02/10/2011

CANSADO DE VER... CEGUEI...



foto pública tirada da net

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CANSADO DE VER CEGUEI
*
cansado de ver naufragar
meu barquinho de papel
criei um outro de lata
mais forte na força do mar
feri dedos rasguei pele
em meu barquinho pirata
e fui na vida a sonhar
tracei rotas de sal e mel
subi a vida em cascata

cansado de ver morrer
em cada sonho sonhado
uma ideia a alvorar
criei um sonho p'ra ser
na alma inquietado
sem ter sempre que acordar
no mesmo amanhecer
onde a palavra coitado
não deixa a coragem medrar

cansado de ver certezas
pelo conhecimento anuladas
em sábios enfatuados
criei em mim as defesas
na consciência formadas
fiz da história meus cuidados
juntei as minhas fraquezas
de não saber desfraldadas
sem mitos premeditados

cansado de ver ignorância
em muito conceito endeusado
pais que maltratam filhos
mães submissas vitimas da jactância
criminosos soltos por juiz de estado
homem justo metido em sarilhos
criei com a natureza em consonância
um pacto do absurdo aprimorado
que solta os nós de todos os atilhos

cansado de ver sempre na guerra
motivo de força maior
da mais simples controvérsia
criei no cimo da serra
uma plataforma de amor
que arrasta sorrindo a fantasia
e toda a maldade que encerra
o mundo ao meu redor
náufrago dum mar de maresia

cansado de ver entender
por interesse da pasmaceira
a paz que adeja sobre os mortos
criei fogos para arder
a sombra que grassa rasteira
que oculta da alma os corpos
sujos podres do poder
em que a moralidade inteira
afunda os sonhos utópicos

cansado de ver ceguei
procuro algures a caverna
de Viriato ou d'álguém
onde os sonhos que criei
acordem na paz eterna
já órfãos de pai e de mãe
nem fujo nem seguirei
afronto a quem me governa
e de lá vos gritarei

não embarquem nesta aventura
o barco nem fundo tem
remar sempre também cansa
nem a ideia se apura
no lixo que fede de além
acordem na alma a esperança
abominem da usura
de que o pensamento é refém

não fujam confrontem o medo
unam as linhas globais
que indignam o conformismo
subam os rios em segredo
arrasem as mentiras fatais
clamem por um novo humanismo
que emerge do mar tecendo
regras novas de paridades iguais
transpondo o sórdido abismo

a fanfarra toca o hino à alegria
cego é o que ver não quer
nesta encenação de evidência mímica
num tropel de vampiros à revelia
que nos corta a vontade de vencer
um sinal da força anímica
como o verso no poema gera a poesia
num sorriso de criança a correr
sobre a lixeira de natureza atípica

cansado de ter de inventar
mais robusto de ousar em mar agitado
meu barquinho frágil de papel
criei na vastidão da alma o cogitar
que irrompe do silêncio amordaçado
antes que o mundo expluda ou o sangue gele
na voraz tentativa de matar
a coragem do homem acossado
que responde com a fúria que há nele

autor: jrg


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