provocam agressões. Assaltos de delinquentes menores.
Capitães da rua, decididos, disciplinados, cheios de vontade de serem maiores, ou tão grandes como a cidade. Seguem em grupo porque sozinhos perdem a força. Caçam como as Leoas, em grupo, escolhem a presa, também a mais fraca, debilitada.
Há gente que trabalha, despudoradamente, trabalha na noite para que a Cidade não estagne. Trabalham para poder pagar tudo o que gastam , que se torna numa justificante, para continuarem a trabalhar. A apresentação, o carro, a alimentação, a casa própria, o estatuto, a moda.
Vagabundos alienados procuram insistentemente nos caixotes de lixo algo que os reconforte. Têm pressa, antes da recolha que os inibe desse prazer de achar. Vasculham. Lançam impropérios por entre os dentes moídos, descarnados quando se riem.
Ás vezes procuram apenas um pedaço de cartão que lhes sirva de cama, um leito diferente, de cores e cheiros. Discutem uns com os outros, é meu! A garrafa vazia.
A Lua aproxima-se inexoravelmente da linha do horizonte, de onde passará para o outro lado de onde a vemos, estamos, de onde estou. E sei que o seu movimento produz mutações, alimenta desejos. Sei que influi na essência das almas que vagueiam na noite. E nas que dormem, que se disputam nos sonhos.
Estamos no dealbar de uma nova aurora e ainda tenho tempo de olhar a luz fraca, adormecida, do 12º , imponente, do lado de onde o Sol nasce, e aperceber-me dos movimentos exaltados de dois amantes que se entregam, como que na totalidade, tal a fluidez dos gestos e dos aromas que me chegam, os gemidos de prazer, os beijos, os ais do clímax, dum absoluto de amor.
Olho os corpos desnudos, despreocupados, relaxantes que as mãos de um e outro se acariciam ternurentos.
E mais à frente, salteando de janela em janela, os solitários que a insónia mantém vigilantes, desesperados de procuras insistentes sem achado: os amores frustrados, amigos desleais, contas por pagar, o desemprego, os pais que os abandonaram sem afectos, filhos desviados, os objectivos difusos, falhas de amor próprio, procuram, no passado, no seu passado, razões de afectação ao presente e esquecem-se de si, do seu interior onde tudo adormecido podia despertar, onde se asfixiam na amalgama de sentimentos profundos, dolorosos que se comprimem na ânsia de se soltarem, de uma palavra chave, uma luz, um milagre de si.
Sinto uma mudança brusca na aragem e um clarão ténue de claridade. Vai ser dia.
Ouço as vozes cavernosas dos primeiros pescadores, dos que chegam e dos que partem.
É o momento preciso em que a Cidade perde o brilho entre a bruma opaca da manhã junto ao rio.
Imensa, a Cidade grande, é agora um esboço e regurgita de um outro tipo de vida.
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19/08/2008
UMA HISTÒRIA DA VIDA - O COXO
O Cocho e eu tínhamos um compromisso de partilha, selado na taberna da Americana num dia chuvoso de Dezembro, e frio, entre dois cortadinhos de excelsa qualidade, que ele bebia de um trago, numa pausa, enquanto eu os sorvia gole a gole, guloso de os saborear com evidente luxuria gustativa.
Ele desabafava de si, do interior de si, as memórias de acontecimentos da sua vida simples, eu ouvia-o .O sr. Manuel, como vimos anteriormente em http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt/ ,.
O COXO, ficou sem uma perna e usava uma prótese artificial metálica, que os anos tornaram obsoleta, mas era o que tinha e que concertava inventando enhenhocas, sistemas alternativos de molas e engates com arames, de forma a torná-la funcional.
Tinha quatro filhas, a Gi, a Bé, a Lu e a An. Quatro lindas meninas criadas ao sabor do tempo e de uma ampla solidariedade, num tempo em que vingava um tipo de humanismo saído da Revolução Francesa e que vinha vingando na civilização Ocidental, permitindo olhar para o homem como um ser infeliz de se encontrar amargurado ao levantar e bêbado ao deitar e que era preciso dignificar, estabelecido o conceito de ter o homem como fim., para cujo alcance valiam todos os meios: declarar a guerra, roubar, espoliar, prender, arrasar a natureza e exterminar os animais "nocivos" ao homem.
O pais vivia sob uma ditadura politica e económica, em ambiente semi rural, vida simples, beatificada pela Igreja e o temor a Deus e aos poderosos.
O Coxo viera para Lisboa ainda novo, ordenhara vacas e fora condutor de sidecar, ficara sem a perna, como vimos,e no tempo que vamos descrever, no inicio dos anos 50 do século XX, o coxo era continuo numa instituição de " previdência " do estado.
Casara com uma mulher oriunda de famílias poderosas, mas que fora excomungada, deserdada à nascença, em virtude de dois acontecimentos, o pai ter casado a contragosto da família, com uma mulher de meio diferente e por ter nascido gémea, as duas tão sem graça, felosas, e haver uma outra menina esplendorosa, irmã mais velha que morreu pouco depois por ciúmes? constituir o motivo de as considerar culpadas de terem nascido. Só a Maria sobreviveu, destas três e logo que ganhou corpo foi posta a servir em casas de famílias.
O Coxo conheceu-a como sopeira e viveram uma relação apaixonada. Maria era uma linda mulher, analfabeta, mas linda. O Coxo ainda frequentara a escola, sabia ler e escrever um pouco. Era um homem bonito, bem parecido, baixo, moreno, olhos escuros e vivos.
Ele já tinha mais de quarenta anos, ela à beira dos trinta. Ela deserdada pelos seus, ele deserdado pela vida e estavam na iminência de herdar uma família.
Maria ficou grávida e logo pensaram em casar, porque o Coxo era homem de palavra. Gostava dela e queria seguir o tempo. Se o tempo era o mestre, como que um Deus, se havia um mínimo, uma base de partida, uma casa de família para os abrigar, se havia a possibilidade de uma casa social, era dar tempo ao tempo.
Nasceram as três com intervalos curtos. A Gi, a Bé, a Lu, esta já na casa nova. Maria trabalhava agora numa fábrica de conservas de peixe que abrira de novo. Trazia peixe escondido entre as mamas. O trabalho de continuo acabara porque o Coxo apanhou tuberculose. Esteve à morte, mas o tempo deu-lhe a mão, recuperou-o para o que havia de vir. E tornou-se carpinteiro de arranjos e de pequenas peças de utilidade que fazia no quintal da casa, sob um pinheiro manso, frondoso e entre canteiros de uma horta que lhe
fornecia a sopa. Tinha arte nas mãos calejadas que lhe advinha da alma simples.
Havia momentos de alegria, as raparigas faziam peças de teatro inventadas na imaginação,
por histórias e anedotas picarescas que o Coxo contava e pelos livros de leitura que a mais velha já lia e crescia nos enredos.
Maria engravidou novamente. Ficou furiosa, que a vida já era difícil e mais um , como ia ser!...
O Coxo, sereno, que se arremediariam como até então. Havia trabalho. O tempo era a favor. A favor de quê? De quem?
O que ele escondia era a sua ansiedade, pela primeira vez sentia alguma pressa, por saber se seria enfim o filho varão que tanto ambicionara. Se não fosse não era, mas gostava, era a sua paixão há anos. Um filho homem, em que pudesse reinventar-se ao vê-lo crescer, estudar, ser homem completo, como o Jean Valgean dos Miseráveis de Victor Hugo, personagem que elegia como simbolo de bondade e de justiça.
Nasceu. E era um menino, como o Coxo desejava. O seu sorriso iluminou a noite, aquela noite em que a Gi foi chamar a correr a Tia Mariana, parteira oficial do bairro, e ele a colocar a panela sobre as brasas do fogareiro, para que tivesse tempo de ferver.
Ouviu o seu berro, um grito imenso que parecia de glória, pleno de pulmões, de vida. Comoveu-se, como não se lembrava á quanto. Fumou mais que o normal. E riu-se para dentro de si, olhando a Lua que se avolumava no cèu estrelado. Um filho varão!...
As filhas traziam leite do centro social. Os visinhos, uma galinha, um coelho, umas couves. O trabalho, pequenos arranjos, ia aparecendo e o JoMa, o seu rebento crescia e já se sentava num caixote de madeira que ele fizera em jeito de parque, de recinto só dele, para que não se sujasse na areia do quintal.
O Coxo no rasg, rasg do serrote e o puto brincando com pequenas peças que ele lhe fizera em madeira boleada e leve. E já queria falar : Pá ...e mais à frente, ainda disperso Pá.... E o Coxo, sorridente, a quem aparecia, a dizer que o miúdo parecia querer dizer papá.
Dava-lhe o biberão embevecido. As miúdas mimavam-no. O JoMa era um Sol.
_É pá, traz lá mais um traçado, mas cheio. _ os olhos dele brilhavam de humidade cristalina e eu surpreso, indaguei.
_Mas então, não foi um momento único de alegria?_ ele, dum trago, o copo cheio, a limpar os lábios, os olhos, os óculos, a colocá-los novamente em movimentos pausados.
Um dia, enquanto lhe dava o biberão de leite da manhã, sentiu que o menino parou. Não ria, os olhos parados, os braços caídos, quase inertes, convulsões estranhas.Fazia frio, mas o Coxo estava afogueado sem perceber o que se passava. Chamou uma vizinha. Ela veio e viu que o menino estava mal. Pediu a alguém que fosse chamar a Gi, a mais velha e que estava na escola. A Gi veio, oito anos, uma menina. Alarmou-se. Era preciso ir chamar a mãe à fábrica e foi, numa correria, por entre os arbustos da mata de Pinheiros, veloz como uma gazela fugindo ao predador.
Maria, esforçada desde as 6 da manhã, arrancada à disciplina mórbida imposta na fábrica, por um motivo de força maior. Chegou e viu que o menino respirava com dificuldade, mas respirava, embrulhou-o numa mantinha e correu para o barco. Em Lisboa apanhou o electrico, o menino nos braços, os olhos baços, o coração asfixiado num espaço tão curto do seu peito que arfava. Silêncio. Alguém perguntou sobre o menino e ela, que ia simplesmente ao hospital. Estava mal, não chorava, não gemia, mas respirava, ou era ela que o fazia por ele, que lhe emprestava do seu ar, ou que se confundia, o confundia.
No hospital o médico olha o menino, olha Maria, levanta os olhos a querer talvez fugir dali e diz-lhe:
_Está morto!...Maria incrédula, mas.. e o médico
_Se não quer que ele fique cá, leve-o para evitar mais despesa. Vá num táxi, ninguém pode saber que o leva morto.
-Num táxi? Diz Maria entre lágrimas. Não tenho dinheiro para isso.
O médico deu-lhe o dinheiro e disse que fosse em siêncio. E ela foi, com o seu menino nos braços.
No táxi, em silêncio, contendo as lágrimas, comprimindo o peito, em ânsias por chegar.
No barco, vizinhas, conhecidas, amigas. _ Então e o menino, está melhor? E Maria respondia que sim, que não podiam vê-lo porque dormia, dormia...
Á chegada a casa, o Coxo em pé, amparado à cancela do quintal, o vulto de Maria ao cimo da rua, A mata de Pinheiros mansos, o abraço de ambos, sem gritos nem choros. À espera do tempo...
-----------------------------------------------------------------------------
Podia ser o inicio de uma história de vida romanceada, a envolver negócios, empresas de estilo familiar que ainda são o sustentáculo do país. E a tragédia que os apanha desprevenidos e vai condicionar toda a estrutura familiar futura. Ou o êxito de empreendimentos pessoais, conquistados e construídos a pulso.
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
J.R.G.
Ele desabafava de si, do interior de si, as memórias de acontecimentos da sua vida simples, eu ouvia-o .O sr. Manuel, como vimos anteriormente em http://neoabjeccionismo.blogs.sapo.pt/ ,.
O COXO, ficou sem uma perna e usava uma prótese artificial metálica, que os anos tornaram obsoleta, mas era o que tinha e que concertava inventando enhenhocas, sistemas alternativos de molas e engates com arames, de forma a torná-la funcional.
Tinha quatro filhas, a Gi, a Bé, a Lu e a An. Quatro lindas meninas criadas ao sabor do tempo e de uma ampla solidariedade, num tempo em que vingava um tipo de humanismo saído da Revolução Francesa e que vinha vingando na civilização Ocidental, permitindo olhar para o homem como um ser infeliz de se encontrar amargurado ao levantar e bêbado ao deitar e que era preciso dignificar, estabelecido o conceito de ter o homem como fim., para cujo alcance valiam todos os meios: declarar a guerra, roubar, espoliar, prender, arrasar a natureza e exterminar os animais "nocivos" ao homem.
O pais vivia sob uma ditadura politica e económica, em ambiente semi rural, vida simples, beatificada pela Igreja e o temor a Deus e aos poderosos.
O Coxo viera para Lisboa ainda novo, ordenhara vacas e fora condutor de sidecar, ficara sem a perna, como vimos,e no tempo que vamos descrever, no inicio dos anos 50 do século XX, o coxo era continuo numa instituição de " previdência " do estado.
Casara com uma mulher oriunda de famílias poderosas, mas que fora excomungada, deserdada à nascença, em virtude de dois acontecimentos, o pai ter casado a contragosto da família, com uma mulher de meio diferente e por ter nascido gémea, as duas tão sem graça, felosas, e haver uma outra menina esplendorosa, irmã mais velha que morreu pouco depois por ciúmes? constituir o motivo de as considerar culpadas de terem nascido. Só a Maria sobreviveu, destas três e logo que ganhou corpo foi posta a servir em casas de famílias.
O Coxo conheceu-a como sopeira e viveram uma relação apaixonada. Maria era uma linda mulher, analfabeta, mas linda. O Coxo ainda frequentara a escola, sabia ler e escrever um pouco. Era um homem bonito, bem parecido, baixo, moreno, olhos escuros e vivos.
Ele já tinha mais de quarenta anos, ela à beira dos trinta. Ela deserdada pelos seus, ele deserdado pela vida e estavam na iminência de herdar uma família.
Maria ficou grávida e logo pensaram em casar, porque o Coxo era homem de palavra. Gostava dela e queria seguir o tempo. Se o tempo era o mestre, como que um Deus, se havia um mínimo, uma base de partida, uma casa de família para os abrigar, se havia a possibilidade de uma casa social, era dar tempo ao tempo.
Nasceram as três com intervalos curtos. A Gi, a Bé, a Lu, esta já na casa nova. Maria trabalhava agora numa fábrica de conservas de peixe que abrira de novo. Trazia peixe escondido entre as mamas. O trabalho de continuo acabara porque o Coxo apanhou tuberculose. Esteve à morte, mas o tempo deu-lhe a mão, recuperou-o para o que havia de vir. E tornou-se carpinteiro de arranjos e de pequenas peças de utilidade que fazia no quintal da casa, sob um pinheiro manso, frondoso e entre canteiros de uma horta que lhe
fornecia a sopa. Tinha arte nas mãos calejadas que lhe advinha da alma simples.
Havia momentos de alegria, as raparigas faziam peças de teatro inventadas na imaginação,
por histórias e anedotas picarescas que o Coxo contava e pelos livros de leitura que a mais velha já lia e crescia nos enredos.
Maria engravidou novamente. Ficou furiosa, que a vida já era difícil e mais um , como ia ser!...
O Coxo, sereno, que se arremediariam como até então. Havia trabalho. O tempo era a favor. A favor de quê? De quem?
O que ele escondia era a sua ansiedade, pela primeira vez sentia alguma pressa, por saber se seria enfim o filho varão que tanto ambicionara. Se não fosse não era, mas gostava, era a sua paixão há anos. Um filho homem, em que pudesse reinventar-se ao vê-lo crescer, estudar, ser homem completo, como o Jean Valgean dos Miseráveis de Victor Hugo, personagem que elegia como simbolo de bondade e de justiça.
Nasceu. E era um menino, como o Coxo desejava. O seu sorriso iluminou a noite, aquela noite em que a Gi foi chamar a correr a Tia Mariana, parteira oficial do bairro, e ele a colocar a panela sobre as brasas do fogareiro, para que tivesse tempo de ferver.
Ouviu o seu berro, um grito imenso que parecia de glória, pleno de pulmões, de vida. Comoveu-se, como não se lembrava á quanto. Fumou mais que o normal. E riu-se para dentro de si, olhando a Lua que se avolumava no cèu estrelado. Um filho varão!...
As filhas traziam leite do centro social. Os visinhos, uma galinha, um coelho, umas couves. O trabalho, pequenos arranjos, ia aparecendo e o JoMa, o seu rebento crescia e já se sentava num caixote de madeira que ele fizera em jeito de parque, de recinto só dele, para que não se sujasse na areia do quintal.
O Coxo no rasg, rasg do serrote e o puto brincando com pequenas peças que ele lhe fizera em madeira boleada e leve. E já queria falar : Pá ...e mais à frente, ainda disperso Pá.... E o Coxo, sorridente, a quem aparecia, a dizer que o miúdo parecia querer dizer papá.
Dava-lhe o biberão embevecido. As miúdas mimavam-no. O JoMa era um Sol.
_É pá, traz lá mais um traçado, mas cheio. _ os olhos dele brilhavam de humidade cristalina e eu surpreso, indaguei.
_Mas então, não foi um momento único de alegria?_ ele, dum trago, o copo cheio, a limpar os lábios, os olhos, os óculos, a colocá-los novamente em movimentos pausados.
Um dia, enquanto lhe dava o biberão de leite da manhã, sentiu que o menino parou. Não ria, os olhos parados, os braços caídos, quase inertes, convulsões estranhas.Fazia frio, mas o Coxo estava afogueado sem perceber o que se passava. Chamou uma vizinha. Ela veio e viu que o menino estava mal. Pediu a alguém que fosse chamar a Gi, a mais velha e que estava na escola. A Gi veio, oito anos, uma menina. Alarmou-se. Era preciso ir chamar a mãe à fábrica e foi, numa correria, por entre os arbustos da mata de Pinheiros, veloz como uma gazela fugindo ao predador.
Maria, esforçada desde as 6 da manhã, arrancada à disciplina mórbida imposta na fábrica, por um motivo de força maior. Chegou e viu que o menino respirava com dificuldade, mas respirava, embrulhou-o numa mantinha e correu para o barco. Em Lisboa apanhou o electrico, o menino nos braços, os olhos baços, o coração asfixiado num espaço tão curto do seu peito que arfava. Silêncio. Alguém perguntou sobre o menino e ela, que ia simplesmente ao hospital. Estava mal, não chorava, não gemia, mas respirava, ou era ela que o fazia por ele, que lhe emprestava do seu ar, ou que se confundia, o confundia.
No hospital o médico olha o menino, olha Maria, levanta os olhos a querer talvez fugir dali e diz-lhe:
_Está morto!...Maria incrédula, mas.. e o médico
_Se não quer que ele fique cá, leve-o para evitar mais despesa. Vá num táxi, ninguém pode saber que o leva morto.
-Num táxi? Diz Maria entre lágrimas. Não tenho dinheiro para isso.
O médico deu-lhe o dinheiro e disse que fosse em siêncio. E ela foi, com o seu menino nos braços.
No táxi, em silêncio, contendo as lágrimas, comprimindo o peito, em ânsias por chegar.
No barco, vizinhas, conhecidas, amigas. _ Então e o menino, está melhor? E Maria respondia que sim, que não podiam vê-lo porque dormia, dormia...
Á chegada a casa, o Coxo em pé, amparado à cancela do quintal, o vulto de Maria ao cimo da rua, A mata de Pinheiros mansos, o abraço de ambos, sem gritos nem choros. À espera do tempo...
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Podia ser o inicio de uma história de vida romanceada, a envolver negócios, empresas de estilo familiar que ainda são o sustentáculo do país. E a tragédia que os apanha desprevenidos e vai condicionar toda a estrutura familiar futura. Ou o êxito de empreendimentos pessoais, conquistados e construídos a pulso.
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
J.R.G.
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15/08/2008
MEMÓRIAS DA GUERRA - RAFA
Tinha um andar indolente e não era do clima quente e húmido. Era um andar provocatório, desleixado, da sua própria índole e tinha o hábito de puxar as orelhas daqueles que tinha mais confiança, não intimidade, confiança de falar, pouco, mas de falar.
A especialidade dele era Cripto, o que fazia da sua figura, um anátema de perdição, por tudo o que nele era enigma, os olhos sempre sorridentes, sagazes a perscrutarem semblantes, movimentos de lábios, gestos, e o indiciavam como um bufo ao serviço dos interesses.
As conversas mais politizadas cessavam , passavam a banalidades, à sua aparição, sarcasticamente sorridente. Rafa, o cripto. O que fazia as ligações do comando do aquartelamento, com o comando territorial. Só ele sabia as horas de saída em patrulha simples ou em missão de combate. As operações com grande movimento de tropas.
Rafa era mais importante que o capitão e não granjeava amigos.
Mas Rafa subsistia apenas. Como a grande parte deles, Rafa fora recrutado, arrancado a uma carreira promissora, à continuidade dos estudos que o levariam à formação em Psicologia, a sua paixão desde a adolescência.
É verdade que os observava, atento ao pormenor de um esgar, os gestos distraídos, que são os mais verdadeiros de uma pessoa. Uma palavra vaga, pitoresca, ou picaresca, ou séria e profunda mas aleatória, saída do vácuo da memória .
Amava cada um deles, uns mais que outros, questão de empatia, se superficialidade ou de profundidade, mas amava-os como pessoas genuínas, cobaias únicas reunidas num laboratório imenso e soltas.
Quando saíam para uma operação que só ele sabia podia ser fatal para alguns. Levantava-se à hora. E fica a vê-los, a galhofarem uns com os outros para afastarem o medo, de cada um de si. Os rostos apagados de outros, em período de concentração, de oração ou encomenda da alma. Ficava escondido, na penumbra da aurora que lá vinha. Os olhos toldados por lágrimas atrevidas que não podiam ser vistas. Um homem não chora. Um cripto é um homem que se quer frio, independente de emoções. Como se fosse possível...
Admirava Manuel António em especial. O seu ar aparentemente sereno, sorumbático por vezes, ou quando o via expectante, olhando a Lua num recanto da noite, poético, pensante de vá lá saber-se o quê...E como gostaria de o interpelar, discutir com ele nuances da politica, ensejos da alma, perspectivas do homem, os insondáveis segredos da mente que se deixam escapar em momentos de êxtase do ser, desapercebidos do consciente.
Manuel António parecia-lhe uma figura ímpar de humanidade. Acompanhava os indígenas em tarefas pesadas, dançava com as crianças na alegria das cantigas ao som do batuque do pilão, falava-lhes da metafísica de ser povo, o ar incrédulo e estranho dos jovens...
A importância de se assumirem como pessoas em evolução. Não que a evolução fosse uma meta, uma imposição de ser homem pleno, mas porque no estádio em que se encontravam eram uma presa fácil dos oportunismos encapotados de civilizacionais.
Rafa observava estas prédicas, de longe, mas suficientemente perto para perceber que os indígenas o ouviam por respeito, que achavam piada ao ênfase que punha nas palavras. Os olhos brilhantes de emoção.
Rafa admirava Manuel António pela sua camaradagem com os outros, da Companhia, o seu sentido do dever de instruir, de clarear ideias preconcebidas , de desfazer equívocos sobre o direito de soberania, o dever de lealdade. E nós, onde ficamos nós nas obrigações e nos deveres? Era um grito frequente de Manuel António, no meio da parada, sem medo.
Ter o homem como fim. A entreajuda o repartir do pão e da palavra. O entendimento do todo, do papel de cada um para o todo, da partícula ínfima de cada um, do seu corpo, do seu espírito, para o seu todo de si que iria reforçar o todo total, o todo absoluto.
Rafa sabia que não o devia interpelar nestes momentos de ousadia espiritual. O mais certo seria que debandasse, que se furtasse ao diálogo com ele, Rafa, o Cripto, conotado de bufo.
Ganhava mais observando-o de longe, medindo-lhe os gestos, os suspiros de ânsia ou enfado. As mãos inquietas que procuram posição sobre o tronco velho de uma árvore.
E era tudo o que lhe afluía à memória, neste instante único que há muito desejava, o convívio anual, ao vê-lo a rir-se despreocupado com outros companheiros, tantos anos passados, vividos em ausências.
_Rafa!...
_Manuel António!...
Um abraço emotivo , um beijo em cada uma das faces, o selo antigo da amizade profunda.
Falar dos percursos, andanças, vivências, tragédias e amores felizes.
_Sempre pensei que me consideravas um bufo.
Os olhos nos olhos, límpidos, por entre o nublado das emoções.
_Mas não, Rafa, os teus olhos eram leais. Se nos tornássemos íntimos, daria nas vistas, seríamos conotados como traidores.
Riram-se ambos num reforçado abraço, com palmadas amplas e fortes de Rafa nas costas de Manuel António.
_Sabes, Manuel António, ainda tenho um sonho que quero realizar.
_Sonhar até ao infinito do ser que vamos sendo. E que é?...
Rafa inquieta-se, agita o corpo, as mãos saracoteiam no ar leve da meia manhã, os olhos chispam raios de luz, uma luz de tipo novo.
_Reunir fundos, já tenho algum, saber a morada de todos e visitá-los, um a um, para saber se têm fome, qualquer tipo de fome...
_Rafa!!!...
-------------------------------------------------------------------------------
Podia ser o inicio de uma história de vida romanceada, a envolver negócios, empresas de estilo familiar que ainda são o sustentáculo do país. E a tragédia que os apanha desprevenidos e vai condicionar toda a estrutura familiar futura. Ou o êxito de empreendimentos pessoais, conquistados e construídos a pulso.
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
J.R.G.
A especialidade dele era Cripto, o que fazia da sua figura, um anátema de perdição, por tudo o que nele era enigma, os olhos sempre sorridentes, sagazes a perscrutarem semblantes, movimentos de lábios, gestos, e o indiciavam como um bufo ao serviço dos interesses.
As conversas mais politizadas cessavam , passavam a banalidades, à sua aparição, sarcasticamente sorridente. Rafa, o cripto. O que fazia as ligações do comando do aquartelamento, com o comando territorial. Só ele sabia as horas de saída em patrulha simples ou em missão de combate. As operações com grande movimento de tropas.
Rafa era mais importante que o capitão e não granjeava amigos.
Mas Rafa subsistia apenas. Como a grande parte deles, Rafa fora recrutado, arrancado a uma carreira promissora, à continuidade dos estudos que o levariam à formação em Psicologia, a sua paixão desde a adolescência.
É verdade que os observava, atento ao pormenor de um esgar, os gestos distraídos, que são os mais verdadeiros de uma pessoa. Uma palavra vaga, pitoresca, ou picaresca, ou séria e profunda mas aleatória, saída do vácuo da memória .
Amava cada um deles, uns mais que outros, questão de empatia, se superficialidade ou de profundidade, mas amava-os como pessoas genuínas, cobaias únicas reunidas num laboratório imenso e soltas.
Quando saíam para uma operação que só ele sabia podia ser fatal para alguns. Levantava-se à hora. E fica a vê-los, a galhofarem uns com os outros para afastarem o medo, de cada um de si. Os rostos apagados de outros, em período de concentração, de oração ou encomenda da alma. Ficava escondido, na penumbra da aurora que lá vinha. Os olhos toldados por lágrimas atrevidas que não podiam ser vistas. Um homem não chora. Um cripto é um homem que se quer frio, independente de emoções. Como se fosse possível...
Admirava Manuel António em especial. O seu ar aparentemente sereno, sorumbático por vezes, ou quando o via expectante, olhando a Lua num recanto da noite, poético, pensante de vá lá saber-se o quê...E como gostaria de o interpelar, discutir com ele nuances da politica, ensejos da alma, perspectivas do homem, os insondáveis segredos da mente que se deixam escapar em momentos de êxtase do ser, desapercebidos do consciente.
Manuel António parecia-lhe uma figura ímpar de humanidade. Acompanhava os indígenas em tarefas pesadas, dançava com as crianças na alegria das cantigas ao som do batuque do pilão, falava-lhes da metafísica de ser povo, o ar incrédulo e estranho dos jovens...
A importância de se assumirem como pessoas em evolução. Não que a evolução fosse uma meta, uma imposição de ser homem pleno, mas porque no estádio em que se encontravam eram uma presa fácil dos oportunismos encapotados de civilizacionais.
Rafa observava estas prédicas, de longe, mas suficientemente perto para perceber que os indígenas o ouviam por respeito, que achavam piada ao ênfase que punha nas palavras. Os olhos brilhantes de emoção.
Rafa admirava Manuel António pela sua camaradagem com os outros, da Companhia, o seu sentido do dever de instruir, de clarear ideias preconcebidas , de desfazer equívocos sobre o direito de soberania, o dever de lealdade. E nós, onde ficamos nós nas obrigações e nos deveres? Era um grito frequente de Manuel António, no meio da parada, sem medo.
Ter o homem como fim. A entreajuda o repartir do pão e da palavra. O entendimento do todo, do papel de cada um para o todo, da partícula ínfima de cada um, do seu corpo, do seu espírito, para o seu todo de si que iria reforçar o todo total, o todo absoluto.
Rafa sabia que não o devia interpelar nestes momentos de ousadia espiritual. O mais certo seria que debandasse, que se furtasse ao diálogo com ele, Rafa, o Cripto, conotado de bufo.
Ganhava mais observando-o de longe, medindo-lhe os gestos, os suspiros de ânsia ou enfado. As mãos inquietas que procuram posição sobre o tronco velho de uma árvore.
E era tudo o que lhe afluía à memória, neste instante único que há muito desejava, o convívio anual, ao vê-lo a rir-se despreocupado com outros companheiros, tantos anos passados, vividos em ausências.
_Rafa!...
_Manuel António!...
Um abraço emotivo , um beijo em cada uma das faces, o selo antigo da amizade profunda.
Falar dos percursos, andanças, vivências, tragédias e amores felizes.
_Sempre pensei que me consideravas um bufo.
Os olhos nos olhos, límpidos, por entre o nublado das emoções.
_Mas não, Rafa, os teus olhos eram leais. Se nos tornássemos íntimos, daria nas vistas, seríamos conotados como traidores.
Riram-se ambos num reforçado abraço, com palmadas amplas e fortes de Rafa nas costas de Manuel António.
_Sabes, Manuel António, ainda tenho um sonho que quero realizar.
_Sonhar até ao infinito do ser que vamos sendo. E que é?...
Rafa inquieta-se, agita o corpo, as mãos saracoteiam no ar leve da meia manhã, os olhos chispam raios de luz, uma luz de tipo novo.
_Reunir fundos, já tenho algum, saber a morada de todos e visitá-los, um a um, para saber se têm fome, qualquer tipo de fome...
_Rafa!!!...
-------------------------------------------------------------------------------
Podia ser o inicio de uma história de vida romanceada, a envolver negócios, empresas de estilo familiar que ainda são o sustentáculo do país. E a tragédia que os apanha desprevenidos e vai condicionar toda a estrutura familiar futura. Ou o êxito de empreendimentos pessoais, conquistados e construídos a pulso.
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
J.R.G.
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10/08/2008
LAURA - ADULTÉRIO SEM RETORNO
Laura, sentada na secretária, no pequeno escritório da oficina que mantinha em sociedade com o marido, os olhos castanhos claros, raiados de tons de verde, avelãs. Os cabelos negros, a pele morena, mordendo os lábios carnudos,descorados pelo frio que sentia, apesar do verão seco e quente, os olhos fixos na imagem de Zé Maria, seu marido, que conversava com uma cliente soltando alegres gargalhadas em momentos de descontracção de pausa no trabalho.
A outra era loura e bem mais jovem que Laura. Bem produzida quer na vestimenta quer nos adornos em brincos.colares e pinturas. Teria perto de 30 anos e Laura perto dos 40, sentia ciúmes de todas as mulheres com quem Zé Maria gastava pausas de serviço, ou em serviço de relações públicas, explicando porque pensava ser o motivo da avaria, o que ele apontava como mais provável e não outro, que à cliente lhe parecia mais plausível.
Laura pensava que o que ele pretendia ao demorar as explicações era medir a estrutura física das tipas e apanha um ponto fraco, algo que o impelisse a avançar com uma proposta de almoço, ou simples encontro para práticas sexuais lesivas da sua qualidade de esposa.
Lúcia, a loura que falava com Zé Maria, tinha uns olhos claros de amêndoa, um corpo saliente de formas harmoniosas com destaque para as nádegas, ou o rabo, ovalizado e saído , empinado, que ela agitava com o andar ou os meneios do corpo enquanto falava
Era o que se podia chamar de cu obsceno. E obsceno porque todo ele induzia sensualidade, sexo, devaneios, apelativo aos desejos, ostensivo de voluptuosidade.. Quando Lúcia passeava no passeio o seu cão caniche, não havia olhar de homem e de mulher que resistisse e ela sabia e sorria disfarçadamente ou em evidente ostentação , para mulheres despeitadas que a sabiam cobiçada dos maridos.
Laura também sabia da reputação de Lúcia.
Um dia dissera-lhe, a ele, Zé Maria, perguntara-lhe o que encontrava nas outras mulheres que ela lhe sonegasse, E ele, que esposa era diferente. A casa, as crianças o sexo clássico para satisfação pontual. Ele amava-a, estivesse certa disso.
E ela, que não concordava, também tinha desejos, fantasias que a inquietavam, também gostava de sexo anal e oral e gostava que antes das penetrações a excitasse no clitóris, que lhe descobrisse as zonas do seu corpo mais sensíveis à excitação da libido, que não lhe machucasse as mamas e mordesse os mamilos, se não sabia que isso podia provocar cancro ou outra afecções das glândulas mamárias.
E ele, Zé Maria, erguera da mão e dera-lhe duas estaladas violentas. Desde aí andavam amuados e agora, ostensivamente, gargalhava com aquela desavergonhada.
Laura estava possessa de raiva. Os olhos chispavam de ódio, rebarbativa, mexia-se na cadeira que quase a tombava.
Pensava nas filhas, uma do falecido, o seu primeiro marido e outra deste Javardo
que aceitara tomar por marido e em má hora o fizera.
Vi-os sair no carro dela. Zé Maria disse que o ia experimentar. Se fosse um cliente, mandava-o ir sozinho ver se estava tudo bem, mas ali havia tramóia. ela sentia isso.
Ir embora, deixá-lo. E coragem para isso? Onde iria viver sem dar glórias a ninguém?
E como iria subsistir? Sim, o marido por certo não a queria na oficina. E ele é homem, mais forte , abrutalhado.
Traí-lo!
Mas Laura tinha do casamento uma ideia de respeito absoluto, de angélica submissão ao poder marital. Só de sonhar com outro homem, um amante de verdade, indispunha-a contra si própria. Era uma ideia que caminhava a par com os desejos ardentes que sentia em todo o corpo e na alma que a atormentava. Sentir-se amada, querida, desejada e devidamente reconhecida como mulher plena de tudo e o tudo era, boa mulher, boa mãe, boa amante.
O toque rotineiro do telefone, interrompeu-lhe a meditação.
-Sou a Sónia. Era para te dizer que fazes muito bem em continuar com esse safardanas mulherengo do teu marido, que te maltrata...Blá...blá...blá...
-Sim, mas o que se passa? Porque me telefonas para repetires o que já me disseste vezes sem conta.
-Ele,o teu Zé Maria, acaba de entrar na casa da Lúcia e ia todo sorridente, com a mão sobre o cu dela. Imagina a cena, no interior da casa!...
E desligou. Era a irmã, Sónia solteirona que dizia dos homens as mais hediondas barbaridades. Que só viam sexo nas mulheres.Que se serviam das mulheres. Que as usavam até que, gastas, deitavam-nas fora como imprestáveis.
Laura ficou para morrer. Se pudesse fechava a oficina e apanhava-os em flagrante. discutiriam. Pelo menos desta vez , se ela ousasse, não satisfaziam o prazer das suas fantasias. Os olhos raiados de vermelho de os esfregar, húmidos de raiva, de se sentir humilhada no silêncio dos amantes, nos risos soeses, nos olhares enviesados. Rejeitada.
A outra era loura e bem mais jovem que Laura. Bem produzida quer na vestimenta quer nos adornos em brincos.colares e pinturas. Teria perto de 30 anos e Laura perto dos 40, sentia ciúmes de todas as mulheres com quem Zé Maria gastava pausas de serviço, ou em serviço de relações públicas, explicando porque pensava ser o motivo da avaria, o que ele apontava como mais provável e não outro, que à cliente lhe parecia mais plausível.
Laura pensava que o que ele pretendia ao demorar as explicações era medir a estrutura física das tipas e apanha um ponto fraco, algo que o impelisse a avançar com uma proposta de almoço, ou simples encontro para práticas sexuais lesivas da sua qualidade de esposa.
Lúcia, a loura que falava com Zé Maria, tinha uns olhos claros de amêndoa, um corpo saliente de formas harmoniosas com destaque para as nádegas, ou o rabo, ovalizado e saído , empinado, que ela agitava com o andar ou os meneios do corpo enquanto falava
Era o que se podia chamar de cu obsceno. E obsceno porque todo ele induzia sensualidade, sexo, devaneios, apelativo aos desejos, ostensivo de voluptuosidade.. Quando Lúcia passeava no passeio o seu cão caniche, não havia olhar de homem e de mulher que resistisse e ela sabia e sorria disfarçadamente ou em evidente ostentação , para mulheres despeitadas que a sabiam cobiçada dos maridos.
Laura também sabia da reputação de Lúcia.
Um dia dissera-lhe, a ele, Zé Maria, perguntara-lhe o que encontrava nas outras mulheres que ela lhe sonegasse, E ele, que esposa era diferente. A casa, as crianças o sexo clássico para satisfação pontual. Ele amava-a, estivesse certa disso.
E ela, que não concordava, também tinha desejos, fantasias que a inquietavam, também gostava de sexo anal e oral e gostava que antes das penetrações a excitasse no clitóris, que lhe descobrisse as zonas do seu corpo mais sensíveis à excitação da libido, que não lhe machucasse as mamas e mordesse os mamilos, se não sabia que isso podia provocar cancro ou outra afecções das glândulas mamárias.
E ele, Zé Maria, erguera da mão e dera-lhe duas estaladas violentas. Desde aí andavam amuados e agora, ostensivamente, gargalhava com aquela desavergonhada.
Laura estava possessa de raiva. Os olhos chispavam de ódio, rebarbativa, mexia-se na cadeira que quase a tombava.
Pensava nas filhas, uma do falecido, o seu primeiro marido e outra deste Javardo
que aceitara tomar por marido e em má hora o fizera.
Vi-os sair no carro dela. Zé Maria disse que o ia experimentar. Se fosse um cliente, mandava-o ir sozinho ver se estava tudo bem, mas ali havia tramóia. ela sentia isso.
Ir embora, deixá-lo. E coragem para isso? Onde iria viver sem dar glórias a ninguém?
E como iria subsistir? Sim, o marido por certo não a queria na oficina. E ele é homem, mais forte , abrutalhado.
Traí-lo!
Mas Laura tinha do casamento uma ideia de respeito absoluto, de angélica submissão ao poder marital. Só de sonhar com outro homem, um amante de verdade, indispunha-a contra si própria. Era uma ideia que caminhava a par com os desejos ardentes que sentia em todo o corpo e na alma que a atormentava. Sentir-se amada, querida, desejada e devidamente reconhecida como mulher plena de tudo e o tudo era, boa mulher, boa mãe, boa amante.
O toque rotineiro do telefone, interrompeu-lhe a meditação.
-Sou a Sónia. Era para te dizer que fazes muito bem em continuar com esse safardanas mulherengo do teu marido, que te maltrata...Blá...blá...blá...
-Sim, mas o que se passa? Porque me telefonas para repetires o que já me disseste vezes sem conta.
-Ele,o teu Zé Maria, acaba de entrar na casa da Lúcia e ia todo sorridente, com a mão sobre o cu dela. Imagina a cena, no interior da casa!...
E desligou. Era a irmã, Sónia solteirona que dizia dos homens as mais hediondas barbaridades. Que só viam sexo nas mulheres.Que se serviam das mulheres. Que as usavam até que, gastas, deitavam-nas fora como imprestáveis.
Laura ficou para morrer. Se pudesse fechava a oficina e apanhava-os em flagrante. discutiriam. Pelo menos desta vez , se ela ousasse, não satisfaziam o prazer das suas fantasias. Os olhos raiados de vermelho de os esfregar, húmidos de raiva, de se sentir humilhada no silêncio dos amantes, nos risos soeses, nos olhares enviesados. Rejeitada.
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06/08/2008
POESIA ERRÁTICA III
o limite diáfano
Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.
Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.
Sebastiâo Alba
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30/07/2008
A NOVA ERA QUE AI VEM
Hoje venho dizer-vos que a nova era está ai ,ás portas da nossa existência desesperada. Foi instituída no cosmos pelos planetas que regem a vida na Terra. Reuniram-se e decidiram que era tempo de alterar tudo porque estávamos enfim conscientes da nossa evidência. Amadurecidos pelas tragédias e pela glória. Mas desesperados, sem saída plausível para uma vida sem sentido perante tanta abundância.
Decretaram que a vida seria regida do interior de cada um, da essência do ser e não transmitida ao ser como até aqui.
Decretaram o fim de todos os conceitos em que nos enrodilhamos na expectativa de justificarmos os nossos próprios erros. Instituíram a plena consciência.
Decretaram o fim do dinheiro e da propriedade. Instituíram a livre distribuição da riqueza.
Decretaram o fim da tristeza melancólica que conduz ao suicídio. Instituíram a alegria.
Decretaram o fim dos julgamentos públicos e privados. Instituíram o bom senso.
Decretaram o fim do ódio. Instituíram o amor profundo. A paixão.
Decretaram o fim da infidelidade, da traição. Instituíram os actos de amor. múltiplos.
Decretaram o fim de todas as guerras. Instituíram a paz eterna.
Decretaram o fim dos desperdícios da produção. Instituíram a racionalização
Decretaram o fim da mentira e da verdade. Instituíram a realidade.
Decretaram o fim da loucura, da insanidade. Instituíram a cura por absorção de realidade.
Decretaram o fim da razão pura. Instituíram a interioridade.
Decretaram o fim das fontes de energia. Instituíram a fusão a frio.
Decretaram o fim da ignorância. Instituíram o ensino permanente.
Decretaram o fim do tempo. Instituíram o intemporal.
Decretaram o fim de Deus e do Diabo. Instituíram o homem como símbolo de toda a animalidade.
E perguntam que mais nos aflige. Estão reunidos em permanência, e na roda das regências é Plutão quem reina e manda que se afixem, na mente de cada um, na alma, nas vísceras, para que comecem a preparar o advento da nova era, sem dor, sem especulação, antes moderada, docemente.
A nova era quer trazer a paz, o amor a sedução pelo belo e o mais profundo do ser. O amor à natureza e aos animais que nela convivem em equilíbrio de certezas.
Saudemos a nova era que aí vem. O fim de todos os nossos problemas. Os males de amores. As traições. O fim dos despedimentos, das doenças, dos aumentos constantes dos preços. Das invejas. Desrespeitos. Da ladroagem que nos rouba o sustento. Das religiões que nos oprimem a liberdade de pensamento. O fim do pecado, do erro.
Cheire-mo-nos uns aos outros e construamos um novo amor
Decretaram que a vida seria regida do interior de cada um, da essência do ser e não transmitida ao ser como até aqui.
Decretaram o fim de todos os conceitos em que nos enrodilhamos na expectativa de justificarmos os nossos próprios erros. Instituíram a plena consciência.
Decretaram o fim do dinheiro e da propriedade. Instituíram a livre distribuição da riqueza.
Decretaram o fim da tristeza melancólica que conduz ao suicídio. Instituíram a alegria.
Decretaram o fim dos julgamentos públicos e privados. Instituíram o bom senso.
Decretaram o fim do ódio. Instituíram o amor profundo. A paixão.
Decretaram o fim da infidelidade, da traição. Instituíram os actos de amor. múltiplos.
Decretaram o fim de todas as guerras. Instituíram a paz eterna.
Decretaram o fim dos desperdícios da produção. Instituíram a racionalização
Decretaram o fim da mentira e da verdade. Instituíram a realidade.
Decretaram o fim da loucura, da insanidade. Instituíram a cura por absorção de realidade.
Decretaram o fim da razão pura. Instituíram a interioridade.
Decretaram o fim das fontes de energia. Instituíram a fusão a frio.
Decretaram o fim da ignorância. Instituíram o ensino permanente.
Decretaram o fim do tempo. Instituíram o intemporal.
Decretaram o fim de Deus e do Diabo. Instituíram o homem como símbolo de toda a animalidade.
E perguntam que mais nos aflige. Estão reunidos em permanência, e na roda das regências é Plutão quem reina e manda que se afixem, na mente de cada um, na alma, nas vísceras, para que comecem a preparar o advento da nova era, sem dor, sem especulação, antes moderada, docemente.
A nova era quer trazer a paz, o amor a sedução pelo belo e o mais profundo do ser. O amor à natureza e aos animais que nela convivem em equilíbrio de certezas.
Saudemos a nova era que aí vem. O fim de todos os nossos problemas. Os males de amores. As traições. O fim dos despedimentos, das doenças, dos aumentos constantes dos preços. Das invejas. Desrespeitos. Da ladroagem que nos rouba o sustento. Das religiões que nos oprimem a liberdade de pensamento. O fim do pecado, do erro.
Cheire-mo-nos uns aos outros e construamos um novo amor
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22/07/2008
CONHITA E A ASTRÓLOGA (Esboço)
A tarde fresca de fim de Verão, o sol no ocaso em tons de amarelo envelhecido, indiciando frescura na aragem que corria de norte, nordeste, amena ,embora por vezes forte, apanhava os homens caminhando na areia molhada da borda de água em passo estugado, porque nisto de apanhar lance de feição, por cinco minutos se perdia, por cinco minutos se ganhava..
O mestre tem crenças. Convicções. É naquele preciso lugar, hoje, esta tarde. Se não for, mais valia ir embora. Se perder a maré, o lance, a vez .Se perder a fixação da sua ideia e o outro apanhar um bom lance de peixe, perder-se-á em tremulações de voz, acusando em abstracto tudo e todos. Mestre. O arrais da companha. Há quanto tempo na safra?
O mar está cavado, um pouco corso na rebentação. A atenção redobrada quando o barco se fizer ao mar.
Conhita, o olhar místico vagueando entre o chão e o mar. Esbracejando. Os olhos como que saindo das órbitas, meão de tamanho, a barba de pirata dos mares, farta em tons de preto com laivos esbranquiçados. Falava com Pedro, o poeta , por dizer poesias e frases idílicas.
Cristina viera com eles desde a vila. Estava de férias e envolvera-se numa espécie de namoro, uma amizade crescente, com beijos e abraços fugidios e porque admirava de Pedro a versatilidade de conhecimentos, o ser da Vila e este ir ao mar, numa pesca ancestral, que ela conhecia vagamente dos dias de infância, breves. Era Astróloga, casada com um Astrólogo e se mi divorciada. Isto é, tinham um acordo tácito de vivência em comum.
-Conhita!, disse Cristina, um sorriso largo entre o curioso e o trocista, mas um trocista ternurento. Os teus pais não gostaram de ti quando nasceste, ou o Conhita quer dizer algo muito à frente, que só um Uraniano compreenderia?
Conhita olhou para Pedro, franzindo a testa até que as gelhas se juntassem como uma só. E com um dedo na testa, apontado à testa.
-Pedro, pá!. Essa gaja é maluca, não? Eu cá sou de Marte. Fui visitado por Marcianos a noite passada, disse, olhando Cristina nos olhos.
Olhos lindos, de Cristina, castanhos, luminosos.
A companha estava pronta. O barco aprumado junto à água, chamavam os retardatários.
Conhita e Pedro aos remos. E Pedro para o arrais:
-A miúda pode vir?
- O mar está um bocado corso. Na sei .
-Ela é responsável, pah!
Olhou para o lado e sorriu, um sorriso malandro de aquiescência. Pedro ajudou Cristina a saltar e disse-lhe.
-Segura-te bem. Uma onda forte pode fazer-te saltar para o mar.
Cristina agarrou-se com força à proa do barco, olhando os homens aprumados aos remos como nas galés. Era uma experiência única.
A Lua em quarto crescente. Noite límpida. De terra os homens empurram o barco. As ondas que vêm vindo ajudam, os dos remos arrastam na areia. Formam uma força absoluta.
- Vai levado! Vai Levado Vai Levado!
Gritam os de terra. Enquanto os dos remos, gritam também, sob o olhar atento do arrais , na popa do barco, virado de frente para o mar, as ondas traiçoeiras na noite.
- Rema! Rema! Rema!, em esforço. Numa simbiose de força conjunta em simultâneo e o barco toma balanço, ganha força e vence a resistência das ondas.
De súbito, o arrais grita:
-Força, remem caralho!.
Os homens obedecem como uma mola, empertigam-se e broom. Violento o embate na frente chata do barco que o empina como um cavalo, uma onda maior, talvez a sétima que é a última de uma série continuada de arremetidas.
Pedro olha Cristina, branca pelo susto. Olhos nos olhos na noite de luar em crescendo. Resvalou um pouco, mas agarrou a corda do ferro, com quanta força tinha, num impulso.
-Tudo bem, amor?
E ela, entre surpresa e assustada. A lua agora no seu rosto bonito, E um sorriso confiante.
-Tudo bem, amor.
...
O mestre tem crenças. Convicções. É naquele preciso lugar, hoje, esta tarde. Se não for, mais valia ir embora. Se perder a maré, o lance, a vez .Se perder a fixação da sua ideia e o outro apanhar um bom lance de peixe, perder-se-á em tremulações de voz, acusando em abstracto tudo e todos. Mestre. O arrais da companha. Há quanto tempo na safra?
O mar está cavado, um pouco corso na rebentação. A atenção redobrada quando o barco se fizer ao mar.
Conhita, o olhar místico vagueando entre o chão e o mar. Esbracejando. Os olhos como que saindo das órbitas, meão de tamanho, a barba de pirata dos mares, farta em tons de preto com laivos esbranquiçados. Falava com Pedro, o poeta , por dizer poesias e frases idílicas.
Cristina viera com eles desde a vila. Estava de férias e envolvera-se numa espécie de namoro, uma amizade crescente, com beijos e abraços fugidios e porque admirava de Pedro a versatilidade de conhecimentos, o ser da Vila e este ir ao mar, numa pesca ancestral, que ela conhecia vagamente dos dias de infância, breves. Era Astróloga, casada com um Astrólogo e se mi divorciada. Isto é, tinham um acordo tácito de vivência em comum.
-Conhita!, disse Cristina, um sorriso largo entre o curioso e o trocista, mas um trocista ternurento. Os teus pais não gostaram de ti quando nasceste, ou o Conhita quer dizer algo muito à frente, que só um Uraniano compreenderia?
Conhita olhou para Pedro, franzindo a testa até que as gelhas se juntassem como uma só. E com um dedo na testa, apontado à testa.
-Pedro, pá!. Essa gaja é maluca, não? Eu cá sou de Marte. Fui visitado por Marcianos a noite passada, disse, olhando Cristina nos olhos.
Olhos lindos, de Cristina, castanhos, luminosos.
A companha estava pronta. O barco aprumado junto à água, chamavam os retardatários.
Conhita e Pedro aos remos. E Pedro para o arrais:
-A miúda pode vir?
- O mar está um bocado corso. Na sei .
-Ela é responsável, pah!
Olhou para o lado e sorriu, um sorriso malandro de aquiescência. Pedro ajudou Cristina a saltar e disse-lhe.
-Segura-te bem. Uma onda forte pode fazer-te saltar para o mar.
Cristina agarrou-se com força à proa do barco, olhando os homens aprumados aos remos como nas galés. Era uma experiência única.
A Lua em quarto crescente. Noite límpida. De terra os homens empurram o barco. As ondas que vêm vindo ajudam, os dos remos arrastam na areia. Formam uma força absoluta.
- Vai levado! Vai Levado Vai Levado!
Gritam os de terra. Enquanto os dos remos, gritam também, sob o olhar atento do arrais , na popa do barco, virado de frente para o mar, as ondas traiçoeiras na noite.
- Rema! Rema! Rema!, em esforço. Numa simbiose de força conjunta em simultâneo e o barco toma balanço, ganha força e vence a resistência das ondas.
De súbito, o arrais grita:
-Força, remem caralho!.
Os homens obedecem como uma mola, empertigam-se e broom. Violento o embate na frente chata do barco que o empina como um cavalo, uma onda maior, talvez a sétima que é a última de uma série continuada de arremetidas.
Pedro olha Cristina, branca pelo susto. Olhos nos olhos na noite de luar em crescendo. Resvalou um pouco, mas agarrou a corda do ferro, com quanta força tinha, num impulso.
-Tudo bem, amor?
E ela, entre surpresa e assustada. A lua agora no seu rosto bonito, E um sorriso confiante.
-Tudo bem, amor.
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19/07/2008
PORQUE CHORAS MEU AMOR ?
Porque chora a tua alma
porque gritas no silêncio a tua dor
que fome o teu espírito não acalma
que angústia não te basta o meu amor
Porque procuras no silêncio a resposta
porque não queres ouvir a minha voz
que sou escravo da tua vida exposta
que sou a outra parte de ti em nós
Porque chora a tua alma meu amor
se o mar e o céu te nos amparam
é tempo de soltares os nós das amarras
É tempo de te abrires ao mundo como rara flor
orgulhosa dos seres que te amaram
nos jardins da vida na alma e no canto das cigarras
J.R.G.
porque gritas no silêncio a tua dor
que fome o teu espírito não acalma
que angústia não te basta o meu amor
Porque procuras no silêncio a resposta
porque não queres ouvir a minha voz
que sou escravo da tua vida exposta
que sou a outra parte de ti em nós
Porque chora a tua alma meu amor
se o mar e o céu te nos amparam
é tempo de soltares os nós das amarras
É tempo de te abrires ao mundo como rara flor
orgulhosa dos seres que te amaram
nos jardins da vida na alma e no canto das cigarras
J.R.G.
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17/07/2008
O DELFIM NÃO ERA UM ASSASSINO
O Delfim era um jovem. como todos os que compunham a Companhia, arrancado compulsivamente à terra, à família, aos amores. Um jovem alegre, mas intranquilo, emocionalmente frágil, questionante do porquê ele, ali, algures África.
Cumpria o seu dever ao integrar as tropas regulares de um país, o seu país. Integrava as colunas, sofria emboscadas e estava sujeito ás armadilhas, ás minas traiçoeiras que já vira rebentar, pisadas por jovens como ele e sem que houvesse em quem atirar, fazer a desforra. Nada. minas solitárias, intransigentes com uma pequena distracção, com a insuficiência de material de detecção. A importância da desforra. A vingança...
O delfim bebia para afogar o desespero de estar ali, algures África sem ver a família, sem poder ajudar a família, sem poder estar com a namorada, os amigos.
O ar era quente e húmido. As mulheres andavam de peito descoberto. De resto eram só jovens como ele, sem grandes diálogos, que jogavam as cartas, a lerpa, nos momentos de ócio e bebiam na cantina cerveja que matasse a sede e a saudade, que afugentasse a morte. A morte, morrer dum tiro vindo do silêncio da mata verde e bela.
Manuel António observava aquela personalidade caótica, dia após dia. Delfim viera falar-lhe do efeito das granadas ofensivas, granadas de mão. Cada um tinha umas quantas à sua guarda. Levavam-nas e traziam-nas. Calculavam que rebentariam se as tivessem de usar. Não traziam prazo de garantia. Estavam ali, a um canto dos armários, verdes , elas, as granadas, com uns relevos a toda a volta para evitar que resvalassem das mãos que as atirariam, um dia.
-Sabes, Manuel António, ainda um dia gostava de ver o efeito disto a rebentar.
A granada na mão. A cavilha de segurança, um pedaço de arame revirado na ponta, a argola de onde um dedo a puxaria, com determinação.
Manuel António olhou para delfim. Procurou os olhos e só viu uma espécie de baba que lhe saía dos cantos dos lábios. Lábios finos, cortantes. Abominava granadas, balas, tudo o que cheirasse a pólvora..
- Cuidado com isso, pá. Que fazes com a granada? Vão sair?
-Não, mas que gostava de ver isto rebentar, gostava. Para que temos isto?
Cambaleava de um lado para o outro. Olhou-o, agora sim, nos olhos pequeninos se mi cerrados, um brilho estranho, metálico a sobressair da pele escurecida pelo Sol .
-É melhor nunca saberes o efeito dessa merda. Vai guardar. Não podes andar aí com uma granada ofensiva. Cais e matas-.te e matas alguém.
Delfim recuou uns passos, temendo que o outro lhe tirasse a granada. Fez um esgar, um riso indecifrável se de alegria se de louco ou cobardia. Manuel António insistiu, tentando segurá-lo ali até que viesse alguém. Um outro. E disse.
-És de Vila Verde?. Fala-me da tua vida lá, Família, namorada. Que fazias.
Os olhos de Delfim encheram-se de lágrimas e a voz soou rouca, trémula, desequilibrada.
-Sou. Porra, não me fales da família. Eu era uma parte que fazia falta. A namorada já me pôs os cornos. Que sa foda. Vai cu caralho. Ninguém me escreve. Ás tantas já não tenho ninguém.
Numa das mãos a garrafa de cerveja quase vazia, na outra a granada. E nada. Pessoa alguma aparecia naquele fim de tarde, quase noite. O motor da geradora roncava a sua toada constante e monótona. O grito agonizante dos macacos que se recolhiam.
-Tem calma, disse Manuel António, os olhos húmidos, moreno quase negro, olhos castanhos de um escuro quase negro, vais arranjar outra quando chegares. Aguenta. São mais uns meses, poucos.
Delfim chorava convulsivamente. bebeu o resto da cerveja dum trago, sem uma palavra e desandou para a cantina dos soldados.
Manuel António ficou a vê-lo, cambaleando em vai e vens e troca de passos, viu que entrou primeiro na caserna e voltou a sair. Descansou porque não lhe viu a granada na mão.
Lá ia ele, o Delfim, para mais umas cervejas, até o fim de si. e pensou que era uma geração fodida. O álcool, o calor, a pressão, os tiros e rebentamentos, as armadilhas, as minas.
Uma geração estropiada. Aguentar, prever-se de si, a si, mas como ? Se o quadro estava pintado de uma forma indelével. Sem saída que provesse o futuro que queria.
Como sair ileso? os neurónios desafectados, os genes compactados na revolta contra os elementos. Como sair ileso deste inferno?
Ouviu-se um estrondo medonho, Manuel António encolheu-se. deitou-se no chão. todo ele tremia sem saber que atitude tomar. A espingarda estava longe, mas estranhou não ver a correria do costume . Silêncio. Apenas o motor da geradora, monótono, incessante. Já não era um ruído. É como se fizesse parte do silêncio.
O básico a correr.
-É básico, o que foi?
-Olha, rebentou uma granada na cantina, os dois cantineiros foram cu caralho.
O Delfim, foda-se. O choro de raiva. O choro em raiva e a palavra FODA-SE. Agonizante de si. A justificar o poema:
Esta noite
quando todos dormirem
pego no vento
e fujo...
Cumpria o seu dever ao integrar as tropas regulares de um país, o seu país. Integrava as colunas, sofria emboscadas e estava sujeito ás armadilhas, ás minas traiçoeiras que já vira rebentar, pisadas por jovens como ele e sem que houvesse em quem atirar, fazer a desforra. Nada. minas solitárias, intransigentes com uma pequena distracção, com a insuficiência de material de detecção. A importância da desforra. A vingança...
O delfim bebia para afogar o desespero de estar ali, algures África sem ver a família, sem poder ajudar a família, sem poder estar com a namorada, os amigos.
O ar era quente e húmido. As mulheres andavam de peito descoberto. De resto eram só jovens como ele, sem grandes diálogos, que jogavam as cartas, a lerpa, nos momentos de ócio e bebiam na cantina cerveja que matasse a sede e a saudade, que afugentasse a morte. A morte, morrer dum tiro vindo do silêncio da mata verde e bela.
Manuel António observava aquela personalidade caótica, dia após dia. Delfim viera falar-lhe do efeito das granadas ofensivas, granadas de mão. Cada um tinha umas quantas à sua guarda. Levavam-nas e traziam-nas. Calculavam que rebentariam se as tivessem de usar. Não traziam prazo de garantia. Estavam ali, a um canto dos armários, verdes , elas, as granadas, com uns relevos a toda a volta para evitar que resvalassem das mãos que as atirariam, um dia.
-Sabes, Manuel António, ainda um dia gostava de ver o efeito disto a rebentar.
A granada na mão. A cavilha de segurança, um pedaço de arame revirado na ponta, a argola de onde um dedo a puxaria, com determinação.
Manuel António olhou para delfim. Procurou os olhos e só viu uma espécie de baba que lhe saía dos cantos dos lábios. Lábios finos, cortantes. Abominava granadas, balas, tudo o que cheirasse a pólvora..
- Cuidado com isso, pá. Que fazes com a granada? Vão sair?
-Não, mas que gostava de ver isto rebentar, gostava. Para que temos isto?
Cambaleava de um lado para o outro. Olhou-o, agora sim, nos olhos pequeninos se mi cerrados, um brilho estranho, metálico a sobressair da pele escurecida pelo Sol .
-É melhor nunca saberes o efeito dessa merda. Vai guardar. Não podes andar aí com uma granada ofensiva. Cais e matas-.te e matas alguém.
Delfim recuou uns passos, temendo que o outro lhe tirasse a granada. Fez um esgar, um riso indecifrável se de alegria se de louco ou cobardia. Manuel António insistiu, tentando segurá-lo ali até que viesse alguém. Um outro. E disse.
-És de Vila Verde?. Fala-me da tua vida lá, Família, namorada. Que fazias.
Os olhos de Delfim encheram-se de lágrimas e a voz soou rouca, trémula, desequilibrada.
-Sou. Porra, não me fales da família. Eu era uma parte que fazia falta. A namorada já me pôs os cornos. Que sa foda. Vai cu caralho. Ninguém me escreve. Ás tantas já não tenho ninguém.
Numa das mãos a garrafa de cerveja quase vazia, na outra a granada. E nada. Pessoa alguma aparecia naquele fim de tarde, quase noite. O motor da geradora roncava a sua toada constante e monótona. O grito agonizante dos macacos que se recolhiam.
-Tem calma, disse Manuel António, os olhos húmidos, moreno quase negro, olhos castanhos de um escuro quase negro, vais arranjar outra quando chegares. Aguenta. São mais uns meses, poucos.
Delfim chorava convulsivamente. bebeu o resto da cerveja dum trago, sem uma palavra e desandou para a cantina dos soldados.
Manuel António ficou a vê-lo, cambaleando em vai e vens e troca de passos, viu que entrou primeiro na caserna e voltou a sair. Descansou porque não lhe viu a granada na mão.
Lá ia ele, o Delfim, para mais umas cervejas, até o fim de si. e pensou que era uma geração fodida. O álcool, o calor, a pressão, os tiros e rebentamentos, as armadilhas, as minas.
Uma geração estropiada. Aguentar, prever-se de si, a si, mas como ? Se o quadro estava pintado de uma forma indelével. Sem saída que provesse o futuro que queria.
Como sair ileso? os neurónios desafectados, os genes compactados na revolta contra os elementos. Como sair ileso deste inferno?
Ouviu-se um estrondo medonho, Manuel António encolheu-se. deitou-se no chão. todo ele tremia sem saber que atitude tomar. A espingarda estava longe, mas estranhou não ver a correria do costume . Silêncio. Apenas o motor da geradora, monótono, incessante. Já não era um ruído. É como se fizesse parte do silêncio.
O básico a correr.
-É básico, o que foi?
-Olha, rebentou uma granada na cantina, os dois cantineiros foram cu caralho.
O Delfim, foda-se. O choro de raiva. O choro em raiva e a palavra FODA-SE. Agonizante de si. A justificar o poema:
Esta noite
quando todos dormirem
pego no vento
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05/07/2008
MEMÓRIAS DA GUERRA - O CORREIO
Na guerra, quando não estás só e és ainda povoado por mundos e gentes que estando longe, te ocupam uma parte importante do que o teu cérebro te permite pensar, é ainda a solidão de que te sentes, de que te és perante ti e a impotência de decidires no momento imediato, ou no certo.
As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.
O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.
Advinha destes condicionalismos a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.
Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.
Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências
sem outros ouvidos.
Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.
Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se
amavam? Teria já nascido o meu filho? Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.
Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.
Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.
- Quarenta e dois!
-Oi! O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.
Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.
- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.
Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.
-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!
E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.
As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.
O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.
Advinha destes condicionalismos a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.
Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.
Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências
sem outros ouvidos.
Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.
Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se
amavam? Teria já nascido o meu filho? Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.
Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.
Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.
- Quarenta e dois!
-Oi! O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.
Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.
- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.
Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.
-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!
E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.
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03/07/2008
ORGASMOS VIRTUAIS
Olhou demoradamente a sua cara reflectida no espelho e pensou que era um gesto recorrente de todos os que se atribuem importância.
Afastou essa ideia com um gesto, uma palmada na testa e outra, como que a despertar dessa imagem que não se consentia, porque o que ele procurava não era a imagem reflectida no espelho mas uma outra imagem de si, que atravessando os olhos lhe permitia entrar no ser profundo onde tudo se mistura numa azáfama impressionante.
Sorrir-se para si. E gritar, de dentro, como eco dos tempos, que é um homem pleno. Velho mas pleno. Os olhos muito abertos de louco, admirado por se encontrar naquele espaço curto tão profundo. Vou ver o que me quer, ou o que quer de mim.
Sentou-se na velha cadeira rangente do peso súbito que sobre ela se deteve, por momentos absorto, enquanto a máquina se iniciava.
Digitou cautelosamente o email da diva sedutora. Sorrio-se: mariterra@... E escreveu as palavras como se de um poema.
"Não pensei que quisesses que te escrevesse directamente. Apesar do bilhete. Tenho a certeza que és outra pessoa por quem me apaixonei perdidamente, desde o momento em que os nossos olhos se prenderam como amarras. Sou velho, viste-me, e fiquei preso de ti desde o momento em que me apareceste. Fiquei furioso. Não creio que me pudesse apaixonar assim , se eu amo a mulher que viste e que é como se fora eu e eu em ela, apaixonar-me desta maneira por duas pessoas ao mesmo tempo, da mesma forma, com a mesma intensidade!....E à primeira vista.!...Tem sido bonito e muito estimulante, a minha vida . Porque vieste? O que pretendes de mim? Estou confuso e nem sei se fui eu que escrevi o que para trás deixei
Tocou na palavra enviar e encostou-se na cadeira. A velha cadeira. A solidão da cadeira que era ele. A solidão de si, do seu ego em si.
Acendeu um cigarro e aspirou deleitosamente o fumo azulado que se espraiou em nuvem densa e disforme pelo espaço curto do quarto.
A resposta dela não tardou:."Tenho uma carência de amor verdadeiro do tamanho do mundo, tenho falta de estímulos do género que adivinhei no teu olhar, agarro-me a qualquer coisa que mexa, que pulse, é esse o problema, estou a encontrar-me com 35 anos, estou no meio do turbilhão, não tem volta, não sei o que está para vir, mas não vai ser fácil. Também amo o meu marido,."
Foi assim que começaram uma espécie de namoro virtual, na distância das vidas que viviam. Quis acreditar que não estava velho. Mas interrogava-se sobre o porquê de uma mulher ainda jovem se interessar, dizer-se apaixonada pela sua figura de homem. A dúvida se estaria a ser usado em algum artimanha das que ouvia dizer acontecia na Internet.
Que tinha a temer. Não era rico. Não tinha bens. Em frente, até ao limite da razão.
Escreveram email que cresciam em profundidade de paixão. Prometiam-se amor eterno, ainda que virtual. Transcenderam-se de palavras que apelavam à sua interioridade e ao sublime de si enquanto amantes de uma ideia de si. Tiveram arrufos de namorados. Reiniciaram.
Ambos falavam de traição se consumassem ao vivo o fogo que inapelável mente os tomava nas raias da razão. Mas o que diziam, porque na distância, eram apenas flirts de ocasião.
Divertiam-se apenas. Mas era já fogo o que ele sentia com as palavras quentes que lhe iam chegando ânsia que sentia pela chegada dos e-mail. E combinaram amar-se a instantes de email. Ao lado dos corpos dos amores que juraram amar. Separados por uma ínfima parede, do lado de fora dos corpos. Separados do espírito dos corpos. Imersos em absoluta solidão, e tão densos de si.
Não conseguia tirá-la do pensamento, aquela imagem bela, sedutora de mulher jovem que encontrara numa tarde na esplanada onde se espraiava em absurdos de silêncio, e que nos
intervalos dos curtos diálogos com a companheira, mirava ostensivamente, porque se
sentira, também ele, fixado insistentemente por aqueles doces olhos castanhos.
Iniciou o movimento para um novo email, que pretendia libertador da pressão que sentia.
"amo-te tanto querida, queres mesmo que entre em ti pela primeira vez, nós e eu na minha timidez dizendo cona tão boa que me enlevas ao infinito de mim e os meus dedos nas maminhas ferventes os meus lábios nos teus as mãos no teu cuzinho delicioso em afagos excitantes que de ti e de mim nos apagam o ser agora um em um ou um outro. Nós, amor, abraçados e o meu sexo na tua coninha ardente de desejo e eu e tu arfantes possessos, a mente a libertar-se quase, sinto uma força um jacto de esperma e contracções, espasmos que me sugam todo o caralho fremente, o teu útero. é isto o orgasmo, o pleno o absoluto e ficamos exaustos um no outro em êxtase, os meus dedos percorrendo todo o teu corpo. a tua cabeça sobre o meu peito, terna."
E a resposta dela , na volta, no imediato como se houvesse um ponto, uma marcação de tempo a difundir de um e de outro as palavras de excitação, alucinantes de que sensações, que prazeres. Que ampla solidão.
" os olhos brilhantes, sorriso quente, lindo, meu amor agora estou mesmo louca, já não estou em mim, cada vez que leio o que escreveste o meu corpo estremece, é sublime, tu és sublime, meu amante delicioso apetece-me engolir-te, lamber-te, chupar-te o caralho, os tomates, tudo, beber o teu esperma, sentir os espasmos dentro de mim porque enquanto te chupava, roçava a minha cona na tua perna. O Sublime!E beijo-te de seguida, olho para ti meu amor mais sublime e repouso sobre ti até me arreliares outra vez, nem preciso de dizer que te amo tanto , mas digo na mesma...Amo-te muito ". O coração a bater descompassada mente. A mente transbordante da imagem das palavras.Eram as palavras que assumiam o papel onírico da produção de imagens eróticas. Que os alucinava para além da razão, do ser de si, raiando o irracional, o
fantástico absoluto. E os outros de si que dormiam. Alheios a esta euforia megalómana
da existência. Impúdicos. Dolorosamente solitários. Solidão. O que és?
No ecrã, um outro email. Abre o conteúdo, fremente de emoções. Em desvario:
"Estou completamente louca. Diz-me, já te tocaste, tiveste algum orgasmo? Diz-me como estás agora. O que te provoca na prática toda esta nossa troca. Eu estou com a cona a arder, estou completamente encharcada, já me vim tantas vezes. Fala-me de ti. Beijos no meu/teu caralho sublime"
Apenas as breves palavras dos orgasmos. A importância de saber se os tinham tido em simultâneo. Se houvera absoluto, ou se tinham de tentar uma outra vez, ou recorrer à
ajuda de webcams.
Os olhos velhos de ver de tão perto as letras miúdas no ecrã da máquina, esbugalhados de espanto, ou maravilhados com o êxtase possível advindo das palavras. A escrever:
"Imagino que estejas. Foste tão intensa e ardente nos desejos que não podia ser de outro modo meu caralho esteve firme até há bem pouco e estou ensopado em esperma tão docemente por ti provocado. Digo-te que te senti plena em mim, majestosa e criativa nos gestos e nas palavras. Sobretudo quente, eléctrica, a tua cona meu amor, ardente de desejo não só em ela, mas no todo que a satisfaz, como eu queria tê-la. As maminhas, a pele veludo, as tuas nádegas tão formosas, toda tu amor tão belo. Senti intensamente este enlace de cio ardente, as teclas premidas com ansiedade, a mente célere, escrevendo em atropelos. É de loucos, mas denso de sublime amor profundo. Beijo-te a cona ardente para que se acalme e prepare para novo evento e os mamilos que adivinho infinitos de prazer, num absoluto de nós.
Amo-te perdidamente."
Enviou. Estava exausto.
Afastou essa ideia com um gesto, uma palmada na testa e outra, como que a despertar dessa imagem que não se consentia, porque o que ele procurava não era a imagem reflectida no espelho mas uma outra imagem de si, que atravessando os olhos lhe permitia entrar no ser profundo onde tudo se mistura numa azáfama impressionante.
Sorrir-se para si. E gritar, de dentro, como eco dos tempos, que é um homem pleno. Velho mas pleno. Os olhos muito abertos de louco, admirado por se encontrar naquele espaço curto tão profundo. Vou ver o que me quer, ou o que quer de mim.
Sentou-se na velha cadeira rangente do peso súbito que sobre ela se deteve, por momentos absorto, enquanto a máquina se iniciava.
Digitou cautelosamente o email da diva sedutora. Sorrio-se: mariterra@... E escreveu as palavras como se de um poema.
"Não pensei que quisesses que te escrevesse directamente. Apesar do bilhete. Tenho a certeza que és outra pessoa por quem me apaixonei perdidamente, desde o momento em que os nossos olhos se prenderam como amarras. Sou velho, viste-me, e fiquei preso de ti desde o momento em que me apareceste. Fiquei furioso. Não creio que me pudesse apaixonar assim , se eu amo a mulher que viste e que é como se fora eu e eu em ela, apaixonar-me desta maneira por duas pessoas ao mesmo tempo, da mesma forma, com a mesma intensidade!....E à primeira vista.!...Tem sido bonito e muito estimulante, a minha vida . Porque vieste? O que pretendes de mim? Estou confuso e nem sei se fui eu que escrevi o que para trás deixei
Tocou na palavra enviar e encostou-se na cadeira. A velha cadeira. A solidão da cadeira que era ele. A solidão de si, do seu ego em si.
Acendeu um cigarro e aspirou deleitosamente o fumo azulado que se espraiou em nuvem densa e disforme pelo espaço curto do quarto.
A resposta dela não tardou:."Tenho uma carência de amor verdadeiro do tamanho do mundo, tenho falta de estímulos do género que adivinhei no teu olhar, agarro-me a qualquer coisa que mexa, que pulse, é esse o problema, estou a encontrar-me com 35 anos, estou no meio do turbilhão, não tem volta, não sei o que está para vir, mas não vai ser fácil. Também amo o meu marido,."
Foi assim que começaram uma espécie de namoro virtual, na distância das vidas que viviam. Quis acreditar que não estava velho. Mas interrogava-se sobre o porquê de uma mulher ainda jovem se interessar, dizer-se apaixonada pela sua figura de homem. A dúvida se estaria a ser usado em algum artimanha das que ouvia dizer acontecia na Internet.
Que tinha a temer. Não era rico. Não tinha bens. Em frente, até ao limite da razão.
Escreveram email que cresciam em profundidade de paixão. Prometiam-se amor eterno, ainda que virtual. Transcenderam-se de palavras que apelavam à sua interioridade e ao sublime de si enquanto amantes de uma ideia de si. Tiveram arrufos de namorados. Reiniciaram.
Ambos falavam de traição se consumassem ao vivo o fogo que inapelável mente os tomava nas raias da razão. Mas o que diziam, porque na distância, eram apenas flirts de ocasião.
Divertiam-se apenas. Mas era já fogo o que ele sentia com as palavras quentes que lhe iam chegando ânsia que sentia pela chegada dos e-mail. E combinaram amar-se a instantes de email. Ao lado dos corpos dos amores que juraram amar. Separados por uma ínfima parede, do lado de fora dos corpos. Separados do espírito dos corpos. Imersos em absoluta solidão, e tão densos de si.
Não conseguia tirá-la do pensamento, aquela imagem bela, sedutora de mulher jovem que encontrara numa tarde na esplanada onde se espraiava em absurdos de silêncio, e que nos
intervalos dos curtos diálogos com a companheira, mirava ostensivamente, porque se
sentira, também ele, fixado insistentemente por aqueles doces olhos castanhos.
Iniciou o movimento para um novo email, que pretendia libertador da pressão que sentia.
"amo-te tanto querida, queres mesmo que entre em ti pela primeira vez, nós e eu na minha timidez dizendo cona tão boa que me enlevas ao infinito de mim e os meus dedos nas maminhas ferventes os meus lábios nos teus as mãos no teu cuzinho delicioso em afagos excitantes que de ti e de mim nos apagam o ser agora um em um ou um outro. Nós, amor, abraçados e o meu sexo na tua coninha ardente de desejo e eu e tu arfantes possessos, a mente a libertar-se quase, sinto uma força um jacto de esperma e contracções, espasmos que me sugam todo o caralho fremente, o teu útero. é isto o orgasmo, o pleno o absoluto e ficamos exaustos um no outro em êxtase, os meus dedos percorrendo todo o teu corpo. a tua cabeça sobre o meu peito, terna."
E a resposta dela , na volta, no imediato como se houvesse um ponto, uma marcação de tempo a difundir de um e de outro as palavras de excitação, alucinantes de que sensações, que prazeres. Que ampla solidão.
" os olhos brilhantes, sorriso quente, lindo, meu amor agora estou mesmo louca, já não estou em mim, cada vez que leio o que escreveste o meu corpo estremece, é sublime, tu és sublime, meu amante delicioso apetece-me engolir-te, lamber-te, chupar-te o caralho, os tomates, tudo, beber o teu esperma, sentir os espasmos dentro de mim porque enquanto te chupava, roçava a minha cona na tua perna. O Sublime!E beijo-te de seguida, olho para ti meu amor mais sublime e repouso sobre ti até me arreliares outra vez, nem preciso de dizer que te amo tanto , mas digo na mesma...Amo-te muito ". O coração a bater descompassada mente. A mente transbordante da imagem das palavras.Eram as palavras que assumiam o papel onírico da produção de imagens eróticas. Que os alucinava para além da razão, do ser de si, raiando o irracional, o
fantástico absoluto. E os outros de si que dormiam. Alheios a esta euforia megalómana
da existência. Impúdicos. Dolorosamente solitários. Solidão. O que és?
No ecrã, um outro email. Abre o conteúdo, fremente de emoções. Em desvario:
"Estou completamente louca. Diz-me, já te tocaste, tiveste algum orgasmo? Diz-me como estás agora. O que te provoca na prática toda esta nossa troca. Eu estou com a cona a arder, estou completamente encharcada, já me vim tantas vezes. Fala-me de ti. Beijos no meu/teu caralho sublime"
Apenas as breves palavras dos orgasmos. A importância de saber se os tinham tido em simultâneo. Se houvera absoluto, ou se tinham de tentar uma outra vez, ou recorrer à
ajuda de webcams.
Os olhos velhos de ver de tão perto as letras miúdas no ecrã da máquina, esbugalhados de espanto, ou maravilhados com o êxtase possível advindo das palavras. A escrever:
"Imagino que estejas. Foste tão intensa e ardente nos desejos que não podia ser de outro modo meu caralho esteve firme até há bem pouco e estou ensopado em esperma tão docemente por ti provocado. Digo-te que te senti plena em mim, majestosa e criativa nos gestos e nas palavras. Sobretudo quente, eléctrica, a tua cona meu amor, ardente de desejo não só em ela, mas no todo que a satisfaz, como eu queria tê-la. As maminhas, a pele veludo, as tuas nádegas tão formosas, toda tu amor tão belo. Senti intensamente este enlace de cio ardente, as teclas premidas com ansiedade, a mente célere, escrevendo em atropelos. É de loucos, mas denso de sublime amor profundo. Beijo-te a cona ardente para que se acalme e prepare para novo evento e os mamilos que adivinho infinitos de prazer, num absoluto de nós.
Amo-te perdidamente."
Enviou. Estava exausto.
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28/06/2008
OUSAR VENCER A MEDIOCRIDADE
Um dia, ousei questionar o director da empresa. Colocar dúvidas na sua apreciação negativa da conduta dos elementos que fizeram uma determinada colocação do produto, que a expuseram com criatividade e paixão, defender-me , enquanto elemento.
Isto, em plena convenção, que é um nome pomposamente atribuido a uma reunião que congrega os elementos consederados chave duma empresa.
Após o intervalo encontrei-me com ele na casa de banho do hotel local do evento. E entre sacudidelas de pichas, eu na minha e ele na dele, atenção ás ilacções, diz-me ele em tom distante e altivo:
-Ora, o meu amigo a pensar que me queria referir a si!...
A minha interpretação:
-Estulticia a tua, fulano menor na estrutura da empresa, pensares que me afadigava em conceitos de elevada indole comercial, atribuindo-te um valor que não consta na minha apreciação de conceitos.
Mais tarde, não muito, fui colocado na lista restrita dos elementos a abater. E por uma compensação ridicula face ao valor que eu tinha de mim.
Ousei recusar. Esperei em baixa médica impeditiva de acção, baixa sustentada, claro.
Ousei ainda litigar em local próprio, o tribunal, e escudado na baixa médica sustentada ,dividas vencidas por trabalhos descomunais a desoras.
E não é que venci! Em toda a linha!...
O tipo foi afastado por inoperância de resultados.
E eu, grão insignificante no sistema, sózinho com a minha vontade, com a minha revolta e apoiado num defensor autorizado e competente, assinei um acordo com o novo e efémero administrador, dez vezes superior ao inicialmente proposto.
É o que eu chamo por em causa o triundo da mediocridade na nossa sociedade
A verdade é que eles continuam lá, mas por pouco mais tempo.
Assim nós queiramos. Rompamos de vez com a humildade bacoca que nos arreda da ribalta.
Ousemos, ousai, arrebatar o que nos,vos pertence, a criatividade, o sucesso, as boas práticas, os lucros na economia e na educação, o reconhecimento por nós do valor que temos
Eu estou aqui. Teso, mas aqui, na primeira linha contra a usurpação da glória de ser parte
Isto, em plena convenção, que é um nome pomposamente atribuido a uma reunião que congrega os elementos consederados chave duma empresa.
Após o intervalo encontrei-me com ele na casa de banho do hotel local do evento. E entre sacudidelas de pichas, eu na minha e ele na dele, atenção ás ilacções, diz-me ele em tom distante e altivo:
-Ora, o meu amigo a pensar que me queria referir a si!...
A minha interpretação:
-Estulticia a tua, fulano menor na estrutura da empresa, pensares que me afadigava em conceitos de elevada indole comercial, atribuindo-te um valor que não consta na minha apreciação de conceitos.
Mais tarde, não muito, fui colocado na lista restrita dos elementos a abater. E por uma compensação ridicula face ao valor que eu tinha de mim.
Ousei recusar. Esperei em baixa médica impeditiva de acção, baixa sustentada, claro.
Ousei ainda litigar em local próprio, o tribunal, e escudado na baixa médica sustentada ,dividas vencidas por trabalhos descomunais a desoras.
E não é que venci! Em toda a linha!...
O tipo foi afastado por inoperância de resultados.
E eu, grão insignificante no sistema, sózinho com a minha vontade, com a minha revolta e apoiado num defensor autorizado e competente, assinei um acordo com o novo e efémero administrador, dez vezes superior ao inicialmente proposto.
É o que eu chamo por em causa o triundo da mediocridade na nossa sociedade
A verdade é que eles continuam lá, mas por pouco mais tempo.
Assim nós queiramos. Rompamos de vez com a humildade bacoca que nos arreda da ribalta.
Ousemos, ousai, arrebatar o que nos,vos pertence, a criatividade, o sucesso, as boas práticas, os lucros na economia e na educação, o reconhecimento por nós do valor que temos
Eu estou aqui. Teso, mas aqui, na primeira linha contra a usurpação da glória de ser parte
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10/06/2008
MEMÓRIAS DA GUERRA - DESERÇÃO
Manuel António no fundo da caserna e no silêncio da madrugada, onde só o ruído constante e monótono do motor da geradora, tão monótono que deixara quase de se ouvir, soava na penumbra.
Deixar tudo para´trás, a família, o grande amor da sua vida. Sim era aqui que tudo esbatia e se embrulhava em reflexos de si e do problema que de si evoluía em emanações voláteis e pouco consistentes para agir.
Seria de noite, ma não enquanto todos dormissem, porque havia as sentinelas e toda a Aldeia para atravessar. Também não adejava que fosse pegando o vento, em metáfora de fuga alada. Mas fugir, queria. Não fugir como soe dizer-se por cobardia, por não ter argumentos que satisfizessem a sua consciência, mas por sentir que era uma violência inútil, o que lhe ordenavam que fizesse. E havia as crianças que podiam morrer, nas armadilhas, nas emboscadas. As violações consentidas de mulheres, de crianças.
A palavra coragem a desenraizar-se, batendo nas têmporas latejantes, tornando-se grande e tapando a palavra amor que procurava subsistir em toda a plenitude da negativa de não o fazer, de ficar e aguentar.
Havia quem o tivesse feito antes. Paris, Argel. Uns tinham apoio financeiro, outros não. Chegados lá faziam-se à vida. Procuravam ajuda entre os que lá viviam e tinham segurado a existência e alargado o fio condutor. Digladiavam-se provavelmente noutras lutas não menos sórdidas.
Mas ele, Manuel António estava ali naquele fim de mundo. cheirando a catinga, suado e debatendo-se com a coragem e a cobardia, a razão e a ilusão do nada absoluto, onde a palavra amor ganhava uma particular acuidade. Sonhava com o amor de uma mulher absoluta de carisma na sua essência dela e na sua própria, dele, Manuel António.
Há dias que mal dormia. Debatia-se no infinito da virtude que se evadia de si enovelada em argumentos fantásticos de ser homem. Ser homem pela primeira vez, assumindo toda a responsabilidade de o ser e não mais se escudar em estímulos estereotipados de que alimentava o próprio ego.
Podia ser morto na fuga. Ou no acto de captura, se os outros não se apercebessem que queria passar para o lado deles. Como entender-se com os dialectos da guerrilha? Não iria encontrar, por grande sorte , quem falasse Português e Amílcar Cabral estava morto.
A estratégia estava delineada na sua mente febril. Havia ainda os prós e os contras. A loucura total da irrazão. Vencer a todo o custo a mediocridade que se achava por não ser.
Na coluna os homens iam sempre em fila e ele escolheria ser o último. Ninguém gostava de ir em último. Olhar para trás e saber que não havia nada, gente sua. E deixar-se-ia ficar, como se tivesse perdido o contacto e ficado desorientado do rumo e não quisera gritar.
Levaria as cartas e os escritos que criara no tempo passado naquele pesadelo de mistério onde as pessoas tinham olhos profundos e as crianças olhavam abismados para a pele diferente.
A decisão aprumava-se na ideia em concreto. Ainda uns pequenos pormenores. Alguma resistência. Quando as cartas que enviava diariamente não chegassem. Imaginar a dor daquele corpo franzino e belo de mulher que amava do interior de si e que sentia ser igualmente amado visceralmente. Como cortar este elo que o ligava em espírito.?
Tentou afastar as ideias por um momento. mas não, voltava tudo de novo, insistente, e a dor nas têmporas latejantes, como se fosse explodir a cabeça e tudo terminasse ali sem que tivesse de mover-se, em atitude.
Dois dias depois desta batalha mental, a noite pusera-se apática e dolorosamente quieta de luz do luar. Tudo opaco em redor de onde a luz dos candeeiros não chegava.
Os homens ,convocados durante a tarde reuniam-se na parada. Peitos arfantes de confusão interior não manifestada. Gente boa dos campos e das cidades. Gente inteira, como os negros que agora em silêncio, também eles preparavam mais uma saída, como guias das picadas que iriam percorrer toda a noite em patrulha de reconhecimento. Prevenção.
Manuel António vai atrás, seguro de si, convicto da temeridade da ideia. Do que deixava ficar.
Os homens deambularam a noite toda e não encontraram a caça. Aos primeiros alvores da manhã entraram no quartel visivelmente cansados. Os rostos cor de cera. As pernas bambas, indolentes e iam-se deixando cair pelos cantos de encontro à caserna.
O Alferes conta os homens, reconta e ,em sobressalto, diz que falta um homem.
Chama-os um por um. manda alguém ás latrinas, ao interior da caserna, que voltam dizendo não haver ninguém mais.
Falta o Manuel António, o cabo.
Deixar tudo para´trás, a família, o grande amor da sua vida. Sim era aqui que tudo esbatia e se embrulhava em reflexos de si e do problema que de si evoluía em emanações voláteis e pouco consistentes para agir.
Seria de noite, ma não enquanto todos dormissem, porque havia as sentinelas e toda a Aldeia para atravessar. Também não adejava que fosse pegando o vento, em metáfora de fuga alada. Mas fugir, queria. Não fugir como soe dizer-se por cobardia, por não ter argumentos que satisfizessem a sua consciência, mas por sentir que era uma violência inútil, o que lhe ordenavam que fizesse. E havia as crianças que podiam morrer, nas armadilhas, nas emboscadas. As violações consentidas de mulheres, de crianças.
A palavra coragem a desenraizar-se, batendo nas têmporas latejantes, tornando-se grande e tapando a palavra amor que procurava subsistir em toda a plenitude da negativa de não o fazer, de ficar e aguentar.
Havia quem o tivesse feito antes. Paris, Argel. Uns tinham apoio financeiro, outros não. Chegados lá faziam-se à vida. Procuravam ajuda entre os que lá viviam e tinham segurado a existência e alargado o fio condutor. Digladiavam-se provavelmente noutras lutas não menos sórdidas.
Mas ele, Manuel António estava ali naquele fim de mundo. cheirando a catinga, suado e debatendo-se com a coragem e a cobardia, a razão e a ilusão do nada absoluto, onde a palavra amor ganhava uma particular acuidade. Sonhava com o amor de uma mulher absoluta de carisma na sua essência dela e na sua própria, dele, Manuel António.
Há dias que mal dormia. Debatia-se no infinito da virtude que se evadia de si enovelada em argumentos fantásticos de ser homem. Ser homem pela primeira vez, assumindo toda a responsabilidade de o ser e não mais se escudar em estímulos estereotipados de que alimentava o próprio ego.
Podia ser morto na fuga. Ou no acto de captura, se os outros não se apercebessem que queria passar para o lado deles. Como entender-se com os dialectos da guerrilha? Não iria encontrar, por grande sorte , quem falasse Português e Amílcar Cabral estava morto.
A estratégia estava delineada na sua mente febril. Havia ainda os prós e os contras. A loucura total da irrazão. Vencer a todo o custo a mediocridade que se achava por não ser.
Na coluna os homens iam sempre em fila e ele escolheria ser o último. Ninguém gostava de ir em último. Olhar para trás e saber que não havia nada, gente sua. E deixar-se-ia ficar, como se tivesse perdido o contacto e ficado desorientado do rumo e não quisera gritar.
Levaria as cartas e os escritos que criara no tempo passado naquele pesadelo de mistério onde as pessoas tinham olhos profundos e as crianças olhavam abismados para a pele diferente.
A decisão aprumava-se na ideia em concreto. Ainda uns pequenos pormenores. Alguma resistência. Quando as cartas que enviava diariamente não chegassem. Imaginar a dor daquele corpo franzino e belo de mulher que amava do interior de si e que sentia ser igualmente amado visceralmente. Como cortar este elo que o ligava em espírito.?
Tentou afastar as ideias por um momento. mas não, voltava tudo de novo, insistente, e a dor nas têmporas latejantes, como se fosse explodir a cabeça e tudo terminasse ali sem que tivesse de mover-se, em atitude.
Dois dias depois desta batalha mental, a noite pusera-se apática e dolorosamente quieta de luz do luar. Tudo opaco em redor de onde a luz dos candeeiros não chegava.
Os homens ,convocados durante a tarde reuniam-se na parada. Peitos arfantes de confusão interior não manifestada. Gente boa dos campos e das cidades. Gente inteira, como os negros que agora em silêncio, também eles preparavam mais uma saída, como guias das picadas que iriam percorrer toda a noite em patrulha de reconhecimento. Prevenção.
Manuel António vai atrás, seguro de si, convicto da temeridade da ideia. Do que deixava ficar.
Os homens deambularam a noite toda e não encontraram a caça. Aos primeiros alvores da manhã entraram no quartel visivelmente cansados. Os rostos cor de cera. As pernas bambas, indolentes e iam-se deixando cair pelos cantos de encontro à caserna.
O Alferes conta os homens, reconta e ,em sobressalto, diz que falta um homem.
Chama-os um por um. manda alguém ás latrinas, ao interior da caserna, que voltam dizendo não haver ninguém mais.
Falta o Manuel António, o cabo.
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09/06/2008
SCOLARI A MINISTRO DA EDUCAÇÃO
É uma Nação em festa. Bandeiras nas janelas, nos carros, em volta das pessoas em camisas , panos e outros artefactos. É o tema de todas as conversas. A selecção.
São um conjunto de jovens, briosos, elegantes, ricos e que do futebol têm o engenho e a arte não querem mais do que isso, ser da arte interpretes valorosos e de tal tirarem proveitos financeiros.
Mas o povo a Nação, que sempre se levanta por uma boa causa, enorme e em emoção se agiganta, vê, na selecção, a oportunidade de ser grande, de ver reconhecido o valor de ser Nação.
Tarefa dura, ser a parte maior da ambição, onde outros também o são.
Que interessa o poema, a ficção, as artes e as ciências do homem, da civilização, a medicina, A engenharia, onde a grandeza que somos é uma evidência, calada na propaganda de que somos os últimos em quase tudo o que edifica uma Nação?
Dirão que são pequenas ilhas sem honra Universal e que o futebol, isso sim, é toda uma Nação.
E não é Português, o homem que idealizou e conseguiu unir um povo inteiro à volta de uma ideia, a selecção. Seria desperdício cooptá-lo para Ministro da Educação?
Sabendo nós que o verdadeiro déficit do País, é na área da educação, porque espera o Primeiro Ministro?
Scolari, já a Ministro da Educação.
São um conjunto de jovens, briosos, elegantes, ricos e que do futebol têm o engenho e a arte não querem mais do que isso, ser da arte interpretes valorosos e de tal tirarem proveitos financeiros.
Mas o povo a Nação, que sempre se levanta por uma boa causa, enorme e em emoção se agiganta, vê, na selecção, a oportunidade de ser grande, de ver reconhecido o valor de ser Nação.
Tarefa dura, ser a parte maior da ambição, onde outros também o são.
Que interessa o poema, a ficção, as artes e as ciências do homem, da civilização, a medicina, A engenharia, onde a grandeza que somos é uma evidência, calada na propaganda de que somos os últimos em quase tudo o que edifica uma Nação?
Dirão que são pequenas ilhas sem honra Universal e que o futebol, isso sim, é toda uma Nação.
E não é Português, o homem que idealizou e conseguiu unir um povo inteiro à volta de uma ideia, a selecção. Seria desperdício cooptá-lo para Ministro da Educação?
Sabendo nós que o verdadeiro déficit do País, é na área da educação, porque espera o Primeiro Ministro?
Scolari, já a Ministro da Educação.
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05/06/2008
UMA MULHER - UM BMW AZUL
É intenso o brilho do Sol na manhã fresca desta Primavera que tinha surgido ventosa e húmida quando há dias se iniciou o seu percurso , ciclo, anual.
A mulher era linda, bela no conjunto do seu esplendor. Os cabelos soltos, escuros, talvez negros refulgindo do Sol. E vestia um vestido negro de estilo imperial, Yves Saint Laurent. A sombra projectada no chão à saída de casa. A carteira de pele, em tons negros e branco. Branco era o casaco curto que trazia sobre o decote do vestido. Os óculos escuros de uma marca, por certo, conhecida e marcante de moda.
A pele clara escuro, ou moreno claro, a adivinhar-se macia. Sensualidade é a palavra adequada ao sentimento que nos subjaz da sua aparição há porta de casa e nos gestos com que procura a chave do carro azul estacionado na via junto ao passeio, um BMW série 5, último modelo, cujas performances ela sempre enaltecia nas conversas entre amigos.
Era o seu carro preferido pelo conforto, a técnica utilizada na construção do modelo e que permitia tirar partido de todas as suas potencialidades, velocidade versus segurança.
A morena do BMW tinha um toque especial de personalidade que deixava sobressair, na forma de andar e como olhava, de cima para baixo, ou em frente de si. Sensualidade. Confiança. Personalidade forte.
Entrou no automóvel com elegância e sentou-se no banco de pele macia e de cor creme ,o cinto de segurança , o motor a trabalhar numa cadência sussurrante e o arranque suave, moderado.
Na auto estrada que a trazia do Norte para Lisboa, uma mulher como tantas num carro potente e elegante, confortável, mas não só, porque era uma mulher pensante e que se tinha em conta na essência do ser.
Era uma mulher casada, com filhos e em desespero de amores impossíveis. No limite de si própria, ou no infinito do limite se considerarmos como limite o céu ou o pensamento que nos corre em paralelo com a razão.
Amar um outro que advém de se sentir em desequilíbrio na relação amor dever que mantém e de não saber conciliar a estrutura conseguida, estável ainda que desapaixonada, monótona, com o fogo intenso de uma paixão surgida em paralelo, ou em despique e desperdiçada por motivos mesquinhos ou de efeitos contrários em emoções factuais no momento da decisão.
O carro voa com a força do pensamento em abstracto da condução, ultrapassa os limites, amortece um pouco, preocupa-se num instante da realidade. E surge-lhe um sorriso nos lábios rosados, húmidos, sensuais.
É jovem, ainda, os seios firmes e a carne seca de efeitos excessivos .
O seu carácter não se coaduna com mudanças bruscas e inseguras. Por um lado a necessidade absoluta de querer tentar a sedução de uma evidência que a consome, que lhe dói, que quando confrontada em aparições públicas a faz estremecer, inflectir de si conceitos e temores antigos. Por outro, a lealdade a um projecto que sente do outro lado de si, o marido que tem do amor a ideia perene, sem um limite, ao correr do tempo e dos silêncios e que não vê nela a ambição de si, de ser reconhecida como um fim máximo de si, que precisa de elogios e de sentir força emotiva nas relações. Paixão.
A imagem sedutora carro mulher, mulher carro, como um só pensamento da imagem que nos fixa e nos ultrapassa, porque dois corpos distintos-
E depois, esta obsessão de saber se o que sente é traição, por amar um outro que não o compromisso. Mas como traição se não teve nem quer contacto físico que consubstancie um acto que projecta na mente , mas que recusa dentro do estado em que se situa, casada, mãe de filhos. E como conciliar na sua mente que ama o marido e faz amor frequente sem a interferência de oníricas imagens do amante que sente em si mas que de si não se transmite. E como reconhecer que não se transmite.
Leva as mãos à cabeça, num gesto que indicia a tentativa de afastar ideias confusas. E volta à raiz do problema: se eu não faço sexo com a pessoa. Se eu quando faço sexo com o meu marido, o amo e tenho prazer e não penso em mais ninguém. Se eu apesar do que sinto, amo o meu marido. Amarei? Amo!
É como se este amante fosse um exterior de si, uma outra mulher que conseguiu isolar de si, um outro amor, uma paixão que a satisfaz , mas que não interfere com a personagem que é mãe e esposa.
O que ela sente é de fora da casa. É de fora da família que tem e ama. É um exterior de si interiorizado em abstracto num outro recanto da sua essência e que não pesa na mulher do BMW azul. É como se possuísse duas almas que se distanciam e se reúnem em momentos a sós, como este, para se confirmarem na sua infinitude, enquanto linhas paralelas.
É isso, no emprego não assumia uma outra personagem? E em quantas situações se apoderou de criações próprias para se reforçar e se expandir em outras direcções, quantas vezes opostas?
A mulher era linda, bela no conjunto do seu esplendor. Os cabelos soltos, escuros, talvez negros refulgindo do Sol. E vestia um vestido negro de estilo imperial, Yves Saint Laurent. A sombra projectada no chão à saída de casa. A carteira de pele, em tons negros e branco. Branco era o casaco curto que trazia sobre o decote do vestido. Os óculos escuros de uma marca, por certo, conhecida e marcante de moda.
A pele clara escuro, ou moreno claro, a adivinhar-se macia. Sensualidade é a palavra adequada ao sentimento que nos subjaz da sua aparição há porta de casa e nos gestos com que procura a chave do carro azul estacionado na via junto ao passeio, um BMW série 5, último modelo, cujas performances ela sempre enaltecia nas conversas entre amigos.
Era o seu carro preferido pelo conforto, a técnica utilizada na construção do modelo e que permitia tirar partido de todas as suas potencialidades, velocidade versus segurança.
A morena do BMW tinha um toque especial de personalidade que deixava sobressair, na forma de andar e como olhava, de cima para baixo, ou em frente de si. Sensualidade. Confiança. Personalidade forte.
Entrou no automóvel com elegância e sentou-se no banco de pele macia e de cor creme ,o cinto de segurança , o motor a trabalhar numa cadência sussurrante e o arranque suave, moderado.
Na auto estrada que a trazia do Norte para Lisboa, uma mulher como tantas num carro potente e elegante, confortável, mas não só, porque era uma mulher pensante e que se tinha em conta na essência do ser.
Era uma mulher casada, com filhos e em desespero de amores impossíveis. No limite de si própria, ou no infinito do limite se considerarmos como limite o céu ou o pensamento que nos corre em paralelo com a razão.
Amar um outro que advém de se sentir em desequilíbrio na relação amor dever que mantém e de não saber conciliar a estrutura conseguida, estável ainda que desapaixonada, monótona, com o fogo intenso de uma paixão surgida em paralelo, ou em despique e desperdiçada por motivos mesquinhos ou de efeitos contrários em emoções factuais no momento da decisão.
O carro voa com a força do pensamento em abstracto da condução, ultrapassa os limites, amortece um pouco, preocupa-se num instante da realidade. E surge-lhe um sorriso nos lábios rosados, húmidos, sensuais.
É jovem, ainda, os seios firmes e a carne seca de efeitos excessivos .
O seu carácter não se coaduna com mudanças bruscas e inseguras. Por um lado a necessidade absoluta de querer tentar a sedução de uma evidência que a consome, que lhe dói, que quando confrontada em aparições públicas a faz estremecer, inflectir de si conceitos e temores antigos. Por outro, a lealdade a um projecto que sente do outro lado de si, o marido que tem do amor a ideia perene, sem um limite, ao correr do tempo e dos silêncios e que não vê nela a ambição de si, de ser reconhecida como um fim máximo de si, que precisa de elogios e de sentir força emotiva nas relações. Paixão.
A imagem sedutora carro mulher, mulher carro, como um só pensamento da imagem que nos fixa e nos ultrapassa, porque dois corpos distintos-
E depois, esta obsessão de saber se o que sente é traição, por amar um outro que não o compromisso. Mas como traição se não teve nem quer contacto físico que consubstancie um acto que projecta na mente , mas que recusa dentro do estado em que se situa, casada, mãe de filhos. E como conciliar na sua mente que ama o marido e faz amor frequente sem a interferência de oníricas imagens do amante que sente em si mas que de si não se transmite. E como reconhecer que não se transmite.
Leva as mãos à cabeça, num gesto que indicia a tentativa de afastar ideias confusas. E volta à raiz do problema: se eu não faço sexo com a pessoa. Se eu quando faço sexo com o meu marido, o amo e tenho prazer e não penso em mais ninguém. Se eu apesar do que sinto, amo o meu marido. Amarei? Amo!
É como se este amante fosse um exterior de si, uma outra mulher que conseguiu isolar de si, um outro amor, uma paixão que a satisfaz , mas que não interfere com a personagem que é mãe e esposa.
O que ela sente é de fora da casa. É de fora da família que tem e ama. É um exterior de si interiorizado em abstracto num outro recanto da sua essência e que não pesa na mulher do BMW azul. É como se possuísse duas almas que se distanciam e se reúnem em momentos a sós, como este, para se confirmarem na sua infinitude, enquanto linhas paralelas.
É isso, no emprego não assumia uma outra personagem? E em quantas situações se apoderou de criações próprias para se reforçar e se expandir em outras direcções, quantas vezes opostas?
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