Tinha um andar indolente e não era do clima quente e húmido. Era um andar provocatório, desleixado, da sua própria índole e tinha o hábito de puxar as orelhas daqueles que tinha mais confiança, não intimidade, confiança de falar, pouco, mas de falar.
A especialidade dele era Cripto, o que fazia da sua figura, um anátema de perdição, por tudo o que nele era enigma, os olhos sempre sorridentes, sagazes a perscrutarem semblantes, movimentos de lábios, gestos, e o indiciavam como um bufo ao serviço dos interesses.
As conversas mais politizadas cessavam , passavam a banalidades, à sua aparição, sarcasticamente sorridente. Rafa, o cripto. O que fazia as ligações do comando do aquartelamento, com o comando territorial. Só ele sabia as horas de saída em patrulha simples ou em missão de combate. As operações com grande movimento de tropas.
Rafa era mais importante que o capitão e não granjeava amigos.
Mas Rafa subsistia apenas. Como a grande parte deles, Rafa fora recrutado, arrancado a uma carreira promissora, à continuidade dos estudos que o levariam à formação em Psicologia, a sua paixão desde a adolescência.
É verdade que os observava, atento ao pormenor de um esgar, os gestos distraídos, que são os mais verdadeiros de uma pessoa. Uma palavra vaga, pitoresca, ou picaresca, ou séria e profunda mas aleatória, saída do vácuo da memória .
Amava cada um deles, uns mais que outros, questão de empatia, se superficialidade ou de profundidade, mas amava-os como pessoas genuínas, cobaias únicas reunidas num laboratório imenso e soltas.
Quando saíam para uma operação que só ele sabia podia ser fatal para alguns. Levantava-se à hora. E fica a vê-los, a galhofarem uns com os outros para afastarem o medo, de cada um de si. Os rostos apagados de outros, em período de concentração, de oração ou encomenda da alma. Ficava escondido, na penumbra da aurora que lá vinha. Os olhos toldados por lágrimas atrevidas que não podiam ser vistas. Um homem não chora. Um cripto é um homem que se quer frio, independente de emoções. Como se fosse possível...
Admirava Manuel António em especial. O seu ar aparentemente sereno, sorumbático por vezes, ou quando o via expectante, olhando a Lua num recanto da noite, poético, pensante de vá lá saber-se o quê...E como gostaria de o interpelar, discutir com ele nuances da politica, ensejos da alma, perspectivas do homem, os insondáveis segredos da mente que se deixam escapar em momentos de êxtase do ser, desapercebidos do consciente.
Manuel António parecia-lhe uma figura ímpar de humanidade. Acompanhava os indígenas em tarefas pesadas, dançava com as crianças na alegria das cantigas ao som do batuque do pilão, falava-lhes da metafísica de ser povo, o ar incrédulo e estranho dos jovens...
A importância de se assumirem como pessoas em evolução. Não que a evolução fosse uma meta, uma imposição de ser homem pleno, mas porque no estádio em que se encontravam eram uma presa fácil dos oportunismos encapotados de civilizacionais.
Rafa observava estas prédicas, de longe, mas suficientemente perto para perceber que os indígenas o ouviam por respeito, que achavam piada ao ênfase que punha nas palavras. Os olhos brilhantes de emoção.
Rafa admirava Manuel António pela sua camaradagem com os outros, da Companhia, o seu sentido do dever de instruir, de clarear ideias preconcebidas , de desfazer equívocos sobre o direito de soberania, o dever de lealdade. E nós, onde ficamos nós nas obrigações e nos deveres? Era um grito frequente de Manuel António, no meio da parada, sem medo.
Ter o homem como fim. A entreajuda o repartir do pão e da palavra. O entendimento do todo, do papel de cada um para o todo, da partícula ínfima de cada um, do seu corpo, do seu espírito, para o seu todo de si que iria reforçar o todo total, o todo absoluto.
Rafa sabia que não o devia interpelar nestes momentos de ousadia espiritual. O mais certo seria que debandasse, que se furtasse ao diálogo com ele, Rafa, o Cripto, conotado de bufo.
Ganhava mais observando-o de longe, medindo-lhe os gestos, os suspiros de ânsia ou enfado. As mãos inquietas que procuram posição sobre o tronco velho de uma árvore.
E era tudo o que lhe afluía à memória, neste instante único que há muito desejava, o convívio anual, ao vê-lo a rir-se despreocupado com outros companheiros, tantos anos passados, vividos em ausências.
_Rafa!...
_Manuel António!...
Um abraço emotivo , um beijo em cada uma das faces, o selo antigo da amizade profunda.
Falar dos percursos, andanças, vivências, tragédias e amores felizes.
_Sempre pensei que me consideravas um bufo.
Os olhos nos olhos, límpidos, por entre o nublado das emoções.
_Mas não, Rafa, os teus olhos eram leais. Se nos tornássemos íntimos, daria nas vistas, seríamos conotados como traidores.
Riram-se ambos num reforçado abraço, com palmadas amplas e fortes de Rafa nas costas de Manuel António.
_Sabes, Manuel António, ainda tenho um sonho que quero realizar.
_Sonhar até ao infinito do ser que vamos sendo. E que é?...
Rafa inquieta-se, agita o corpo, as mãos saracoteiam no ar leve da meia manhã, os olhos chispam raios de luz, uma luz de tipo novo.
_Reunir fundos, já tenho algum, saber a morada de todos e visitá-los, um a um, para saber se têm fome, qualquer tipo de fome...
_Rafa!!!...
-------------------------------------------------------------------------------
Podia ser o inicio de uma história de vida romanceada, a envolver negócios, empresas de estilo familiar que ainda são o sustentáculo do país. E a tragédia que os apanha desprevenidos e vai condicionar toda a estrutura familiar futura. Ou o êxito de empreendimentos pessoais, conquistados e construídos a pulso.
É o que me proponho. Escrever sobre vidas anónimas que valem as luzes da ribalta ou a fixação histórica e que traduzem a essência de um povo. Primeiro de uma família. Primeiro ainda, ou antes de tudo, a essência de um homem, de uma mulher.
Escreverei por encomenda, preços de acordo com extensão e pesquisa de documentação. Mas com a paixão que o percurso proposto me suscitar.
Aguardo a vossa proposta.
J.R.G.
Blog de intervenção e reflexão e alguma literatura, numa salada que pretendo harmoniosa e saudável.
15/08/2008
MEMÓRIAS DA GUERRA - RAFA
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
09:37
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
cultura,
desafios,
educção,
homem,
memórias,
pessoas da minha vida,
Sociedade,
vida
10/08/2008
LAURA - ADULTÉRIO SEM RETORNO
Laura, sentada na secretária, no pequeno escritório da oficina que mantinha em sociedade com o marido, os olhos castanhos claros, raiados de tons de verde, avelãs. Os cabelos negros, a pele morena, mordendo os lábios carnudos,descorados pelo frio que sentia, apesar do verão seco e quente, os olhos fixos na imagem de Zé Maria, seu marido, que conversava com uma cliente soltando alegres gargalhadas em momentos de descontracção de pausa no trabalho.
A outra era loura e bem mais jovem que Laura. Bem produzida quer na vestimenta quer nos adornos em brincos.colares e pinturas. Teria perto de 30 anos e Laura perto dos 40, sentia ciúmes de todas as mulheres com quem Zé Maria gastava pausas de serviço, ou em serviço de relações públicas, explicando porque pensava ser o motivo da avaria, o que ele apontava como mais provável e não outro, que à cliente lhe parecia mais plausível.
Laura pensava que o que ele pretendia ao demorar as explicações era medir a estrutura física das tipas e apanha um ponto fraco, algo que o impelisse a avançar com uma proposta de almoço, ou simples encontro para práticas sexuais lesivas da sua qualidade de esposa.
Lúcia, a loura que falava com Zé Maria, tinha uns olhos claros de amêndoa, um corpo saliente de formas harmoniosas com destaque para as nádegas, ou o rabo, ovalizado e saído , empinado, que ela agitava com o andar ou os meneios do corpo enquanto falava
Era o que se podia chamar de cu obsceno. E obsceno porque todo ele induzia sensualidade, sexo, devaneios, apelativo aos desejos, ostensivo de voluptuosidade.. Quando Lúcia passeava no passeio o seu cão caniche, não havia olhar de homem e de mulher que resistisse e ela sabia e sorria disfarçadamente ou em evidente ostentação , para mulheres despeitadas que a sabiam cobiçada dos maridos.
Laura também sabia da reputação de Lúcia.
Um dia dissera-lhe, a ele, Zé Maria, perguntara-lhe o que encontrava nas outras mulheres que ela lhe sonegasse, E ele, que esposa era diferente. A casa, as crianças o sexo clássico para satisfação pontual. Ele amava-a, estivesse certa disso.
E ela, que não concordava, também tinha desejos, fantasias que a inquietavam, também gostava de sexo anal e oral e gostava que antes das penetrações a excitasse no clitóris, que lhe descobrisse as zonas do seu corpo mais sensíveis à excitação da libido, que não lhe machucasse as mamas e mordesse os mamilos, se não sabia que isso podia provocar cancro ou outra afecções das glândulas mamárias.
E ele, Zé Maria, erguera da mão e dera-lhe duas estaladas violentas. Desde aí andavam amuados e agora, ostensivamente, gargalhava com aquela desavergonhada.
Laura estava possessa de raiva. Os olhos chispavam de ódio, rebarbativa, mexia-se na cadeira que quase a tombava.
Pensava nas filhas, uma do falecido, o seu primeiro marido e outra deste Javardo
que aceitara tomar por marido e em má hora o fizera.
Vi-os sair no carro dela. Zé Maria disse que o ia experimentar. Se fosse um cliente, mandava-o ir sozinho ver se estava tudo bem, mas ali havia tramóia. ela sentia isso.
Ir embora, deixá-lo. E coragem para isso? Onde iria viver sem dar glórias a ninguém?
E como iria subsistir? Sim, o marido por certo não a queria na oficina. E ele é homem, mais forte , abrutalhado.
Traí-lo!
Mas Laura tinha do casamento uma ideia de respeito absoluto, de angélica submissão ao poder marital. Só de sonhar com outro homem, um amante de verdade, indispunha-a contra si própria. Era uma ideia que caminhava a par com os desejos ardentes que sentia em todo o corpo e na alma que a atormentava. Sentir-se amada, querida, desejada e devidamente reconhecida como mulher plena de tudo e o tudo era, boa mulher, boa mãe, boa amante.
O toque rotineiro do telefone, interrompeu-lhe a meditação.
-Sou a Sónia. Era para te dizer que fazes muito bem em continuar com esse safardanas mulherengo do teu marido, que te maltrata...Blá...blá...blá...
-Sim, mas o que se passa? Porque me telefonas para repetires o que já me disseste vezes sem conta.
-Ele,o teu Zé Maria, acaba de entrar na casa da Lúcia e ia todo sorridente, com a mão sobre o cu dela. Imagina a cena, no interior da casa!...
E desligou. Era a irmã, Sónia solteirona que dizia dos homens as mais hediondas barbaridades. Que só viam sexo nas mulheres.Que se serviam das mulheres. Que as usavam até que, gastas, deitavam-nas fora como imprestáveis.
Laura ficou para morrer. Se pudesse fechava a oficina e apanhava-os em flagrante. discutiriam. Pelo menos desta vez , se ela ousasse, não satisfaziam o prazer das suas fantasias. Os olhos raiados de vermelho de os esfregar, húmidos de raiva, de se sentir humilhada no silêncio dos amantes, nos risos soeses, nos olhares enviesados. Rejeitada.
A outra era loura e bem mais jovem que Laura. Bem produzida quer na vestimenta quer nos adornos em brincos.colares e pinturas. Teria perto de 30 anos e Laura perto dos 40, sentia ciúmes de todas as mulheres com quem Zé Maria gastava pausas de serviço, ou em serviço de relações públicas, explicando porque pensava ser o motivo da avaria, o que ele apontava como mais provável e não outro, que à cliente lhe parecia mais plausível.
Laura pensava que o que ele pretendia ao demorar as explicações era medir a estrutura física das tipas e apanha um ponto fraco, algo que o impelisse a avançar com uma proposta de almoço, ou simples encontro para práticas sexuais lesivas da sua qualidade de esposa.
Lúcia, a loura que falava com Zé Maria, tinha uns olhos claros de amêndoa, um corpo saliente de formas harmoniosas com destaque para as nádegas, ou o rabo, ovalizado e saído , empinado, que ela agitava com o andar ou os meneios do corpo enquanto falava
Era o que se podia chamar de cu obsceno. E obsceno porque todo ele induzia sensualidade, sexo, devaneios, apelativo aos desejos, ostensivo de voluptuosidade.. Quando Lúcia passeava no passeio o seu cão caniche, não havia olhar de homem e de mulher que resistisse e ela sabia e sorria disfarçadamente ou em evidente ostentação , para mulheres despeitadas que a sabiam cobiçada dos maridos.
Laura também sabia da reputação de Lúcia.
Um dia dissera-lhe, a ele, Zé Maria, perguntara-lhe o que encontrava nas outras mulheres que ela lhe sonegasse, E ele, que esposa era diferente. A casa, as crianças o sexo clássico para satisfação pontual. Ele amava-a, estivesse certa disso.
E ela, que não concordava, também tinha desejos, fantasias que a inquietavam, também gostava de sexo anal e oral e gostava que antes das penetrações a excitasse no clitóris, que lhe descobrisse as zonas do seu corpo mais sensíveis à excitação da libido, que não lhe machucasse as mamas e mordesse os mamilos, se não sabia que isso podia provocar cancro ou outra afecções das glândulas mamárias.
E ele, Zé Maria, erguera da mão e dera-lhe duas estaladas violentas. Desde aí andavam amuados e agora, ostensivamente, gargalhava com aquela desavergonhada.
Laura estava possessa de raiva. Os olhos chispavam de ódio, rebarbativa, mexia-se na cadeira que quase a tombava.
Pensava nas filhas, uma do falecido, o seu primeiro marido e outra deste Javardo
que aceitara tomar por marido e em má hora o fizera.
Vi-os sair no carro dela. Zé Maria disse que o ia experimentar. Se fosse um cliente, mandava-o ir sozinho ver se estava tudo bem, mas ali havia tramóia. ela sentia isso.
Ir embora, deixá-lo. E coragem para isso? Onde iria viver sem dar glórias a ninguém?
E como iria subsistir? Sim, o marido por certo não a queria na oficina. E ele é homem, mais forte , abrutalhado.
Traí-lo!
Mas Laura tinha do casamento uma ideia de respeito absoluto, de angélica submissão ao poder marital. Só de sonhar com outro homem, um amante de verdade, indispunha-a contra si própria. Era uma ideia que caminhava a par com os desejos ardentes que sentia em todo o corpo e na alma que a atormentava. Sentir-se amada, querida, desejada e devidamente reconhecida como mulher plena de tudo e o tudo era, boa mulher, boa mãe, boa amante.
O toque rotineiro do telefone, interrompeu-lhe a meditação.
-Sou a Sónia. Era para te dizer que fazes muito bem em continuar com esse safardanas mulherengo do teu marido, que te maltrata...Blá...blá...blá...
-Sim, mas o que se passa? Porque me telefonas para repetires o que já me disseste vezes sem conta.
-Ele,o teu Zé Maria, acaba de entrar na casa da Lúcia e ia todo sorridente, com a mão sobre o cu dela. Imagina a cena, no interior da casa!...
E desligou. Era a irmã, Sónia solteirona que dizia dos homens as mais hediondas barbaridades. Que só viam sexo nas mulheres.Que se serviam das mulheres. Que as usavam até que, gastas, deitavam-nas fora como imprestáveis.
Laura ficou para morrer. Se pudesse fechava a oficina e apanhava-os em flagrante. discutiriam. Pelo menos desta vez , se ela ousasse, não satisfaziam o prazer das suas fantasias. Os olhos raiados de vermelho de os esfregar, húmidos de raiva, de se sentir humilhada no silêncio dos amantes, nos risos soeses, nos olhares enviesados. Rejeitada.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
22:21
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amor,
cultura,
EDUCAÇÃO,
familia,
homem,
humilhação,
mulher coragem,
mulheres,
paixão,
sexo,
Sociedade,
vida
06/08/2008
POESIA ERRÁTICA III
o limite diáfano
Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.
Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.
Sebastiâo Alba
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
01:18
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
cultura,
educção,
homem,
memórias,
mulheres,
paixão,
professores,
vagabundo,
vida
30/07/2008
A NOVA ERA QUE AI VEM
Hoje venho dizer-vos que a nova era está ai ,ás portas da nossa existência desesperada. Foi instituída no cosmos pelos planetas que regem a vida na Terra. Reuniram-se e decidiram que era tempo de alterar tudo porque estávamos enfim conscientes da nossa evidência. Amadurecidos pelas tragédias e pela glória. Mas desesperados, sem saída plausível para uma vida sem sentido perante tanta abundância.
Decretaram que a vida seria regida do interior de cada um, da essência do ser e não transmitida ao ser como até aqui.
Decretaram o fim de todos os conceitos em que nos enrodilhamos na expectativa de justificarmos os nossos próprios erros. Instituíram a plena consciência.
Decretaram o fim do dinheiro e da propriedade. Instituíram a livre distribuição da riqueza.
Decretaram o fim da tristeza melancólica que conduz ao suicídio. Instituíram a alegria.
Decretaram o fim dos julgamentos públicos e privados. Instituíram o bom senso.
Decretaram o fim do ódio. Instituíram o amor profundo. A paixão.
Decretaram o fim da infidelidade, da traição. Instituíram os actos de amor. múltiplos.
Decretaram o fim de todas as guerras. Instituíram a paz eterna.
Decretaram o fim dos desperdícios da produção. Instituíram a racionalização
Decretaram o fim da mentira e da verdade. Instituíram a realidade.
Decretaram o fim da loucura, da insanidade. Instituíram a cura por absorção de realidade.
Decretaram o fim da razão pura. Instituíram a interioridade.
Decretaram o fim das fontes de energia. Instituíram a fusão a frio.
Decretaram o fim da ignorância. Instituíram o ensino permanente.
Decretaram o fim do tempo. Instituíram o intemporal.
Decretaram o fim de Deus e do Diabo. Instituíram o homem como símbolo de toda a animalidade.
E perguntam que mais nos aflige. Estão reunidos em permanência, e na roda das regências é Plutão quem reina e manda que se afixem, na mente de cada um, na alma, nas vísceras, para que comecem a preparar o advento da nova era, sem dor, sem especulação, antes moderada, docemente.
A nova era quer trazer a paz, o amor a sedução pelo belo e o mais profundo do ser. O amor à natureza e aos animais que nela convivem em equilíbrio de certezas.
Saudemos a nova era que aí vem. O fim de todos os nossos problemas. Os males de amores. As traições. O fim dos despedimentos, das doenças, dos aumentos constantes dos preços. Das invejas. Desrespeitos. Da ladroagem que nos rouba o sustento. Das religiões que nos oprimem a liberdade de pensamento. O fim do pecado, do erro.
Cheire-mo-nos uns aos outros e construamos um novo amor
Decretaram que a vida seria regida do interior de cada um, da essência do ser e não transmitida ao ser como até aqui.
Decretaram o fim de todos os conceitos em que nos enrodilhamos na expectativa de justificarmos os nossos próprios erros. Instituíram a plena consciência.
Decretaram o fim do dinheiro e da propriedade. Instituíram a livre distribuição da riqueza.
Decretaram o fim da tristeza melancólica que conduz ao suicídio. Instituíram a alegria.
Decretaram o fim dos julgamentos públicos e privados. Instituíram o bom senso.
Decretaram o fim do ódio. Instituíram o amor profundo. A paixão.
Decretaram o fim da infidelidade, da traição. Instituíram os actos de amor. múltiplos.
Decretaram o fim de todas as guerras. Instituíram a paz eterna.
Decretaram o fim dos desperdícios da produção. Instituíram a racionalização
Decretaram o fim da mentira e da verdade. Instituíram a realidade.
Decretaram o fim da loucura, da insanidade. Instituíram a cura por absorção de realidade.
Decretaram o fim da razão pura. Instituíram a interioridade.
Decretaram o fim das fontes de energia. Instituíram a fusão a frio.
Decretaram o fim da ignorância. Instituíram o ensino permanente.
Decretaram o fim do tempo. Instituíram o intemporal.
Decretaram o fim de Deus e do Diabo. Instituíram o homem como símbolo de toda a animalidade.
E perguntam que mais nos aflige. Estão reunidos em permanência, e na roda das regências é Plutão quem reina e manda que se afixem, na mente de cada um, na alma, nas vísceras, para que comecem a preparar o advento da nova era, sem dor, sem especulação, antes moderada, docemente.
A nova era quer trazer a paz, o amor a sedução pelo belo e o mais profundo do ser. O amor à natureza e aos animais que nela convivem em equilíbrio de certezas.
Saudemos a nova era que aí vem. O fim de todos os nossos problemas. Os males de amores. As traições. O fim dos despedimentos, das doenças, dos aumentos constantes dos preços. Das invejas. Desrespeitos. Da ladroagem que nos rouba o sustento. Das religiões que nos oprimem a liberdade de pensamento. O fim do pecado, do erro.
Cheire-mo-nos uns aos outros e construamos um novo amor
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
23:22
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
cultura,
EDUCAÇÃO,
escola,
familia,
felicidade,
governo,
homem,
HUMANIDADE,
liberdade,
mulheres,
paixão,
professores,
Sociedade,
vida
22/07/2008
CONHITA E A ASTRÓLOGA (Esboço)
A tarde fresca de fim de Verão, o sol no ocaso em tons de amarelo envelhecido, indiciando frescura na aragem que corria de norte, nordeste, amena ,embora por vezes forte, apanhava os homens caminhando na areia molhada da borda de água em passo estugado, porque nisto de apanhar lance de feição, por cinco minutos se perdia, por cinco minutos se ganhava..
O mestre tem crenças. Convicções. É naquele preciso lugar, hoje, esta tarde. Se não for, mais valia ir embora. Se perder a maré, o lance, a vez .Se perder a fixação da sua ideia e o outro apanhar um bom lance de peixe, perder-se-á em tremulações de voz, acusando em abstracto tudo e todos. Mestre. O arrais da companha. Há quanto tempo na safra?
O mar está cavado, um pouco corso na rebentação. A atenção redobrada quando o barco se fizer ao mar.
Conhita, o olhar místico vagueando entre o chão e o mar. Esbracejando. Os olhos como que saindo das órbitas, meão de tamanho, a barba de pirata dos mares, farta em tons de preto com laivos esbranquiçados. Falava com Pedro, o poeta , por dizer poesias e frases idílicas.
Cristina viera com eles desde a vila. Estava de férias e envolvera-se numa espécie de namoro, uma amizade crescente, com beijos e abraços fugidios e porque admirava de Pedro a versatilidade de conhecimentos, o ser da Vila e este ir ao mar, numa pesca ancestral, que ela conhecia vagamente dos dias de infância, breves. Era Astróloga, casada com um Astrólogo e se mi divorciada. Isto é, tinham um acordo tácito de vivência em comum.
-Conhita!, disse Cristina, um sorriso largo entre o curioso e o trocista, mas um trocista ternurento. Os teus pais não gostaram de ti quando nasceste, ou o Conhita quer dizer algo muito à frente, que só um Uraniano compreenderia?
Conhita olhou para Pedro, franzindo a testa até que as gelhas se juntassem como uma só. E com um dedo na testa, apontado à testa.
-Pedro, pá!. Essa gaja é maluca, não? Eu cá sou de Marte. Fui visitado por Marcianos a noite passada, disse, olhando Cristina nos olhos.
Olhos lindos, de Cristina, castanhos, luminosos.
A companha estava pronta. O barco aprumado junto à água, chamavam os retardatários.
Conhita e Pedro aos remos. E Pedro para o arrais:
-A miúda pode vir?
- O mar está um bocado corso. Na sei .
-Ela é responsável, pah!
Olhou para o lado e sorriu, um sorriso malandro de aquiescência. Pedro ajudou Cristina a saltar e disse-lhe.
-Segura-te bem. Uma onda forte pode fazer-te saltar para o mar.
Cristina agarrou-se com força à proa do barco, olhando os homens aprumados aos remos como nas galés. Era uma experiência única.
A Lua em quarto crescente. Noite límpida. De terra os homens empurram o barco. As ondas que vêm vindo ajudam, os dos remos arrastam na areia. Formam uma força absoluta.
- Vai levado! Vai Levado Vai Levado!
Gritam os de terra. Enquanto os dos remos, gritam também, sob o olhar atento do arrais , na popa do barco, virado de frente para o mar, as ondas traiçoeiras na noite.
- Rema! Rema! Rema!, em esforço. Numa simbiose de força conjunta em simultâneo e o barco toma balanço, ganha força e vence a resistência das ondas.
De súbito, o arrais grita:
-Força, remem caralho!.
Os homens obedecem como uma mola, empertigam-se e broom. Violento o embate na frente chata do barco que o empina como um cavalo, uma onda maior, talvez a sétima que é a última de uma série continuada de arremetidas.
Pedro olha Cristina, branca pelo susto. Olhos nos olhos na noite de luar em crescendo. Resvalou um pouco, mas agarrou a corda do ferro, com quanta força tinha, num impulso.
-Tudo bem, amor?
E ela, entre surpresa e assustada. A lua agora no seu rosto bonito, E um sorriso confiante.
-Tudo bem, amor.
...
O mestre tem crenças. Convicções. É naquele preciso lugar, hoje, esta tarde. Se não for, mais valia ir embora. Se perder a maré, o lance, a vez .Se perder a fixação da sua ideia e o outro apanhar um bom lance de peixe, perder-se-á em tremulações de voz, acusando em abstracto tudo e todos. Mestre. O arrais da companha. Há quanto tempo na safra?
O mar está cavado, um pouco corso na rebentação. A atenção redobrada quando o barco se fizer ao mar.
Conhita, o olhar místico vagueando entre o chão e o mar. Esbracejando. Os olhos como que saindo das órbitas, meão de tamanho, a barba de pirata dos mares, farta em tons de preto com laivos esbranquiçados. Falava com Pedro, o poeta , por dizer poesias e frases idílicas.
Cristina viera com eles desde a vila. Estava de férias e envolvera-se numa espécie de namoro, uma amizade crescente, com beijos e abraços fugidios e porque admirava de Pedro a versatilidade de conhecimentos, o ser da Vila e este ir ao mar, numa pesca ancestral, que ela conhecia vagamente dos dias de infância, breves. Era Astróloga, casada com um Astrólogo e se mi divorciada. Isto é, tinham um acordo tácito de vivência em comum.
-Conhita!, disse Cristina, um sorriso largo entre o curioso e o trocista, mas um trocista ternurento. Os teus pais não gostaram de ti quando nasceste, ou o Conhita quer dizer algo muito à frente, que só um Uraniano compreenderia?
Conhita olhou para Pedro, franzindo a testa até que as gelhas se juntassem como uma só. E com um dedo na testa, apontado à testa.
-Pedro, pá!. Essa gaja é maluca, não? Eu cá sou de Marte. Fui visitado por Marcianos a noite passada, disse, olhando Cristina nos olhos.
Olhos lindos, de Cristina, castanhos, luminosos.
A companha estava pronta. O barco aprumado junto à água, chamavam os retardatários.
Conhita e Pedro aos remos. E Pedro para o arrais:
-A miúda pode vir?
- O mar está um bocado corso. Na sei .
-Ela é responsável, pah!
Olhou para o lado e sorriu, um sorriso malandro de aquiescência. Pedro ajudou Cristina a saltar e disse-lhe.
-Segura-te bem. Uma onda forte pode fazer-te saltar para o mar.
Cristina agarrou-se com força à proa do barco, olhando os homens aprumados aos remos como nas galés. Era uma experiência única.
A Lua em quarto crescente. Noite límpida. De terra os homens empurram o barco. As ondas que vêm vindo ajudam, os dos remos arrastam na areia. Formam uma força absoluta.
- Vai levado! Vai Levado Vai Levado!
Gritam os de terra. Enquanto os dos remos, gritam também, sob o olhar atento do arrais , na popa do barco, virado de frente para o mar, as ondas traiçoeiras na noite.
- Rema! Rema! Rema!, em esforço. Numa simbiose de força conjunta em simultâneo e o barco toma balanço, ganha força e vence a resistência das ondas.
De súbito, o arrais grita:
-Força, remem caralho!.
Os homens obedecem como uma mola, empertigam-se e broom. Violento o embate na frente chata do barco que o empina como um cavalo, uma onda maior, talvez a sétima que é a última de uma série continuada de arremetidas.
Pedro olha Cristina, branca pelo susto. Olhos nos olhos na noite de luar em crescendo. Resvalou um pouco, mas agarrou a corda do ferro, com quanta força tinha, num impulso.
-Tudo bem, amor?
E ela, entre surpresa e assustada. A lua agora no seu rosto bonito, E um sorriso confiante.
-Tudo bem, amor.
...
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
22:46
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
19/07/2008
PORQUE CHORAS MEU AMOR ?
Porque chora a tua alma
porque gritas no silêncio a tua dor
que fome o teu espírito não acalma
que angústia não te basta o meu amor
Porque procuras no silêncio a resposta
porque não queres ouvir a minha voz
que sou escravo da tua vida exposta
que sou a outra parte de ti em nós
Porque chora a tua alma meu amor
se o mar e o céu te nos amparam
é tempo de soltares os nós das amarras
É tempo de te abrires ao mundo como rara flor
orgulhosa dos seres que te amaram
nos jardins da vida na alma e no canto das cigarras
J.R.G.
porque gritas no silêncio a tua dor
que fome o teu espírito não acalma
que angústia não te basta o meu amor
Porque procuras no silêncio a resposta
porque não queres ouvir a minha voz
que sou escravo da tua vida exposta
que sou a outra parte de ti em nós
Porque chora a tua alma meu amor
se o mar e o céu te nos amparam
é tempo de soltares os nós das amarras
É tempo de te abrires ao mundo como rara flor
orgulhosa dos seres que te amaram
nos jardins da vida na alma e no canto das cigarras
J.R.G.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
22:51
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amor,
cultura,
EDUCAÇÃO,
felicidade,
homem,
mulheres,
paixão,
pessoas da minha vida,
vida
17/07/2008
O DELFIM NÃO ERA UM ASSASSINO
O Delfim era um jovem. como todos os que compunham a Companhia, arrancado compulsivamente à terra, à família, aos amores. Um jovem alegre, mas intranquilo, emocionalmente frágil, questionante do porquê ele, ali, algures África.
Cumpria o seu dever ao integrar as tropas regulares de um país, o seu país. Integrava as colunas, sofria emboscadas e estava sujeito ás armadilhas, ás minas traiçoeiras que já vira rebentar, pisadas por jovens como ele e sem que houvesse em quem atirar, fazer a desforra. Nada. minas solitárias, intransigentes com uma pequena distracção, com a insuficiência de material de detecção. A importância da desforra. A vingança...
O delfim bebia para afogar o desespero de estar ali, algures África sem ver a família, sem poder ajudar a família, sem poder estar com a namorada, os amigos.
O ar era quente e húmido. As mulheres andavam de peito descoberto. De resto eram só jovens como ele, sem grandes diálogos, que jogavam as cartas, a lerpa, nos momentos de ócio e bebiam na cantina cerveja que matasse a sede e a saudade, que afugentasse a morte. A morte, morrer dum tiro vindo do silêncio da mata verde e bela.
Manuel António observava aquela personalidade caótica, dia após dia. Delfim viera falar-lhe do efeito das granadas ofensivas, granadas de mão. Cada um tinha umas quantas à sua guarda. Levavam-nas e traziam-nas. Calculavam que rebentariam se as tivessem de usar. Não traziam prazo de garantia. Estavam ali, a um canto dos armários, verdes , elas, as granadas, com uns relevos a toda a volta para evitar que resvalassem das mãos que as atirariam, um dia.
-Sabes, Manuel António, ainda um dia gostava de ver o efeito disto a rebentar.
A granada na mão. A cavilha de segurança, um pedaço de arame revirado na ponta, a argola de onde um dedo a puxaria, com determinação.
Manuel António olhou para delfim. Procurou os olhos e só viu uma espécie de baba que lhe saía dos cantos dos lábios. Lábios finos, cortantes. Abominava granadas, balas, tudo o que cheirasse a pólvora..
- Cuidado com isso, pá. Que fazes com a granada? Vão sair?
-Não, mas que gostava de ver isto rebentar, gostava. Para que temos isto?
Cambaleava de um lado para o outro. Olhou-o, agora sim, nos olhos pequeninos se mi cerrados, um brilho estranho, metálico a sobressair da pele escurecida pelo Sol .
-É melhor nunca saberes o efeito dessa merda. Vai guardar. Não podes andar aí com uma granada ofensiva. Cais e matas-.te e matas alguém.
Delfim recuou uns passos, temendo que o outro lhe tirasse a granada. Fez um esgar, um riso indecifrável se de alegria se de louco ou cobardia. Manuel António insistiu, tentando segurá-lo ali até que viesse alguém. Um outro. E disse.
-És de Vila Verde?. Fala-me da tua vida lá, Família, namorada. Que fazias.
Os olhos de Delfim encheram-se de lágrimas e a voz soou rouca, trémula, desequilibrada.
-Sou. Porra, não me fales da família. Eu era uma parte que fazia falta. A namorada já me pôs os cornos. Que sa foda. Vai cu caralho. Ninguém me escreve. Ás tantas já não tenho ninguém.
Numa das mãos a garrafa de cerveja quase vazia, na outra a granada. E nada. Pessoa alguma aparecia naquele fim de tarde, quase noite. O motor da geradora roncava a sua toada constante e monótona. O grito agonizante dos macacos que se recolhiam.
-Tem calma, disse Manuel António, os olhos húmidos, moreno quase negro, olhos castanhos de um escuro quase negro, vais arranjar outra quando chegares. Aguenta. São mais uns meses, poucos.
Delfim chorava convulsivamente. bebeu o resto da cerveja dum trago, sem uma palavra e desandou para a cantina dos soldados.
Manuel António ficou a vê-lo, cambaleando em vai e vens e troca de passos, viu que entrou primeiro na caserna e voltou a sair. Descansou porque não lhe viu a granada na mão.
Lá ia ele, o Delfim, para mais umas cervejas, até o fim de si. e pensou que era uma geração fodida. O álcool, o calor, a pressão, os tiros e rebentamentos, as armadilhas, as minas.
Uma geração estropiada. Aguentar, prever-se de si, a si, mas como ? Se o quadro estava pintado de uma forma indelével. Sem saída que provesse o futuro que queria.
Como sair ileso? os neurónios desafectados, os genes compactados na revolta contra os elementos. Como sair ileso deste inferno?
Ouviu-se um estrondo medonho, Manuel António encolheu-se. deitou-se no chão. todo ele tremia sem saber que atitude tomar. A espingarda estava longe, mas estranhou não ver a correria do costume . Silêncio. Apenas o motor da geradora, monótono, incessante. Já não era um ruído. É como se fizesse parte do silêncio.
O básico a correr.
-É básico, o que foi?
-Olha, rebentou uma granada na cantina, os dois cantineiros foram cu caralho.
O Delfim, foda-se. O choro de raiva. O choro em raiva e a palavra FODA-SE. Agonizante de si. A justificar o poema:
Esta noite
quando todos dormirem
pego no vento
e fujo...
Cumpria o seu dever ao integrar as tropas regulares de um país, o seu país. Integrava as colunas, sofria emboscadas e estava sujeito ás armadilhas, ás minas traiçoeiras que já vira rebentar, pisadas por jovens como ele e sem que houvesse em quem atirar, fazer a desforra. Nada. minas solitárias, intransigentes com uma pequena distracção, com a insuficiência de material de detecção. A importância da desforra. A vingança...
O delfim bebia para afogar o desespero de estar ali, algures África sem ver a família, sem poder ajudar a família, sem poder estar com a namorada, os amigos.
O ar era quente e húmido. As mulheres andavam de peito descoberto. De resto eram só jovens como ele, sem grandes diálogos, que jogavam as cartas, a lerpa, nos momentos de ócio e bebiam na cantina cerveja que matasse a sede e a saudade, que afugentasse a morte. A morte, morrer dum tiro vindo do silêncio da mata verde e bela.
Manuel António observava aquela personalidade caótica, dia após dia. Delfim viera falar-lhe do efeito das granadas ofensivas, granadas de mão. Cada um tinha umas quantas à sua guarda. Levavam-nas e traziam-nas. Calculavam que rebentariam se as tivessem de usar. Não traziam prazo de garantia. Estavam ali, a um canto dos armários, verdes , elas, as granadas, com uns relevos a toda a volta para evitar que resvalassem das mãos que as atirariam, um dia.
-Sabes, Manuel António, ainda um dia gostava de ver o efeito disto a rebentar.
A granada na mão. A cavilha de segurança, um pedaço de arame revirado na ponta, a argola de onde um dedo a puxaria, com determinação.
Manuel António olhou para delfim. Procurou os olhos e só viu uma espécie de baba que lhe saía dos cantos dos lábios. Lábios finos, cortantes. Abominava granadas, balas, tudo o que cheirasse a pólvora..
- Cuidado com isso, pá. Que fazes com a granada? Vão sair?
-Não, mas que gostava de ver isto rebentar, gostava. Para que temos isto?
Cambaleava de um lado para o outro. Olhou-o, agora sim, nos olhos pequeninos se mi cerrados, um brilho estranho, metálico a sobressair da pele escurecida pelo Sol .
-É melhor nunca saberes o efeito dessa merda. Vai guardar. Não podes andar aí com uma granada ofensiva. Cais e matas-.te e matas alguém.
Delfim recuou uns passos, temendo que o outro lhe tirasse a granada. Fez um esgar, um riso indecifrável se de alegria se de louco ou cobardia. Manuel António insistiu, tentando segurá-lo ali até que viesse alguém. Um outro. E disse.
-És de Vila Verde?. Fala-me da tua vida lá, Família, namorada. Que fazias.
Os olhos de Delfim encheram-se de lágrimas e a voz soou rouca, trémula, desequilibrada.
-Sou. Porra, não me fales da família. Eu era uma parte que fazia falta. A namorada já me pôs os cornos. Que sa foda. Vai cu caralho. Ninguém me escreve. Ás tantas já não tenho ninguém.
Numa das mãos a garrafa de cerveja quase vazia, na outra a granada. E nada. Pessoa alguma aparecia naquele fim de tarde, quase noite. O motor da geradora roncava a sua toada constante e monótona. O grito agonizante dos macacos que se recolhiam.
-Tem calma, disse Manuel António, os olhos húmidos, moreno quase negro, olhos castanhos de um escuro quase negro, vais arranjar outra quando chegares. Aguenta. São mais uns meses, poucos.
Delfim chorava convulsivamente. bebeu o resto da cerveja dum trago, sem uma palavra e desandou para a cantina dos soldados.
Manuel António ficou a vê-lo, cambaleando em vai e vens e troca de passos, viu que entrou primeiro na caserna e voltou a sair. Descansou porque não lhe viu a granada na mão.
Lá ia ele, o Delfim, para mais umas cervejas, até o fim de si. e pensou que era uma geração fodida. O álcool, o calor, a pressão, os tiros e rebentamentos, as armadilhas, as minas.
Uma geração estropiada. Aguentar, prever-se de si, a si, mas como ? Se o quadro estava pintado de uma forma indelével. Sem saída que provesse o futuro que queria.
Como sair ileso? os neurónios desafectados, os genes compactados na revolta contra os elementos. Como sair ileso deste inferno?
Ouviu-se um estrondo medonho, Manuel António encolheu-se. deitou-se no chão. todo ele tremia sem saber que atitude tomar. A espingarda estava longe, mas estranhou não ver a correria do costume . Silêncio. Apenas o motor da geradora, monótono, incessante. Já não era um ruído. É como se fizesse parte do silêncio.
O básico a correr.
-É básico, o que foi?
-Olha, rebentou uma granada na cantina, os dois cantineiros foram cu caralho.
O Delfim, foda-se. O choro de raiva. O choro em raiva e a palavra FODA-SE. Agonizante de si. A justificar o poema:
Esta noite
quando todos dormirem
pego no vento
e fujo...
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
01:02
1 comentário:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
cultura,
EDUCAÇÃO,
escola,
factos da minha vida,
governo,
guerrilha,
homem,
memórias,
mulheres,
professores,
Sociedade,
vida
05/07/2008
MEMÓRIAS DA GUERRA - O CORREIO
Na guerra, quando não estás só e és ainda povoado por mundos e gentes que estando longe, te ocupam uma parte importante do que o teu cérebro te permite pensar, é ainda a solidão de que te sentes, de que te és perante ti e a impotência de decidires no momento imediato, ou no certo.
As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.
O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.
Advinha destes condicionalismos a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.
Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.
Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências
sem outros ouvidos.
Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.
Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se
amavam? Teria já nascido o meu filho? Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.
Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.
Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.
- Quarenta e dois!
-Oi! O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.
Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.
- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.
Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.
-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!
E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.
As patentes sempre podem trocar influências entre si e entre os responsáveis das comunicações. Um telefonema, uma mensagem gravada. Ainda não era o tempo dos telemóveis. Os soldados, nada. Eram meros números mecanográficos, salvo alguns, raros, que tinham direito a alcunha.
O País já era , mas em tempo de guerra acentuava-se o ser, um sistema de ditadura democrática. Os oficiais e sargentos iam de férias uma vez em cada ano. Se bem que os soldados também pudessem, por direito, ir de férias, ficavam limitados à partida pelas condições económicas e pela quantidade. Não se podia fechar a guerra para férias.
Advinha destes condicionalismos a importância orgásmica da chegada da avioneta que supostamente trazia o correio, das famílias, dos amores.
Manuel António, os braços descansados sobre a rede de arame farpado, perscruta o céu amarelado pelo sol a meio tempo entre a manhã e a tarde. É a hora habitual de ver, primeiro ouvir o motor, difuso ainda que se aproxima e aumenta de som chegado aos ouvidos habituados a rumores. Lá vem.
Lentamente refulgindo do sol o pequeno aparelho mono-motor, que traz o correio e as instruções e ainda, por vezes, uma patente mais alta que vem aquilatar do estado das tropas, ou simplesmente passear, ou ouvir delações, repreender ao vivo em confidências
sem outros ouvidos.
Manuel António. Os olhos na pista de terra batida. Não há empecilhos, aves, animais tresmalhados. O aparelho oscila no ar a fazer-se à pista, cabriola, brinca, o piloto, esgrime-se na habilidade se ser poeta dos ares e traz poesia no bojo da máquina que conduz.
Bastava que entregasse o saco do correio e que se fosse, mas não. Havia sempre mais pormenores, conversa, troca de risos, galhofas, e o tempo desesperante na espera. A voz dos silêncios que chegava quente e melodiosa. Estaria melhor da doença? Ainda se
amavam? Teria já nascido o meu filho? Eram tudo perguntas possíveis e a ilusão de obter repostas, quando sabiam que as cartas passavam o crivo da censura, demoravam e o que traziam não eram noticias de ontem. Alguém podia já ter morrido, e na carta que chegava prometia o mundo quando ele chegasse. A traição podia já ter acontecido, entre a data de envio e a efectiva chegada das palavras que prometiam amor eterno.
Manuel António sabia isso, mas confiava nas certezas que da essência de si se avolumavam em realidade constante.
Na parada a roda da maralha embasbacada sobre o sol tórrido do meio dia.
- Quarenta e dois!
-Oi! O braço no ar, uma corrida, o envelope bem seguro e a passada lenta para a sombra da caserna.
Manuel António olhava o molho da cartas na mão do escriba. Conhecia as cartas dela pelo volume. Traziam sempre uma lembrança dela, por entre as muitas folhas de palavras doces e de esperança, pêlos da púbis, para que a cheirasse. Pedaços de cabelo, folhas de árvores ou flores., fotografias. Um êxtase de paixão a encher um espaço aberto dentro de si, ali, absorto do sol. O escriba brincava com ele, por vezes, escondia as cartas e chegado ao fim da chamada olhava o seu ar desolado, um sorriso malicioso nos lábios, Um brilho nos olhos.
- Toma lá. Com este volume não podia tê-las nas mãos. Enquanto as retirava do bolso traseiro do camuflado.
Manuel António, os olhos marejados, uma abraço exaltado.
-Foda-se, escriba. Vai brincar com o caralho!
E foi-se, lesto na procura de uma sombra. Um espaço mais amplo para si e para o seu amor.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
11:57
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
cultura,
EDUCAÇÃO,
escola,
felicidade,
guerrilha,
homem,
HUMANIDADE,
liberdade,
memórias,
mulheres,
paixão,
professores,
Sociedade,
vida
03/07/2008
ORGASMOS VIRTUAIS
Olhou demoradamente a sua cara reflectida no espelho e pensou que era um gesto recorrente de todos os que se atribuem importância.
Afastou essa ideia com um gesto, uma palmada na testa e outra, como que a despertar dessa imagem que não se consentia, porque o que ele procurava não era a imagem reflectida no espelho mas uma outra imagem de si, que atravessando os olhos lhe permitia entrar no ser profundo onde tudo se mistura numa azáfama impressionante.
Sorrir-se para si. E gritar, de dentro, como eco dos tempos, que é um homem pleno. Velho mas pleno. Os olhos muito abertos de louco, admirado por se encontrar naquele espaço curto tão profundo. Vou ver o que me quer, ou o que quer de mim.
Sentou-se na velha cadeira rangente do peso súbito que sobre ela se deteve, por momentos absorto, enquanto a máquina se iniciava.
Digitou cautelosamente o email da diva sedutora. Sorrio-se: mariterra@... E escreveu as palavras como se de um poema.
"Não pensei que quisesses que te escrevesse directamente. Apesar do bilhete. Tenho a certeza que és outra pessoa por quem me apaixonei perdidamente, desde o momento em que os nossos olhos se prenderam como amarras. Sou velho, viste-me, e fiquei preso de ti desde o momento em que me apareceste. Fiquei furioso. Não creio que me pudesse apaixonar assim , se eu amo a mulher que viste e que é como se fora eu e eu em ela, apaixonar-me desta maneira por duas pessoas ao mesmo tempo, da mesma forma, com a mesma intensidade!....E à primeira vista.!...Tem sido bonito e muito estimulante, a minha vida . Porque vieste? O que pretendes de mim? Estou confuso e nem sei se fui eu que escrevi o que para trás deixei
Tocou na palavra enviar e encostou-se na cadeira. A velha cadeira. A solidão da cadeira que era ele. A solidão de si, do seu ego em si.
Acendeu um cigarro e aspirou deleitosamente o fumo azulado que se espraiou em nuvem densa e disforme pelo espaço curto do quarto.
A resposta dela não tardou:."Tenho uma carência de amor verdadeiro do tamanho do mundo, tenho falta de estímulos do género que adivinhei no teu olhar, agarro-me a qualquer coisa que mexa, que pulse, é esse o problema, estou a encontrar-me com 35 anos, estou no meio do turbilhão, não tem volta, não sei o que está para vir, mas não vai ser fácil. Também amo o meu marido,."
Foi assim que começaram uma espécie de namoro virtual, na distância das vidas que viviam. Quis acreditar que não estava velho. Mas interrogava-se sobre o porquê de uma mulher ainda jovem se interessar, dizer-se apaixonada pela sua figura de homem. A dúvida se estaria a ser usado em algum artimanha das que ouvia dizer acontecia na Internet.
Que tinha a temer. Não era rico. Não tinha bens. Em frente, até ao limite da razão.
Escreveram email que cresciam em profundidade de paixão. Prometiam-se amor eterno, ainda que virtual. Transcenderam-se de palavras que apelavam à sua interioridade e ao sublime de si enquanto amantes de uma ideia de si. Tiveram arrufos de namorados. Reiniciaram.
Ambos falavam de traição se consumassem ao vivo o fogo que inapelável mente os tomava nas raias da razão. Mas o que diziam, porque na distância, eram apenas flirts de ocasião.
Divertiam-se apenas. Mas era já fogo o que ele sentia com as palavras quentes que lhe iam chegando ânsia que sentia pela chegada dos e-mail. E combinaram amar-se a instantes de email. Ao lado dos corpos dos amores que juraram amar. Separados por uma ínfima parede, do lado de fora dos corpos. Separados do espírito dos corpos. Imersos em absoluta solidão, e tão densos de si.
Não conseguia tirá-la do pensamento, aquela imagem bela, sedutora de mulher jovem que encontrara numa tarde na esplanada onde se espraiava em absurdos de silêncio, e que nos
intervalos dos curtos diálogos com a companheira, mirava ostensivamente, porque se
sentira, também ele, fixado insistentemente por aqueles doces olhos castanhos.
Iniciou o movimento para um novo email, que pretendia libertador da pressão que sentia.
"amo-te tanto querida, queres mesmo que entre em ti pela primeira vez, nós e eu na minha timidez dizendo cona tão boa que me enlevas ao infinito de mim e os meus dedos nas maminhas ferventes os meus lábios nos teus as mãos no teu cuzinho delicioso em afagos excitantes que de ti e de mim nos apagam o ser agora um em um ou um outro. Nós, amor, abraçados e o meu sexo na tua coninha ardente de desejo e eu e tu arfantes possessos, a mente a libertar-se quase, sinto uma força um jacto de esperma e contracções, espasmos que me sugam todo o caralho fremente, o teu útero. é isto o orgasmo, o pleno o absoluto e ficamos exaustos um no outro em êxtase, os meus dedos percorrendo todo o teu corpo. a tua cabeça sobre o meu peito, terna."
E a resposta dela , na volta, no imediato como se houvesse um ponto, uma marcação de tempo a difundir de um e de outro as palavras de excitação, alucinantes de que sensações, que prazeres. Que ampla solidão.
" os olhos brilhantes, sorriso quente, lindo, meu amor agora estou mesmo louca, já não estou em mim, cada vez que leio o que escreveste o meu corpo estremece, é sublime, tu és sublime, meu amante delicioso apetece-me engolir-te, lamber-te, chupar-te o caralho, os tomates, tudo, beber o teu esperma, sentir os espasmos dentro de mim porque enquanto te chupava, roçava a minha cona na tua perna. O Sublime!E beijo-te de seguida, olho para ti meu amor mais sublime e repouso sobre ti até me arreliares outra vez, nem preciso de dizer que te amo tanto , mas digo na mesma...Amo-te muito ". O coração a bater descompassada mente. A mente transbordante da imagem das palavras.Eram as palavras que assumiam o papel onírico da produção de imagens eróticas. Que os alucinava para além da razão, do ser de si, raiando o irracional, o
fantástico absoluto. E os outros de si que dormiam. Alheios a esta euforia megalómana
da existência. Impúdicos. Dolorosamente solitários. Solidão. O que és?
No ecrã, um outro email. Abre o conteúdo, fremente de emoções. Em desvario:
"Estou completamente louca. Diz-me, já te tocaste, tiveste algum orgasmo? Diz-me como estás agora. O que te provoca na prática toda esta nossa troca. Eu estou com a cona a arder, estou completamente encharcada, já me vim tantas vezes. Fala-me de ti. Beijos no meu/teu caralho sublime"
Apenas as breves palavras dos orgasmos. A importância de saber se os tinham tido em simultâneo. Se houvera absoluto, ou se tinham de tentar uma outra vez, ou recorrer à
ajuda de webcams.
Os olhos velhos de ver de tão perto as letras miúdas no ecrã da máquina, esbugalhados de espanto, ou maravilhados com o êxtase possível advindo das palavras. A escrever:
"Imagino que estejas. Foste tão intensa e ardente nos desejos que não podia ser de outro modo meu caralho esteve firme até há bem pouco e estou ensopado em esperma tão docemente por ti provocado. Digo-te que te senti plena em mim, majestosa e criativa nos gestos e nas palavras. Sobretudo quente, eléctrica, a tua cona meu amor, ardente de desejo não só em ela, mas no todo que a satisfaz, como eu queria tê-la. As maminhas, a pele veludo, as tuas nádegas tão formosas, toda tu amor tão belo. Senti intensamente este enlace de cio ardente, as teclas premidas com ansiedade, a mente célere, escrevendo em atropelos. É de loucos, mas denso de sublime amor profundo. Beijo-te a cona ardente para que se acalme e prepare para novo evento e os mamilos que adivinho infinitos de prazer, num absoluto de nós.
Amo-te perdidamente."
Enviou. Estava exausto.
Afastou essa ideia com um gesto, uma palmada na testa e outra, como que a despertar dessa imagem que não se consentia, porque o que ele procurava não era a imagem reflectida no espelho mas uma outra imagem de si, que atravessando os olhos lhe permitia entrar no ser profundo onde tudo se mistura numa azáfama impressionante.
Sorrir-se para si. E gritar, de dentro, como eco dos tempos, que é um homem pleno. Velho mas pleno. Os olhos muito abertos de louco, admirado por se encontrar naquele espaço curto tão profundo. Vou ver o que me quer, ou o que quer de mim.
Sentou-se na velha cadeira rangente do peso súbito que sobre ela se deteve, por momentos absorto, enquanto a máquina se iniciava.
Digitou cautelosamente o email da diva sedutora. Sorrio-se: mariterra@... E escreveu as palavras como se de um poema.
"Não pensei que quisesses que te escrevesse directamente. Apesar do bilhete. Tenho a certeza que és outra pessoa por quem me apaixonei perdidamente, desde o momento em que os nossos olhos se prenderam como amarras. Sou velho, viste-me, e fiquei preso de ti desde o momento em que me apareceste. Fiquei furioso. Não creio que me pudesse apaixonar assim , se eu amo a mulher que viste e que é como se fora eu e eu em ela, apaixonar-me desta maneira por duas pessoas ao mesmo tempo, da mesma forma, com a mesma intensidade!....E à primeira vista.!...Tem sido bonito e muito estimulante, a minha vida . Porque vieste? O que pretendes de mim? Estou confuso e nem sei se fui eu que escrevi o que para trás deixei
Tocou na palavra enviar e encostou-se na cadeira. A velha cadeira. A solidão da cadeira que era ele. A solidão de si, do seu ego em si.
Acendeu um cigarro e aspirou deleitosamente o fumo azulado que se espraiou em nuvem densa e disforme pelo espaço curto do quarto.
A resposta dela não tardou:."Tenho uma carência de amor verdadeiro do tamanho do mundo, tenho falta de estímulos do género que adivinhei no teu olhar, agarro-me a qualquer coisa que mexa, que pulse, é esse o problema, estou a encontrar-me com 35 anos, estou no meio do turbilhão, não tem volta, não sei o que está para vir, mas não vai ser fácil. Também amo o meu marido,."
Foi assim que começaram uma espécie de namoro virtual, na distância das vidas que viviam. Quis acreditar que não estava velho. Mas interrogava-se sobre o porquê de uma mulher ainda jovem se interessar, dizer-se apaixonada pela sua figura de homem. A dúvida se estaria a ser usado em algum artimanha das que ouvia dizer acontecia na Internet.
Que tinha a temer. Não era rico. Não tinha bens. Em frente, até ao limite da razão.
Escreveram email que cresciam em profundidade de paixão. Prometiam-se amor eterno, ainda que virtual. Transcenderam-se de palavras que apelavam à sua interioridade e ao sublime de si enquanto amantes de uma ideia de si. Tiveram arrufos de namorados. Reiniciaram.
Ambos falavam de traição se consumassem ao vivo o fogo que inapelável mente os tomava nas raias da razão. Mas o que diziam, porque na distância, eram apenas flirts de ocasião.
Divertiam-se apenas. Mas era já fogo o que ele sentia com as palavras quentes que lhe iam chegando ânsia que sentia pela chegada dos e-mail. E combinaram amar-se a instantes de email. Ao lado dos corpos dos amores que juraram amar. Separados por uma ínfima parede, do lado de fora dos corpos. Separados do espírito dos corpos. Imersos em absoluta solidão, e tão densos de si.
Não conseguia tirá-la do pensamento, aquela imagem bela, sedutora de mulher jovem que encontrara numa tarde na esplanada onde se espraiava em absurdos de silêncio, e que nos
intervalos dos curtos diálogos com a companheira, mirava ostensivamente, porque se
sentira, também ele, fixado insistentemente por aqueles doces olhos castanhos.
Iniciou o movimento para um novo email, que pretendia libertador da pressão que sentia.
"amo-te tanto querida, queres mesmo que entre em ti pela primeira vez, nós e eu na minha timidez dizendo cona tão boa que me enlevas ao infinito de mim e os meus dedos nas maminhas ferventes os meus lábios nos teus as mãos no teu cuzinho delicioso em afagos excitantes que de ti e de mim nos apagam o ser agora um em um ou um outro. Nós, amor, abraçados e o meu sexo na tua coninha ardente de desejo e eu e tu arfantes possessos, a mente a libertar-se quase, sinto uma força um jacto de esperma e contracções, espasmos que me sugam todo o caralho fremente, o teu útero. é isto o orgasmo, o pleno o absoluto e ficamos exaustos um no outro em êxtase, os meus dedos percorrendo todo o teu corpo. a tua cabeça sobre o meu peito, terna."
E a resposta dela , na volta, no imediato como se houvesse um ponto, uma marcação de tempo a difundir de um e de outro as palavras de excitação, alucinantes de que sensações, que prazeres. Que ampla solidão.
" os olhos brilhantes, sorriso quente, lindo, meu amor agora estou mesmo louca, já não estou em mim, cada vez que leio o que escreveste o meu corpo estremece, é sublime, tu és sublime, meu amante delicioso apetece-me engolir-te, lamber-te, chupar-te o caralho, os tomates, tudo, beber o teu esperma, sentir os espasmos dentro de mim porque enquanto te chupava, roçava a minha cona na tua perna. O Sublime!E beijo-te de seguida, olho para ti meu amor mais sublime e repouso sobre ti até me arreliares outra vez, nem preciso de dizer que te amo tanto , mas digo na mesma...Amo-te muito ". O coração a bater descompassada mente. A mente transbordante da imagem das palavras.Eram as palavras que assumiam o papel onírico da produção de imagens eróticas. Que os alucinava para além da razão, do ser de si, raiando o irracional, o
fantástico absoluto. E os outros de si que dormiam. Alheios a esta euforia megalómana
da existência. Impúdicos. Dolorosamente solitários. Solidão. O que és?
No ecrã, um outro email. Abre o conteúdo, fremente de emoções. Em desvario:
"Estou completamente louca. Diz-me, já te tocaste, tiveste algum orgasmo? Diz-me como estás agora. O que te provoca na prática toda esta nossa troca. Eu estou com a cona a arder, estou completamente encharcada, já me vim tantas vezes. Fala-me de ti. Beijos no meu/teu caralho sublime"
Apenas as breves palavras dos orgasmos. A importância de saber se os tinham tido em simultâneo. Se houvera absoluto, ou se tinham de tentar uma outra vez, ou recorrer à
ajuda de webcams.
Os olhos velhos de ver de tão perto as letras miúdas no ecrã da máquina, esbugalhados de espanto, ou maravilhados com o êxtase possível advindo das palavras. A escrever:
"Imagino que estejas. Foste tão intensa e ardente nos desejos que não podia ser de outro modo meu caralho esteve firme até há bem pouco e estou ensopado em esperma tão docemente por ti provocado. Digo-te que te senti plena em mim, majestosa e criativa nos gestos e nas palavras. Sobretudo quente, eléctrica, a tua cona meu amor, ardente de desejo não só em ela, mas no todo que a satisfaz, como eu queria tê-la. As maminhas, a pele veludo, as tuas nádegas tão formosas, toda tu amor tão belo. Senti intensamente este enlace de cio ardente, as teclas premidas com ansiedade, a mente célere, escrevendo em atropelos. É de loucos, mas denso de sublime amor profundo. Beijo-te a cona ardente para que se acalme e prepare para novo evento e os mamilos que adivinho infinitos de prazer, num absoluto de nós.
Amo-te perdidamente."
Enviou. Estava exausto.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
12:54
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
cultura,
EDUCAÇÃO,
felicidade,
homem,
mulheres,
paixão,
sexo,
vida
28/06/2008
OUSAR VENCER A MEDIOCRIDADE
Um dia, ousei questionar o director da empresa. Colocar dúvidas na sua apreciação negativa da conduta dos elementos que fizeram uma determinada colocação do produto, que a expuseram com criatividade e paixão, defender-me , enquanto elemento.
Isto, em plena convenção, que é um nome pomposamente atribuido a uma reunião que congrega os elementos consederados chave duma empresa.
Após o intervalo encontrei-me com ele na casa de banho do hotel local do evento. E entre sacudidelas de pichas, eu na minha e ele na dele, atenção ás ilacções, diz-me ele em tom distante e altivo:
-Ora, o meu amigo a pensar que me queria referir a si!...
A minha interpretação:
-Estulticia a tua, fulano menor na estrutura da empresa, pensares que me afadigava em conceitos de elevada indole comercial, atribuindo-te um valor que não consta na minha apreciação de conceitos.
Mais tarde, não muito, fui colocado na lista restrita dos elementos a abater. E por uma compensação ridicula face ao valor que eu tinha de mim.
Ousei recusar. Esperei em baixa médica impeditiva de acção, baixa sustentada, claro.
Ousei ainda litigar em local próprio, o tribunal, e escudado na baixa médica sustentada ,dividas vencidas por trabalhos descomunais a desoras.
E não é que venci! Em toda a linha!...
O tipo foi afastado por inoperância de resultados.
E eu, grão insignificante no sistema, sózinho com a minha vontade, com a minha revolta e apoiado num defensor autorizado e competente, assinei um acordo com o novo e efémero administrador, dez vezes superior ao inicialmente proposto.
É o que eu chamo por em causa o triundo da mediocridade na nossa sociedade
A verdade é que eles continuam lá, mas por pouco mais tempo.
Assim nós queiramos. Rompamos de vez com a humildade bacoca que nos arreda da ribalta.
Ousemos, ousai, arrebatar o que nos,vos pertence, a criatividade, o sucesso, as boas práticas, os lucros na economia e na educação, o reconhecimento por nós do valor que temos
Eu estou aqui. Teso, mas aqui, na primeira linha contra a usurpação da glória de ser parte
Isto, em plena convenção, que é um nome pomposamente atribuido a uma reunião que congrega os elementos consederados chave duma empresa.
Após o intervalo encontrei-me com ele na casa de banho do hotel local do evento. E entre sacudidelas de pichas, eu na minha e ele na dele, atenção ás ilacções, diz-me ele em tom distante e altivo:
-Ora, o meu amigo a pensar que me queria referir a si!...
A minha interpretação:
-Estulticia a tua, fulano menor na estrutura da empresa, pensares que me afadigava em conceitos de elevada indole comercial, atribuindo-te um valor que não consta na minha apreciação de conceitos.
Mais tarde, não muito, fui colocado na lista restrita dos elementos a abater. E por uma compensação ridicula face ao valor que eu tinha de mim.
Ousei recusar. Esperei em baixa médica impeditiva de acção, baixa sustentada, claro.
Ousei ainda litigar em local próprio, o tribunal, e escudado na baixa médica sustentada ,dividas vencidas por trabalhos descomunais a desoras.
E não é que venci! Em toda a linha!...
O tipo foi afastado por inoperância de resultados.
E eu, grão insignificante no sistema, sózinho com a minha vontade, com a minha revolta e apoiado num defensor autorizado e competente, assinei um acordo com o novo e efémero administrador, dez vezes superior ao inicialmente proposto.
É o que eu chamo por em causa o triundo da mediocridade na nossa sociedade
A verdade é que eles continuam lá, mas por pouco mais tempo.
Assim nós queiramos. Rompamos de vez com a humildade bacoca que nos arreda da ribalta.
Ousemos, ousai, arrebatar o que nos,vos pertence, a criatividade, o sucesso, as boas práticas, os lucros na economia e na educação, o reconhecimento por nós do valor que temos
Eu estou aqui. Teso, mas aqui, na primeira linha contra a usurpação da glória de ser parte
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
11:29
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
conquistas pesoais,
desafios,
EDUCAÇÃO,
factos da minha vida,
homem,
liberdade,
mulheres,
professores,
Sociedade,
vida
10/06/2008
MEMÓRIAS DA GUERRA - DESERÇÃO
Manuel António no fundo da caserna e no silêncio da madrugada, onde só o ruído constante e monótono do motor da geradora, tão monótono que deixara quase de se ouvir, soava na penumbra.
Deixar tudo para´trás, a família, o grande amor da sua vida. Sim era aqui que tudo esbatia e se embrulhava em reflexos de si e do problema que de si evoluía em emanações voláteis e pouco consistentes para agir.
Seria de noite, ma não enquanto todos dormissem, porque havia as sentinelas e toda a Aldeia para atravessar. Também não adejava que fosse pegando o vento, em metáfora de fuga alada. Mas fugir, queria. Não fugir como soe dizer-se por cobardia, por não ter argumentos que satisfizessem a sua consciência, mas por sentir que era uma violência inútil, o que lhe ordenavam que fizesse. E havia as crianças que podiam morrer, nas armadilhas, nas emboscadas. As violações consentidas de mulheres, de crianças.
A palavra coragem a desenraizar-se, batendo nas têmporas latejantes, tornando-se grande e tapando a palavra amor que procurava subsistir em toda a plenitude da negativa de não o fazer, de ficar e aguentar.
Havia quem o tivesse feito antes. Paris, Argel. Uns tinham apoio financeiro, outros não. Chegados lá faziam-se à vida. Procuravam ajuda entre os que lá viviam e tinham segurado a existência e alargado o fio condutor. Digladiavam-se provavelmente noutras lutas não menos sórdidas.
Mas ele, Manuel António estava ali naquele fim de mundo. cheirando a catinga, suado e debatendo-se com a coragem e a cobardia, a razão e a ilusão do nada absoluto, onde a palavra amor ganhava uma particular acuidade. Sonhava com o amor de uma mulher absoluta de carisma na sua essência dela e na sua própria, dele, Manuel António.
Há dias que mal dormia. Debatia-se no infinito da virtude que se evadia de si enovelada em argumentos fantásticos de ser homem. Ser homem pela primeira vez, assumindo toda a responsabilidade de o ser e não mais se escudar em estímulos estereotipados de que alimentava o próprio ego.
Podia ser morto na fuga. Ou no acto de captura, se os outros não se apercebessem que queria passar para o lado deles. Como entender-se com os dialectos da guerrilha? Não iria encontrar, por grande sorte , quem falasse Português e Amílcar Cabral estava morto.
A estratégia estava delineada na sua mente febril. Havia ainda os prós e os contras. A loucura total da irrazão. Vencer a todo o custo a mediocridade que se achava por não ser.
Na coluna os homens iam sempre em fila e ele escolheria ser o último. Ninguém gostava de ir em último. Olhar para trás e saber que não havia nada, gente sua. E deixar-se-ia ficar, como se tivesse perdido o contacto e ficado desorientado do rumo e não quisera gritar.
Levaria as cartas e os escritos que criara no tempo passado naquele pesadelo de mistério onde as pessoas tinham olhos profundos e as crianças olhavam abismados para a pele diferente.
A decisão aprumava-se na ideia em concreto. Ainda uns pequenos pormenores. Alguma resistência. Quando as cartas que enviava diariamente não chegassem. Imaginar a dor daquele corpo franzino e belo de mulher que amava do interior de si e que sentia ser igualmente amado visceralmente. Como cortar este elo que o ligava em espírito.?
Tentou afastar as ideias por um momento. mas não, voltava tudo de novo, insistente, e a dor nas têmporas latejantes, como se fosse explodir a cabeça e tudo terminasse ali sem que tivesse de mover-se, em atitude.
Dois dias depois desta batalha mental, a noite pusera-se apática e dolorosamente quieta de luz do luar. Tudo opaco em redor de onde a luz dos candeeiros não chegava.
Os homens ,convocados durante a tarde reuniam-se na parada. Peitos arfantes de confusão interior não manifestada. Gente boa dos campos e das cidades. Gente inteira, como os negros que agora em silêncio, também eles preparavam mais uma saída, como guias das picadas que iriam percorrer toda a noite em patrulha de reconhecimento. Prevenção.
Manuel António vai atrás, seguro de si, convicto da temeridade da ideia. Do que deixava ficar.
Os homens deambularam a noite toda e não encontraram a caça. Aos primeiros alvores da manhã entraram no quartel visivelmente cansados. Os rostos cor de cera. As pernas bambas, indolentes e iam-se deixando cair pelos cantos de encontro à caserna.
O Alferes conta os homens, reconta e ,em sobressalto, diz que falta um homem.
Chama-os um por um. manda alguém ás latrinas, ao interior da caserna, que voltam dizendo não haver ninguém mais.
Falta o Manuel António, o cabo.
Deixar tudo para´trás, a família, o grande amor da sua vida. Sim era aqui que tudo esbatia e se embrulhava em reflexos de si e do problema que de si evoluía em emanações voláteis e pouco consistentes para agir.
Seria de noite, ma não enquanto todos dormissem, porque havia as sentinelas e toda a Aldeia para atravessar. Também não adejava que fosse pegando o vento, em metáfora de fuga alada. Mas fugir, queria. Não fugir como soe dizer-se por cobardia, por não ter argumentos que satisfizessem a sua consciência, mas por sentir que era uma violência inútil, o que lhe ordenavam que fizesse. E havia as crianças que podiam morrer, nas armadilhas, nas emboscadas. As violações consentidas de mulheres, de crianças.
A palavra coragem a desenraizar-se, batendo nas têmporas latejantes, tornando-se grande e tapando a palavra amor que procurava subsistir em toda a plenitude da negativa de não o fazer, de ficar e aguentar.
Havia quem o tivesse feito antes. Paris, Argel. Uns tinham apoio financeiro, outros não. Chegados lá faziam-se à vida. Procuravam ajuda entre os que lá viviam e tinham segurado a existência e alargado o fio condutor. Digladiavam-se provavelmente noutras lutas não menos sórdidas.
Mas ele, Manuel António estava ali naquele fim de mundo. cheirando a catinga, suado e debatendo-se com a coragem e a cobardia, a razão e a ilusão do nada absoluto, onde a palavra amor ganhava uma particular acuidade. Sonhava com o amor de uma mulher absoluta de carisma na sua essência dela e na sua própria, dele, Manuel António.
Há dias que mal dormia. Debatia-se no infinito da virtude que se evadia de si enovelada em argumentos fantásticos de ser homem. Ser homem pela primeira vez, assumindo toda a responsabilidade de o ser e não mais se escudar em estímulos estereotipados de que alimentava o próprio ego.
Podia ser morto na fuga. Ou no acto de captura, se os outros não se apercebessem que queria passar para o lado deles. Como entender-se com os dialectos da guerrilha? Não iria encontrar, por grande sorte , quem falasse Português e Amílcar Cabral estava morto.
A estratégia estava delineada na sua mente febril. Havia ainda os prós e os contras. A loucura total da irrazão. Vencer a todo o custo a mediocridade que se achava por não ser.
Na coluna os homens iam sempre em fila e ele escolheria ser o último. Ninguém gostava de ir em último. Olhar para trás e saber que não havia nada, gente sua. E deixar-se-ia ficar, como se tivesse perdido o contacto e ficado desorientado do rumo e não quisera gritar.
Levaria as cartas e os escritos que criara no tempo passado naquele pesadelo de mistério onde as pessoas tinham olhos profundos e as crianças olhavam abismados para a pele diferente.
A decisão aprumava-se na ideia em concreto. Ainda uns pequenos pormenores. Alguma resistência. Quando as cartas que enviava diariamente não chegassem. Imaginar a dor daquele corpo franzino e belo de mulher que amava do interior de si e que sentia ser igualmente amado visceralmente. Como cortar este elo que o ligava em espírito.?
Tentou afastar as ideias por um momento. mas não, voltava tudo de novo, insistente, e a dor nas têmporas latejantes, como se fosse explodir a cabeça e tudo terminasse ali sem que tivesse de mover-se, em atitude.
Dois dias depois desta batalha mental, a noite pusera-se apática e dolorosamente quieta de luz do luar. Tudo opaco em redor de onde a luz dos candeeiros não chegava.
Os homens ,convocados durante a tarde reuniam-se na parada. Peitos arfantes de confusão interior não manifestada. Gente boa dos campos e das cidades. Gente inteira, como os negros que agora em silêncio, também eles preparavam mais uma saída, como guias das picadas que iriam percorrer toda a noite em patrulha de reconhecimento. Prevenção.
Manuel António vai atrás, seguro de si, convicto da temeridade da ideia. Do que deixava ficar.
Os homens deambularam a noite toda e não encontraram a caça. Aos primeiros alvores da manhã entraram no quartel visivelmente cansados. Os rostos cor de cera. As pernas bambas, indolentes e iam-se deixando cair pelos cantos de encontro à caserna.
O Alferes conta os homens, reconta e ,em sobressalto, diz que falta um homem.
Chama-os um por um. manda alguém ás latrinas, ao interior da caserna, que voltam dizendo não haver ninguém mais.
Falta o Manuel António, o cabo.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
16:54
3 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
cultura,
desafios,
familia,
guerrilha,
homem,
HUMANIDADE,
liberdade,
memórias,
mulheres,
paixão,
Sociedade,
v,
vida
09/06/2008
SCOLARI A MINISTRO DA EDUCAÇÃO
É uma Nação em festa. Bandeiras nas janelas, nos carros, em volta das pessoas em camisas , panos e outros artefactos. É o tema de todas as conversas. A selecção.
São um conjunto de jovens, briosos, elegantes, ricos e que do futebol têm o engenho e a arte não querem mais do que isso, ser da arte interpretes valorosos e de tal tirarem proveitos financeiros.
Mas o povo a Nação, que sempre se levanta por uma boa causa, enorme e em emoção se agiganta, vê, na selecção, a oportunidade de ser grande, de ver reconhecido o valor de ser Nação.
Tarefa dura, ser a parte maior da ambição, onde outros também o são.
Que interessa o poema, a ficção, as artes e as ciências do homem, da civilização, a medicina, A engenharia, onde a grandeza que somos é uma evidência, calada na propaganda de que somos os últimos em quase tudo o que edifica uma Nação?
Dirão que são pequenas ilhas sem honra Universal e que o futebol, isso sim, é toda uma Nação.
E não é Português, o homem que idealizou e conseguiu unir um povo inteiro à volta de uma ideia, a selecção. Seria desperdício cooptá-lo para Ministro da Educação?
Sabendo nós que o verdadeiro déficit do País, é na área da educação, porque espera o Primeiro Ministro?
Scolari, já a Ministro da Educação.
São um conjunto de jovens, briosos, elegantes, ricos e que do futebol têm o engenho e a arte não querem mais do que isso, ser da arte interpretes valorosos e de tal tirarem proveitos financeiros.
Mas o povo a Nação, que sempre se levanta por uma boa causa, enorme e em emoção se agiganta, vê, na selecção, a oportunidade de ser grande, de ver reconhecido o valor de ser Nação.
Tarefa dura, ser a parte maior da ambição, onde outros também o são.
Que interessa o poema, a ficção, as artes e as ciências do homem, da civilização, a medicina, A engenharia, onde a grandeza que somos é uma evidência, calada na propaganda de que somos os últimos em quase tudo o que edifica uma Nação?
Dirão que são pequenas ilhas sem honra Universal e que o futebol, isso sim, é toda uma Nação.
E não é Português, o homem que idealizou e conseguiu unir um povo inteiro à volta de uma ideia, a selecção. Seria desperdício cooptá-lo para Ministro da Educação?
Sabendo nós que o verdadeiro déficit do País, é na área da educação, porque espera o Primeiro Ministro?
Scolari, já a Ministro da Educação.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
18:12
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
cultura,
desafios,
EDUCAÇÃO,
felicidade,
futebol,
governo,
homem,
mulheres,
paixão,
professores,
Sociedade,
vida
05/06/2008
UMA MULHER - UM BMW AZUL
É intenso o brilho do Sol na manhã fresca desta Primavera que tinha surgido ventosa e húmida quando há dias se iniciou o seu percurso , ciclo, anual.
A mulher era linda, bela no conjunto do seu esplendor. Os cabelos soltos, escuros, talvez negros refulgindo do Sol. E vestia um vestido negro de estilo imperial, Yves Saint Laurent. A sombra projectada no chão à saída de casa. A carteira de pele, em tons negros e branco. Branco era o casaco curto que trazia sobre o decote do vestido. Os óculos escuros de uma marca, por certo, conhecida e marcante de moda.
A pele clara escuro, ou moreno claro, a adivinhar-se macia. Sensualidade é a palavra adequada ao sentimento que nos subjaz da sua aparição há porta de casa e nos gestos com que procura a chave do carro azul estacionado na via junto ao passeio, um BMW série 5, último modelo, cujas performances ela sempre enaltecia nas conversas entre amigos.
Era o seu carro preferido pelo conforto, a técnica utilizada na construção do modelo e que permitia tirar partido de todas as suas potencialidades, velocidade versus segurança.
A morena do BMW tinha um toque especial de personalidade que deixava sobressair, na forma de andar e como olhava, de cima para baixo, ou em frente de si. Sensualidade. Confiança. Personalidade forte.
Entrou no automóvel com elegância e sentou-se no banco de pele macia e de cor creme ,o cinto de segurança , o motor a trabalhar numa cadência sussurrante e o arranque suave, moderado.
Na auto estrada que a trazia do Norte para Lisboa, uma mulher como tantas num carro potente e elegante, confortável, mas não só, porque era uma mulher pensante e que se tinha em conta na essência do ser.
Era uma mulher casada, com filhos e em desespero de amores impossíveis. No limite de si própria, ou no infinito do limite se considerarmos como limite o céu ou o pensamento que nos corre em paralelo com a razão.
Amar um outro que advém de se sentir em desequilíbrio na relação amor dever que mantém e de não saber conciliar a estrutura conseguida, estável ainda que desapaixonada, monótona, com o fogo intenso de uma paixão surgida em paralelo, ou em despique e desperdiçada por motivos mesquinhos ou de efeitos contrários em emoções factuais no momento da decisão.
O carro voa com a força do pensamento em abstracto da condução, ultrapassa os limites, amortece um pouco, preocupa-se num instante da realidade. E surge-lhe um sorriso nos lábios rosados, húmidos, sensuais.
É jovem, ainda, os seios firmes e a carne seca de efeitos excessivos .
O seu carácter não se coaduna com mudanças bruscas e inseguras. Por um lado a necessidade absoluta de querer tentar a sedução de uma evidência que a consome, que lhe dói, que quando confrontada em aparições públicas a faz estremecer, inflectir de si conceitos e temores antigos. Por outro, a lealdade a um projecto que sente do outro lado de si, o marido que tem do amor a ideia perene, sem um limite, ao correr do tempo e dos silêncios e que não vê nela a ambição de si, de ser reconhecida como um fim máximo de si, que precisa de elogios e de sentir força emotiva nas relações. Paixão.
A imagem sedutora carro mulher, mulher carro, como um só pensamento da imagem que nos fixa e nos ultrapassa, porque dois corpos distintos-
E depois, esta obsessão de saber se o que sente é traição, por amar um outro que não o compromisso. Mas como traição se não teve nem quer contacto físico que consubstancie um acto que projecta na mente , mas que recusa dentro do estado em que se situa, casada, mãe de filhos. E como conciliar na sua mente que ama o marido e faz amor frequente sem a interferência de oníricas imagens do amante que sente em si mas que de si não se transmite. E como reconhecer que não se transmite.
Leva as mãos à cabeça, num gesto que indicia a tentativa de afastar ideias confusas. E volta à raiz do problema: se eu não faço sexo com a pessoa. Se eu quando faço sexo com o meu marido, o amo e tenho prazer e não penso em mais ninguém. Se eu apesar do que sinto, amo o meu marido. Amarei? Amo!
É como se este amante fosse um exterior de si, uma outra mulher que conseguiu isolar de si, um outro amor, uma paixão que a satisfaz , mas que não interfere com a personagem que é mãe e esposa.
O que ela sente é de fora da casa. É de fora da família que tem e ama. É um exterior de si interiorizado em abstracto num outro recanto da sua essência e que não pesa na mulher do BMW azul. É como se possuísse duas almas que se distanciam e se reúnem em momentos a sós, como este, para se confirmarem na sua infinitude, enquanto linhas paralelas.
É isso, no emprego não assumia uma outra personagem? E em quantas situações se apoderou de criações próprias para se reforçar e se expandir em outras direcções, quantas vezes opostas?
A mulher era linda, bela no conjunto do seu esplendor. Os cabelos soltos, escuros, talvez negros refulgindo do Sol. E vestia um vestido negro de estilo imperial, Yves Saint Laurent. A sombra projectada no chão à saída de casa. A carteira de pele, em tons negros e branco. Branco era o casaco curto que trazia sobre o decote do vestido. Os óculos escuros de uma marca, por certo, conhecida e marcante de moda.
A pele clara escuro, ou moreno claro, a adivinhar-se macia. Sensualidade é a palavra adequada ao sentimento que nos subjaz da sua aparição há porta de casa e nos gestos com que procura a chave do carro azul estacionado na via junto ao passeio, um BMW série 5, último modelo, cujas performances ela sempre enaltecia nas conversas entre amigos.
Era o seu carro preferido pelo conforto, a técnica utilizada na construção do modelo e que permitia tirar partido de todas as suas potencialidades, velocidade versus segurança.
A morena do BMW tinha um toque especial de personalidade que deixava sobressair, na forma de andar e como olhava, de cima para baixo, ou em frente de si. Sensualidade. Confiança. Personalidade forte.
Entrou no automóvel com elegância e sentou-se no banco de pele macia e de cor creme ,o cinto de segurança , o motor a trabalhar numa cadência sussurrante e o arranque suave, moderado.
Na auto estrada que a trazia do Norte para Lisboa, uma mulher como tantas num carro potente e elegante, confortável, mas não só, porque era uma mulher pensante e que se tinha em conta na essência do ser.
Era uma mulher casada, com filhos e em desespero de amores impossíveis. No limite de si própria, ou no infinito do limite se considerarmos como limite o céu ou o pensamento que nos corre em paralelo com a razão.
Amar um outro que advém de se sentir em desequilíbrio na relação amor dever que mantém e de não saber conciliar a estrutura conseguida, estável ainda que desapaixonada, monótona, com o fogo intenso de uma paixão surgida em paralelo, ou em despique e desperdiçada por motivos mesquinhos ou de efeitos contrários em emoções factuais no momento da decisão.
O carro voa com a força do pensamento em abstracto da condução, ultrapassa os limites, amortece um pouco, preocupa-se num instante da realidade. E surge-lhe um sorriso nos lábios rosados, húmidos, sensuais.
É jovem, ainda, os seios firmes e a carne seca de efeitos excessivos .
O seu carácter não se coaduna com mudanças bruscas e inseguras. Por um lado a necessidade absoluta de querer tentar a sedução de uma evidência que a consome, que lhe dói, que quando confrontada em aparições públicas a faz estremecer, inflectir de si conceitos e temores antigos. Por outro, a lealdade a um projecto que sente do outro lado de si, o marido que tem do amor a ideia perene, sem um limite, ao correr do tempo e dos silêncios e que não vê nela a ambição de si, de ser reconhecida como um fim máximo de si, que precisa de elogios e de sentir força emotiva nas relações. Paixão.
A imagem sedutora carro mulher, mulher carro, como um só pensamento da imagem que nos fixa e nos ultrapassa, porque dois corpos distintos-
E depois, esta obsessão de saber se o que sente é traição, por amar um outro que não o compromisso. Mas como traição se não teve nem quer contacto físico que consubstancie um acto que projecta na mente , mas que recusa dentro do estado em que se situa, casada, mãe de filhos. E como conciliar na sua mente que ama o marido e faz amor frequente sem a interferência de oníricas imagens do amante que sente em si mas que de si não se transmite. E como reconhecer que não se transmite.
Leva as mãos à cabeça, num gesto que indicia a tentativa de afastar ideias confusas. E volta à raiz do problema: se eu não faço sexo com a pessoa. Se eu quando faço sexo com o meu marido, o amo e tenho prazer e não penso em mais ninguém. Se eu apesar do que sinto, amo o meu marido. Amarei? Amo!
É como se este amante fosse um exterior de si, uma outra mulher que conseguiu isolar de si, um outro amor, uma paixão que a satisfaz , mas que não interfere com a personagem que é mãe e esposa.
O que ela sente é de fora da casa. É de fora da família que tem e ama. É um exterior de si interiorizado em abstracto num outro recanto da sua essência e que não pesa na mulher do BMW azul. É como se possuísse duas almas que se distanciam e se reúnem em momentos a sós, como este, para se confirmarem na sua infinitude, enquanto linhas paralelas.
É isso, no emprego não assumia uma outra personagem? E em quantas situações se apoderou de criações próprias para se reforçar e se expandir em outras direcções, quantas vezes opostas?
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
00:14
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
carros,
cultura,
felicidade,
homem,
liberdade,
mulheres,
paixão,
Sociedade,
vida
25/05/2008
O ABSOLUTO DO AMOR
Estar encurralado entre as quatro paredes e o tecto obscuro do sotão da casa. Estou só no meu silêncio de mim. Por vezes vejo os fantasmas especados nas paredes sujas de branco, porque deveriam ser negras, as paredes do sotão.
Em baixo, no outro pleno da casa, a mulher mexe e remexe no que resta na tentativa de lhe dar uma harmonia impossivel, na lembrança dos tempos que ainda a habitam
Também ela está só na sua solidão de si. E ainda somos como um só na solidão de nós ambos.
Fora, na quietude do tempo, a sugadora de cereais mata o doce muralhar das águas que, vindas de Espanha, aqui se espraiam, comprimindo-se contra o mar, adocicando-o.
Estar na penumbra do homem, sem saída consistente E sentir que tudo o que posso é remediar, nada de definitivo, de absoluto.
-"Vamos tentar o absoluto. Viver o absoluto.
Diziamos entre nós, tu e eu, no pleno daqueles anos que nos arrebataram. E foi assim que, apaixonados de nós e por nós, deixámos que o sistema nos envolvesse na sua teia pretensamente irreversível e nos fosse quebrando.
Quebrando sem partir. Cacos que fomos consolidando numa ânsia de nos termos, encurralados mas livres e possuídos de nós.
Ganhámos na essência da vida, porque ninguém amou como nós amámos e sobreviveu.
Tristão e Isolda...Romeu e Julieta...Pedro e Inês....Nós, em absoluto de amor.
E veio a guerra. A sério. Com tiros e rebentamentos de minas, com crianças mortas e mães destroçadas. E macacos desesperados em gritos aflitos. Mas isso foi antes de nos fundirmos como um só. Ainda nos prometiamos na ilusão do amor e da cabana. Virgens de nós em absoluto.
Amámo-nos num desvario de loucura arrebatadora. Amámo-nos para além de nós, porque já era algo que nos ultrapassava em sentir.
O teu sorriso, o teu olhar refulgindo de esperança.
Meu amor absoluto.
Agora, no momento em que te penso e sentindo que te mexes em baixo de mim de onde eu estou e te sinto, compreendo que posso amar o infinito de ti.
Porque eu e tu somos um só, em nós.
Em baixo, no outro pleno da casa, a mulher mexe e remexe no que resta na tentativa de lhe dar uma harmonia impossivel, na lembrança dos tempos que ainda a habitam
Também ela está só na sua solidão de si. E ainda somos como um só na solidão de nós ambos.
Fora, na quietude do tempo, a sugadora de cereais mata o doce muralhar das águas que, vindas de Espanha, aqui se espraiam, comprimindo-se contra o mar, adocicando-o.
Estar na penumbra do homem, sem saída consistente E sentir que tudo o que posso é remediar, nada de definitivo, de absoluto.
-"Vamos tentar o absoluto. Viver o absoluto.
Diziamos entre nós, tu e eu, no pleno daqueles anos que nos arrebataram. E foi assim que, apaixonados de nós e por nós, deixámos que o sistema nos envolvesse na sua teia pretensamente irreversível e nos fosse quebrando.
Quebrando sem partir. Cacos que fomos consolidando numa ânsia de nos termos, encurralados mas livres e possuídos de nós.
Ganhámos na essência da vida, porque ninguém amou como nós amámos e sobreviveu.
Tristão e Isolda...Romeu e Julieta...Pedro e Inês....Nós, em absoluto de amor.
E veio a guerra. A sério. Com tiros e rebentamentos de minas, com crianças mortas e mães destroçadas. E macacos desesperados em gritos aflitos. Mas isso foi antes de nos fundirmos como um só. Ainda nos prometiamos na ilusão do amor e da cabana. Virgens de nós em absoluto.
Amámo-nos num desvario de loucura arrebatadora. Amámo-nos para além de nós, porque já era algo que nos ultrapassava em sentir.
O teu sorriso, o teu olhar refulgindo de esperança.
Meu amor absoluto.
Agora, no momento em que te penso e sentindo que te mexes em baixo de mim de onde eu estou e te sinto, compreendo que posso amar o infinito de ti.
Porque eu e tu somos um só, em nós.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
22:17
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
cultura,
EDUCAÇÃO,
escola,
felicidade,
homem,
mulheres,
paixão,
presente,
professores,
Sociedade,
vida
24/05/2008
DESPEJO - A MEMÓRIA DOS LIVROS
Um homem e uma mulher, ainda jovens e um cão, preto, as sobrancelhas castanhas, um doce olhar acomodado à circunstância.
Na bagageira do carro, onde se acoitam e preparam a alma e o corpo para a noite, os livros, memórias que foram objectos da sua própria memória. Autores credenciados, humanistas, filósofos, o sumo das letras de todo um mundo de eras e ideias remotas.
Três seres e uma multidão de idiotas que sonharam um dia ser glória e só após o fim, um póstumo reconhecimento glorificou.
São três seres que se amam, ainda que de formas e sentidos diferentes. E estão ali, confinados ao interior de um pequeno automóvel, despejados da casa onde criaram raízes efémeras.
O cão, no banco traseiro, enrosca-se de maneira a aproveitar todo o calor de si e a que se reflicta em si, como que armazenado em condutas à volta do corpo.
O homem e a mulher assumem o amor no pleno da desolação. Aquecem a alma. Não falam, porque já não há nada para dizer. Uma leve manta a cobrir os corpos que ainda projectam calor e desejos. E amam-se, sôfregos, esquecidos de onde estão. Estão neles e nada mais há para além deles no momento. Não fornicam, amam-se. Não é sexo, o que fazem, é amor. Não há quadros de erotismo a povoar a mente, nem fantasias da libido. Nem conforto nem irracionalidade. Não um acto gratuito a que nem a presença do cão obstasse a que atingissem os orgasmos sem um nexo de causa. Amor, amor doentio de si, inexplicável, como um só, enrolados da mesma forma que o cão e como ele sujeitos à rua por momentos de dias.
Antes que o sol viesse iluminar os rostos cansados do descanso nocturno, puseram-se ao caminho, sem rasto anunciado. Para que ninguém publicitasse a ousadia de terem afrontado a moral pública instituída.
No paredão onde elites endeusadas distraíam os corpos ou simplesmente exibiam estilos de andar e conversas triviais, de alta importância para a construção do mundo, dispunham os livros que foram a memória. Em lotes pelo preço achado em cálculos sem um critério preciso. Pelo volume. Pela apreciação subjectiva do valor intrínseco das palavras. Pelo autor.
Livros que contribuíram para ele, homem, construir a sua própria concepção do mundo e que agora pretendia que se transformassem em pão, como se já sem outro préstimo.
Se tinham que partir, que partissem, enquanto olhava atento o desfolhar interessado de um qualquer que parara atraído pela cor ou um titulo mais expansivo, gritante, a chamar.
O titulo ou o autor, apelativos, sob o sol de Julho ainda fresco pela manhã e o mar, de um azul nacarado em manchas estranhas pela sombra de barcos abandonados ou pelos os lhos raiados de sangue, sereno, num chap-chap continuado contra as pedras da muralha.
Cada livro que parte é um orgasmo sentido com a volúpia de sentir a evasão de mais um mito. e a cada mito que se esvai, o seu próprio ser se encolhe empedernido.
Está tudo aqui, justifica-se perante si, já não fazem falta e são apenas pão. O miolo, a essência que os enformava, engoli, misturei com os genes em rodopios sangrentos de lutas de uns com os outros, dada a diversidade de conceitos, de verdades afiançadas, comprovadas. A oratória, a escolástica, a demagogia, a farsa, o drama, a megalomania, a filosofia e as doutrinas de fariseus, judeus, islamitas, budistas e cristãos. Tudo aqui, o dedo acusador ou só indicador, na testa enrugada.
E ao fim do dia foi-se, ele a mulher e mais o cão, e nunca mais ninguém os viu
Na bagageira do carro, onde se acoitam e preparam a alma e o corpo para a noite, os livros, memórias que foram objectos da sua própria memória. Autores credenciados, humanistas, filósofos, o sumo das letras de todo um mundo de eras e ideias remotas.
Três seres e uma multidão de idiotas que sonharam um dia ser glória e só após o fim, um póstumo reconhecimento glorificou.
São três seres que se amam, ainda que de formas e sentidos diferentes. E estão ali, confinados ao interior de um pequeno automóvel, despejados da casa onde criaram raízes efémeras.
O cão, no banco traseiro, enrosca-se de maneira a aproveitar todo o calor de si e a que se reflicta em si, como que armazenado em condutas à volta do corpo.
O homem e a mulher assumem o amor no pleno da desolação. Aquecem a alma. Não falam, porque já não há nada para dizer. Uma leve manta a cobrir os corpos que ainda projectam calor e desejos. E amam-se, sôfregos, esquecidos de onde estão. Estão neles e nada mais há para além deles no momento. Não fornicam, amam-se. Não é sexo, o que fazem, é amor. Não há quadros de erotismo a povoar a mente, nem fantasias da libido. Nem conforto nem irracionalidade. Não um acto gratuito a que nem a presença do cão obstasse a que atingissem os orgasmos sem um nexo de causa. Amor, amor doentio de si, inexplicável, como um só, enrolados da mesma forma que o cão e como ele sujeitos à rua por momentos de dias.
Antes que o sol viesse iluminar os rostos cansados do descanso nocturno, puseram-se ao caminho, sem rasto anunciado. Para que ninguém publicitasse a ousadia de terem afrontado a moral pública instituída.
No paredão onde elites endeusadas distraíam os corpos ou simplesmente exibiam estilos de andar e conversas triviais, de alta importância para a construção do mundo, dispunham os livros que foram a memória. Em lotes pelo preço achado em cálculos sem um critério preciso. Pelo volume. Pela apreciação subjectiva do valor intrínseco das palavras. Pelo autor.
Livros que contribuíram para ele, homem, construir a sua própria concepção do mundo e que agora pretendia que se transformassem em pão, como se já sem outro préstimo.
Se tinham que partir, que partissem, enquanto olhava atento o desfolhar interessado de um qualquer que parara atraído pela cor ou um titulo mais expansivo, gritante, a chamar.
O titulo ou o autor, apelativos, sob o sol de Julho ainda fresco pela manhã e o mar, de um azul nacarado em manchas estranhas pela sombra de barcos abandonados ou pelos os lhos raiados de sangue, sereno, num chap-chap continuado contra as pedras da muralha.
Cada livro que parte é um orgasmo sentido com a volúpia de sentir a evasão de mais um mito. e a cada mito que se esvai, o seu próprio ser se encolhe empedernido.
Está tudo aqui, justifica-se perante si, já não fazem falta e são apenas pão. O miolo, a essência que os enformava, engoli, misturei com os genes em rodopios sangrentos de lutas de uns com os outros, dada a diversidade de conceitos, de verdades afiançadas, comprovadas. A oratória, a escolástica, a demagogia, a farsa, o drama, a megalomania, a filosofia e as doutrinas de fariseus, judeus, islamitas, budistas e cristãos. Tudo aqui, o dedo acusador ou só indicador, na testa enrugada.
E ao fim do dia foi-se, ele a mulher e mais o cão, e nunca mais ninguém os viu
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
17:51
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
CIDADANIA,
cultura,
factos da minha vida,
familia,
homem,
HUMANIDADE,
memórias,
mulher coragem,
mulheres,
paixão,
Sociedade,
vida
23/05/2008
O ASTRÓLOGO
Na grande superfície comercial, num espaço nobre junto ao corredor central por onde toda a gente passa, já estava montada a banca, o cenário envolvente numa aura mística com a exposição dos livros e os cartazes que anunciavam a presença do Astrólogo.
Haveria a oferta da carta astral a quem comprasse um exemplar do livro ao que se seguiria uma breve interpretação das características de cada um.
Havia fila e impaciência pelo atraso. E eram, na sua maioria, mulheres, de meia idade e até jovens que admiravam o Astrólogo e as previsões que fazia sobre eventuais acontecimentos. à espera de respostas imediatas para agirem ou simplesmente aguardarem o ciclo propício.
A atmosfera de cheiros intrigantes numa simbiose de aromas díspares, entre perfumes e desinfectantes, o bacalhau os legumes, a livraria de olores distantes.
Chegou. A mala a tiracolo. A expressão a indiciar cansaço, as desculpas em trejeitos de lábios e sorrisos, o trânsito, a dificuldade em arrumar o carro.
-O António, não veio, ainda?
Digo que não. E ele, desinteressado, a dizer que vem. Que ficou de vir e mais a Manuela e que sem eles não podia chegar a todos.
O computador, a impressora, as canetas e papeis para preencher o nome e as datas correctas de nascimento, local e hora.. O ligar das máquinas, o filho confortando-se na cadeira, iniciando o programa e a mãe, uma simpatia de senhora a dar indicações. A sentar-se majestosa e radiante de orgulho.
-Vamos lá começar. Quem está primeiro?
Avança a primeira da fila que leva dois livros. Um é para ela outra para oferecer à mãe que é uma grande admiradora do Astrólogo.
E ele, de olhos brilhantes, explicando que oferece a Carta Astral e uma pequena interpretação da mesma. Mais explicito, só marcando uma consulta, onde a personalização da análise permitirá outra ilações.
Entretanto chegaram os colaboradores. São como as fadas que sugerem paliativos a inquietações e dramas. E colocam-se à disposição. Os gestos abarcando todo o Universo. As palavras quentes e indutoras. A descoberta. Olhos húmidos pela emoção de se expor, a pessoa, mulher frágil enrolada em dúvidas, em suspeitas, anseios ou traições pressentidas
E o comercial, atento, distribuindo os papelinhos e respondendo a perguntas, incutindo expectativas, saindo já do aspecto comercial e deixando-se penetrar do espírito Astral e da humanidade evidente que se evade dos olhos, das palavras, de gente que se preocupa consigo própria. A encontrar similitudes abrangentes, a trocar impressões depois das impressões. A acreditar, a fazer acreditar.
Oiço o Astrólogo dizer a uma jovem que tem o signo tal em tal o que indicia um diferendo com sua mãe. E ela a aquiescer, que sim e a questionar como resolver tal dilema.
E ele que precisa de um estudo mais profundo, que ela marque uma consulta.
Ouço o António, num outro recanto da estante repleta de livros, surdos mudos ás vozes excitadas, excitantes que falam da tragédia de amores possessivos, inconstantes e nem sempre devidamente correspondidos.
E ele a falar em Marte, Úrano, Plutão e em tons macios, adulantes, penetrante no âmago do ser que se contorce na busca de si e de uma palavra que a seduza.
A troca de olhares cúmplices entre todos os que compõem a imagem de pequenas tragédias, ou simples curiosidade de saber se é verdade o que já sentem de si próprios.
Explicar até quase a exaustão que a Astrologia não é um ler a sina. É antes uma análise da pessoa considerando as influências Astrais sobre o exacto momento e o lugar do seu nascimento e que a cada ciclo ou momento é susceptível de sofrer alterações, por efeito de fenómenos ocorridos em constelações de Planetas que nos condicionam e ou intuem no nosso crescimento.
Observar os efeitos psicológicos que o desfolhar da suposta personalidade têm sobre a pessoa submetida à análise do Astrólogo.
Anuir que a Astrologia sendo uma prática ancestral da procura do homem pelo seu destino e por se tentar explicar a si mesmo a razão de ser de uma forma e não de outra, constitui um elemento fundamental na área do conhecimento pessoal e das ciências da mente e como tal não pode simplesmente ser ignorada, ou ostracizada.
Haveria a oferta da carta astral a quem comprasse um exemplar do livro ao que se seguiria uma breve interpretação das características de cada um.
Havia fila e impaciência pelo atraso. E eram, na sua maioria, mulheres, de meia idade e até jovens que admiravam o Astrólogo e as previsões que fazia sobre eventuais acontecimentos. à espera de respostas imediatas para agirem ou simplesmente aguardarem o ciclo propício.
A atmosfera de cheiros intrigantes numa simbiose de aromas díspares, entre perfumes e desinfectantes, o bacalhau os legumes, a livraria de olores distantes.
Chegou. A mala a tiracolo. A expressão a indiciar cansaço, as desculpas em trejeitos de lábios e sorrisos, o trânsito, a dificuldade em arrumar o carro.
-O António, não veio, ainda?
Digo que não. E ele, desinteressado, a dizer que vem. Que ficou de vir e mais a Manuela e que sem eles não podia chegar a todos.
O computador, a impressora, as canetas e papeis para preencher o nome e as datas correctas de nascimento, local e hora.. O ligar das máquinas, o filho confortando-se na cadeira, iniciando o programa e a mãe, uma simpatia de senhora a dar indicações. A sentar-se majestosa e radiante de orgulho.
-Vamos lá começar. Quem está primeiro?
Avança a primeira da fila que leva dois livros. Um é para ela outra para oferecer à mãe que é uma grande admiradora do Astrólogo.
E ele, de olhos brilhantes, explicando que oferece a Carta Astral e uma pequena interpretação da mesma. Mais explicito, só marcando uma consulta, onde a personalização da análise permitirá outra ilações.
Entretanto chegaram os colaboradores. São como as fadas que sugerem paliativos a inquietações e dramas. E colocam-se à disposição. Os gestos abarcando todo o Universo. As palavras quentes e indutoras. A descoberta. Olhos húmidos pela emoção de se expor, a pessoa, mulher frágil enrolada em dúvidas, em suspeitas, anseios ou traições pressentidas
E o comercial, atento, distribuindo os papelinhos e respondendo a perguntas, incutindo expectativas, saindo já do aspecto comercial e deixando-se penetrar do espírito Astral e da humanidade evidente que se evade dos olhos, das palavras, de gente que se preocupa consigo própria. A encontrar similitudes abrangentes, a trocar impressões depois das impressões. A acreditar, a fazer acreditar.
Oiço o Astrólogo dizer a uma jovem que tem o signo tal em tal o que indicia um diferendo com sua mãe. E ela a aquiescer, que sim e a questionar como resolver tal dilema.
E ele que precisa de um estudo mais profundo, que ela marque uma consulta.
Ouço o António, num outro recanto da estante repleta de livros, surdos mudos ás vozes excitadas, excitantes que falam da tragédia de amores possessivos, inconstantes e nem sempre devidamente correspondidos.
E ele a falar em Marte, Úrano, Plutão e em tons macios, adulantes, penetrante no âmago do ser que se contorce na busca de si e de uma palavra que a seduza.
A troca de olhares cúmplices entre todos os que compõem a imagem de pequenas tragédias, ou simples curiosidade de saber se é verdade o que já sentem de si próprios.
Explicar até quase a exaustão que a Astrologia não é um ler a sina. É antes uma análise da pessoa considerando as influências Astrais sobre o exacto momento e o lugar do seu nascimento e que a cada ciclo ou momento é susceptível de sofrer alterações, por efeito de fenómenos ocorridos em constelações de Planetas que nos condicionam e ou intuem no nosso crescimento.
Observar os efeitos psicológicos que o desfolhar da suposta personalidade têm sobre a pessoa submetida à análise do Astrólogo.
Anuir que a Astrologia sendo uma prática ancestral da procura do homem pelo seu destino e por se tentar explicar a si mesmo a razão de ser de uma forma e não de outra, constitui um elemento fundamental na área do conhecimento pessoal e das ciências da mente e como tal não pode simplesmente ser ignorada, ou ostracizada.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
20:50
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
CIDADANIA,
EDUCAÇÃO,
familia,
felicidade,
homem,
mulheres,
paixão,
presente,
Sociedade,
vida
11/05/2008
MEMÓRIAS DA GUERRA - A EMBOSCADA
Na densa mata de aromas a avivar a memória, no limiar da infância, os homens acoitados de armas aperradas, tensos, olhos vivos no estreito carreiro eleito como objectivo da morte.
O silêncio, cortado de avisos da macacada inquieta por intrusão abusiva do seu espaço, sem permissão para ciciar o medo ou a revolta.
Imagino as pessoas que se põem ao caminho algures no interior da mata. Mulheres que vão labutar na bolanha, que levam crianças, algumas, de colo. Gente distraída, indefesa, gente que fala uma outra língua.
Os insectos colados no suor do corpo, num acto supremo de amor sádico, mas amor, porque se bastam em nós, em mim, se fertilizam e multiplicam.
Lembrar as emboscadas de outros caminhos, na vida já vivida e na que espera por viver, na solicitude de nos acharmos no direito de decidir o tempo do outro, ali, no silêncio da mata, floresta de árvores enormes, amantes taciturnas de ervas daninhas e bichos ainda não adulterados, ainda não manipulados.
Olho os rostos dos outros numa tentativa de ver o meu próprio rosto. De achar os contornos da razão que nos, me motiva ou que nos, me permite, não ser e sendo os criminosos que matam à distância e a coberto da cilada, surpresa, se bem que a mando, ainda que a mando, de quê? de quem? E como vou, vamos viver depois, após o descarregar das balas agigantadas pelo percutir do cão da arma feita monstro em mãos que se permitem não saber?
Tu, Transmontano, recto na apreciação dos usos e costumes e aberto à junção de novos conhecimentos, que respeitas a integridade e zeloso dos fracos.
Aquele, beirão, entre a alta, a baixa e o litoral. O olhar franco, o espírito fraterno, cioso de estender a mão a quem venha por bem.
Pássaros grandes, abutres, aguardam pacientes a orgia da carne esventrada por instantes e atirada em lascas à súcia dos milhafres expectantes.
Olho ainda o rosto do tripeiro, do minhoto. Gente esforçada e penitente, afiançada nos baptismos de Sés, ermidas e oradas.
Olho e não vejo como subsiste este estar aqui, estando noutro lugar. E volto a procurar, nos rostos inocentes que queremos ser, uma luz que me permite ver na escuridão.
O sol afecta os neurónios já empobrecidos por décadas de ostracismo cultural. Não fomos habituados a pensar. Na adversidade, lá estavam: Deus, Jesus, Maria e os Santos Apóstolos.
E agora que era preciso raciocinar, servimo-nos dos mesmos postulados. Que Deus nos salve, enquanto matamos o filho, o pai, a mãe, de adeptos de outro Deus e Santidades.
O rosto envergonhado do Algarvio, A tez morena do alto e do baixo Alentejano dum cabrão, e é o mesmo sentir de não sou eu, quem aqui está de olhos fitos numa imagem de terra no carreiro.
O capitão, da fina elite Lisboeta, despreocupado, sem galões, como um igual a tantos, a justificar que a cultura não é desculpa para não vencer, matando a estupidez que se quer impor à história. Olhando um por um a a cada instante.
E eu? A quem pertenço? De que região sou oriundo? De Portugal inteiro, ou cidadão do mundo?
Foi quando o tiroteio irrompeu com fragor de explosões de granadas de morteiro e os uivos sibilantes das balas tracejantes por entre as folhas verdes do sibilino e majestoso arvoredo.
Saltam macacos apavorados, guinchando em estrondos de ódio ou medo. Aves que piam, e são gritos aflitos de mães obrigadas a abandonar o ninho.
Como começou, parou, o tiroteio. Foram ver.
Uma criança, talvez de 2 ou 2 e meio, ilesa, chorava sobre o corpo crivado e o sangue de sua mãe.
O silêncio, cortado de avisos da macacada inquieta por intrusão abusiva do seu espaço, sem permissão para ciciar o medo ou a revolta.
Imagino as pessoas que se põem ao caminho algures no interior da mata. Mulheres que vão labutar na bolanha, que levam crianças, algumas, de colo. Gente distraída, indefesa, gente que fala uma outra língua.
Os insectos colados no suor do corpo, num acto supremo de amor sádico, mas amor, porque se bastam em nós, em mim, se fertilizam e multiplicam.
Lembrar as emboscadas de outros caminhos, na vida já vivida e na que espera por viver, na solicitude de nos acharmos no direito de decidir o tempo do outro, ali, no silêncio da mata, floresta de árvores enormes, amantes taciturnas de ervas daninhas e bichos ainda não adulterados, ainda não manipulados.
Olho os rostos dos outros numa tentativa de ver o meu próprio rosto. De achar os contornos da razão que nos, me motiva ou que nos, me permite, não ser e sendo os criminosos que matam à distância e a coberto da cilada, surpresa, se bem que a mando, ainda que a mando, de quê? de quem? E como vou, vamos viver depois, após o descarregar das balas agigantadas pelo percutir do cão da arma feita monstro em mãos que se permitem não saber?
Tu, Transmontano, recto na apreciação dos usos e costumes e aberto à junção de novos conhecimentos, que respeitas a integridade e zeloso dos fracos.
Aquele, beirão, entre a alta, a baixa e o litoral. O olhar franco, o espírito fraterno, cioso de estender a mão a quem venha por bem.
Pássaros grandes, abutres, aguardam pacientes a orgia da carne esventrada por instantes e atirada em lascas à súcia dos milhafres expectantes.
Olho ainda o rosto do tripeiro, do minhoto. Gente esforçada e penitente, afiançada nos baptismos de Sés, ermidas e oradas.
Olho e não vejo como subsiste este estar aqui, estando noutro lugar. E volto a procurar, nos rostos inocentes que queremos ser, uma luz que me permite ver na escuridão.
O sol afecta os neurónios já empobrecidos por décadas de ostracismo cultural. Não fomos habituados a pensar. Na adversidade, lá estavam: Deus, Jesus, Maria e os Santos Apóstolos.
E agora que era preciso raciocinar, servimo-nos dos mesmos postulados. Que Deus nos salve, enquanto matamos o filho, o pai, a mãe, de adeptos de outro Deus e Santidades.
O rosto envergonhado do Algarvio, A tez morena do alto e do baixo Alentejano dum cabrão, e é o mesmo sentir de não sou eu, quem aqui está de olhos fitos numa imagem de terra no carreiro.
O capitão, da fina elite Lisboeta, despreocupado, sem galões, como um igual a tantos, a justificar que a cultura não é desculpa para não vencer, matando a estupidez que se quer impor à história. Olhando um por um a a cada instante.
E eu? A quem pertenço? De que região sou oriundo? De Portugal inteiro, ou cidadão do mundo?
Foi quando o tiroteio irrompeu com fragor de explosões de granadas de morteiro e os uivos sibilantes das balas tracejantes por entre as folhas verdes do sibilino e majestoso arvoredo.
Saltam macacos apavorados, guinchando em estrondos de ódio ou medo. Aves que piam, e são gritos aflitos de mães obrigadas a abandonar o ninho.
Como começou, parou, o tiroteio. Foram ver.
Uma criança, talvez de 2 ou 2 e meio, ilesa, chorava sobre o corpo crivado e o sangue de sua mãe.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
00:48
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
criança,
cultura,
EDUCAÇÃO,
escola,
familia,
governo,
homem,
HUMANIDADE,
liberdade,
memórias,
mulher coragem,
mulheres,
POLITICA,
professores,
Sociedade,
vida
07/05/2008
DROGA-A RESSACA
Era um quadro considerado importante. Pode dizer-se , um alto quadro de empresa farmacêutica , com direito a assessores e outras mordomias instituídas .
Telefonou a antecipar um período de férias por quinze dias
O dia amanhecera fresco, com o sol de uma cor amarelada a despontar por sobre a falésia, enquanto em frente o mar de infinito, a cor verde adensada, espelhada numa larga extensão até que a linha de horizonte , como um traço fino de lápis afiado, se esbatia abruptamente no alcance da visão .
Dormitara na cadeira em frente da cama onde o corpo dela meio despido se espraiava em movimentos lentos , quase doces , por vezes convulsivos. E acordava, ele, em cada instante, sobressaltado , olhando de imediato o volume pequeno mas visível dos 2 panfletos de droga em cima do pequeno móvel das fotografias.
Será que vou ser capaz ? interrogou-se no silêncio do quarto amplo e meio na sombra dos cortinados corridos que escondiam a luz, prolongando a ideia de noite.
O corpo da mulher jovem e talvez bela um dia , ainda, que já fora . Parecia-lhe mais cheio. Que a carne ressequida voltava a ocupar, muito lentamente, os espaços escavados pela fome de anos. Um corpo de mulher na sua cama de desimpedido, livre de grilhetas legais .
Ele e ela como um só, o pensamento dele a vogar um sentido, enquanto o dela imerso em sonhos de afogada salva no ultimo instante, permanecia inacessível a qualquer apelo da razão
Pensava na essência do amor , O sentido presente da significação da palavra enquanto entidade que lhes proporcionava uma oportunidade de redenção. A cama dele, onde vivera noites fatídicas de orgasmos múltiplos com mulheres carenciadas de afectos, perfumadas de aromas exóticos e que ao acordar pela manhã se mostravam na verdade puras de odores imcompativeis com a sua genética do cheiro.
Não havia perfumes adulterados naquele corpo de mulher e no entanto, o ar do quarto estava purificado pela maresia que entrava na fresta da janela e os inundava num amplexo terno e sedutor.
Levantou a perna, ela, num gesto descuidado descobrindo a púbis luzidia, os pelos emaranhados mas soltos, leves, seco de pruridos ou corrimentos o sexo de crostas ainda agarradas no clitóris engelhado, como sem vida.
Levantou-se aturdido pela imagem dum ontem que procurava esquecer e com um sorriso. ainda tímido nos lábios carnudos, foi preparar o pequeno almoço.
Estava acordada, quando voltou de tabuleiro recheado, e o melhor dos sorrisos, a dizer a palavra bom dia.
Recomposta, esclarecida da nova situação, mastigando cada pedaço, rebuscando na memória escaldante, justificações quase pueris.
Os pais separados. A preocupação com a carreira de cada um. O irmão que era a glória da família. Namoricos desinteressantes de adolescente fugidia. Uma mudança de escola intempestiva.
-Seria melhor avisá-los que está bem?
-Não. Puseram-me fora, acreditaram nas palavras de psicólogos imbecis.Que eu havia de me cansar da rua. Quando o que eu precisava era que me amassem sem reservas. Que atendessem ao eclodir de mim como pessoa. Que se confiassem em mim.
Parou. Os olhos febris e suores pelo rosto. Os olhos castanhos, chocolate, a olhar os panfletos em cima da mesa dos retratos. o corpo a contorcer.se em espasmos incontroláveis.
-O que foi? Ele, com mel na voz, quase ciciando as palavras.
Os olhos dela nos panfletos, a levantar-se, encolhida, agarrada a si própria, os braços magros em volta do corpo, a chegar à mesa, a poisar a mão no objecto de toda a fixação, o sonho, a libertação afrodisiaca. Um gesto brusco e o ar desvairado na procura, de quê, ainda.
Os olhos dele em ela, como que guiando o sentido da vontade.
-Não!. O tratado! Quase um grito alucinado, a fugir do nada que não sendo é quase tudo.
Voltou, deixando os panfletos no local exacto onde estavam. Não já para a cama, mas deixando-se escorregar em tremuras, num canto do quarto, o mais escuro dos quatro, continuamente agarrada a olhar aquele homem que não a quisera ter como tantos outros e a perguntar-se porquê. Que fazia ela ali, a sofrer dores insuportáveis. Se bastava uma simples dose do produto. E outra. E outra até à finitude de toda a matéria que ainda era.
Foram oito dias das férias. Fechados os dois, no quarto amplo de cortinas corridas. O comer encomendado pela Net. a langerie umas roupas bonitas para que se gostasse, os sapatos.
Três dias a implorar, ela , em delirios lancinantes. Por mais de uma vez segurara os panfletos entre as mãos trémulas e por entre soluços os largara.
Ao oitavo dia, ele tinha adormecido, por um momento. Acordou ao bater de palmas repetidas. O primeiro olhar foi para a mesa dos retratos. O coração em estrondos de batuques frenéticos. Desapareceram.
Olhou em volta e na expressão de espanto dos seus olhos, a imagem raiada de luz, em catadupas de luz, como um sol dos principios do mundo, intenso, espalhando sonoridades na luz. como se um coro de meninos entoasse uma canção de amor
O vestido vermelho cingido no corpo renovado de carne. Os olhos com uma expressão tão viva de felicidade. Sobretudo os olhos. Castanhos chocolate.
O vermelho sangue do vestido. O cabelo brilhante caído a raiar os ombros a descoberto pela cava do vestido.
Olhou a mesa. os panfletos que haviam desparecido. E o riso dela, cristalino, aberto, confiante a levantar a moldura de criança em cima da mesa, deixando ver os pacotinhos. o papel branco sujo.
Levantou-se, os olhos toldados e abraçou aquele corpo bem cheiroso de aromas únicos, naturais, as mãos dele nas faces da menina bonita que ela se transformara, macias agora, os braços, os seios a voltarem a uma normalidade estranha ao corpo de antes.
Abraçou o corpo em êxtase.
-Minha menina! Minha menina! Como tu estás linda e vistosa.
Como eu amo o que tu és agora. Um amor diferente de todas as espécies de amor. Um amor da ideia que consubstancias na forma do teu ser absoluto.
Vou amar-te e mimar-te sem limites.
Telefonou a antecipar um período de férias por quinze dias
O dia amanhecera fresco, com o sol de uma cor amarelada a despontar por sobre a falésia, enquanto em frente o mar de infinito, a cor verde adensada, espelhada numa larga extensão até que a linha de horizonte , como um traço fino de lápis afiado, se esbatia abruptamente no alcance da visão .
Dormitara na cadeira em frente da cama onde o corpo dela meio despido se espraiava em movimentos lentos , quase doces , por vezes convulsivos. E acordava, ele, em cada instante, sobressaltado , olhando de imediato o volume pequeno mas visível dos 2 panfletos de droga em cima do pequeno móvel das fotografias.
Será que vou ser capaz ? interrogou-se no silêncio do quarto amplo e meio na sombra dos cortinados corridos que escondiam a luz, prolongando a ideia de noite.
O corpo da mulher jovem e talvez bela um dia , ainda, que já fora . Parecia-lhe mais cheio. Que a carne ressequida voltava a ocupar, muito lentamente, os espaços escavados pela fome de anos. Um corpo de mulher na sua cama de desimpedido, livre de grilhetas legais .
Ele e ela como um só, o pensamento dele a vogar um sentido, enquanto o dela imerso em sonhos de afogada salva no ultimo instante, permanecia inacessível a qualquer apelo da razão
Pensava na essência do amor , O sentido presente da significação da palavra enquanto entidade que lhes proporcionava uma oportunidade de redenção. A cama dele, onde vivera noites fatídicas de orgasmos múltiplos com mulheres carenciadas de afectos, perfumadas de aromas exóticos e que ao acordar pela manhã se mostravam na verdade puras de odores imcompativeis com a sua genética do cheiro.
Não havia perfumes adulterados naquele corpo de mulher e no entanto, o ar do quarto estava purificado pela maresia que entrava na fresta da janela e os inundava num amplexo terno e sedutor.
Levantou a perna, ela, num gesto descuidado descobrindo a púbis luzidia, os pelos emaranhados mas soltos, leves, seco de pruridos ou corrimentos o sexo de crostas ainda agarradas no clitóris engelhado, como sem vida.
Levantou-se aturdido pela imagem dum ontem que procurava esquecer e com um sorriso. ainda tímido nos lábios carnudos, foi preparar o pequeno almoço.
Estava acordada, quando voltou de tabuleiro recheado, e o melhor dos sorrisos, a dizer a palavra bom dia.
Recomposta, esclarecida da nova situação, mastigando cada pedaço, rebuscando na memória escaldante, justificações quase pueris.
Os pais separados. A preocupação com a carreira de cada um. O irmão que era a glória da família. Namoricos desinteressantes de adolescente fugidia. Uma mudança de escola intempestiva.
-Seria melhor avisá-los que está bem?
-Não. Puseram-me fora, acreditaram nas palavras de psicólogos imbecis.Que eu havia de me cansar da rua. Quando o que eu precisava era que me amassem sem reservas. Que atendessem ao eclodir de mim como pessoa. Que se confiassem em mim.
Parou. Os olhos febris e suores pelo rosto. Os olhos castanhos, chocolate, a olhar os panfletos em cima da mesa dos retratos. o corpo a contorcer.se em espasmos incontroláveis.
-O que foi? Ele, com mel na voz, quase ciciando as palavras.
Os olhos dela nos panfletos, a levantar-se, encolhida, agarrada a si própria, os braços magros em volta do corpo, a chegar à mesa, a poisar a mão no objecto de toda a fixação, o sonho, a libertação afrodisiaca. Um gesto brusco e o ar desvairado na procura, de quê, ainda.
Os olhos dele em ela, como que guiando o sentido da vontade.
-Não!. O tratado! Quase um grito alucinado, a fugir do nada que não sendo é quase tudo.
Voltou, deixando os panfletos no local exacto onde estavam. Não já para a cama, mas deixando-se escorregar em tremuras, num canto do quarto, o mais escuro dos quatro, continuamente agarrada a olhar aquele homem que não a quisera ter como tantos outros e a perguntar-se porquê. Que fazia ela ali, a sofrer dores insuportáveis. Se bastava uma simples dose do produto. E outra. E outra até à finitude de toda a matéria que ainda era.
Foram oito dias das férias. Fechados os dois, no quarto amplo de cortinas corridas. O comer encomendado pela Net. a langerie umas roupas bonitas para que se gostasse, os sapatos.
Três dias a implorar, ela , em delirios lancinantes. Por mais de uma vez segurara os panfletos entre as mãos trémulas e por entre soluços os largara.
Ao oitavo dia, ele tinha adormecido, por um momento. Acordou ao bater de palmas repetidas. O primeiro olhar foi para a mesa dos retratos. O coração em estrondos de batuques frenéticos. Desapareceram.
Olhou em volta e na expressão de espanto dos seus olhos, a imagem raiada de luz, em catadupas de luz, como um sol dos principios do mundo, intenso, espalhando sonoridades na luz. como se um coro de meninos entoasse uma canção de amor
O vestido vermelho cingido no corpo renovado de carne. Os olhos com uma expressão tão viva de felicidade. Sobretudo os olhos. Castanhos chocolate.
O vermelho sangue do vestido. O cabelo brilhante caído a raiar os ombros a descoberto pela cava do vestido.
Olhou a mesa. os panfletos que haviam desparecido. E o riso dela, cristalino, aberto, confiante a levantar a moldura de criança em cima da mesa, deixando ver os pacotinhos. o papel branco sujo.
Levantou-se, os olhos toldados e abraçou aquele corpo bem cheiroso de aromas únicos, naturais, as mãos dele nas faces da menina bonita que ela se transformara, macias agora, os braços, os seios a voltarem a uma normalidade estranha ao corpo de antes.
Abraçou o corpo em êxtase.
-Minha menina! Minha menina! Como tu estás linda e vistosa.
Como eu amo o que tu és agora. Um amor diferente de todas as espécies de amor. Um amor da ideia que consubstancias na forma do teu ser absoluto.
Vou amar-te e mimar-te sem limites.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
23:39
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
CIDADANIA,
criança,
cultura,
EDUCAÇÃO,
escola,
familia,
felicidade,
homem,
Humanismo,
mulher coragem,
mulheres,
paixão,
primavera,
professores,
Sociedade,
vida
04/05/2008
AS DROGAS-O FIM DA TRAGÉDIA
Era de noite e vieste, silenciosa como um felino, de manso caminhar por entre escombros, ruínas, da velha cidade adormecida. Tu e eu, num recanto da rua mal iluminada.
Os teus olhos ainda grandes, mal me olham, assustados. A pele do rosto descuidada e manchada pelo cisco das poeiras adejantes . Magra, diria escanzelada, enferma de carinhos e de ambição.
O sistema traiu-te e tu trais o sistema. Pagar na mesma moeda. Dente por dente. Sem olhar atrás nem para a frente nebulosa do caminho. Para ti, chegaste ao termo da etapa que para outros ainda é tão curta
Amparas-te no meu braço enquanto caminhamos lado a lado como dois amantes estranhos que tivessem combinado encontrar-se a esta hora, no momento estremo em que deambulavas na ânsia de encontrar algo, alguém que te bastasse o consumo da tragédia que já és.
Congregas o absoluto da tragédia. É isso.
Deixo-te sentada no carro e volto à porta do bar. Não ao Bar. Apenas a porta, onde um tipo de assobio saltitante, a barba indigente, puxa fumaças agressivas de uma espécie de cigarro
Compro três tomas do produto que me indicaste e regresso ao carro em passos decididos. Tenho pressa.
Estás inclinada para a frente e uma humidade indecisa a bailar-te, escorrendo dos lábios entreabertos. Cai sobre o banco. Tremes alucinações. Balbucias palavras inteligíveis .
Arranco com o carro, tenho pressa, enquanto preparas o produto e o injectas numa das veias disponíveis, sob o meu olhar de soslaio.
Chegados, a casa não tem adornos nem vistas. É soturna, com livros e papeis espalhados sem critério. Ainda se o tivesse, se escolhesse o sitio onde o livro tal num determinado lugar do chão, ou o papel em relevo, atirado num momento de raiva ou de simples abstracção
Olho para ti, o teu corpo ainda de criança, mal cresceste, rodeado de feridas provocadas em improvisos da tragédia. A garro-me a esta palavra: TRAGÉDIA, ao seu significado linguístico quando incluída num contexto, a esmiuçá-la quanto à significação da palavra em si e o que representa para ti e para mim, necessariamente emoções contrárias e não porque sejas mulher e eu homem, mas por força de outras eminências do ser e do não ser neste momento.
Olhas para mim enquanto despes, peça a peça, com falsa volúpia nos meneios do corpo, tentando induzir-me em eróticos fluidos inexistentes . Os olhos mortiços, apagados, sem brilho, sem luz, mas olhos e com um certo tipo de visão. evasiva, turva
Atiras-me a cueca mal cheirosa. Mijo e esperma de momentos antigos.
No quarto de banho a água morna sobre o teu corpo. Deixas que as minhas mãos o percorram em movimentos lentos com a esponja embebida em gel e a espuma abundante a cobrir a pele, as chagas ainda não abertas. Os meus dedos penetram o canal anal em movimentos suaves retirando a merda acumulada. Há quantos dias, meses, anos. Desde quando. Dilatado o teu cu por enrabadelas consentidas em sôfregas investidas de gente tão sem ser como tu. O teu sexo original. Que te fizeram? Queimada com cigarro.? elástica pelo uso sem nexo e a violência da irracionalidade.
Os teus pés tão delicados, gretados e as pernas que foram belas e agora encanecidas de veias duras, chagadas . As mamas são dois balões que se foram esvaziando. Espremidas, a carne, as glândulas , a seiva.
Seco o teu corpo com a toalha grande de todos os banhos e estendo-te a camisa de dormir da última mulher que amei. Escovo o teu cabelo. Abraço-te para te sentir. Para que me sintas.
-Estou limpa, vá. podes-me foder .
Olho para ti de novo. estás limpa por fora. Quase linda. Se tu quisesses!!! Se tu quiseres!!!
Preparo uma refeição para nós dois. Bifes grelhados e batatas fritas. Faço sumo de laranja.
Sentados em frente, os meus olhos nos teus olhos até que me fixas e te deixas fixar.
Falas-me do desacerto da família. As carências de amor e de ódio. Apenas indiferença que dói , manipula a pessoa e a degrada. As noitadas sem registo, o desinteresse de tudo. A venda dos sentidos. Por momentos alucinantes de loucura. e as ressacas são uma outra espécie de prazeres ocultos que nos inibem de nós e nos transportam para o outro lado do ser, o não ser. Onde já ninguém se importa de nós, até que um dia, Bah . Apaga-se.
Perdeste os modos de comer. Tens fome e fastio. Sem pressa e enquanto experimento sondar o que resta do teu eu, da essência que resta, que a droga não extinguiu.
-Gostava que ficasses aqui.
-O quê? Viver contigo?
-Não. Ficares aqui, simplesmente e deixares que que te reaprenda e que tu própria reaprendas a pessoa que há em ti.
Choras. As lágrimas escorrem desabridas pelo teu rosto que vem ganhando alguma cor.
Abraço-te e levo-te para a cama. Vejo que ficas na expectativa do que vou fazer a seguir e ensaias as posições aprendidas na tragédia.
-Fazemos um tratado.
-O que é isso?
-Um acordo de princípios . Vou colocar as duas doses que restam ali, ante ti. Para que os teus olhos as vejam. Em cima da mesa das fotos de família . E tu vais resistir-lhes. Que dizes?
Viras-me o cu. E momentos depois, emocionada, a voz embargada numa aura de esperança, envolta em amor, sem palavras, o sentido diáfano do conceito.
-Porque esperas? Acaba com isto de vez. Faço tudo o que quiseres, Na cona , no cu, na boca. E deixa-me seguir o caminho. Podes ficar com a merda da droga. está pago.
Ela disse as palavras sem o olhar. a cabeça enterrada na almofada, a aspirar os aromas lavados há tanto esquecidos.
Levantou-a docemente da cama. Ele. O corpo dela a exalar os cheiros que cativam encantos.
-Esquece tudo. Apaga. Agora és uma outra pessoa, sem passado e de presente suspenso.
Estou aqui para te amar num pleno de intenções e conceitos da palavra. Não quero ter nada contigo do que dizes. Não quero foder . Quero-te num todo onde
tu também és querer. O que eu quero agora é amar-te por todos os que não te amaram.
-Ufa! Queimas-me . Onde é que eu assino.
Os teus olhos ainda grandes, mal me olham, assustados. A pele do rosto descuidada e manchada pelo cisco das poeiras adejantes . Magra, diria escanzelada, enferma de carinhos e de ambição.
O sistema traiu-te e tu trais o sistema. Pagar na mesma moeda. Dente por dente. Sem olhar atrás nem para a frente nebulosa do caminho. Para ti, chegaste ao termo da etapa que para outros ainda é tão curta
Amparas-te no meu braço enquanto caminhamos lado a lado como dois amantes estranhos que tivessem combinado encontrar-se a esta hora, no momento estremo em que deambulavas na ânsia de encontrar algo, alguém que te bastasse o consumo da tragédia que já és.
Congregas o absoluto da tragédia. É isso.
Deixo-te sentada no carro e volto à porta do bar. Não ao Bar. Apenas a porta, onde um tipo de assobio saltitante, a barba indigente, puxa fumaças agressivas de uma espécie de cigarro
Compro três tomas do produto que me indicaste e regresso ao carro em passos decididos. Tenho pressa.
Estás inclinada para a frente e uma humidade indecisa a bailar-te, escorrendo dos lábios entreabertos. Cai sobre o banco. Tremes alucinações. Balbucias palavras inteligíveis .
Arranco com o carro, tenho pressa, enquanto preparas o produto e o injectas numa das veias disponíveis, sob o meu olhar de soslaio.
Chegados, a casa não tem adornos nem vistas. É soturna, com livros e papeis espalhados sem critério. Ainda se o tivesse, se escolhesse o sitio onde o livro tal num determinado lugar do chão, ou o papel em relevo, atirado num momento de raiva ou de simples abstracção
Olho para ti, o teu corpo ainda de criança, mal cresceste, rodeado de feridas provocadas em improvisos da tragédia. A garro-me a esta palavra: TRAGÉDIA, ao seu significado linguístico quando incluída num contexto, a esmiuçá-la quanto à significação da palavra em si e o que representa para ti e para mim, necessariamente emoções contrárias e não porque sejas mulher e eu homem, mas por força de outras eminências do ser e do não ser neste momento.
Olhas para mim enquanto despes, peça a peça, com falsa volúpia nos meneios do corpo, tentando induzir-me em eróticos fluidos inexistentes . Os olhos mortiços, apagados, sem brilho, sem luz, mas olhos e com um certo tipo de visão. evasiva, turva
Atiras-me a cueca mal cheirosa. Mijo e esperma de momentos antigos.
No quarto de banho a água morna sobre o teu corpo. Deixas que as minhas mãos o percorram em movimentos lentos com a esponja embebida em gel e a espuma abundante a cobrir a pele, as chagas ainda não abertas. Os meus dedos penetram o canal anal em movimentos suaves retirando a merda acumulada. Há quantos dias, meses, anos. Desde quando. Dilatado o teu cu por enrabadelas consentidas em sôfregas investidas de gente tão sem ser como tu. O teu sexo original. Que te fizeram? Queimada com cigarro.? elástica pelo uso sem nexo e a violência da irracionalidade.
Os teus pés tão delicados, gretados e as pernas que foram belas e agora encanecidas de veias duras, chagadas . As mamas são dois balões que se foram esvaziando. Espremidas, a carne, as glândulas , a seiva.
Seco o teu corpo com a toalha grande de todos os banhos e estendo-te a camisa de dormir da última mulher que amei. Escovo o teu cabelo. Abraço-te para te sentir. Para que me sintas.
-Estou limpa, vá. podes-me foder .
Olho para ti de novo. estás limpa por fora. Quase linda. Se tu quisesses!!! Se tu quiseres!!!
Preparo uma refeição para nós dois. Bifes grelhados e batatas fritas. Faço sumo de laranja.
Sentados em frente, os meus olhos nos teus olhos até que me fixas e te deixas fixar.
Falas-me do desacerto da família. As carências de amor e de ódio. Apenas indiferença que dói , manipula a pessoa e a degrada. As noitadas sem registo, o desinteresse de tudo. A venda dos sentidos. Por momentos alucinantes de loucura. e as ressacas são uma outra espécie de prazeres ocultos que nos inibem de nós e nos transportam para o outro lado do ser, o não ser. Onde já ninguém se importa de nós, até que um dia, Bah . Apaga-se.
Perdeste os modos de comer. Tens fome e fastio. Sem pressa e enquanto experimento sondar o que resta do teu eu, da essência que resta, que a droga não extinguiu.
-Gostava que ficasses aqui.
-O quê? Viver contigo?
-Não. Ficares aqui, simplesmente e deixares que que te reaprenda e que tu própria reaprendas a pessoa que há em ti.
Choras. As lágrimas escorrem desabridas pelo teu rosto que vem ganhando alguma cor.
Abraço-te e levo-te para a cama. Vejo que ficas na expectativa do que vou fazer a seguir e ensaias as posições aprendidas na tragédia.
-Fazemos um tratado.
-O que é isso?
-Um acordo de princípios . Vou colocar as duas doses que restam ali, ante ti. Para que os teus olhos as vejam. Em cima da mesa das fotos de família . E tu vais resistir-lhes. Que dizes?
Viras-me o cu. E momentos depois, emocionada, a voz embargada numa aura de esperança, envolta em amor, sem palavras, o sentido diáfano do conceito.
-Porque esperas? Acaba com isto de vez. Faço tudo o que quiseres, Na cona , no cu, na boca. E deixa-me seguir o caminho. Podes ficar com a merda da droga. está pago.
Ela disse as palavras sem o olhar. a cabeça enterrada na almofada, a aspirar os aromas lavados há tanto esquecidos.
Levantou-a docemente da cama. Ele. O corpo dela a exalar os cheiros que cativam encantos.
-Esquece tudo. Apaga. Agora és uma outra pessoa, sem passado e de presente suspenso.
Estou aqui para te amar num pleno de intenções e conceitos da palavra. Não quero ter nada contigo do que dizes. Não quero foder . Quero-te num todo onde
tu também és querer. O que eu quero agora é amar-te por todos os que não te amaram.
-Ufa! Queimas-me . Onde é que eu assino.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
17:00
2 comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
CIDADANIA,
cultura,
desafios,
EDUCAÇÃO,
escola,
familia,
felicidade,
homem,
Humanismo,
liberdade,
mulher coragem,
mulheres,
paixão Sociedade,
vida
02/05/2008
ABJECCIONISMO
O abjeccionismo ainda incomoda muita gente. Talvez por ser oriundo dum pensador de origem Portuguesa e que nos deixou uma pergunta a que muitos tentam responder:
O Abjeccionismo basear-se-á na resposta de cada um à pergunta : Que pode fazer um homem desesperado, quando o ar é um vómito e nós seres abjectos? (De Pedro Oom)
Ora, sendo o ar que respiramos um vómito continuado, quase irrespirável, nas sua componentes de gases e palavras que procuram definir conceitos e intenções. Palavras que ofendem a razão pura e nos reduzem à qualidade de seres abjectos e desesperados por nos libertarmos das palavras que nos circundam, dos sistemas em que nos deixámos enrodilhar e de que não vislumbramos a alternativa porque nos fizeram esquecer o que somos, nos tiraram o significado do ser.
O que vos proponho é um desafio à vossa capacidade de pensar de e para vós, na resposta possível à pergunta que ficou no ar e à qual, eminentes criadores tentaram responder sem sucesso e por via disso condenados ao ostracismo implacável da mediocridade actuante que nos rege a matéria e o espírito.
O Abjeccionismo basear-se-á na resposta de cada um à pergunta : Que pode fazer um homem desesperado, quando o ar é um vómito e nós seres abjectos? (De Pedro Oom)
Ora, sendo o ar que respiramos um vómito continuado, quase irrespirável, nas sua componentes de gases e palavras que procuram definir conceitos e intenções. Palavras que ofendem a razão pura e nos reduzem à qualidade de seres abjectos e desesperados por nos libertarmos das palavras que nos circundam, dos sistemas em que nos deixámos enrodilhar e de que não vislumbramos a alternativa porque nos fizeram esquecer o que somos, nos tiraram o significado do ser.
O que vos proponho é um desafio à vossa capacidade de pensar de e para vós, na resposta possível à pergunta que ficou no ar e à qual, eminentes criadores tentaram responder sem sucesso e por via disso condenados ao ostracismo implacável da mediocridade actuante que nos rege a matéria e o espírito.
Publicada por
tem a palavra o povo
à(s)
11:16
Sem comentários:
Hiperligações para esta mensagem
| Reacções: |
Etiquetas:
amigos,
amizade,
amor,
CIDADANIA,
cultura,
desafios,
EDUCAÇÃO,
escola,
felicidade,
homem,
HUMANIDADE,
Humanismo,
paraiso,
pombas brancas,
presente,
professores,
Sociedade,
Utopia,
vida
Subscrever:
Mensagens (Atom)